1 de fevereiro de 2019

Capítulo 19

Meira

SOMENTE QUANDO DEIXAMOS Juli o peso dos acontecimentos recai sobre mim.
O grupo de Ceridwen escondeu os cavalos em um celeiro abandonado ao sul da cidade. Agora há cinco montarias sem cavaleiros, o que fornece transporte para o Degelo e eu, que nos dividimos em duplas para montar, pois não temos nossos cavalos. Mather sobe na sela atrás de mim e se ajusta, mantendo os braços frouxos em volta da minha cintura. Ninguém menciona como os antigos montadores daqueles cavalos foram deixados para trás, seus corpos agora à disposição de Angra.
Mas vejo Ceridwen encarar os cavalos conforme seguimos, seus olhos brilham com lágrimas às sombras. Tão deprimentes quanto um cortejo fúnebre, seguimos para o leste, para o único reino Estação que Angra ainda não teve chance de se infiltrar: Outono.
Angra contava que estivéssemos em Juli. Se armou uma armadilha para nós por lá, será que sabia que tentaríamos ir para Outono também?
Engulo a pergunta. Não importa. Farei o que precisa ser feito. Encontrarei uma forma de conseguir aquelas chaves sem precisar matar Theron.


Na tarde seguinte, o sol projeta luz sobre um longo trecho no horizonte — árvores. E não são as árvores mortas e retorcidas de Verão, essas são rechonchudas, explodindo com folhas vermelhas e amarelas. Sob elas há um gramado verde fresco e uma vegetação rasteira marrom e emaranhada — uma variedade tão acolhedora de cores que chego a chorar.
Quando nossos cavalos disparam para a floresta de Outono, o ar sopra sobre mim em um rompante de frio que, se comparado a Verão, é como se eu estivesse mergulhada em uma banheira de gelo.
Ceridwen para o cavalo subitamente em uma pequena clareira.
Indico a floresta com um aceno de cabeça.
— Deveríamos encontrar água — digo. — Reabastecer nossos suprimentos antes que...
Mas Ceridwen não está olhando para mim. Com a testa franzida, ela semicerra os olhos na direção de algo além de meu ombro e então tira uma adaga do cinto.
É toda a explicação de que precisamos — Mather saca uma espada, o Degelo se arma, Sir e Henn e os veranianos restantes de Ceridwen se viram nas selas, tentando encontrar a fonte do ataque.
Mas não é um ataque — ao menos não imediatamente.
Guio meu cavalo para que fique de frente para o que Ceridwen vê e Mather pressiona o corpo contra minhas costas, a espada em punho diante de mim em posição defensiva. Achei que toda minha adrenalina tinha sido sugada pelo calor de Verão, mas uma nova energia irrompe, meus músculos ficam tensos, prontos para a luta.
Um homem sai das árvores. É outoniano, seus olhos escuros estão arregalados contra o tom castanho da pele lisa, o cabelo negro como a noite está preso longe do rosto em um coque embaraçado. A armadura é de placas de couro pesadas, e as armas são a simples mistura de madeira e metal pela qual outono é tão conhecido — natureza em suas formas mais puras e mortais. Mais guerreiros o acompanham, materializando-se das árvores a nossa volta, alguns montados em cavalos, outros, como o homem, a pé.
Ele me olha e flexiona a mão contra o cabo da lança.
— Rainha Meira?
Mantenho o maxilar bem fechado. Meu cavalo bate o casco na grama devido à tensão. Se os outonianos estão do lado de Angra, qualquer coisa que eu disser pode ser relatada para ele.
Sir avança após meu silêncio.
— O que vocês querem?
— Uma escuridão recaiu sobre Primoria — diz o homem. — Meu rei quer saber se afetou a rainha inverniana.
A expressão de Sir não muda, mas sinto meu rosto estampar confusão.
— Seu rei? — insiste Sir, como eu teria feito.
Encaro a lateral da cabeça dele. Sir, agindo como meu general. É assim que devemos ser, e parece familiar... mas desconfortável ainda assim.
O guerreiro assente.
— Caspar Abu Shazi Akbari.
Alívio permite que meus músculos relaxem e curvo o corpo na sela. Mather se move contra mim, e quando me viro em sua direção, ele me olha como se eu tivesse perdido o que me resta de juízo. Mas Sir também relaxa, me encara e acena com a cabeça.
— A Ruína de Angra não o tomou — explico a todos. — Se tivesse, ele não reconheceria Caspar como o rei. Ele diria Angra.
— Então por que estamos cercados por soldados armados? — pergunta Mather.
Eu me volto para o outoniano.
— Também estamos livres da Ruína. Angra também não é nosso rei.
O guerreiro recua, deixando a lança recair sobre o ombro ao erguer as mãos em rendição. Os demais embainham as armas.
— Precisávamos nos certificar de que vocês são de confiança. O rei Caspar nos incumbiu de vigiar a fronteira. Recebemos ordens de ficar de olho em você, já que tinha ido a Juli... tal viagem, tão perto de Angra... você poderia ter sido envenenada pela magia dele.
Isso me chama a atenção.
— Você sabia que estávamos vindo? Como?
O guerreiro sorri.
— Caspar recebeu notícias suas de centenas de refugiados.
— O quê? — pergunto. — Eles estão bem? Onde estão?
O guerreiro sorri de novo.
— Meu rei poderá responder a essas perguntas. Ele deseja falar com você imediatamente. — O homem faz uma reverência com a cabeça. — Venha, por favor, rainha Meira, eu a levarei até a corte de Outono.


Conforme seguimos para Outono, o guerreiro explica que os cordellianos posicionados em Oktuber se voltaram contra os Akbari assim que receberam a notícia da traição de Theron. A corte conseguiu escapar e reunir metade das forças na parte sul do reino, aninhada contra a encosta das montanhas Klaryn, o que estendeu nossa viagem em um dia e meio.
Quando finalmente guio o cavalo em torno do último choupo e sinto o cheiro da fumaça de uma fogueira de acampamento, suspiro aliviada. Alguns passos depois, um grupo de guerreiros outonianos está de pé em uma trilha estreita, com lanças nas mãos, espadas na cintura, armadura de couro cobrindo o torso e saias plissadas até os joelhos. Eles se viram, alertas.
— Mais refugiados? — grita um dos guerreiros montando guarda. Ele indica a direita. — Montaram um acampamento no...
Ele para, os olhos novamente recaindo sobre mim. Meu chakram, o medalhão.
O guerreiro enrijece o corpo.
— Rainha Meira.
Sorrio e minha última gota de preocupação desaparece.
Eles abriram o reino para nossos refugiados, que sem dúvida ainda entram aos poucos, como nós, criando um pequeno bolsão de pessoas que se opõem a Angra, escondido na floresta de Outono.
Mesmo o rosto estoico de Sir se enruga levemente, e eu o vejo me observando com um leve inclinar da boca. Nesse momento, quase consigo ver nosso passado no rosto dele — a última vez que estivemos em Outono foi anos atrás, quando sobrevivíamos daquela existência nômade para nos esconder de Angra. Agora estamos aqui, cavalgando para Outono conforme recebemos aliados.
Vidas inteiras mudaram no que pareceram ser segundos.
Inclino a cabeça para Sir e ele enrijece o corpo, avançando sem dizer uma palavra.
A totalidade do acampamento de Outono começa com algumas tendas laranja e marrom que se camuflam com os tons terra da floresta. Quanto mais cavalgamos, mais frequentes são as tendas, até que surgem quarteirões, ruas cuidadosamente organizadas, tendas aglomeradas em mercados, quartéis e casas estreitas. Vemos mais pessoas também, guerreiros, em grande parte, homens e mulheres afiando suas armas ou montando guarda ou comendo em mesinhas ao longo da estrada.
Reduzimos a velocidade até parar do lado de fora de uma grande tenda vermelho-rubi. Desço do cavalo, mantendo os olhos nos desenhos elaborados costurados no tecido, folhas caindo de árvores e fogueiras crepitando.
Conforme o guerreiro que nos trouxe até aqui se aproxima da tenda, ruídos disparam para fora.
— Shazi, espere...
Algo se quebra, ouço o grito de uma criança.
Eu rio. Pelo menos essa guerra não acabou com a alegria da princesa outoniana.
A aba da tenda se abre, puxada por mãozinhas.
— MEI-LA! — grita Shazi, e não sei se ela está feliz ou sentindo dor. Shazi se atira até mim e abraça minha cintura. Só consigo segurá-la e gargalhar de novo.
Nikoletta dispara para fora da tenda como se preparada para correr atrás da filha pelo que poderia ser a décima vez naquele dia. Assim que ela me vê, os olhos castanhos se iluminam, então desviam para Mather, Ceridwen, Sir e o grupo arrasado atrás de nós.
Shazi recua.
— Mama! Mei-la!
Nikoletta cambaleia para frente. Ela não diz nada a princípio. Simplesmente me abraça, me puxando contra o veludo roxo da roupa que exala o aroma aconchegante de madeira queimada.
— Ouvimos coisas terríveis — sussurra ela. — Meu irmão... e Theron... e disseram que você tinha ido a Juli...
A voz de Nikoletta se esvai e não consigo evitar pensar que ela me abraça agora porque precisa, não apenas porque está feliz por eu estar viva. Retribuo o abraço.
— Sinto muito — sussurro, e odeio quantas vezes precisei dizer isso.
Nikoletta se afasta. Lágrimas enchem os olhos dela, e conforme mais pessoas saem da tenda atrás dela, as feições da rainha se destacam. Cabelo dourado e pele pálida contra a escuridão de Outono, definindo-a ainda mais como cordelliana, como irmã de Noam, como a tia da mais recente marionete de Angra.
Nikoletta ergue Shazi, que segura o anel que pende da corrente em torno do pescoço.
— Folte, Mei-la! — comemora Shazi. — Folte!
Sorrio.
— Forte, Shazi.
Ela emite um gorgolejo do fundo da garganta e enterra o rosto no ombro de Nikoletta.
Caspar surge em meio aos cortesãos e para ao lado da mulher, seus olhos estão cheios de uma severidade que lança um tremor por meu corpo.
— Seu guerreiro disse que você não se aliou a Angra — começo, e sinto meu grupo se aproximar quando faço a única pergunta que está girando em minha mente desde que entramos em Outono. — Mas o que está planejando?
Caspar inclina a cabeça.
— Agora que você está aqui — diz o rei — planejamos derrotá-lo.


Verificar inimigos que possam se aproximar e erguer uma barreira se tornou instintivo agora, e depois de fazer uma varredura no perímetro do acampamento, consigo focar na reunião que me aguarda.
A sala principal da tenda é um grande retângulo, coberta de pedaços de tecido, pilhas de almofadas e tapetes empoeirados no chão. Incenso libera filetes de fumaça que espiralam para o teto.
O ar está frio e respirar é fácil.
Prendo o fôlego, me deliciando com o aroma. Temos aliados; estamos escondidos em um dos poucos reinos que Angra ainda não tomou por inteiro. Até sabemos onde estão as chaves, para o próximo passo nessa guerra.
Talvez fiquemos bem.
Mather e Hollis estão no canto; o restante do grupo deles foi mandado para ajudar os refugiados. Aparentemente, o Degelo se designou como uma espécie de minha guarda pessoal, fazendo turnos para me observar — e quando Mather sorri para mim de onde está falando com Hollis, percebo que tudo bem por mim.
Tanto Mather quanto Hollis se movem quando uma das abas da tenda farfalha e Sir entra. Mather imediatamente se vira na direção dele, e até ver a sua ansiedade não percebo que estou reagindo da mesma forma.
— Problema nenhum para chegar aqui — disse Sir. — Os refugiados se dividiram em três grupos. O mais afastado ainda não chegou, deve levar alguns dias.
Engulo em seco. A lembrança da dor de Ceridwen é vívida: o fato de que ela jamais teve a chance de consertar o relacionamento com Simon.
Deveríamos fazer o melhor para nos certificar de que isso não aconteça a nenhum de nós da próxima vez, penso.
Esfrego o peito, distraidamente, com os lábios contraídos.
— Podemos ir atrás deles — sugere Mather. — Acompanhá-los em segurança.
Sir concorda.
— Eu ia sugerir o mesmo. — A atenção dele se volta para mim, a hesitação está clara no rosto de Sir. — Se minha rainha desejar.
Quase rio. É assim que temos agido? Alguma vez já pareceu tão absurdo?
Sorrio para Sir. Um sorriso verdadeiro, normal, como a antiga eu.
— É claro. Quem deveria ir?
O rosto de Sir não revela nada do que ele possa estar pensando.
— Você e eu seremos necessários para quaisquer decisões que precisem ser tomadas. Eu estava pensando em enviar Henn, junto com...
— Nós poderíamos ir — sugere Hollis. — Alguns membros do Degelo, pelo menos... se for importante para nossa rainha, deveríamos estar envolvidos.
Sir reflete, então assente. Manchas rosa coram as bochechas de Mather, uma torrente de orgulho surge quando ele endireita os ombros.
— Eu os enviarei assim que terminarmos aqui — diz Mather.
Como se ouvissem a deixa, as abas da tenda se abrem de novo e Caspar e Nikoletta entram. Momentos depois, juntam-se a nós Ceridwen e Jesse, Dendera, Henn — representantes dos quatro reinos; líderes dos exércitos de dois. E meio. Isso se nossas poucas centenas de soldados invernianos, yakimianos e veranianos podem contar como um exército.
Caspar avalia as pessoas na sala, os olhos se movem de Mather para Sir, Dendera e Henn, como se ele pudesse ver cada uma das forças e fraquezas deles nas testas. Quando chega a mim, enrijeço a coluna para evitar me curvar.
— Qual foi a última notícia que teve das conquistas de Angra? — pergunta Caspar, indo direto ao ponto.
— Além de Primavera, ele agora tem Ventralli, Verão, Inverno e Cordell. — Separo as emoções das palavras, falando baixo e com seriedade. Porque sigo adiante... já passei tempo demais sem contar a todos a verdade por trás de nossa guerra.
Explico o que Angra é agora, um hospedeiro da magia do Condutor Real, assim como a Ruína, e como essa magia se espalhará de Angra e infectará qualquer vivalma em Primoria até que todos sejam escravos do próprio medo e dos desejos mais sombrios. Como eu também sou hospedeira da magia de Inverno; como Inverno e Cordell descobriram a entrada do abismo de magia.
Nikoletta parece chocada ao descobrir que realmente achamos a entrada, mas Caspar sequer se move, ou porque não se importa, ou porque já suspeitava. Conto a eles sobre as chaves de que precisamos para abri-lo, sobre o labirinto de três tarefas construído pelos Paislianos.
E então respiro fundo.
— Depois que eu atravessar o labirinto e chegar ao abismo de magia, posso derrotar Angra — digo. — Mas fazer isso não apenas livrará Angra da Ruína... livrará o mundo de toda magia.
Caspar, que é o primeiro a entender, pisca lentamente para mim.
— Precisamos destruir a magia como um todo? — pergunta ele. — Por quê? Não poderíamos simplesmente matar Angra?
Dou de ombros levemente.
— Eu seria a única pessoa que poderia se aproximar o suficiente para fazer isso, mas não seria garantia de que a morte dele acabaria com a Ruína, e quantas vidas serão perdidas na tentativa? Se acabarmos com a magia toda será definitivo. Isso acabará com o reinado dele.
— Como isso é definitivo? — pergunta Caspar. Ele não está na defensiva; seu tom é apenas de curiosidade, embora a expressão no rosto de Nikoletta seja mais parecida com horror.
— Eu... — começo a dizer, então percebo o quanto isso soará completamente insano. — Minha magia... me mostrou, de certa forma. O propósito da magia de condutor é proteger a terra, e busquei tal ajuda do meu. Perguntei como salvar a todos. Nem mesmo os paislianos conheciam outra forma, e é bom frisar que eles estão procurando maneiras de desfazer a magia há muito mais tempo do que nós.
— Então essas são nossas duas opções? — Agora quem fala é Nikoletta. — Ou lutamos com Angra como ele é e torcemos para derrotá-lo pela força bruta, ou ouvimos seu condutor que disse ser melhor destruir toda a magia?
Encolho o corpo e faço que sim. O clima geral na sala é de apreensão. A ideia de um mundo sem magia é algo que poucos consideraram, ainda mais a ideia de pedir ajuda a condutores. Há apenas três monarcas aqui além de mim — Ceridwen, o rei outoniano e Jesse. Ceridwen é do gênero errado para usar o condutor de Verão; o condutor de Jesse é inútil agora, depois que Raelyn o quebrou em Rintiero e Jesse, basicamente, permitiu; e em Outono se vive sem poder usar o condutor há gerações. Não seria uma diferença drástica para eles que o mundo fosse destituído de magia.
Além do mais, a essa altura todos já vivenciaram a extensão da ameaça de Angra — pedir ajuda à magia de condutor pode não ser algo tão inusitado assim.
Na verdade, Caspar quase parece que concordará comigo. Mas não é ele quem fala.
— Já vimos a magia fazer coisas muito mais misteriosas do que oferecer ajuda quando necessário — diz Sir. Ele cruza os braços e sua postura informa à sala que espera que as palavras sejam ouvidas. — Não parece que temos uma escolha muito difícil a fazer. Todos nos tornamos vítimas da destruição de Angra, os outonianos foram expulsos da própria cidade; os refugiados a nossa volta foram deslocados de seus lares; perderam-se amigos e famílias. Angra precisa ser impedido. Não importa a que custo.
Uma pausa, então murmúrios lentos de concordância preenchem a sala, vindo primeiro de Caspar, Ceridwen e Jesse.
Olho rapidamente para Sir, que retribui diretamente. Ele faz uma reverência com a cabeça. Meu coração se aperta, esmagado sob a devoção de Sir e as últimas palavras dele.
Não importa a que custo.
Não contei a eles o que exatamente preciso fazer para destruir a magia. E não contarei pelo tempo que puder evitar.
— Sabemos quem está com as chaves — digo, sem me ater ao problema. — Angra as entregou a Theron quando estávamos em Juli. O que representa inúmeros problemas, principalmente que ele queira que saibamos isso porque espera que tentemos pegá-las. Algo que realmente temos que fazer. Precisamos descobrir uma forma de chegar perto de Theron.
Quando termino, Caspar está com a mão no queixo, a boca contraída pensativamente.
— Tudo bem. Podemos trabalhar com isso.
— No que está pensando? — pergunto.
É Nikoletta quem responde.
— De acordo com nossos espiões, Angra dividiu os exércitos posicionados em Inverno, metade foi designada para fortificar Jannuari e metade para aumentar a proteção na mina Tadil. O que agora faz sentido. Ele está se certificando de que você não consiga acessar a entrada facilmente. O exército de Primavera está neste momento marchando na direção de Inverno; os Ventrallianos estão entrando em navios, e em todas as cartas que interceptamos em Verão houve menção aos exércitos deles se preparando para partir. Suspeitamos, então, que ele os esteja mandando para concentrar o poder em Inverno.
Minha boca se escancara. Quando Angra tomou Inverno da última vez, pelo menos deixou a terra vazia. Agora, no entanto, ele tem recursos infinitos, e sabe que a única forma de ser impedido de fazer o que deseja está sob meu reino.
É claro que a batalha final contra Angra aconteceria em Inverno.
— Então também voltamos nossa atenção para Inverno — digo. — Mas com certeza você não tem a intenção de atacá-lo, certo? Não diretamente?
Caspar me encara.
— Talvez não.
Nikoletta se vira para ele.
— Então devemos deixar Angra reunir toda a força dele?
Com a sobrancelha inclinada, Caspar sorri.
— Sim.
— O quê? — Franzo a testa para ele.
— Precisamos presumir que Angra antecipará o que quer que planejemos, mas se esperarmos que ele ganhe vantagem, podemos conseguir manipular o desfecho. Se revelarmos nossa posição depois que os exércitos de Angra estiverem unidos, ele saberá que estamos tentando atraí-lo sob nossos termos. É um risco, mas acredito que Angra virá atrás de nós pessoalmente e deixará Theron para lidar com você, achando que você usará a batalha para acobertar a tentativa de obter as chaves do labirinto. Será uma armadilha, mas ainda podemos controlar quando e como acontece.
Fico remoendo esse plano por tempo o bastante para que o silêncio na tenda me informe que todos fazem o mesmo. Então, quando falo, sei que estou jogando mais uma volta no redemoinho de preocupações deles.
— E se eu me apresentar como a líder do exército, Angra certamente virá atrás de nós pessoalmente.
Nikoletta franze a testa.
— Quem mandaríamos para recuperar as chaves?
— Se Angra estiver ocupado com a batalha, posso usar minha magia para transportar a mim e alguns invernianos para onde quer que Theron esteja, e de lá até a mina em questão de minutos. — Olho para Mather, que está no canto da tenda. — Mather e o general William me acompanharão, pegaremos as chaves com Theron e seguiremos imediatamente para a Tadil. Com um grupo menor, talvez consigamos pegar as chaves e sair antes que qualquer armadilha funcione.
— Onde acha que Theron está? — pergunta Mather, com o rosto inexpressivo.
Caspar responde.
— Nossos batedores irão localizá-lo. Mas suspeito...
— Jannuari — digo, como se estivesse distante, com a voz baixa. — Angra o colocará em Jannuari. Se Angra realmente quiser usar Theron contra mim, ele o colocará no único lugar que mais me transtornaria: o coração do meu reino.
Meus olhos permanecem em Mather. Essa não é uma missão qualquer. É tudo por que venho trabalhando desde o momento em que soube da guerra entre nossos reinos: a derrota de Angra.
Por um momento, Rares e Oana surgem em minha mente, e quase peço a Caspar que mande um batedor até Paisly. Mas até que alguém consiga viajar até lá e voltar, a guerra terá acabado há muito tempo, independentemente do desfecho.
Estremeço. Está tudo acontecendo tão rápido, e ao mesmo tempo tão devagar.
Eu me viro de volta para Caspar e Nikoletta antes de olhar para Ceridwen. O povo deles sofrerá mais durante isso, e embora eu não saiba quantos guerreiros de Outono estejam no acampamento, sei que não é nem de perto o suficiente para vencermos Angra de fato.
— Assim que a magia for destruída, Angra ficará impotente. — Eu os asseguro, incapaz de manter a súplica longe da voz. — Encontrarei as chaves e então chegarei ao abismo o mais rápido possível. Não precisarão atrasá-lo por muito tempo. Prometo que farei a batalha o mais breve possível. Com o mínimo de mortes possível.
A ideia me arrasa. Pessoas morrerão por aquilo. Por mim.
Caspar coloca a mão em meu ombro.
— Esta guerra pertence a todos nós. Estamos todos bem cientes do que acontecerá se não enfrentarmos Angra. Você carrega muito do peso.
Quase me dissolvo sob as palavras de conforto. Mas faço que sim, recuo e mexo na barra da camisa. Os fios estão totalmente grudados com poeira agora, e a distração me dá algo fácil em que pensar.
— Esperaremos que as forças de Angra se reúnam em Inverno — confirmo. — Enquanto isso, podemos pegar suprimentos emprestados?
— Ah! É claro. — Nikoletta gesticula para alguns criados na ponta da sala, e quando eles saem, os sigo. Acho que ninguém esperava que eu saísse da tenda, mas as ordens foram dadas, decisões tomadas, e não consigo permanecer ali, repassando notícias antigas ou destrinchando nossas estratégias.
— Vou com você até Inverno, idiota. Além de precisar me redimir, não vou deixar vocês três irem sozinhos.
Ceridwen me acompanha enquanto os criados seguem em ziguezague até a tenda do outro lado da clareira. Enquanto eles buscam suprimentos do lado de dentro, eu a encaro.
— Eu a levaria se pudesse, acredite em mim, mas para essa missão, preciso poder usar minha magia em todos. Além do mais, precisaremos de líderes como você na batalha.
— Não vou ficar aqui sentada enquanto você estiver fora derrotando Angra. Ele também tomou o meu reino.
A voz de Ceridwen falha. A dor dela é como uma onda quente e faiscante que palpita, emanando do corpo.
— Eu sei — digo. A questão agora não é conter minhas fragilidades, mas sim escolher o que me fortalecerá em vez do que me arruinará, e, nesse momento, preciso desesperadamente ser forte. — Por favor, não discuta. — Minha garganta se aperta. — Vá... fique com Jesse. Esta guerra ainda não parou de nos tirar as pessoas.
Ceridwen se aproxima mais de mim.
— Tire essa expressão do rosto agora mesmo.
Recuo.
— O quê?
— Essa que diz que você acredita que não sobreviverá. Porque se não espera sobreviver a esta guerra, realmente não sobreviverá. A morte dá um jeito de encontrar aqueles que a acolhem.
As palavras de Ceridwen pesam sobre o nó apertado em meu peito. Viro o rosto dela, estendendo a mão até a tenda.
— Os criados devem...
Ceridwen segura meu braço, me prendendo no lugar.
— Não estou dizendo que esse sentimento não é natural. Qualquer guerreiro se preocupa com isso o tempo todo. Mas não deixe que ele a consuma.
— Eu não deixo — disparo. — Você não faz ideia do que será preciso para acabar com isso. Eu faço. Sei exatamente o que precisa acontecer, então não me dê um sermão sobre como lidar. Estou fazendo o melhor que posso, Ceridwen. Mal consigo me manter sã.
A mão dela se afrouxa. Passo minha mão no rosto e quando olho de volta para Ceridwen, a raiva dela retornou, um lampejo de mágoa que me deixa ciente de como gritei com ela.
Fico inerte. As abas da tenda principal se abrem e de dentro saem Sir, Dendera... Mather.
Eu me curvo.
— Você já se preocupou se sobreviveria a batalhas antes.
Ceridwen faz que sim num gesto curto e breve.
— Já teve medo... — A pergunta fica presa em minha boca. — Já teve medo do que isso faria com as pessoas que ama? Já tentou, não sei... se distanciar, para que não doesse tanto?
Ceridwen não responde imediatamente, e quando olho para ela, seus lábios estão entreabertos.
— Fiquei boa demais em me distanciar — diz Ceridwen. — Em grande parte porque tinha medo. Mas passei a entender as coisas de forma diferente depois de tudo isso. E... — Os olhos dela se voltam para o acampamento ao nosso redor. — E essas barreiras que erguemos são tão ridículas. Não estamos ferindo ninguém a não ser nós mesmas. Todos os envolvidos nisso sabem que a qualquer momento Angra pode surgir e destruir tudo. Acha que as pessoas que amamos serão felizes se as afastarmos? Pela chama e pelo calor, não. Cada momento que temos é mais um momento que não pode ser tomado de nós.
Olho de novo para Mather — ele está falando com o Degelo do lado de fora da tenda principal, sem dúvida dizendo a alguns deles para irem com Henn acompanhar o último grupo de refugiados. Mather se volta para mim quando sente que estou olhando para ele, e mesmo de longe, o sorriso dele lança uma tempestade de formigamento pelo meu corpo.
Ceridwen segue meu olhar e olha de volta para mim com um sorriso de compreensão. Ele se suaviza até virar algo sério, um desejo distante vindo da própria experiência de vida.
— Você só vai se arrepender do tempo que levou para tomar a decisão — diz Ceridwen.
Isso me faz voltar um sorriso inquisidor para ela.
— Mas e você? Tomou uma decisão?
Porque da última vez que a vi, ela estava transtornada por ter terminado com Jesse. Só que os dois passaram algum tempo juntos no campo de refugiados — será que consertaram as coisas desde então?
Pelo sorriso lento e sobressaltado no rosto dela, sei a resposta.
Ceridwen ri consigo mesma, levando as palmas das mãos para os olhos subitamente em lágrimas.
— Não sei! Não sei. Só sei que eu... — Mais uma vez ela dá de ombros e ri. — Eu amo Jesse. E é isso.
— Ventralli e Verão. — Imito o sorriso dela. — Poderia funcionar.
Ceridwen revira os olhos.
— Acredite em mim, não foi assim que antevi nossos dois reinos. E agora nenhum de nós realmente tem mais um reino. Mas...
Meus olhos se arregalaram.
— Quer mesmo unir os reinos? Quer se casar com ele?
As bochechas de Ceridwen se tingem com manchas vermelhas, mas ignoro.
— Desculpe... é maravilhoso, Cerie. De verdade.
— Obrigada. — Ela se recompõe. — Fico feliz por minha vida amorosa fracassada poder ser útil para outras pessoas.
— Eu não diria que é fracassada. — Indico a tenda principal. — Jesse está aqui. Ele escolheu você. Isso com certeza vale a pena comemorar.
Ceridwen considera por um momento, antes de franzir o nariz e sorrir.
— Acho que eu deveria seguir meu próprio conselho, não é? Vale a pena comemorar.
Inclino a cabeça, meu sorriso malicioso retorna.
— Como assim?
Mas Ceridwen sacode a cabeça quando os criados retornam, os braços cheios de suprimentos.
— Por aqui, Vossa Alteza — dizem eles, seguindo para a tenda mais próxima.
Ceridwen dispara de volta na direção da estrutura principal. Sigo os criados, caminhando de costas, em parte vendo-a ir e em parte vendo Mather se mover na direção da ponta oeste do acampamento com o Degelo. Mather não repara que o encaro fixamente e que meus olhos percorrem seu corpo, memorizando as dezenas de detalhes nos quais venho reparando durante anos. A forma como os ombros dele se curvam quando está em uma discussão séria; como a ponte do nariz se enruga para a esquerda quando ele franze a testa; o tique nervoso que tem quando está pensando, um tremor no maxilar.
Só vai se arrepender do tempo que levou para tomar essa decisão.”
Logo antes de se virar para uma fileira de tendas, Mather olha para mim por cima do ombro.
Sorrio para ele.
Mather hesita. Algo brilha nos olhos dele, liberando ainda mais meus sentimentos, como se ele visse diferença na forma como sorrio para ele. Phil diz algo a Mather, e ele parece fazer um esforço físico para tirar o olhar de curiosidade de mim.
Estarei morta ao final dessa guerra, mas por enquanto, estou viva. E Mather também. E estamos aqui, em algum lugar seguro, pela primeira vez, e se vou me aventurar para dentro das montanhas Klaryn e voluntariamente me sacrificar por este mundo, farei isso sem arrependimentos. Saberei o que é amar, e amar completamente, sem relutância, remorso ou pensar demais.
Exatamente como fiz com minha magia de condutor — vou cultivar tudo que a vida tem a oferecer.

Um comentário:

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Boa leitura, E SEM SPOILER!