1 de fevereiro de 2019

Capítulo 17

Meira

DIVIDO MINHA CONCENTRAÇÃO entre preencher o Degelo com magia o suficiente para combater a náusea da viagem, nos colocar perto o bastante do Palácio Preben, mas não tão perto a ponto de chamar a atenção de Angra, e manter um escudo em minha mente para que ele não sinta minha aproximação. Mas talvez ele tenha envolvido a cidade inteira com algum tipo de barreira, esperando que eu a rompa — principalmente se já capturou Ceridwen e Sir. Ele saberia que eu viria atrás deles, e estaria me esperando.
Se isso for verdade, nenhuma preparação ajudará.
A quantidade de magia que preciso usar para fazer tudo suga minha energia antes de eu nos levar a Juli. Os afluentes que partem do rio Feni brilham ao sol poente, acrescentando luz ao infinito dourado e laranja das construções de arenito de Juli. Quando coloco a todos nós em um beco no círculo mais exterior de Juli, lanço mais uma onda de gelo para mim mesma — força e energia para me manter alerta em meio à exaustão que me faz querer desabar.
O Degelo cambaleia quando aterrissamos, todos eles boquiabertos de assombro e terror. Exceto por Mather e Phil, que abraçam a barriga e suspiram aliviados diante da ausência de vômito.
— E agora? — pergunta Mather, evitando que o Degelo se atenha a qualquer coisa que não seja a tarefa diante de nós: salvar nossos amigos. E tomar as chaves de Angra.
Sacudo a cabeça para mim mesma. Salvar a todos é minha prioridade — se conseguirmos pegar as chaves também, ótimo, mas não antes de todos estarem seguros.
Dou um passo à frente para olhar para fora do beco. Da última vez que estive em Juli, todas as ruas estavam em festa, havia vinho e música e muita gente dançando nas casas.
Agora a noite se aproxima, mas as ruas a nosso redor já estão quase vazias. Abandonadas, persianas batem nas janelas; chamas sem supervisão queimam nos poços que ladeiam a rua. Diante de nosso beco, um transeunte solitário se atira para dentro de uma pousada e bate a porta como se o mal pudesse segui-lo; o prédio ao lado estampa apenas os rostos de mulheres e homens pressionados contra as janelas, observando a rua com olhos que gritam medo. Eles se parecem muito com as pessoas que vi em Abril, há muito tempo — escondendo-se do mundo, esperando que o problema de consertá-lo recaia sobre os ombros de outra pessoa.
Se eu estivesse em dúvida a respeito do que Angra quer, a visão diante de mim agora confirmaria. Ele tomou a alegre, caótica e linda bagunça de Verão e deixou sua marca até torná-la parecida com a Abril controlada e temerosa dele.
Eu me volto para o Degelo, as mãos fechadas em punho ao lado do corpo.
— Precisamos chegar ao palácio onde Angra está. É a nossa melhor chance de encontrar Ceridwen ou qualquer um que esteja com ela. E talvez, se nos aproximarmos o bastante, eu possa usar minha magia para sentir a localização de Sir.
— Vamos simplesmente perambular por Juli? — Trace franze as sobrancelhas e mexe no cabelo branco embaraçado. — Não somos exatamente capazes de nos misturar.
Meu olhar recai sobre o chão enquanto penso e a resposta se apresenta.
A areia laranja de Verão gruda em tudo — às paredes dos prédios, às roupas dos viajantes. Ela cobriu tudo que tínhamos quando passamos por uma tempestade de areia em nossa primeira visita a Juli — talvez sirva de camuflagem agora.
Eu me abaixo e começo a esfregar os grãos nos braços, nas bochechas, nos cabelos, e o Degelo me imita. Logo, nossas feições invernianas estão cobertas, e rearranjando alguns dos tecidos e das echarpes, talvez consigamos passar despercebidos. As ruas vazias trabalham ainda mais a nosso favor — se nos curvarmos e corrermos de uma sombra a outra, poderemos conseguir, de fato.
Respiro fundo e levo todos pelas ruas quase desertas.
Mather desliza para meu lado, o restante formando uma fila atrás de nós.
— O que vamos fazer se já tiverem sido capturados? — sussurra ele na estranha quietude ao nosso redor. O vento sopra entre os prédios, fazendo com que Phil corra para mais perto de nós.
— Libertá-los — respondo, como se bastasse.
— Depois que Angra for derrotado isso vai acontecer — replica Mather. — Você sabe que William nos diria para terminar a guerra antes de salvá-lo.
Olho por cima do ombro, observando o Degelo.
— Não acho que ele... Ah, sério?
Mather se vira para ver o que chama minha atenção. Phil, Hollis, Feige, Kiefer e Eli se aglomeram atrás de nós, mas alguns passos atrás, Trace está de pé perto do prédio com as pessoas atrás das janelas. A porta da frente está aberta, uma garota se curva para fora, reconheço o tecido laranja pesado da saia dela. Aquele lugar é um dos bordéis de Verão.
Trace está recostado à moldura da porta, conversando com a garota como se não estivéssemos tentando nos infiltrar em uma cidade inimiga.
Em pânico, lanço um rompante de magia contra ele, protegendo-o ainda mais da Ruína de Angra. Mas tenho protegido todo o Degelo, não? Eu me concentro novamente em mantê-los seguros, apenas por precaução, lançando do meu peito um funil gelado de magia para dentro deles.
Trace não reage à magia e apenas se vira quando Mather grunhe:
— Trace!
Ele se sobressalta e olha para nós, desviando o olhar de Mather para mim. Trace engasga e percebe o que estamos pensando, então dá um aceno de desculpas para a garota e corre pela rua até nós.
— Eu não queria... ela era bonita, mas... imaginei que pudesse nos ajudar — diz Trace. — Contar onde está Angra, esse tipo de coisa.
Mather franze a testa.
— Ela contou?
— Parece que há uma reunião no palácio esta noite. — Trace sorri. — Algum tipo de anúncio, parece que Angra vem fazendo alguns. Na primeira vez apresentou ao povo veraniano a magia dele, por isso todo o... — Trace gesticula para a cidade desolada. — Na segunda noite, os conselheiros dele, ou quem quer que esteja no controle de Verão desde que o rei morreu, passou o controle do reino a Angra. Esta noite deve haver outro anúncio.
— Angra fez três reuniões diferentes desde que chegou? — Semicerro os olhos. — Parece um pouco... excessivo.
— Talvez. — Mather inclina a cabeça. — Ou talvez ele tenha levado esse tempo todo para garantir o poder...
— Então não é uma armadilha? — insisto. — Ele não está armando essas reuniões para nos atrair?
Mather sorri de uma forma que parece dolorosa.
— Isso está implícito. De alguma forma, tudo que ele faz provavelmente é com o intuito de destruir os inimigos.
Emito um grunhido, mas afasto a preocupação — sabemos que é uma armadilha. Sabíamos desde o início que toda essa missão seria perigosa. Nada mudou.
Mas parece que sempre que descubro uma informação que não parece mudar nada, o feito é exatamente o oposto.


O terreno do palácio ecoa o medo e a apreensão que sufocam a cidade. Criados correm para dentro e para fora dos portões, preparando-se para qualquer que seja a reunião que acontecerá nessa noite, um pânico facilmente contagioso, e nos escondemos em um toldo sombreado perto do estábulo. Ficamos bem próximos, o Degelo reunido ao meu redor, e busco minha magia, o frio constante me lembra que estou mantendo um escudo em torno de meus invernianos e de mim. Angra não conseguirá sentir nossa presença e a Ruína dele não será capaz de nos infectar.
Mas estamos aqui, no território, e agora precisarei arriscar usar mais magia.
O Degelo está calado quando fecho os olhos, com os braços cruzados em volta do peito. Permito que espirais de magia percorram o terreno e subam até o palácio, dividindo-se e espalhando-se como o gelo subindo uma janela. Eu deveria ser capaz de sentir Sir — o sangue inverniano dele está ligado à magia dentro de mim. Sir, por sua vez, deveria estar perto o bastante para sentir, da mesma forma com que impulsionei minha magia para dentro dos trabalhadores nas profundezas da mina Tadil enquanto estava no alto da mina.
— O que ela está fazendo? — sibila Phil.
— Procurando o pai de Mather, imagino — responde Trace, baixinho.
— Não sei quanto a vocês todos — começa Feige —, mas estou pronta para um inimigo que eu consiga ver. Chega disso...
Meus olhos estão fechados, mas imagino que ela gesticule para indicar o que estou fazendo. Alguns dos membros do Degelo se movem, as roupas farfalham, e isso é o bastante. Sentem-se desconfortáveis com uso de magia, como eu sabia que aconteceria, já que grande parte da experiência deles com magia foi o controle de Angra sobre Primavera. Os poucos meses em que estivemos em Inverno, comigo usando magia esporadicamente para ajudar as plantações, não fez nada para mudar a visão já temerosa que tinham dela.
Quase lhes digo para não se preocuparem. Que tudo acabará em breve.
Mather emite um chiado agudo entre os dentes para pedir silêncio e eu abaixo a cabeça sobre o peito.
Encontre-o, comando à magia. Até pensar nas palavras não percebo o quanto preciso desesperadamente que isso funcione. Porque se eu não conseguir sentir Sir aqui... talvez Angra já o tenha matado.
Um rompante afiado de conexão me faz enrijecer o corpo.
— O que foi? — Mather toca meu braço.
Meus olhos se abrem.
— Sir — digo, ofegante, e o alívio resfria meus braços e minhas pernas. Olho para Mather. — Sei onde ele está.
Disparo, levada apenas pela necessidade em meu coração. Minha magia não sente nada da Ruína em Sir — a força de vontade dele deve ser o bastante para resistir, pelo menos por enquanto.
É claro que é. É claro que ele resistiria a Angra.
Entramos de fininho no palácio pela entrada dos criados, mantendo as cabeças baixas, as feições tão ocultas pelas echarpes quanto possível. Por sorte, todo criado pelo qual passamos mantém os ombros curvados e olha para baixo enquanto corre para realizar as tarefas. Lidero o Degelo por corredores onde antigamente pendiam vibrantes flores cor-de-rosa e sedas trançadas — agora as paredes estão vazias e a escuridão é quase a única decoração. E, mais do que isso, há algo pesado nesses corredores, algo que se parece tanto com o palácio de Angra em Abril que meu coração galopa sem parar. Dor — é disso que meu corpo mais se lembra do lar de Angra. Uma dor lancinante e avassaladora.
Paro antes de dobrar cada esquina, olhando pelo outro lado para me certificar de que Angra não está à espera. Não consigo senti-lo em lugar nenhum por perto, o que significa que ou não está aqui — pouco provável — ou está se protegendo tanto quanto eu. Poderia estar a uma parede de nós, e eu não saberia.
Por fim, subo uma última escada e chego a uma varanda que dá para o salão de festas. Quatro andares de varandas de arenito em arco espiralam em torno do salão, o teto é uma grande extensão do céu noturno. Fogueiras ladeiam o salão, todas queimando baixo e projetando luz o suficiente apenas para delinear as pessoas lá embaixo.
A reunião é um contraste gritante à última comemoração que vi ali. Não há música, não há cor — as pessoas estão de pé em grupos fechados, falando em voz baixa, de vez em quando lançando olhares cautelosos para a varanda exatamente no meu lado oposto.
Estamos em uma das varandas do segundo andar, a passarela não apresenta outra vivalma. Mesmo assim, pressionamos os corpos contra a parede, nos escondendo nas sombras. Minha magia murmura, me impelindo adiante — Sir deve estar aqui.
Perco o fôlego. Armadilha, penso. É uma armadilha. Angra sabia que viríamos.
Mas então me viro.
Sir está agachado atrás do parapeito, o corpo pressionado contra uma pilastra. A atenção dele está fixa na varanda diretamente à frente. Sem dúvida Angra aparecerá ali e a tentativa de assassinato planejada por Ceridwen ocorrerá.
Ao ver Sir, imagens se desfazem em minha mente, penso nele morto nas mãos de Angra, em seu corpo destruído e sangrando em um campo de batalha. Mas ele está bem — está vivo.
Não tinha percebido o quanto eu estava apavorada até agora.
O Degelo para, escondido atrás de uma das pilastras maiores. Deslizo um passo adiante.
— Sir — sussurro.
Ele se sobressalta e se coloca de pé, o mais puro choque surge em seu rosto normalmente estoico, e então ele volta a se esconder atrás da pilastra ao lado.
Sir muda o foco para um movimento à minha esquerda.
Mather sai das sombras e tudo no comportamento de Sir se suaviza. Enquanto olhou para mim com choque, para Mather ele olha como se estivesse encarando a coisa mais preciosa do mundo.
Os braços dele perdem a força e caem, inertes.
— Você está bem — diz ele, sem emitir som.
Mather hesita, dá de ombros. Mas Sir não dá a ele a chance de responder — segue aos tropeços pelo espaço atrás de nossa pilastra e tudo que pensei que sabia a respeito de Sir se prova equivocado.
Ele abraça Mather pelo pescoço e o puxa para a frente, abaixando a cabeça para se aninhar contra o filho.
Mather fica imóvel.
Sir está abraçando o filho — desesperadamente, em súplica.
Mather fecha os olhos e se derrete, apertando os dedos às costas de Sir. Um soluço estremece o corpo de Mather, a tristeza liberada devido à morte recente da mãe, ao relacionamento conturbado com os pais, à forma como sei que sempre quis aquilo tanto quanto eu. E embora eu esteja infinitamente feliz por ele, um tremor agudo me tira o fôlego.
Eu encerrei meu relacionamento com Sir. Sou a rainha dele e isso é tudo que sempre serei.
Pigarreio.
— Onde está Ceridwen? — sussurro.
Sir se afasta de Mather. Quando me encara de novo, cada gota de suavidade se foi. Ele indica o andar abaixo.
Volto a pressionar o corpo contra a pilastra, mas me inclino para a frente para poder ver o andar. Meu estômago dói quando vejo Ceridwen, escondida em uma alcova ao lado de um poço de fogueira, os olhos se desviando de vez em quando para a varanda diante de nós no segundo andar.
— Temos arqueiros — sussurra Sir, indicando as varandas acima. — E espadachins. — Ele aponta para a própria arma, então para mais dois corpos escondidos no mesmo andar, em varandas mais próximas daquela que atrai toda a atenção. Um dos espadachins é Henn.
Paro. Eles não foram pegos. Ainda não foram consumidos pela Ruína.
Isso... pode realmente funcionar.
— O que podemos fazer? — pergunto, minha voz apenas um sussurro sob a música abaixo.
Mas Sir não consegue responder — assim que pergunto, uma porta se abre na varanda principal. Todos nos abaixamos, agachados atrás dos espessos parapeitos e das pilastras de arenito.
A multidão se vira na direção da porta aberta. Os sussurros baixos cessam, silêncio mortal faz as fogueiras baixas parecerem rugidos.
Das sombras da porta aberta, Angra surge.
Mather coloca a mão em meu joelho. Pego os dedos dele, apertando uma vez, mas o restante de meu corpo ficou dormente. Evito olhar para Ceridwen, sei da dor que deve arrasá-la. Angra está aqui, governando o reino dela com seu poder.
Verão é dele.
Luz de fogueira interrompe as sombras em torno dele, dançando contra a túnica preta e o cabelo pálido de Angra quando ele vai até o parapeito.
— Verão! — grita Angra. A multidão se aproxima dele, atraída como flores para o sol. — O mundo se transformou. Trago a cada reino uma chance de união, uma chance que Verão recebeu com muito acolhimento...
Ele continua, o discurso sobre união e paz e coisas que fazem meu estômago se incendiar, então ignoro as palavras e passo apenas a observá-lo. Ele tem as chaves? Elas são uma ameaça maior a ele do que o medalhão jamais foi, e Angra o mantinha em volta do pescoço. De maneira alguma deixaria que aquelas chaves fossem retiradas de junto a seu corpo. Então, como nos aproximarmos o suficiente sem sermos mortos? Talvez se os arqueiros de Ceridwen conseguissem um bom tiro, isso deixasse Angra desnorteado o bastante para que pudéssemos atacar. Mas... uma flecha seria mesmo capaz de matá-lo? Certamente a magia não o deixaria morrer tão facilmente. Mas poderia distraí-lo, com certeza.
— ... transformará nosso mundo em um estado de igualdade, onde preconceitos morrerão e uma nova vida florescerá. Além disso — Angra se inclina para frente — reinos Estação e Ritmo não mais darão ouvidos a opiniões preconceituosas e infantis. Somos todos iguais, e como tal, eu, um rei Estação, apresento Theron Haskar, um rei Ritmo, como prova de minha confiança e palavra.
Cada gota de sangue em meu corpo dispara para a cabeça, me envolvendo em uma névoa atordoante.
Eu sabia que ele estaria aqui, mas não tinha me permitido pensar demais a respeito, da mesma forma como evito olhar para Ceridwen. Não posso pensar em Theron agora.
Movimentos em dois pontos diferentes no salão atraem minha atenção.
Um vem de baixo, onde dois homens começam a caminhar nos fundos do salão. São yakimianos, portanto quase os ignoro por serem escravos — a questão é que estão armados e o caminhar deles tem um propósito tão repentino que se destaca na multidão silenciosa. Devagar a princípio, então os passos ganham força a cada avanço, e somente quando estão no meio do salão Sir, do outro lado de Mather, grunhe baixinho.
Aquilo não é parte do plano.
Outro movimento surge da porta atrás de Angra, a escuridão se desdobra em torno da figura de um homem. Ele não está ferido, não há um hematoma ou arranhão nem nada que indique que foi maltratado — o que é quase mais horrível. Está inteiro e ileso, vestindo uniforme militar cordelliano, parecendo tão normal que preciso pressionar as unhas contra as palmas das mãos e a dor me lembra de que aquilo é real, não um pesadelo.
A respiração de Mather está entrecortada, a mão dele em meu joelho aperta mais forte e me mantém no lugar.
Theron se aproxima do parapeito. Angra leva a mão a um bolso da túnica preta para retirar de dentro uma corrente da qual duas chaves pretas pendem.
Eu me inclino para a frente, me segurando na pedra.
— Estas chaves representam tanto nossos erros passados quanto nossa liberdade futura — continua Angra, estendendo os objetos.
Abaixo, os dois yakimianos chegam ao esconderijo de Ceridwen. Ela franze a testa para eles. Sinto tudo antes que de fato aconteça, uma sensação parecida com observar uma nuvem de tempestade avançando sobre as planícies.
Theron pega as chaves, abre a boca para dizer algo sem dúvida grandioso e ensaiado em resposta à demonstração de Angra.
Mas os homens yakimianos começam a gritar.
— Você não é digna de nos liderar! — grita um. — Jamais deveríamos ter confiado em você!
— Você merece a morte! — acrescenta o outro, e eles sacam as armas e avançam contra Ceridwen.
A multidão se dissolve em pânico, o silêncio é interrompido por gritos de horror. Todos disparam em direção às portas quando os soldados avançam dos corredores laterais — homens de Angra —, seus uniformes uma mistura de Cordell e Primavera, os rostos exibindo... espanto.
Lanço mais um rompante de proteção para meus invernianos, mantendo-os longe da Ruína de Angra, e me coloco de pé. Sem hesitar — o salão é a céu aberto, o que significa que a poeira cobre cada azulejo no chão, tornando mais fácil levantar as partículas e criar uma versão improvisada de uma tempestade de areia. O ar se enche de terra e nos cega, enquanto o caos da multidão se transforma em gritos aterrorizados e no clangor de armas.
Sir e Mather reagem sem precisar de instruções. Correm atrás de mim até a varanda. O Degelo segue logo atrás com as armas em punho. Quando a areia começa a baixar eu volto a erguê-la, mas outra força a puxa de mim. A perda inesperada de controle me faz cambalear contra o parapeito. A areia desce, controlada pela mão estendida de Angra.
Estou inclinada acima do salão, agora tão perto da varanda onde ele está que poderia estender a mão e tocá-lo. Henn está ao meu lado, depois de se juntar a nós quando passamos pelo seu esconderijo.
Angra sorri. Ao lado dele, Theron também, tão satisfeito quanto seu aliado, apesar de parecer mais aliviado do que propriamente feliz.
Eu me desencosto do parapeito e solto o chakram, mas as pilastras impossibilitam que eu o lance. Soldados surgem atrás de nós na varanda, o impacto de suas botas fazendo a passarela tremer, e o Degelo se vira para interceptá-los em meio a um coro de gritos e armas em combate. Lanço rompantes de força para o Degelo e dobro uma esquina para dar de cara com Angra. As chaves estão na mão dele.
Angra não se incomoda em sacar uma arma — uma sombra envolve o punho dele e seu sorriso se torna nauseante. Abaixo de nós, o caos ainda fervilha, mas a maior parte da multidão se foi e os únicos gritos vêm de apenas uma fonte, uma voz que me deixa alerta. Ceridwen.
Eu me viro para procurá-la, guiada pelo som da sua voz.
Distraída, distraída...
A palavra me consome quando pisco e Angra soca o ar, sua sombra acertando meu peito. Tropeço, ofegante, e me choco contra Sir e Henn, que correm para trás de mim.
Theron avança, segurando o braço de Angra.
— Ela pode estar aqui para se render!
Angra para e eu me coloco de pé, com o chakram ainda erguido.
— Veio se render, rainha de Inverno? — pergunta Angra, mas a voz dele diz que sabe que não. Outra sombra se acumula em torno do seu punho...
Antes que consiga golpear, Mather sobe no parapeito e salta para a varanda deles, caindo em cima de Angra, que por sua vez se choca em Theron. Os três caem no chão em uma colisão de estampidos e gritos.
Hesito, observando a confusão de corpos, em busca das chaves — será que se soltaram? Será que ainda estão com Theron? Por que Angra as deu a ele?
Eu sei a resposta.
Eu não teria problema algum em matar Angra para obtê-las, mas se tivesse que tirá-las de Theron... Angra está de pé agora, Mather entre ele e eu com uma adaga em punho. Angra não brinca comigo dessa vez. Ele puxa a mão para o peito, arrancando a adaga de Mather, que cambaleia para a frente com um grito de alarme. No mesmo instante Angra já está estendendo a mão de novo e atirando a adaga contra mim.
Theron se coloca de joelhos e estende os braços para Angra.
— Não... ela é minha! — grita ele, e desvia a mira de Angra, fazendo a adaga disparar para a direita e roçar contra o ombro de Mather antes de cair no salão abaixo.
Mather gira com a força da lâmina. Atrás de mim, Phil grita, e qualquer última gota de concentração que eu tinha finalmente se esvai quando vejo sangue jorrando do braço de Mather.
, imploro a mim mesma. Saia daqui, saia daqui...
Pânico me impulsiona de tal forma que nem preciso tocar os invernianos. Mather, Sir, Henn e o Degelo — seguro os corpos deles com as mesmas espirais serpenteantes que me permitiram encontrar Sir, e com um puxão que me rasga o estômago, uso a magia para nos tirar da varanda.

Um comentário:

  1. leituras a meianoite9 de fevereiro de 2019 01:23

    o theron agr esta me lemrando muito o Maeven...

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Boa leitura, E SEM SPOILER!