1 de fevereiro de 2019

Capítulo 12

Meira

A TENSÃO NO complexo torna impossível respirar. Só consigo ficar de pé e encarar a parede, enquanto Oana corre para fora e passa o braço sobre meus ombros. Rares permanece posicionado ao meu lado, com a cabeça inclinada, como se estivesse ouvindo.
Rares pode se comunicar com Alin — sendo assim eu deveria ser capaz de me comunicar com Mather e quem quer que tenha vindo com ele? Não são condutores, mas governantes podem usar a magia para canalizar vontade e força para outras pessoas, então talvez eu pudesse... o quê? Canalizar um rompante aleatório de força para eles? Ou poderia viajar até lá e usar minha magia para trazê-los de volta para o complexo imediatamente. A questão é que acrescentar tontura e vômito aos ferimentos deles não ajudará em nada.
Cambaleio para mais perto de Rares.
— Onde eles estão? Aconteceu alguma coisa?
Rares abre a boca e ergue um dedo ao mesmo tempo. Depois de um segundo, ele aponta para o portão.
— Agora.
Lanço o portão para cima com toda força e ao mesmo tempo disparo com os olhos fixos em Alin, que está agachado no assento do condutor de uma carruagem. Quando Rares e Oana puxam a carruagem até o complexo e baixam o portão, já estou dando a volta pelo vagão.
Olhos azuis piscam para mim, um deles enterrado sob um inchaço roxo e vermelho, o outro está sob um corte que atravessa a sobrancelha. É um dos membros do Degelo de Mather, seu cabelo branco pende em torno do rosto em mechas grudadas.
— Phil? — adivinho.
Ele assente, tremendo como um cão com medo do dono.
— Minha... minha rainha... — murmura Phil, e dizer isso o deixa arrasado. Ele dispara para fora da carruagem, com as mãos sobre a cabeça e os joelhos fraquejando até cair, enroscando-se como uma bola no chão.
— Desculpe... Não queria... Tentei tanto...
Eu o observo, incapaz de respirar.
O que aconteceu?
No fundo da mente, ouço a voz tranquilizadora de Oana, o burro zurra para o ar, o vento sibila em minhas orelhas. Tudo se dissipa em um zumbido surdo quando meus olhos se fixam em Mather.
Ele está deitado no chão da carruagem, enroscado sobre sua lateral como se tivessem atirado o corpo dele ali dentro e saído com o veículo o mais rápido possível. Sangue seco cobre todo o lado direito da cabeça dele, mais escuro perto de um ferimento na têmpora. Uma atadura encharcada está em torno da testa de Mather e seu peito sobe e desce em uma respiração entrecortada.
Já o vi ferido antes, depois de missões em nosso campo de refugiados; depois de sessões de treino especialmente violentas. Nessas circunstâncias ele até se encolhia e gritava de dor, mas jamais ficou inconsciente, e nunca percebi até agora o quanto isso era necessário para que meu coração permanecesse tranquilo.
Oana toca meu ombro.
— Precisamos levar ele para dentro, querida — suplica ela, e percebo que estou bloqueando Rares e Alin de tirarem Mather da carruagem.
Salto para trás, para perto de Phil, que chora, e quando me viro, ele está de pé. Ele aperta o corpo com os braços com tanta força que temo que se parta ao meio.
— O que aconteceu? — Minha pergunta se choca contra Phil, fazendo-o cambalear.
— Não... — Phil cobre os olhos pressionando as bases das palmas das mãos com força. Cada momento que Phil não fala deixa que possibilidades me atinjam. Imagens de Mather subindo as montanhas atrás de mim e caindo; imagens dele tentando escapar de Rintiero e sendo atacado pelos homens de Angra...
Phil murmura algo contra os pulsos.
— O quê?
Ele abaixa as mãos. Olha para mim. Então para Mather, que agora pende, inerte, entre Alin e Rares conforme os dois o puxam na direção do castelo.
— Eu precisava fazer as vozes pararem — sussurra Phil.
Meu corpo fica quente.
— Angra? — adivinho.
Phil geme baixinho e faz que sim.
— Eu contei a eles... aonde íamos — diz Phil, com ânsia de vômito entre as palavras. — Eu contei a eles... onde você estava... e eles nos levaram para as montanhas... e Angra, ele não veio. Ele disse... disse que nós seríamos o suficiente para fazer você voltar. Ele fez com que os homens espancassem Mather para mostrar a você o que fará com todos que se voltarem contra ele. — Phil se curva, com as mãos nos joelhos. — Eu contei a eles onde você estava para fazer as vozes pararem, mas eles espancaram Mather na minha frente, e eu... eu preferia ter ficado com as vozes...
A porta do castelo se abre e Rares entra, a cabeça de Mather pende sobre a barriga.
Engulo as palavras de Phil, minha própria dor, qualquer coisa para evitar que eu me desfaça. Em meio a tudo que preciso fazer, ao sacrifício que me é exigido, minha vida é a única que será tomada. Eu me recuso a perder mais pessoas para isso.
Atiro essa necessidade para as profundezas da magia, permito que se espalhe pelo vazio.
Mather viverá. Está me ouvindo?
Ele viverá.
Rares e Alin colocam Mather em uma cama de um quarto estreito com mesas, uma pia, cobertores e velas. Alin murmura um pedido de desculpas ao sair, retornando ao posto dele, e Rares e eu permanecemos à porta, tão silenciosos que conseguimos ouvir as palavras abafadas de Pana cuidando de Phil alguns quartos adiante.
Rares cruza os braços e, pela primeira vez desde que o conheci, não encontro uma pontada de bom humor no comportamento dele.
Falo antes que Rares consiga.
— Angra não veio até Paisly.
Rares desvia os olhos de Mather.
— Ele sabe que não sobreviverá a um ataque direto, pelo menos não sem o restante dos exércitos de Primoria ao lado. Algo que ele está quase conseguindo.
Olho de volta para Mather. Para o sangue na cabeça dele, pulsando fresco e forte.
— Ele não vai se curar sem sua ajuda — diz Rares.
— Não. — Sacudo a cabeça. — Não posso... não vou arriscar a vida dele ferindo-o mais do que ele já...
Rares agarra meus braços e a tristeza nos olhos dele me arrasa.
— O melhor que posso fazer é deixá-lo confortável enquanto ele morre devagar. Perdeu sangue demais, o ferimento é profundo demais e a única forma de sobreviver a isso é magia inverniana.
Um segundo é todo o tempo necessário — menos do que isso, na verdade. Um lampejo de Mather, partido, sangrando, pelo canto do olho.
— Vou evitar que você perca o controle — assegura-me Rares, mas já estou concordando. — É igual a atrair objetos. Relaxe a mente e deixe que sua escolha ecoe.
Forço a entrada no quarto até parar subitamente ao lado da cama. A pele de Mather, em vez do brilho vibrante e saudável, exibe um tom de cinza. O peito dele se move quase imperceptivelmente, e o meu dói na cadência de seus fôlegos trêmulos.
A cama range quando me sento nela e pego a mão de Mather. Está cheia de um suor pegajoso, mas entrelaço meus dedos nos dele mesmo assim. Determinada, seguro sua mão sem vida.
Rares estava errado, no entanto. Esse uso de magia é muito diferente de atrair espadas até mim no pátio de treino. Nessas ocasiões a questão era simplesmente entender como a magia funciona. Aqui tem a ver com a guerra.
Angra trouxe a luta até mim. Ele me arrastou para ela, estivesse eu pronta ou não.
Mas ele não vencerá.
E da próxima vez, a luta acontecerá nos meus termos.
Olho fixamente para as pálpebras fechadas de Mather, observando qualquer tremor de consciência, apertando a mão dele com mais força a cada batida súbita do coração.
Ele sempre esteve em minha vida, e jamais pedi por mais do que isso. Porque nosso povo precisava ser salvo; porque eu achei que ele fosse o rei de Inverno; por centenas de motivos diferentes que sempre me deixam manter Mather circundando minha vida, constante e imutável.
E com o peso do abismo de magia pairando sobre mim, percebo o que quero agora. Quero ele.
Não quero Mather circundando a minha vida — eu o quero no centro, dando aquele sorriso que sempre disparou por dentro de mim. Quero que sejamos nós de novo, Meira e Mather.
Quero que ele olhe para mim.
A magia desliza para a frente e eu me abro para ela, desejando que cada gota escorra para fora de mim. Tendões frios serpenteiam pelo corpo de Mather. Fico maravilhada com o quanto conheço bem cada parte dele, o quanto é fácil canalizar a magia para longe de ferimentos pequenos — aquele corte se curará sozinho; aquela dor no joelho é resultado de uma luta de espada há anos, nada que ameace a vida de Mather — e forçar o verdadeiro poder sobre o ferimento na cabeça. Eu mantenho a magia ali, encarando o ferimento ensanguentado, apertando a mão dele com mais e mais força...
Mather se levanta subitamente, inspirando como se tivesse ficado debaixo d’água por tempo demais.
E me olha, finalmente, com os olhos cor de safira percorrendo meu rosto de uma forma muito familiar.
— Meira — sussurra Mather, e o alívio drena o estresse de suas feições. Os olhos de Mather se voltam para trás de mim, para Rares, e ele se endireita um pouco mais, encolhendo o corpo. — Onde... o que aconteceu? Onde está Phil?
— Ele está bem. — Rares dá um passo adiante. — Será curado em breve. Angra não conseguirá acrescentar as vidas de vocês à lista de mortes de hoje.
Mordo os lábios, lutando contra a ânsia de entrar nesse assunto. Rares não me dá a chance.
— Deixarei que vocês dois fiquem a sós. Tenho certeza de que há... — Ele para, o olhar recaindo para onde ainda seguro a mão de Mather. Enrijeço o corpo, incapaz de decidir se puxo ou não a mão. — Temos tempo — conclui Rares. Essas palavras deixam um peso em meu coração conforme ele fecha a porta atrás de si, e quando me viro para Mather, ele está inclinado na minha direção.
Mather não me olha com tamanha sinceridade há meses.
Engulo em seco e verifico cuidadosamente o ferimento dele, sem confiança de ter sido realmente capaz de curá-lo. Mather fica parado durante minha análise, os olhos dançando, fixos nos meus, com o mais leve início de um sorriso nos lábios. O odor almiscarado de suor emana dele, mas isso não ajuda a frear a velocidade súbita de meu coração, subindo até minha garganta.
— Você está fedendo — digo, tossindo.
O sorriso dele se abre.
— Também estou feliz por ver você.
— Você precisa... de água. — Eu me atrapalho ao me levantar em um salto e seguir para a pia. Pego um pano e o mergulho, lentamente, para me manter ocupada.
A cama se arrasta quando Mather passa as pernas para o chão.
— Pelo gelo, o que você fez comigo?
Atiro o pano contra ele.
— Salvei sua vida. De nada.
Mather retira as ataduras e dá batidinhas com a toalha contra o sangue seco, os olhos dele se erguem para mim. Mather continua concentrado, o silêncio pesa como se cada segundo soltasse pedras em meus ombros.
— Phil me contou o que aconteceu. — Consigo dizer. — Quem mais Angra...
A cama range quando Mather se levanta.
— Apenas nós — diz ele, baixinho, e consigo respirar, apesar de apenas um pouco. — Dendera está levando todos para um lugar seguro. Phil e eu nos separamos para... — Ele hesita. — Para encontrarmos você. Mas não ouse se culpar, Meira... Já não fui atrás de você duas vezes antes. Nenhuma força neste mundo poderia ter me impedido de ir atrás de você uma terceira vez.
Eu olho boquiaberta para Mather. Qualquer que fosse a resposta que eu esperava, não era essa — ele, ensanguentado, momentos depois de beirar a morte, mas me encarando como se tivesse estado ao meu lado o tempo todo, apenas esperando por alguma ordem minha.
Mather engole em seco, os músculos no pescoço dele se contraem. Ele dá passos hesitantes e se aproxima de mim, apoiado ao tampo da pia.
— Angra... ele não veio com a gente, quando os homens nos trouxeram até aqui. Não armou um ataque direto. Por quê? Por que você está aqui?
Passo os dedos pela beirada da pia. Discutir magia e Paisly e meus planos para Angra — subitamente parece o assunto mais fácil, em vez de falar sobre todas as coisas que quero quando olho para Mather.
Então explico tudo a ele, mas deixo alguns detalhes de fora. Conto o que sou agora, o que aconteceu quando Angra quebrou o condutor de Inverno. Conto a ele o que Angra é também, o que é a Ruína, como ela está se espalhando. Conto sobre Rares e por que o segui — porque ele é membro da Ordem, eu não conseguia controlar minha magia e precisava saber mais para derrotar Angra. Conto a ele sobre o labirinto, sobre as três tarefas e o abismo de magia e as chaves que preciso obter de Angra para abri-lo.
Mas não conto a Mather exatamente o que preciso fazer para destruir a magia. Ou mesmo como a magia me manteria viva por tempo indeterminado, caso eu não morresse no abismo.
Mesmo assim, quando termino, Mather me encara horrorizado. O semblante desaparece quando ele sacode a cabeça e se vira, cruzando os braços ao recostar novamente à mesa.
— Precisamos chegar a Inverno. Ao... labirinto — diz ele, zonzo. — Antes que Angra possa tirar vantagem do levante que Cordell iniciou.
— Sim. Mas não posso fazer isso despreparada. Angra não vai me dar muitas chances. — Contenho um suspiro. — E ele não vai me dar muito tempo também.
— Então nós o obrigaremos a nos dar tempo. Conseguiremos um exército, devemos ter aliados em algum lugar. — Ainda recostado, Mather se move inquieto, os olhos se fechando com um suspiro trêmulo. — Nós o atacaremos, atrairemos a atenção dele, daremos tanto tempo quanto você precisar.
Sorrio e fecho a mão no braço de Mather.
— Planejaremos depois... descanse agora.
Ele sorri.
— Isso é uma ordem, minha rainha?
Empurro Mather na direção da cama, mas o braço dele enrijece ao meu toque, fixando-o no lugar.
— Sim, é uma ordem — digo, empurrando Mather inutilmente. — E acrescento ainda que você jamais chegue tão perto da morte de novo.
Mather não reage à minha provocação. Penso, a princípio, que é por eu ter mencionado o que Angra fez a ele, mas ele ergue a outra mão e segura meus dedos.
— Desculpe — diz Mather, com pesar nos olhos. — Desculpe por ter sido esta a única vez que vim atrás de você.
Quase pergunto o que ele quer dizer, mas a explicação me atinge com tanta força que engasgo. “Já não fui atrás de você por duas vezes antes”, ele tinha dito.
— Você sempre fez o que era melhor para Inverno — digo, sem fôlego, ao ver o arrependimento que anuvia a expressão de Mather. Ele vem carregando essa culpa há meses? — Você não poderia ter feito nada para me salvar quando Herod me levou para Abril. Angra ainda achava que você era o filho de Hannah. Se tivesse capturado você... teria sido muito pior do que o que ele fez agora. Você me ajudou ao ficar longe, teria me arrasado ver você nas mãos de Angra. E deixei Jannuari por assuntos políticos. Como você poderia adivinhar que acabaria como acabou? Além do mais, você me ajudou muito mais ficando em Inverno e treinando seu Degelo.
Um dos lados da boca de Mather se ergue, os olhos dele percorrem meu rosto.
— Eu sabia que você tentaria me convencer a não me sentir mal. Mas deixando de lado o dever, eu deveria ter feito mais. Ter sido mais. Por você. Desculpe, Meira.
Engulo em seco, mas o nó em minha garganta se recusa a se dissolver. Mather ajusta os dedos sobre minha mão, e os músculos estirados nos braços dele ficam ainda mais retesados sob meu toque, me deixando ciente demais do quão tenso está o corpo dele e do quão próximos estamos. A suavidade em sua expressão atrai uma tontura que irradia por meu corpo conforme os olhos dele recaem sobre minha boca, permanecendo ali por tempo o bastante para me fazer oscilar.
— Você deveria descansar — digo a Mather, mas mal me ouço.
— Descansar — repete ele, como se só tivesse me ouvido em parte, como se também estivesse com dificuldades para respirar.
Pela neve, Mather já esteve tão perto assim de mim antes?
Meus lábios se entreabrem.
Será que deveria estar?
Recuo, e é o bastante para quebrar o feitiço.
Mather passa a mão pelo rosto.
— Descansar. Acho que eu deveria.
Ele finalmente me deixar ajudá-lo a chegar à cama, onde Mather desaba com um gemido exausto. Ajo rapidamente e recuo para não me sentir tentada.
— Se precisar de alguma coisa... — Paro de falar, porque tenho quase certeza de que nós dois precisamos de uma coisa.
Mather vira a cabeça no travesseiro para me dar um sorriso brincalhão.
— Irei até você.
Saio cambaleando pela porta, fecho-a ao sair e desabo contra ela.
Ainda tem algo errado comigo. Não esperava imediatamente consertar todos os meus problemas, mas achei que pelo menos tinha progredido o suficiente para me permitir amar quem eu quero amar. Mas quando travarmos essa guerra, quando eu chegar ao abismo de magia... Não quero feri-lo.
— Talvez ele não encarasse dessa forma.
Eu me sobressalto, a surpresa lançando uma centelha em meus braços e minhas pernas.
— Sério? — Resmungo para Rares, já sentindo o calor subir às bochechas. — Você estava ouvindo?
Rares se afasta de onde estava recostado, contra a parede oposta.
— Seus pensamentos são quase um grito, coração.
— Às vezes é difícil gostar de você.
— Você e Oana podem trocar histórias terríveis a meu respeito depois. — Rares me lança um olhar penetrante. — Você merece ser feliz, Meira. Mesmo que brevemente.
Cruzo os braços.
— A questão não é apenas eu.
— Ah, e aí está uma revelação interessante, creio. Lembro de uma emoção especialmente forte sua. Você odiava Sir e Hannah por tomarem decisões por você, mas parece que está fazendo o mesmo por Mather. Tomando uma decisão no que diz respeito ao futuro dele, antes que ele sequer perceba que há uma decisão a tomar.
— Eu não...
Mas não posso negar.
Rares me dá um tapinha no ombro.
— Estou disposto a apostar que esse seu garoto acha que você vale qualquer tristeza. Porque você vale.
Uma dor lateja dentro de mim, tão profunda que não sei se mesmo as palavras de Rares podem fazê-la passar.
— Como eu posso amar Mather? — pergunto. — Quando ainda nem tenho certeza se amo a mim mesma?
Rares contrai os lábios e antes que eu consiga recuar, o nó do dedo dele bate em minha testa.
Eu me assusto, esfrego a pele e meu rosto se enruga devagar.
— Pare — briga ele. — Eu disse que não iria tolerar esse tipo de conversa a respeito da pessoa que vai nos salvar. Você age como se o amor fosse uma meta que só se atinge depois de trabalhar muito tempo nela. E sim, amor envolve trabalho, mas no fim das contas é uma escolha, do tipo que se faz com um parceiro, com seu povo, com você mesma. Se você agisse em relação a essas coisas apenas quando as sentisse, seria como a maioria das pessoas, eternamente à espera de um sentimento que pode ou não surgir. Mas se você escolhe, todos os dias, se amar, não importa o que aconteça, então, coração, nada pode impedi-la.
Dou uma risada rouca. Tudo realmente se trata de escolha, mesmo além das regras da magia.
E já tentei escolher a mim mesma, com defeitos e tudo.
Apoio a mão no braço de Rares.
— Você será um pai fantástico.
Ele pisca, com um leve brilho de lágrimas nos olhos.
— Estou lutando por essa chance — diz ele. — Pelo que você está lutando?
A resposta não vem imediatamente. Sei o que estou lutando para evitar — a destruição do mundo. Foi esse o motivo pelo qual fiz Rares me contar sobre as ações de Angra durante o treinamento, usando a ameaça que ele representa para me abastecer. Mas tudo isso é baseado em ódio, medo, preocupação — coisas sombrias e incontroláveis.
Quando curei Mather, foi instantâneo e fácil. Foi... pacífico.
É nisso que eu deveria me concentrar ao usar minha magia. Coisas maravilhosas e felizes, como estar de pé aqui, falando com Rares e Oana, que surge de um quarto no fim do corredor e leva um dedo aos lábios, dizendo, sem emitir som, Phil está dormindo.
Entendi há muito tempo que nunca estive destinada a ter esse tipo de família. Mas outro tipo de família, meio esquisita, mas completa, com Mather... Isso eu poderia ter. E é algo que o restante do mundo também merecia.
É por isso que estou lutando. Possibilidade.
Rares sorri.
— Você está pronta agora.
Semicerro os olhos.
— Pronta?
Mas sinto. Um algo se desenrolando bem no fundo do estômago, a magia como uma cascata delicada de flocos gélidos que assenta em mim, suave e forte.
— Pronta para a lição final — diz ele.
Estive treinando até agora sob um cobertor de ódio, metade da mente sempre concentrada em me preocupar com meus amigos e com o restante de Primoria. Mas quando olho para a porta no quarto de Mather, sinto mais clareza do que senti desde que cheguei aqui.
Angra queria me partir.
Mas ele só me tornou inquebrável.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!