1 de fevereiro de 2019

Capítulo 18

Ceridwen

NAQUELA NOITE ELES assassinariam o rei de Primavera e acabariam com o reinado de terror movido pela magia dele.
Ceridwen sentiu a Ruína de Angra lancinando a mente dela assim que colocou os pés em Juli, mas agora, enquanto ele estava de pé na varanda, sua magia a apunhalava como gotas de chuva contra um chão seco.
Mas Ceridwen estava seca há anos — tinha aprendido a viver sem chuva.
Ela se manteve no mesmo lugar no piso principal, escondida junto à multidão silenciosa que aguardava. Ceridwen não podia negar a influência de Angra sobre Verão ao observar a classe alta, normalmente festeira, de pé em grupos solenes, sussurrando. A viagem por Juli parecera tão deslocada quanto aquela situação, as ruas silenciosas, até os bordéis sem vida. Tudo a respeito do reino dela estava errado, como uma fogueira na qual Angra jogara água — sem luz, sem paixão, sem vida.
Ceridwen sacudiu a cabeça e ergueu o olhar furioso para Angra. Os arqueiros acima dele estavam tão bem escondidos que a própria Ceridwen quase não conseguia vê-los — mas ela sabia que estavam ali, esperando pelo sinal.
Angra tagarelava, mas Ceridwen ainda não conseguia erguer a mão. Ele era um alvo bem fácil.
Ceridwen fechou o punho.
Sinal, desejou ela. Dê o sinal...
A garganta de Ceridwen quase se fechou, seus olhos ficaram vítreos com um rompante de tontura. Ceridwen cambaleou, tropeçando em uma criada que segurava uma bandeja de taças para a multidão que não bebera uma única gota de vinho a noite toda. Em outros tempos, ter a corte sóbria em um evento teria deixado Ceridwen feliz, mas agora ela se pegava desejando que todos estivessem se refestelando como de costume.
O criado saiu às pressas, a roupa ensopada com vinho derramado. O cheiro preencheu a mente de Ceridwen com imagens daquele mesmo salão, lembranças de festas nas quais o vinho fluía e os cortesãos riam e bebiam e sucumbiam à magia de Simon.
Ceridwen se endireitou, sentia-se tonta. Ela precisava sinalizar... alguma coisa. Que o banquete começasse, talvez — mas não, esse sempre fora o dever de Simon. Ele amava anunciar as atrações à multidão.
Ceridwen se moveu, virando-se para a tenda que Simon sempre erguia no meio do salão... Não estava lá.
Na varanda, Angra gesticulou para alguém atrás dele e Theron avançou.
Angra — mate-o. Concentre-se, Ceridwen!
Ela avançou aos tropeços, a mente anuviada, a multidão tão próxima que Ceridwen conseguia sentir cada batida do coração impulsionando-a, em uníssono naquela única e clara meta: matar Simon.
Um grito lutava para sair de dentro de Ceridwen. Ela planejava matar o irmão? Por que faria tal coisa?
Sua cabeça queimava por dentro, a magia formigava como dezenas de minúsculos dedos cheios de determinação. A magia de Simon jamais fora tão persistente — depois que Ceridwen a afastou de sua mente, ela pareceu retirar-se, emburrada, como se até mesmo a magia estivesse bêbada demais para insistir.
Mas a magia de Angra era determinada, pesada, quente. Formava um casulo ao redor de Ceridwen, esperando por uma pequena janela de fraqueza pela qual pudesse entrar. Sussurrava ao ouvido dela, palavras que pareciam mel: O que você quer, Cerie?
Ninguém jamais perguntara isso a ela antes.
Quer se juntar aos cortesãos? Você sempre quis ser como eles — tão facilmente capaz de esquecer as preocupações e se entregar a poderes mais fortes, poderes que sabem mais...
Ceridwen se virou, esbarrando em alguém — um dos yakimianos que tinha vindo com ela, o líder que Jesse teve de convencer. Ele estava com um dos soldados ao lado e os dois franziam a testa.
— Você não deu o sinal — grunhiu o líder.
Ceridwen oscilou na direção do homem.
— Sinal? — perguntou ela, com a voz baixa no silêncio do salão. Apenas uma voz ecoava, dando algum tipo de discurso. — Onde está Simon?
— Eu estava certo desde o início. — O yakimiano sacudiu a cabeça, retraindo os lábios ao exibir os dentes. — Você é fraca e eu deveria tê-la matado há muito tempo. Esta missão deveria ter sido minha. Esta vitória será de Yakim! Você não é digna de nos liderar! Jamais deveríamos ter confiado em você!
O colega dele desembainhou a espada.
— Você merece a morte!
Os dois saltaram para cima dela, suas armas de ferro cortante e seus punhos duros como pedra. Ceridwen desviou dos golpes apenas para ficar atordoada pelo choque.
Os yakimianos estão me atacando. Quem armou os escravos? Onde está Simon?
A multidão se dividiu, aterrorizada. As pessoas empurravam em todas as direções conforme disparavam para as saídas e os soldados entravam. A magia de Angra pareceu se dissipar da mente de Ceridwen em meio ao caos repentino.
Angra — ela não dera o sinal para atacar. Ele ainda estava vivo, esperando que alguém o matasse, assim como quando ela tentara matar Simon em Rintiero.
Mas dessa vez ninguém surgiria para corrigir os erros de Ceridwen.
Ela fracassara. De novo.
Ceridwen gritou, mas não por causa da ameaça dos yakimianos que atacavam.
Não havia perdão a receber. Simon estava morto.
Um pensamento a atingiu então. Alguma vaga imagem de uma época sem dor, uma das únicas lembranças felizes: Jesse, no campo de refugiados, falando sobre recomeços.
O ódio dos próprios yakimianos os impulsionava a atacar Ceridwen, a magia de Angra os cegava a qualquer ameaça além da princesa veraniana, então não recuaram quando soldados cordellianos invadiram o salão e lâminas lhes perfuraram a coluna. Ceridwen disparou contra o primeiro cordelliano, mas ele a jogou no chão. Ela então deslizou pelo chão e se chocou em uma mesa que fora virada pela multidão em fuga. O corpo de Ceridwen ricocheteou inerte.
Voltara para Juli para impedir Angra — e só conseguira abrir mais feridas.
Uma explosão de gelo resfriou o ar abafado do salão de festas. Ceridwen só conseguiu ter uma vaga ideia — Frio em Verão? Meira? — antes que mãos a puxassem de pé.
— Ceridwen... — começou Meira, que parou de falar ao perceber como Ceridwen só conseguia encarar o chão. Um dos invernianos que tinha vindo com ela do campo a segurou de pé, apoiando seu peso. — Tire-a daqui — disse Meira ao inverniano, e então seguiram mancando até a porta à medida que mais explosões de gelo lutavam contra o calor do salão.


— Você acha que ela foi afetada pela magia de Angra?
— Ela estaria... fazendo algo, então, não estaria?
— Está ferida? Eles a acertaram na cabeça?
Meira se ajoelhou diante de Ceridwen. O rosto dela estava cheio de poeira, seu suor transformava a areia e a sujeira daquela passagem secreta em uma pasta. Ceridwen não ficara nem um pouco surpresa quando o grupo encontrou aquele antigo túnel de esgoto ainda fechado com tábuas — funcionara como uma entrada fácil e oculta para o palácio, pela adega subterrânea.
Ceridwen olhou em volta, observando rapidamente quem estava ali e quem não estava. Meira, um novo grupo de invernianos, o general William e Henn; nenhum dos yakimianos; dois dos veranianos dela. Lekan era um deles, e Ceridwen fechou os olhos com força contra as lágrimas dolorosas de alívio por ele ter conseguido escapar.
Pela chama e pelo calor, o que teria feito se Lekan tivesse morrido por causa dela?
— Ceridwen — tentou Meira. — O que aconteceu?
Ela não parecia irritada.
Deveria.
Cinco mortes tinham acontecido por causa daquele plano fracassado. Alguns dos invernianos de Meira também estavam feridos — um tinha um corte profundo no braço; outro tinha um corte na testa; Henn fora atingido por uma espada nas costelas enquanto ajudava Ceridwen a mancar para fora do salão. Uma única lanterna projetava sombras nos rostos sujos de todos eles, cada um ouvindo com atenção em busca de qualquer som de alguém se aproximando.
E tudo porque Ceridwen tinha deixado que a culpa a cegasse.
Ela bateu a cabeça contra a parede, a pedra áspera quase perfurando seu crânio.
— Desculpe — sussurrou Ceridwen.
Meira desabou de joelhos.
— Tudo bem.
— Está mesmo? — disse um dos invernianos com a voz engasgada enquanto amarrava uma atadura naquele com o braço cortado.
— Phil. — O ferido brigou com ele, e Phil abaixou a cabeça, ainda de cara feia.
Meira manteve os olhos em Ceridwen, como se a missão não tivesse sido um desastre, como se não houvesse uma fileira de feridos em volta delas.
— O que aconteceu?
O simples fato de ouvir a pergunta fez as lágrimas nos olhos de Ceridwen transbordarem, e ela beliscou a pele acima do nariz, contraindo o rosto para segurar um grito.
— A magia de Angra — começou ela. — Me pegou...
— Como? — insistiu Meira.
Ceridwen deveria ter esperado que aquilo acontecesse. Devia ser honesta com todos eles. Por que ela, que deveria ter sido a mais capaz de resistir a magia, tinha caído totalmente. Culpa da própria fraqueza, ou da força de Angra?
— Tinha que ter sido Simon — choramingou Ceridwen — aqui, esta noite. E odeio pensar assim, mas preferia que ele estivesse vivo para que eu continuasse lutando com ele do que...
Ceridwen não conseguiu falar por causa do soluço que lhe travou a garganta. Quando a sensação passou, ela abaixou a mão e sua visão ficou embaçada.
— Não sei como seguir em frente — disse Ceridwen. — Não sei como perdoá-lo se ele não está aqui. Eu o odeio...
Meira apenas ficou ali sentada, ouvindo, enquanto todos esperavam. Inesperadamente o silêncio do grupo fez Ceridwen rir, na verdade gargalhar, insensivelmente em meio às lágrimas.
— E estraguei tudo — concluiu Ceridwen, com as mãos para cima, porque o que mais poderia dizer?
— Você não estragou tudo — disse Meira, mas foi tão vazio quanto o sorriso que ofereceu. — Angra deu a Theron algo que estou buscando... aquelas chaves. Se eu conseguir pegá-las, posso derrotar Angra, e sabemos quem as tem agora.
— Angra deu as chaves a Theron antes de nos revelarmos. — William se inclinou para a frente. — Era parte do plano dele. Certificar-se de que todos soubessem que estão em posse de Theron.
Todos ouviram as palavras que ele não disse. É mais uma armadilha.
A expressão de Meira permaneceu igual.
Ceridwen a encarou.
— Estaremos mais preparados. Da próxima vez eu não vou... ficar arruinada assim.
Meira sacudiu a cabeça.
— Deveríamos fazer o melhor para nos certificar de que isso não aconteça a nenhum de nós da próxima vez.


Já havia passado muito de meia-noite quando deixaram a passagem secreta. Ela os liberou das muralhas do palácio, em um beco mais parecido com uma lixeira. Pareceu apropriado para um grupo que saiu para a noite coberto de imundície, sangue e fracasso.
Juli tinha mudado. A tensão que mantivera a cidade silenciosa e quase vazia quando chegaram parecia ter se intensificado. Brigas nas tavernas; grupos rivais cambaleando pelas ruas; gritos cortando o ar de todas as direções, chamando por ajuda em um eco rebatido que tornava impossível rastreá-los. Mais no fim da rua, soldados patrulhavam, invadindo casas e exigindo que os moradores entregassem a rainha de inverno.
Ceridwen manteve a cabeça baixa, os músculos tensos, e liderou o grupo arruinado para fora de Juli. Poderiam ficar e tentar ajudar a quem precisasse, mas a Ruína de Angra sem dúvida traria mais dois problemas para cada um que resolvessem.
Ceridwen mordeu os lábios, inalou os cheiros da cidade uma última vez. Madeira impregnada de calor; suor acre; vinho pungente; a porosidade da areia a cada respiração.
Ela estava indo embora, mas voltaria. Consertaria Verão. E talvez assim descobrisse uma forma de consertar seu relacionamento com Simon também.

2 comentários:

  1. leituras a meia-noite9 de fevereiro de 2019 01:41

    oi? seu relacionamento com simon? ela sabe que ele ta morto, não sabe?

    ResponderExcluir
  2. Esse capítulo foi podre .
    Fico decepcionada por elas serem fracas , espero que a Meira seja menos sonsa do que nos últimos 2 livros atrás.

    ResponderExcluir

Para comentar, por favor utilize a opção Nome/URL e preencha seu nome/apelido/nick; o URL pode deixar em branco.

Boa leitura, E SEM SPOILER!