1 de fevereiro de 2019

Capítulo 15

Meira

NO DIA SEGUINTE há mais treino de luta, com Oana e Rares se revezando entre o ataque físico e o mental. Os rounds iniciais começam da mesma forma que o primeiro — são necessárias algumas repetições para que eu me abra completamente à magia. No fim do dia, as sessões de treino já começam comigo bloqueando Rares da minha mente enquanto contra-ataco a espada de Oana, e bastam apenas alguns breves minutos para terminar cada luta.
Tenho controle de minha magia. Pelo menos o início de um controle.
Assim que o pensamento me vem, percebo o que significa. Eu poderia permanecer em Paisly, protegida de Angra, e treinar até estar perfeita — ou poderia me agarrar aos primeiros indícios de que estou pronta e partir.
Parece que a decisão sempre esteve em meu coração. Sabia o que faria assim que cheguei.
Uma guerra me aguarda.


Ajoelhada, com as mãos na beirada do baú em meu quarto, encaro as roupas dentro dele. Sei que preciso de suprimentos — cobertores, roupas sobressalentes, comida — mas não consigo me mexer.
— O jantar está quase... — A voz de Rares é interrompida quando ele entra em meu quarto, mas sei que ele não consegue mais ler meus pensamentos. Talvez apenas sinta a mudança em mim, por ver a expressão em meu rosto.
— Sei o que vai dizer — sussurro na direção do baú. — Que algumas vitórias durante o treinamento não significam dizer que estou pronta. Mas... isso não é um treinamento normal. — Ergo o rosto para Rares. — Sei que mal comecei a entender tudo isso, mas obtive o que vim buscar e não tenho tempo de aperfeiçoar. Isso não é uma preparação para a guerra, porque a guerra já começou. Eu...
— Não vou impedi-la, coração. — Rares se inclina contra a moldura da porta, com os olhos tranquilos. — Por onde vai começar?
Fico de pé.
— Vou precisar de apoio. Mather disse que todos de Ventralli estavam planejando se reunir em um campo veraniano a leste da floresta ao sul de Eldridge. Estão tão isolados do mundo que a Ruína talvez não os tenha afetado ainda.
— E então?
— Vou usar esse apoio para me aproximar de Angra. Conseguirei as chaves que estão com ele. E...
Rares me observa e eu o observo de volta, mais uma vez chocada com o quanto ele é diferente de Sir. Não é possível ver uma única emoção no rosto de Sir — apenas a expressão estoica de um general, imóvel e sólido.
Parte de mim anseia pela inexpressividade dele, ao menos para evitar a pontada de pesar que sinto quando Rares funga e esfrega os olhos.
— Oana e eu faremos o que pudermos aqui. A Ordem já está em ação preparando nosso exército, nós nos juntaremos a você assim que pudermos. — Rares dá um passo adiante, com a boca aberta para dizer mais, mas o que quer que esteja prestes a dizer é esquecido quando ele repara em minhas mãos vazias. — Você vai precisar de suprimentos! Comida, no mínimo, e... ah, Oana é melhor nisso do que eu. Pegue o que quiser da cozinha. Reunirei quaisquer suprimentos que ela julgar necessários.
Rares sai apressado pela porta e não respiro até que se vá.
Ações são sempre muito mais fáceis do que palavras.


Pego uma boa variedade de alimentos na cozinha, mas, incapaz de encontrar um saco grande o suficiente para transportar tudo, saio em busca de uma despensa.
Há uma porta fechada logo ao lado da cozinha. A maçaneta trava em minha mão, mas um empurrão firme com o ombro faz a porta se abrir com um rangido. Uma janela projeta a luz enevoada do início da noite dentro do cômodo, e isso, junto com a luz que entra por trás de mim, me permite ver o suficiente para me fazer congelar com a mão na maçaneta.
Isso definitivamente não é um armário.
Uma cadeira de balanço oscila no centro do quarto, as pernas curvas rangem no ar que vem da porta aberta. Ao lado dela, um moisés de madeira está sob uma camada espessa de teias de aranha e poeira. Uma colcha comida por traças pende da cadeira, as cores desbotadas por estar há anos ao sol que entra pela janela.
A cena abala meu coração e dou passos cautelosos para dentro do quarto. Da última vez em que vi um moisés — um feito de tecido e coberto de seda, não de madeira e entalhes delicados como este — foi no sonho que Hannah me mostrou. A lembrança dela da noite em que Inverno caiu.
Meu moisés.
— Eles têm um filho?
Eu me viro para a porta, onde Mather está de pé, com o ombro recostado ao portal. A luz enevoada da janela o projeta em cinza.
— Não — digo. — Mas querem ter.
Mather faz que sim. A cabeça dele se curva sobre o peito.
— Estive pensando nisso ultimamente, mais do que jamais pensei.
— Em quê?
Mather levanta a cabeça.
— Família. — Ele gesticula para o quarto. — Pais. Tudo que não tivemos.
Eu tinha me esquecido do quão recentemente Alysson morreu, o quanto a ausência dela ainda é nova. Há tantas mortes em meu coração, o luto por todas elas em sobreposição. Mas enquanto observo Mather, ele se vira para se recostar ao portal e a luz do corredor ilumina o rosto dele.
Mather sempre se pareceu mais com Sir, mas consigo ver a suavidade de Alysson na curva do nariz, na forma como ele contrai os lábios.
— Jamais entendi — diz Mather. — Aquele amor, quero dizer. Sempre esteve tão distante da nossa realidade. Eu via famílias quando saíamos em missões, mas nunca... — Ele perde o fôlego. — Não percebi o quanto queria até ser tarde demais.
Quando Mather olha além de mim para o quarto de bebê, é impossível não ver as lágrimas nos olhos dele. Contraindo o maxilar e de braços cruzados, ele as contém.
— Como acha que é? — sussurra Mather. — Amar alguém assim? Ou amar mesmo que seja a esperança de ter esse alguém? Manter um quarto trancado com o desejo de que algum dia essa pessoa venha? Não consigo entender.
— Alysson sabia que você a amava — sussurro, incapaz de falar mais alto.
O sorriso de Mather é triste.
— Eu sei.
A lembrança das palavras de Oana, sobre como o fato de sermos condutores nos torna estéreis, me traz uma onda de remorso que eu nem sequer sabia que tinha. Jamais tinha pensado nisso, em ter filhos, um quarto de bebê, mas Mather e eu fomos forçados a viver uma vida sem pais tanto quanto Oana e Rares foram forçados a viver uma vida sem filhos. Não que eu consiga entender a dor dela, mas imagino que seja semelhante. Essa é outra área para a qual somos forçados sem escolha. Se Mather pudesse falar com a mãe dele da forma como eu podia falar com a minha, não hesitaria. Se Rares e Oana pudessem falar com o filho como Hannah podia falar comigo, lutariam para me alcançar.
São essas duas percepções que me lembram do quanto meu relacionamento com Hannah era frágil. Porque eu deveria querer falar com ela, e ela deveria estar desesperada para falar comigo.
Mas não sinto mais nada dela desde que a bloqueei, nada forçando minhas defesas quando me sinto fraca, nenhuma tentativa constante de passar pela magia.
— Acho que entendo esse amor — digo. — Pelo menos estou começando a entender. Família não é sempre aquela em que você nasce. Família é com quem a gente está, quem a gente ama. Famílias assim podem ser ainda mais fortes.
Mather ri.
— Como uma família escolhida?
De novo essa palavra que assombra todas as minhas ações. Escolha.
— Sim.
— Ainda teria escolhido Alysson — sussurra Mather.
Fecho os olhos, as palavras dele têm em si mais emoção e mais desejo do que jamais ouvi vindos dele. Meu peito formiga, já respondendo à minha vontade inconsciente, e quando abro os olhos, me viro para olhar o quarto.
A mobília solta poeira. Teias de aranha nas paredes. A janela se abre de repente e toda a sujeira e a poeira ondulam para fora sob meu comando, deixando cada superfície brilhando como nova. A colcha estendida sobre a cadeira permanece esfarrapada, mas a sujeira é fácil de remover, e os travesseiros e cobertores no moisés ficam afofados, limpos e prontos para serem usados.
Porque eles serão usados. Oana e Rares algum dia, em breve, poderão ter a família que merecem. A família que Mather deveria ter tido; a família que eu deveria ter tido.
É tudo que eu posso fazer. Ajudar a criar um mundo em que a vida que eu sempre quis exista, mesmo que eu não possa vivê-la.
Um lugar bem no fundo de mim dói sempre que penso assim, cada vez mais perto de aceitar completamente o meu destino.
— Meira?
Afasto as lágrimas com a manga da blusa antes de me virar para ele. Só quero fazer o que Rares sugeriu — dar uma escolha a Mather. Deixar que ele saiba o que me espera no fim dessa jornada, o motivo para minhas lágrimas.
Mas assim que meus lábios se movem, Phil surge.
— Rares disse que estamos partindo.
Respiro, lançando oxigênio para cada músculo.
— Sim. — Sou surpreendida com outra informação que não compartilhei com eles, uma que faz meu corpo oscilar com a lembrança. — E nossa rota será pouco... convencional.
Mather se afasta da porta, intrigado.
— Como assim?
Dispenso a explicação.
— Primeiro as malas. — Encolho o corpo. — Depois a dor.


Naquela noite, Oana nos enche de suprimentos — sacolas, cobertores, comida, ataduras, assim como uma infinidade de coisas de que provavelmente nem precisaremos. Enquanto estamos todos de pé no pátio da frente do complexo, seguro os braços dela para evitar que Oana enfie outra maçã em minha bolsa.
Rares coloca a mão na cintura de Oana, me observando. Dezenas de palavras lotam minha boca.
Voltaremos a nos ver.
Vocês significam mais para mim do que sei dizer.
O moisés naquele quarto de bebê será usado. Eu prometo.
Oana envolve a mão com a manga da blusa e passa em minha bochecha.
— Eu sei, querida — diz, e de alguma forma isso me derrete mais do que se ela tivesse chorado ao se despedir.
Abraço Oana e Rares. “Obrigada” é tudo que consigo dizer, e é bobo e patético e nem metade do que quero que eles saibam. Mas os dois aceitam e se afastam, com os olhos brilhando.
Eu me viro para Mather e Phil, que estão tão abarrotados de suprimentos quanto eu. Mal se curaram e já estou forçando os limites, embora não reclamem ou questionem isso.
Talvez possam depois do que estou prestes a fazer com eles.
— Isso vai machucar — aviso. — E parecer... assustador.
As sobrancelhas de Phil se erguem.
— O quê?
Mas não dou a eles a chance de se preocuparem. Pego as mãos dos dois e libero a magia dentro de mim para nos levar até o campo de refugiados de Ceridwen. O esforço do uso da magia faz com que imediatamente recaia um peso sobre meu peito, mas intensificado — nunca me transportei, quanto mais outras pessoas, e a gravidade disso atrapalha minha resistência. A sensação é estar segurando uma espada mais pesada do que a habitual. Hesito, mas me mantenho firme.
O único problema é que nunca estive no campo de refugiados de Ceridwen. A única localização que tenho é a que Mather me contou — o campo fica a um dia de viagem de onde o rio Langstone encontra a floresta ao sul de Eldridge. Seria o bastante? Ou preciso ter um lugar específico em mente? Quando o zumbido da magia nos lança no vazio percebo que não é o melhor momento para me preocupar com isso, mas me recuso a permitir que esses pensamentos me inquietem. Não quando as vidas de Mather e de Phil dependem de mim. Então, com toda a concentração que consigo reunir, foco no ponto em que a floresta encontra as planícies Rania.
Meio segundo depois, um uuuuf potente percorre meu corpo quando meus pés se firmam no chão. Um céu negro brilha acima de mim, pontilhado de estrelas, e talos de grama da pradaria balançam ao nosso redor. O cheiro seco e terroso das planícies se choca com lembranças do ar úmido do complexo de Rares. Paro, mas, por sorte, a tontura que sinto é mínima e a náusea não me deixa incapacitada dessa vez.
Não posso dizer o mesmo de Mather e Phil.
Tenho quase certeza de que Phil começou a vomitar antes mesmo de chegarmos. Ele vomita na grama enquanto Mather, sentado no chão, pressiona o rosto contra os joelhos, as mãos na cabeça, emitindo um gemido baixo.
— O que... você... — Mather semicerra os olhos ao se virar para cima. — Fez?
Ele repara na paisagem. Os olhos se arregalam. Mather se curva para o lado, imitando Phil.
Quase corro para eles. E me pergunto: se a náusea foi causada pela viagem induzida por magia, talvez magia também possa curá-la?
Um único fio de gelo dispara até eles e tanto Mather quanto Phil se viram para mim com expressões de total confusão. A facilidade do uso da magia ainda me choca, o quanto agora não é mais complicado — o que me faz perceber que preciso fazer mais uma coisa.
Estamos tão longe de qualquer lugar que Angra possa imaginar que a magia dele ainda não me encontrou, não como em Paisly. Mas ainda assim relaxo a mente, criando o mesmo tipo de barreira protetora que manteve Rares longe. Angra não me encontrará até que eu queira.
Phil se coloca de pé, cambaleando, com as mãos estendidas, como se não confiasse no corpo.
— O que, pela neve no céu, foi aquilo?
Começo a responder quando Mather contém uma gargalhada.
— Foi uma demonstração de como venceremos essa guerra — diz ele. — Quanto mais vejo do que você é capaz, mais começo a temer por Angra.
Phil parece completamente apavorado. Seus lábios estão retraídos, mas, ao ver que Mather o observa, ele adota uma expressão com os lábios bem fechados.
— Você é mais forte do que Angra? — pergunta ele para mim.
Tento não estremecer.
— Magicamente? Não. Mas de outras formas... Espero que sim.
O começo da floresta Eldridge paira poucos passos a minha esquerda, coberta pela escuridão. Já as planícies se estendem a partir de todos os outros lados, a grama ondulando até onde consigo ver. A terra emana calor, resquícios do que certamente foi um dia quente, e solto um gemido ao mover o chakram junto com a sacola que carrego nas costas.
— Não é tão útil quanto parece a princípio — digo. — Não faço ideia de onde fica o campo de Ceridwen a partir daqui. Ou se mais alguém chegou lá...
Será que Jesse libertou Ceridwen? Será que os invernianos tiraram os herdeiros ventrallianos do reino? Mather para diante de mim como se tivesse a habilidade de ouvir o caos em minha mente com a mesma clareza com que Rares ouviu.
— Nós vamos descobrir — diz ele.
— Mas...
— Nós vamos descobrir — diz Mather de novo, colocando as duas mãos em meus ombros. — Estão todos lá. Tenho certeza. Agora... esquerda ou direita?
Viro a cabeça nas duas direções. Pradaria de um lado; pradaria do outro. Não consigo pensar em uma forma de usar minha magia para me ajudar a decidir. Para isto, sou apenas Meira.
Esse pensamento não é nem de perto tão apavorante quanto foi um dia.
— Esquerda — digo. — Preciso começar por algum lugar.
Mather acena e gesticula na direção do horizonte.
— Você primeiro, minha rainha.
Semicerro os olhos.
— Não ouse.
— Não ousar o quê?
— Me chamar assim.
— De que mais deveria chamá-la, minha rainha? — A voz de Mather fica mais suave.
Phil fica de pé, ajustando a mochila. O horror dele parece ter passado, pelo menos enquanto olha para Mather.
— Consigo pensar em algumas coisas de que gostaria de chamá-la — murmura ele para Mather.
Mesmo no escuro, a vermelhidão que sobe pelo rosto de Mather é a coisa mais linda que já vi. E esse é o primeiro indício de brincadeira que Phil demonstrou desde que apareceu em Paisly.
Mather dá um esbarrão no ombro de Phil ao passar, caminhando com dificuldade pela grama.
— Vamos — diz ele. — É melhor percorrermos o máximo de distância possível esta noite.
Sorrio, quase explodindo com o quanto a sensação é boa.
— Como quiser, lorde Mather.
Isso faz Mather revirar os olhos, mas ele dá um sorriso lento e curto e continua marchando para a esquerda. Phil vai atrás dele, e eu acompanho.


Passamos dois dias caminhando, recolhendo recursos da mata e dormindo. Nos dividimos em turnos para montar guarda, um de nós sempre alerta ao sinal de inimigos ou luzes no horizonte que possam sinalizar o campo.
Em Paisly, mesmo que brevemente, não parecia que o mundo estava ruindo. Rares me contava os passos de Angra, mas eu ainda conseguia me isolar daquilo — aqui, no entanto, cada passo que dou me leva mais para perto da guerra. Quem sabe o que Ceridwen suportou com Raelyn? Ainda não sei o estado de Inverno. E Theron... aliado a Angra.
Por que Angra faria essa aliança, no entanto? Cordell tem um dos exércitos mais poderosos de Primoria. Mas Angra não precisaria de Theron para isso — a influência da Ruína pode convencer qualquer um. Manter Theron vivo é uma ameaça muito maior a Angra, porque assim resta outra pessoa conectada com magia de condutor pura — o único modo pelo qual ele pode ser derrotado.
Não perguntei a Mather o que aconteceu com o condutor de Theron. A última coisa que soube foi que Mather o tomou depois que Theron o atirou longe no calabouço de Rintiero, mas duvido muito que Angra o tenha deixado ficar com o objeto depois que foram recapturados.
Mas isso ainda deixa uma pergunta — por que Angra iria querer Theron? Angra adora ter marionetes para executar suas ordens — Herod era prova disso, Raelyn também. Estaria ele  planejando usar Theron da mesma forma?
Sinto um aperto no peito. Só consigo pensar em um motivo pelo qual Angra precisaria de Theron: eu.
Theron sabe de coisas que poderiam me enfraquecer. O próprio Theron poderia me enfraquecer, apenas por ser quem é — alguém com quem me importo, possuído pela única coisa que odeio mais do que tudo.
E Angra sabe disso.
Limpo uma gota de suor da testa. Grama se entrelaça em minhas botas, o sol bate forte, mas de todas as emoções que poderia sentir nesse momento — desconforto, fadiga, uma culpa avassaladora, desgastante, voraz — só me permito uma: aceitação.
Essa guerra me forçará a confrontar Theron. Precisarei enfrentar aquilo em que Angra o transformou — alguém tão cruel quanto Herod, tão sombrio quanto Angra. E precisarei estar pronta.
Phil emite um uuf quando esbarro nele. Mas olha para a frente, fixo no horizonte.
Diante de nós, escondidas atrás da linha das árvores, estão centenas de tendas em amarelo, marrom e verde-musgo, camufladas nas planícies e na floresta. Fogueiras soltam espirais de fumaça, há movimento do lado de dentro e o zumbido de vozes paira leve no ar.
Mather se vira para nós.
— Aquilo parece um campo, certo? — Mas ele já está andando de costas na direção do campo, a sensação de alívio afastando o desconforto provocado pelo calor sufocante das planícies.
Phil soca o ar.
— Civilização! Bem, mais ou menos. — Ele corre para a frente, saltando pela grama.
Mather continua andando constantemente para trás. Meus olhos passam por ele e vão até o campo, mas não consigo me mexer.
— Chegamos — digo, com a garganta seca. Seguro nas faixas do coldre do chakram.
Subitamente, chegamos parece mais uma ameaça do que a afirmativa de alívio que deveria ser.
Mather dá um passo na minha direção, com a mão estendida.
A guerra pode ser iminente, mas não estou sozinha.
Coloco a mão na de Mather e o deixo me guiar.


Todos os barulhos cessam assim que entramos no campo. Conversas e risadas são abafadas como chamas de velas oscilando em uma tempestade de vento; panelas pendem desleixadamente sobre fogueiras enquanto as pessoas ao redor delas nos olham boquiabertas.
Endireito ainda mais os ombros enquanto caminho entre Phil e Mather por uma das muitas estradas improvisadas, a grama desgastada pelo tráfego de pés em trechos desencontrados. As pessoas nos encaram conforme passamos, a maioria é de veranianos com o cabelo vermelho-fogo e a pele bronzeada, mas também há yakimianos e até alguns cidadãos de Primavera. Uma profusão de cabelos loiros, castanhos; peles escuras, claras — mas uma feição comum une a todos: a marca do queimada na pele sob cada olho esquerdo.
Só conseguimos passar por algumas tendas quando as vozes recomeçam.
— Aquela é...
— Ela está usando o medalhão, olhe!
— É a rainha de Inverno!
Mordo o interior da bochecha, tentando com todas as forças que me restam não me encolher diante das observações. Não faço ideia do que essas pessoas pensam sobre mim. Que boatos ouviram? Que sou a garota que libertou o próprio reino apenas para que o mesmo agressor voltasse rugindo para o mundo? A garota que traiu o único aliado ao procurar outras alianças pelas costas dele? A garota que deixou Ceridwen, a salvadora dessa gente, ser presa?
Minha mão se aperta sobre a de Mather, tirando forças da forma como ele e Phil ficam ao meu lado. Mais reações surgem, ecoando de pessoas conforme passamos. Enrijeço o corpo, esperando o pior, mas as pessoas ao nosso redor erguem as mãos, gritando vivas.
— Fora Angra! — gritam elas, e mais forte ainda: — Somos Inverno!
Essa frase conquista meu coração. Essas pessoas não têm motivo para se alegrarem com minha presença — os problemas delas jamais tiveram a ver com os meus. Mas aquela frase — Somos Inverno — apenas duas pessoas que conheço poderiam ter ensinado a elas.
Passo na frente de Phil e Mather, correndo para o campo de refugiados. As batidas de meu coração atropelam os pulmões, mais pessoas ecoam a torcida — “A rainha de Inverno está aqui! Fora Angra! Somos Inverno!” — até que esses gritos se tornam a única coisa que ouço.
Dou a volta por mais uma tenda, o suor escorre pelas minhas costas.
Nessa vem correndo em minha direção pelo meio da rua. Atrás dela, Conall vem em um passo mais lento.
Um sorriso radiante toma meu rosto.
Nessa me vê e corre quando faço o mesmo, até que finalmente colidimos em um emaranhado de abraços e risadas e perguntas.
— Como você chegou aqui?
— Há quanto tempo está no campo?
— Por onde você esteve?
— Está tudo bem?
Recuo e observo Nessa em busca de ferimentos. Ela está bem — não tem sequer um hematoma ou um corte cicatrizando. Conall parece igual, e abraço Nessa de novo.
— Desculpe — digo, ofegante, para os dois. — Peço mil desculpas por ter deixado vocês.
— Deveria pedir mesmo — dispara Nessa, mas quando recuo de novo, ela está gargalhando. — É melhor ter uma boa explicação para isso.
Sorrio. Mesmo a ameaça de Nessa soa como se ela estivesse feliz por me ver.
— Tenho, prometo.
— Meira!
Dendera me envolve, interrompendo o abraço apenas para dar um apertão firme em meus ombros.
— Nunca mais faça isso. Está ouvindo? Nunca mais.
A ordem dela me deixa séria. Queria poder prometer a Dendera que jamais irei embora sem aviso de novo, mas a mentira fica presa em minha garganta seca.
— Também senti sua falta. — É tudo o que consigo dizer.
Mas ela já está mudando o foco quando vejo que desvia o olhar para Mather e Phil, que correm atrás de mim. O rosto de Dendera se alegra e ela me dá a mão.
— Venham comigo — diz Dendera para nós três.
Nessa pega minha outra mão, saltitando ao meu lado conforme viramos em outra rua de grama batida. Ao nosso redor, as comemorações se dissiparam, mas a notícia se espalhou — olhos me observam com interesse, pessoas apontam e gritam para amigos que a rainha de Inverno chegou.
Estou tão distraída com a notícia que se alastra que não percebo imediatamente quem me cerca.
Invernianos. Dezenas deles, segurando tigelas de comida ou baldes, mas todos se viram para mim, me encarando com o mesmo espanto com que os encaro.
— Eles estão aqui. — Puxo a mão de Dendera. — Como?
— Henn soube do campo enquanto estávamos em Verão — explica Dendera. — Achou que seria um local seguro para aqueles que fugissem da tomada.
— Quantos fugiram? — ouso perguntar. — Onde está Henn? E...
Será que Sir não escapou? E quanto a Finn, Greer e Deborah?
Dendera aperta meu ombro.
— William conseguiu escapar. Finn e Greer... — Ela fecha os olhos e dá um suspiro baixo. — Em breve estarão livres. William e Henn partiram ontem de manhã.
— Partiram? Para onde? Vão voltar para Jannuari?
Mather se aproxima por um dos lados com a expressão tão sombria quanto a minha parece estar. Meu estômago começa a latejar enquanto Dendera entende nossa preocupação e sacode a cabeça.
— Jannuari não. Eles ficarão bem! Falando desse jeito você faz parecer que eles nunca partiram em uma missão como essa antes. Foram com Ceridwen e um pequeno grupo de veranianos e yakimianos para Juli... o plano de Ceridwen é assassinar Angra enquanto ele estiver...
O ruído que faço é meio um grito, meio um choro.
— Não — falo. — Diga que não vão enfrentar Angra. Dendera, não...
Ela semicerra os olhos, o orgulho da missão deles se esvaindo conforme sacudo a cabeça.
Ceridwen, Sir, Henn e um grupo de soldados foram até Juli enfrentar Angra. Sem nenhuma proteção mágica.
Estão praticamente mortos.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!