1 de fevereiro de 2019

Capítulo 16

Mather

MATHER ENTENDEU O plano de Meira antes mesmo que ela o dissesse. Só precisou que ela erguesse o rosto e Mather soube... eles iriam para Juli.
Precisavam fazer o possível para ajudar William e os demais, que estariam em um reino tomado pela Ruína de Angra, possivelmente ainda mais do que Ventralli àquela altura. O grupo de Ceridwen tinha mais de um dia de viagem à frente e poderia chegar a Juli na noite seguinte. Se tentassem enfrentar Angra poderiam acabar possuídos pela Ruína antes de sequer levantarem as espadas. Meira se virou para longe de Dendera, voltando os olhos para a espada à cintura de Conall.
Ela apontou para a arma.
— Preciso de armas — disse ela a Conall. — O suficiente para...
— Oito pessoas — interrompeu Mather. — O Degelo e eu iremos com você. — Ele assentiu para Phil. — Vá encontrá-los. Devem estar em algum lugar.
— Mostro a você! — ofereceu Nessa, e saiu correndo tão rápido que Phil acompanhou aos tropeços. Conall também se dispersou, entrando em uma tenda para começar a reunir armas.
Meira insistiu.
— Também precisaremos de suprimentos médicos, não posso curar não invernianos.
— Cavalos?
— Não, viajaremos como fizemos de Paisly.
Mather fez uma careta.
— Ótimo.
— Pare!
Os invernianos em torno deles observaram Dendera estender as mãos.
— O que está fazendo? — sibilou ela, com a voz baixa quando reparou no público. — Se deseja se juntar a eles...
A expressão de Meira ficou mais severa.
— Não me juntar a eles. Salvá-los.
Dendera ficou imóvel o tempo que levou para Meira dar-lhe as costas. Até que finalmente se moveu, os anos de treinamento como soldado levando-a a obedecer ordens mesmo que Mather tenha reparado no tom cinzento de terror que tomou a expressão dela. Ele sabia o que Dendera estava pensando, uma preocupação pulsando como uma cicatriz em sua mente — Henn. Ele está em perigo.
Mather trincou o maxilar. William. Ele também vai morrer.
Mather grunhiu consigo mesmo e saiu atrás de Meira.
Minutos depois, Hollis, Feige, Kiefer, Eli e até Jesse tinham se reunido no meio do que tinha se tornado a parte inverniana do campo. Havia pouco tempo para uma reunião enquanto uma pilha de suprimentos era depositada do lado de fora de uma tenda. Mather e o Degelo os selecionavam, preparando-se o melhor possível para a batalha. Meira amarrou a bainha de uma espada no cinto quando Dendera se juntou a eles com um homem que Mather não conhecia, um veraniano.
— Este é Kaleo Pikari, líder do campo. — Dendera o apresentou. A preocupação dela tinha sido substituída por determinação, algo que Dendera empunhava com a mesma firmeza com que Meira segurava a espada em seu cinto.
Meira assentiu. A postura dela, com a cabeça erguida, os ombros esticados, era a pura teimosia revoltada da infância que viveram. Era a garota que jamais cedia nas discussões com William. Era a fera que tanto amedrontara quanto hipnotizara Mather quando criança. Era tudo isso de uma só vez, destemida, forte e ousada.
Era uma rainha.
Mather sabia que estava boquiaberto e olhando fixamente. Mas pelo gelo, olhar para Meira era como olhar para um banco de neve sob o sol do meio-dia — ofuscava e hipnotizava.
— Não tenho a intenção de me intrometer e questionar sua autoridade — começou Meira para Kaleo, o olhar se suavizando. — Mas Ceridwen e o grupo dela não sabem o quão grave é a ameaça de Angra. Nenhum de vocês sabe, e é por isso que precisa confiar em mim, embora eu perceba que será um pedido e tanto: você precisa mover este campo.
Mather não deveria ter ficado surpreso. Se alguém que soubesse da localização do campo fosse possuído pela Ruína, não hesitaria em entregar essa informação a Angra.
Ainda mais surpreendentemente, Kaleo assentiu.
— Já estamos no processo de desmontagem. Estamos de mudança pelo mesmo motivo pelo qual suspeito que você esteja: se alguém em Verão que sabe nossa localização cair nas mãos de Angra... — A voz dele sumiu e Kaleo pigarreou. — Imaginamos que seria mais seguro nos mudarmos.
— Para onde? — Meira recolocou o coldre do chakram por cima de um colete de couro que tinha escolhido na pilha de suprimentos.
— Verão. — Kaleo deu um sorriso triste. — Há lugares tão estéreis por lá que nem mesmo Angra ousaria ir. Viver no deserto será desconfortável, mas não impossível, e com sorte Angra não pensará em procurar em um reino que ele já tomou.
Meira refletiu a respeito, mordendo o interior da bochecha.
Kaleo insistiu.
— Consideramos mudar para Yakim, por exemplo, mas não queríamos arriscar nos tornarmos prisioneiro de Giselle quando Angra cair.
— Angra não cairá tão facilmente — sussurrou ela. O rosto escuro de Kaleo ficou pálido o suficiente para que Mather reconhecesse o mesmo medo que Dendera tinha exibido: alguém com quem ele se importava estava no grupo de Ceridwen. — Meus soldados e eu ajudaremos Ceridwen em Juli. Seu campo deve ser realocado, mas acredito que qualquer lugar em Verão ainda estará perto demais do alcance de Angra. Qualquer lugar em que se esconder lá será conhecido por alguém em Juli, não?
— Que outro local você sugere? — A voz de Kaleo falhou.
Meira se virou para Dendera.
— Henn e Sir passaram por Outono no caminho até aqui?
Ela assentiu.
— Evitaram estradas principais, então não tinham muito a falar a respeito.
— Alguém recebeu notícias deles? Caspar se aliou a Angra?
Mather ouviu as palavras que ela não disse: Angra já matou Caspar?
Foi Kaleo quem respondeu.
— Mandamos batedores que nos disseram que Cordell se voltou contra Outono, mas a família real não foi encontrada. Então, embora a capital esteja sob controle de Angra, o restante do reino é incerto. Acha melhor irmos para Outono?
Meira inclinou a cabeça como se montasse um plano conforme falava.
— Um reino incerto é melhor do que um que Angra definitivamente tomou, e ninguém fora deste campo conhecerá os esconderijos de lá.
Mather esperava que Kaleo mostrasse resistência, mas ele obviamente tinha experiência em receber ordens de jovens e apaixonados membros da realeza. Mesmo assim, Kaleo sopesou as palavras de Meira antes de abrir a boca.
— Podemos dividir o campo em pequenos grupos, capazes de viajar mais rapidamente, e tomar rotas diferentes por Verão para tornar a jornada imprevisível. — Ele coçou o queixo, pensando. — Seguiremos para as encostas, o máximo possível para o interior das montanhas Klaryn.
— Quantos soldados têm aqui?
Kaleo suspirou e então revirou os olhos.
— Aparentemente, Ceridwen teve uma conversa com a rainha yakimiana. Giselle andou escondendo soldados entre as pessoas que vendeu a Verão. Parece que planejava tomar controle de nosso reino, até que Angra chegou antes. Ela se enche de nojo com a ideia de uma magia que infecta as mentes das pessoas, então Yakim não é aliado de Angra. — Kaleo indicou o campo. — Há trezentos soldados yakimianos à sua disposição, por oferta dela. São seus na batalha para derrotar Angra.
As sobrancelhas de Meira se ergueram.
— Você está brincando.
— Infelizmente, não. — Kaleo grunhiu. — E além deles, pouco mais de cem soldados veranianos que ficaram para trás. Ceridwen só levou uma dúzia com ela. Como dividiremos o campo em grupos menores, isso deve tornar a patrulha mais fácil.
— Tudo bem. Dendera, Nessa, Conall? — Meira se virou para eles. — Vocês supervisionarão os invernianos?
Os três assentiram e imediatamente se afastaram para ajudar os invernianos ao redor.
— Reencontraremos vocês depois que sairmos de Juli — disse Meira a Kaleo.
Kaleo parecia prestes a protestar, talvez insistir por mais detalhes, mas os olhos dele se voltaram para o sol, reparando na hora. Ele pressionou os lábios.
— Traga-os de volta, rainha Meira. — Foi tudo o que Kaleo disse antes de sumir de volta para campo. Jesse foi atrás dele, o que deixou Mather, o Degelo e Meira de pé diante dos suprimentos inutilizados.
Meira encarou a pilha, percorrendo-a com os olhos. Mather deu um passo à frente, perto o bastante para pegar a mão de Meira e apertá-la num gesto protetor, reconfortante.
— Vamos entrar e sair tão rápido que Angra nem vai saber que alguém esteve em Juli — prometeu Mather a todos, mas mais para a garota de olhos azuis como gelo que se fixavam nele. — Isso pode ser bom, na verdade. Angra estará lá. Ele terá as chaves.
Meira se contorceu sob o toque de Mather, como se tivesse se esquecido do plano maior — pegar as chaves, ir até o abismo, destruir toda a magia e Angra com ela.
— Sim. Mas... vamos apenas nos certificar de que todos estejam vivos. Isso é tudo o que importa.
Seriam lágrimas brilhando nos cílios dela?
Meira desvencilhou a mão. Mather piscou, confuso, quando ela se virou para Nessa, a qual ajudava uma família inverniana a empacotar os suprimentos. Meira olhou por cima do ombro e os olhos dela reencontraram os de Mather. O olhar que tomou conta da expressão em seu rosto — Mather conhecia aquele olhar como um soco no estômago.
Arrependimento.
Havia algo que Meira não estava contando. Algo que fez o corpo dela murchar quando se virou para falar com Nessa.
Phil passou para o lado dele e moveu a mochila, aquela que fez o estômago de Mather se apertar ainda mais. Dentro dela estava o condutor de Cordell e Mather ainda não tinha decidido o que fazer com ele. Ficar com ele? Jogá-lo fora? Esquecer de sua existência? Não que isso fizesse muito para ajudá-los. Na verdade, Mather queria destruir a maldita coisa e junto com ela a arrogância de Theron.
“Sempre que o vir, quero que pense nela comigo. Quero que saiba que quando eu vencer esta guerra, o farei sem esta magia fraca. Quando isso acabar, e Meira for minha, não haverá nada que pudesse ter feito para me impedir.”
O estômago de Mather se revirou. Será que Theron também estaria em Juli? Ele quase esperava que sim.
— Você está bem? — perguntou Phil.
Mather afastou a expressão petrificada fungando.
— Sim. — Ele olhou para Phil de novo, reparando nos círculos fundos sob os olhos do garoto. — E você?
Phil deu de ombros.
— Só não estou muito animado para ver Angra.
Uma pedra quase abriu um buraco no estômago de Mather.
— Ele não nos capturará de novo — prometeu Mather. — Eu juro. Também não seremos apenas nós dois desta vez, temos todo mundo agora.
O Degelo, cujos membros conversavam baixinho, se virou para os dois. Trace parecia prestes a perguntar o que tinha acontecido, Hollis e Feige permaneceram pacientes e calados, Kiefer cruzou os braços e estampou a expressão arrogante de sempre e Eli pareceu quase animado por partir.
— Então. — Foi Kiefer quem falou primeiro, com a voz afiada. — Somos um grupo de novo? Não vai mais nos deixar?
Mather franziu a testa.
— Sempre fomos um grupo. Sempre fomos o grupo dela.
Isso fez Kiefer piscar, como se jamais lhe tivesse ocorrido que o propósito deles era servir Meira tanto quanto servir Inverno.
— Mas ainda somos nós — acrescentou Phil. — Ainda somos nós, antes de tudo. O Degelo.
— E não seremos derrotados — disse Feige.
Mather sorriu ao ouvir o que se tornou o grito de guerra do grupo. Phil, que arrastava o pé no chão, abriu um sorriso que pareceu forçado demais quando sentiu o olhar de Mather sobre ele.
— Não seremos derrotados — repetiu Phil. — Eu sei, eu sei.
Meira aproximou-se de Mather, juntando-se ao círculo. A maior parte do grupo ficou desconfortável diante da presença dela e mudou de posição. A falta de familiaridade por estarem perto da rainha ainda os deixava inseguros. Mas havia determinação por trás do nervosismo, e mesmo Kiefer estava em estado de alerta.
Phil foi o único que não voltou a atenção para ela e, em vez disso, estudou a grama distraidamente. Mather o cutucou, franzindo as sobrancelhas em uma expressão de preocupação.
Phil balançou a cabeça. Positivamente. Forçou mais um sorriso.
A tortura de Angra ainda era recente demais. Mather quase disse a ele que ficasse, mas Phil não fez menção de deixar o grupo, e pareceu de fato ficar de pé com mais firmeza com os outros por perto. Precisava estar com o Degelo — mesmo que isso significasse enfrentar Angra de novo.
— Vou nos levar o mais perto possível de Juli — disse Meira. — Não quero arriscar me aproximar demais de Angra e ele sentir minha magia.
Hollis franziu a testa.
— Minha rainha?
Mather se intrometeu.
— Sobre a nossa viagem... não será exatamente uma viagem, mas uma...
Phil gemeu, jogando a cabeça para trás.
— Me matem. Alguém me mate agora.
— Reconfortante, Phil, obrigado — disse Mather.
Mas Phil apenas estendeu o resmungo.
— Vamos acabar logo com isso.
Algo na relutância dele fez os olhos de Meira se arregalarem, e ela ergueu o rosto para Mather antes de percorrer cada membro do Degelo com o mesmo olhar cauteloso.
— Eu queria ter tempo de explicar o que vou fazer — disse ela. — Sei que só estiveram perto da magia de Angra, em Primavera, nos campos de trabalhos forçados, e eu... Isso não é igual. Vai doer, mas prometo, não estou tentando mudar vocês, ou forçar nada, e eu...
— Está tudo bem, minha rainha — disse Hollis, e deu um sorriso. — Confiamos em você.
Meira assentiu, mas pareceu arrasada por ter de usar a magia. Ainda assim, estendeu as mãos, encorajando todos no grupo a formarem um círculo fechado. Phil foi o último a entrar, com a mão trêmula ao segurar a de Mather.
Talvez Meira possa dar força a ele, pensou Mather, mas antes que pudesse pedir, Meira apertou o toque. Mather cambaleou, incapaz de se preparar quando a magia de Meira os varreu como uma torrente de neve e adagas de gelo afiadas e dolorosas.

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