1 de fevereiro de 2019

Capítulo 11

Ceridwen

DEPOIS QUE GISELLE desembarcou em Putnam, os yakimianos deixaram Ceridwen, Jesse e Lekan onde a floresta ao sul de Eldridge encontrava o rio Langstone. O grupo ficou com cavalos, suprimentos para um dia e lembretes dos desejos da rainha deles — impedir Angra antes que ele destruísse Yakim. Nenhuma pista de como poderiam fazer tal coisa. O que era quase preferível — Ceridwen não estava disposta a seguir mais ordens de Giselle —, embora não tivesse ideia de como impedir Angra. Deveria esperar que Meira aparecesse e torcer para que ela tivesse um plano? Rastrear a localização de Angra e armar uma tentativa de assassinato?
Ceridwen guardou o selo de Giselle no bolso e fingiu que o peso da guerra iminente era o bastante para distraí-la da presença de Jesse.
Ela sabia que a capacidade de ignorá-lo se esgotaria. Mas, pela chama e pelo calor, Ceridwen lutaria para ser capaz de fazê-lo até o amargo fim.
O campo de refugiados ficava a apenas um dia de viagem do rio Langstone, e Ceridwen se sentia grata por não precisarem passar uma noite acampados na floresta. Assim que o sol e o céu noturno começaram a se enfrentar no horizonte, o grupo deixou as árvores e saiu nas planícies Rania.
O marido de Lekan tinha ajudado a escolher aquela localização. Tinham um campo mais no interior de Eldridge antes, mas com tantos refugiados veranianos, o clima frio e úmido estava longe de ser ideal. O campo agora ladeava o limite da floresta, perto o bastante das árvores para permitir que recursos fossem recolhidos, e perto o suficiente das planícies para dar aos veranianos o descanso necessário do calor e da secura. Ceridwen inspirou aquele vento árido, com o peito doendo diante da lembrança que tais odores incitavam. Lembranças de Verão, da terra rachada de seu reino, bronzeando-se ao sol.
Ceridwen apertou o selo de Giselle. A rainha yakimiana não era a única com um reino a proteger de Angra. E agora que Simon estava morto, e que Ceridwen era a única herdeira viva de Verão...
Ceridwen fechou os olhos, contendo o arquejo que surgiu em sua garganta. O irmão dela tinha morrido. Lentamente, mas ainda assim de forma persistente, Angra estava escravizando o mundo. Só que em algum lugar profundo e doentio dentro de si, Ceridwen se deliciava ao saber que uma de suas metas mais antigas tinha finalmente sido alcançada. Durante anos, Ceridwen ansiara ser a única governante de Verão.
Era uma legítima veraniana — capaz de encontrar alegria em qualquer situação.
Ceridwen se forçou a abrir os olhos. Em meio ao azul-escuro da noite e à grama marrom-claro, algumas formas se moveram na direção deles.
— Lekan!
Kaleo surgiu em meio à grama alta. Alguns soldados vieram logo atrás — e Ceridwen suspirou aliviada ao ver que eram veranianos, não yakimianos se fazendo de refugiados. Maldita Giselle. Os soldados, no entanto, voltaram para o campo quando ouviram a confirmação de Kaleo de quem se aproximava.
Lekan afastou o cavalo, mas não muito antes de puxar as rédeas. A perna ferida tinha parado de sangrar, mas ainda deve ter causado dor quando Lekan desceu. Ele não hesitou na corrida alucinada para encontrar Kaleo no gramado e os dois se chocaram. A força de Kaleo lançou Lekan cambaleando para trás e os corpos dos dois desapareceram na grama alta em meio a um coro de gargalhadas — que rapidamente viraram um silêncio que fez Ceridwen desviar o olhar para Jesse.
Ele parecia tão diferente sem máscara, e entre as coisas sobre as quais ainda não tinham conversado era se ele queria ou não uma nova máscara. Ela não podia negar que algo em si amava poder ver as emoções de Jesse enquanto ele observava Lekan e Kaleo, um sorriso erguendo os lábios dele, seu rosto todo sendo consumindo pela luz.
Então Jesse enrijeceu o corpo na sela e os músculos em seu pescoço se retesaram quando ele engoliu em seco e olhou para Ceridwen. Jesse fez uma reverência com a cabeça como se Ceridwen tivesse lhe dado uma ordem e então mandou o cavalo seguir, sumindo para dentro do campo.
Ceridwen esperava conseguir respirar com mais facilidade depois que Jesse se fosse. Mas nada mudou, nem mesmo uma faísca de alívio.
Ela avançou para perto de Lekan e Kaleo. Quando os cascos do cavalo dela trotaram bem ao lado dos dois, Kaleo se esticou, montado na cintura de Lekan.
— Princesa! Você o trouxe de volta ferido. De novo.
Ceridwen deu de ombros.
— Apenas porque sei o quanto Lekan adora quando você cuida dele.
Lekan se deitou completamente, os braços estendidos.
— É melhor você me amarrar. Para o meu próprio bem, preciso de repouso, já que não sou confiável para me manter seguro e ileso em nenhum outro lugar.
Kaleo segurou o tecido da camisa de Lekan com o punho, inclinando-se mais para perto dele com um olhar que fez Ceridwen rir.
— Eu dormi em tendas ao lado de vocês dois — disse ela. — Não tenho certeza se a ideia de repouso de vocês é mais segura.
Kaleo deu uma gargalhada alta e Lekan usou a distração para se virar e ficar por cima dele, mas o movimento o fez cair de mau jeito sobre o ferimento e ele gritou de dor. Quando Kaleo se moveu para verificar o joelho de Lekan, as palavras deles se suavizaram, mais provocações que, caso Ceridwen não estivesse tão acostumada com os dois, a teriam feito corar.
Ela seguiu adiante, deixando os dois à vontade. O campo se estendia em um círculo irregular, mais tendas eram acrescentadas sempre que novos refugiados se uniam ao grupo, criando estradas e caminhos sinuosos. Um campo desordenado e caótico para um grupo desordenado e caótico.
Ceridwen desceu do cavalo e o levou até um curral no limite do campo. Todos tinham se recolhido para a noite. Apenas soldados patrulhavam, acenando com a cabeça conforme a reconheciam. Ceridwen observou cada tenda. Tudo em seu devido lugar.
Os punhos dela se fecharam involuntariamente.
Bem, quase tudo. Trezentos dos refugiados ali presentes eram soldados yakimianos. Não havia mais do que oitocentas pessoas ao todo.
Ceridwen grunhiu. Isso queria dizer que havia trezentos lugares naquele campo que poderiam ter sido ocupados por escravos que precisavam de fato ser salvos.
Maldita Giselle.
Quantos dos espiões yakimianos tinham se feito de soldados ali? Quantos tinham ficado escondidos nos grupos de famílias e trabalhadores? No pior dos casos, se cada soldado yakimiano tivesse assumido posições como combatentes de Ceridwen, ela teria apenas cerca de cento e cinquenta soldados não yakimianos. Cento e cinquenta. Para enfrentar Angra... era um número risível. Ceridwen precisaria usar os soldados yakimianos. Mas para quê?
Durante anos, apesar do número reduzido, os combatentes refugiados vinham causando o caos — poderiam continuar o tipo de ataques de guerrilha que tinham frequentemente afetado as forças de Verão. Ataques surpresa do alto de árvores, armadilhas construídas em estradas difíceis.
Ceridwen esfregou a testa.
Será que isso realmente faria diferença contra Angra? Será que ela conseguiria remover qualquer que fosse o domínio dele sobre Verão com guerrilheiros? Porque Ceridwen iria atrás de Verão primeiro, independentemente da súplica de Giselle. Que Yakim sofresse um pouco diante da ameaça de Angra.
— Wennie!
Ceridwen sorriu. Apenas uma pessoa a chamava daquele jeito, e da primeira vez que ouviu, o nariz de Ceridwen se enrugou. Mas aquilo apenas encorajou Amelie, agora com oito anos. A menina yakimiana tinha apenas dois anos quando foi vendida a Verão, e não levara muito tempo para que Kaleo e Lekan se apaixonassem por ela e a levassem para sua família.
Lekan não dissera uma palavra sobre a revelação de Giselle. Nenhuma vez ele disse: “A vida de minha filha foi a moeda que aquela cadela usou para financiar seu ataque planejado contra Verão.” Embora Ceridwen conhecesse Lekan bem o suficiente para saber que ele jamais pensaria em algo assim. Ceridwen simplesmente precisava se encher de cólera por ele.
Ela abriu os braços para Amelie, que deslizou para dentro do abraço.
— Lekan voltou — disse Ceridwen, e os olhos castanhos já grandes de Amelie se arregalaram ainda mais. A cicatriz sob o olho esquerdo dela, o marcado com ferrete, se enrugou com o sorriso. A marca era velha o bastante para estar mais suave e menos evidente do que aquela que tinha sido feita em adultos. Mas ainda estava ali, um testemunho gritante de que, caso Amelie tivesse retornado a Yakim, teria sido rapidamente levada de volta a Verão. Ela era propriedade de verão agora — então Amelie, assim como todos os demais que Ceridwen e o grupo dela tinham libertado, precisava ficar naquele campo escondido, a salvo de qualquer um que a forçasse a uma vida de inexistência.
Uma máscara esconderia aquela marca. Ceridwen engoliu em seco. Mandar os refugiados para Ventralli era opção que ela certa vez considerara, mas não por muito tempo.
Amelie bateu palmas, os cabelos pretos embaraçados oscilaram na altura do ombro e então a menina saiu correndo.
— Papa! — gritou Amelie, e das planícies, a voz de Lekan ecoou de volta.
— Amy!
Ceridwen sorriu. Era revigorante ver uma criança ainda capaz de ser uma criança, feliz e inocente de todas as melhores formas.
Uma silhueta se moveu à esquerda dela, e quando Ceridwen se virou, Jesse avançou para a luz de uma lanterna próxima. As mechas escuras dos cabelos dele tocavam os ombros, o colarinho, o trecho de pele em que Jesse desabotoara a blusa. O ângulo do maxilar dele refletia a luz, marcante sob uma camada de barba que tinha crescido depois de dias sem um barbear decente. Jesse jamais parecera tão desleixado, embora exibisse esse aspecto como uma roupa escolhida de propósito, e os lábios de Ceridwen ameaçaram um sorriso diante do quanto era uma atitude ventralliana da parte dele. Fazer algo belo apesar dos desafios.
— Seus filhos já chegaram? — perguntou Ceridwen, com a voz falhando no meio da pergunta quando se deu conta de que... estava falando com ele.
Jesse pareceu tão chocado quanto ela. O corpo já tenso estremeceu de surpresa, mãos nos bolsos, ombros curvados em um estado de rendição frágil.
— Não... verifiquei com alguns dos soldados. — Tristeza tingiu as feições de Jesse, mas ele a afastou dando de ombros, forçando o otimismo. — Talvez não tenham vindo de barco. Talvez demore alguns dias.
— Podemos mandar alguém para procurar por eles.
— Sim. Sim, por favor. — Jesse se interrompeu e segurou a ansiedade. Com medo de insistir demais, de mostrar emoção demais.
Quatro anos, debateu a mente de Ceridwen. Esperei que ele agisse durante quatro anos.
Quatro anos, replicou o coração dela. Esperei por ele durante quatro anos.
— Você... — Ceridwen pigarreou. — Você já recebeu uma tenda?
Ele fez que não com a cabeça.
— Deveria ter pedido quando fui procurar meus filhos. — Jesse coçou o pescoço. — Não estou pensando direito agora.
— Quem está? — resmungou Ceridwen, e seguiu para o campo.
Jesse seguiu um passo atrás.
— Já considerou como usará os soldados de Giselle?
Ceridwen fechou as mãos e disparou as palavras por cima do ombro.
— Sério? Você quer falar sobre guerra?
— Só porque Ventralli não vê guerra há anos não quer dizer que não posso ser útil. Passei muitas noites observando você...
Ceridwen se virou para ele. Estavam do lado de fora de uma tenda não muito longe do círculo mais externo, uma das muitas reservadas aos refugiados nas primeiras noites, quando o alojamento permanente ainda não estava amontado. Tecido pendia do telhado pontudo até o chão, faixas sobrepostas estavam pregadas para permitir que a brisa entrasse e manter longe os olhos curiosos.
— Não — disparou ela. — Não esperaria que alguém soubesse como trabalhar vidro simplesmente por ter observado um vidraceiro durante algumas horas, certo? O que quer que aconteça a seguir não diz respeito a você. — Ceridwen segurou a aba da tenda dela e a abriu. — Deve haver uma cama e um balde com água doce...
— Não foi o que eu quis dizer. — A voz de Jesse estava falhando. — Passei anos observando você lutar por Verão, então sei do que você precisa. E se precisar de alguém para conversar, posso ouvir.
— Lekan também pode.
— Justo. — Jesse fez uma reverência com a cabeça. — Mas eu... estou aqui, Cerie.
Ela olhou para a estrada, com uma das mãos presa à aba da tenda. Era uma estrada mais escura do que a maioria e só havia uma lanterna por perto. O que tornava tudo indiscernível, a grama batida, as tendas inclinadas e a extensão do céu salpicado de estrelas acima.
— Soldados vêm a cada quinze minutos — disse ela. — Qualquer um deles poderá ajudar se você precisar de mais...
— Cerie.
Ceridwen soltou a aba da tenda, mas não conseguiu fazer os pés se moverem. Havia uma dezena de coisas diferentes que precisava fazer — planejar um modo de confrontar os soldados yakimianos; mandar que alguém fosse atrás de notícias dos filhos de Jesse... Isso sem falar de Meira. Ceridwen precisava descobrir qual seria o próximo passo dela. Se Meira não tinha conseguido sair de Ventralli, aquela guerra estaria nas mãos... dela.
Jesse estava certo. Ela precisava conversar com alguém —, mas, mais do que isso, ela simplesmente precisava de alguém.
E isso, mais do que qualquer coisa, a manteve parada no lugar.
— Cerie. — Jesse a chamou de novo, como se isso pudesse consertar cada ferida que ele provocara. — Desculpe. Por Raelyn, por Verão, por... você. Desculpe por ter magoado você várias e várias vezes. — Ele conseguiu dar um risinho frágil, esmaecido. — Ainda não entendo por que você me tolerou por tanto tempo.
Ceridwen perdeu o fôlego. Nem eu.
Mas cada motivo estava tão marcado no coração dela quanto a dor que Jesse tinha lhe causado. Cada cicatriz tinha uma desculpa contraditória correspondente, e durante muitas noites Ceridwen caíra no sono contando todas elas.
Amo você porque você foi o único que me ouviu quando eu fui como embaixadora veraniana até Ventralli, e embora seu conselho tenha negado ajuda a meu país, você se esforçou muito por meu povo. Amo você porque você me mostrou o tipo de devoção que eu queria que meu rei praticasse. Amo você porque você ama seus filhos. Amo você porque você ama a tradição de usar máscaras e todas as coisas que seu povo cria. Amo você pelo mesmo motivo que amava meu irmão — porque também sou fraca.
— Pare — disse Ceridwen, com a voz rouca.
— Não mereço você — insistiu Jesse. — Foi por isso que obedeci à súplica de minha mãe para que me casasse com Raelyn. Eu sabia que não merecia você, e achei que seria melhor para nós dois se eu me casasse com outra pessoa. Mas você ainda me amava, mesmo depois desse casamento. Como eu queria ser digno de você, então a mantive por perto na esperança de me tornar o homem que eu era quando estava com você sempre.
— Pare — disse ela, de novo, mais alto, e soube que Jesse a ouviu dessa vez.
— E me desculpe, Ceridwen. — A voz de Jesse falhou. — Quando Raelyn quebrou meu condutor, eu sequer me importei com a magia, eu só queria você. Deveria ter permitido que esse desejo me guiasse durante todos esses anos, mas não permiti. Não vou simplesmente pedir desculpas, no entanto... já falei coisas vazias demais ao longo dos anos. A única coisa que já disse que realmente importa é que amo você. Então repetirei isso a todo momento, todos os dias, à medida que eu fizer coisas, não apenas disser coisas, para provar o quanto me arrependo de não ter tratado você como merece. Eu te amo, Ceridwen. Eu te amo.
Ceridwen queria correr até a tenda e deixar Jesse ali com as desculpas dele. Queria gritar com ele para que parasse de atirar suas emoções contra ela. Equilibrada na beira de um abismo sem fundo, escuro e pútrido com os eventos dos últimos dias, Ceridwen queria demais. Cada palavra que Jesse dizia a empurrava para mais perto da queda.
O irmão dela morrera antes que Ceridwen pudesse dizer algo verdadeiro para ele. Ela queria gritar com o irmão a respeito de todas as coisas terríveis que ele fizera, de como fora ele quem a forçara para uma vida de solidão. Era culpa de Simon — ele escolheu ser inimigo de Ceridwen.
Ela olhou com raiva para Jesse.
— Você diz isso agora. Foi preciso o fim do mundo para você descobrir que vale a pena lutar por mim.
— Eu sempre soube que valia a pena lutar por você — resmungou Jesse. — Simplesmente nunca fui digno de fazê-lo.
— Eu sempre soube que você não era digno de mim. Sempre soube que era fraco, Jesse, e não quero precisar recolher seus cacos. — A acusação tocou nas próprias inseguranças de Ceridwen. — Você é fraco, e está magoado, e está sozinho. Por que algum dia pensou que alguém o ajudaria? Você é um nada, e é por isso que está sozinho, por isso que fracassou tantas vezes... porque jamais houve nada dentro de você desde o início.
O chão segurou Ceridwen quando ela caiu de joelhos.
Ceridwen estava sozinha de tal maneira que não conseguia compreender totalmente. A mãe dela provavelmente ainda vivia, mas que utilidade sequer já tivera? Simon estava morto, e sinceramente... o que esperava que o irmão tivesse se tornado? Que um dia ele acordasse e percebesse o quanto se tornara uma pessoa perigosa? Não, jamais haveria um final feliz para o irmão de Ceridwen. Nem para Verão, nem para ela mesma.
Braços se estenderam às costas dela. Braços hesitantes, trêmulos que lentamente a puxaram para frente e balançaram-na contra o peito de Jesse. Ela conhecia tão bem aquela posição, cada linha tensa na musculatura dele, cada trecho de pele. E Jesse conhecia o corpo de Ceridwen também. Sabia onde fechar os dedos em volta do braço dela, além do ponto no ombro esquerdo em que um ferimento antigo ainda doía se fosse tocado. Ele sabia que deveria acariciar a base do maxilar dela com o polegar, logo abaixo da orelha, carícias firmes e ritmadas que emanavam ondas por todo o corpo de Ceridwen.
Ela conhecia Jesse e ele a conhecia, e ele estava ali.
O corpo de Ceridwen ficou inerte.
— Não confio em você — sussurrou ela.
— Não confie — disse Jesse. — Deixe que eu me prove. Devo a você uma vida de penitência, Cerie.
Uma vida de penitência poderia significar um monte de coisas. Mas o que Ceridwen viu foi a cabeça do irmão se separando do pescoço. A vida dele tinha acabado muito depressa, antes que Ceridwen tivesse a chance de dizer que o amava, apesar de tudo o que tinha feito, porque ele era dela, parte do reino dela, parte da família dela, e Ceridwen não conseguia evitar.
Se soubesse que viveria uma vida segura e longa, Ceridwen conseguiria racionalizar e se convencer de que precisava de algo melhor do que Jesse. Mas agora, essa vida que levava — ela sabia o quanto era frágil, o quanto provavelmente morreria jovem, em batalha. Nesse tipo de vida, só havia tempo para desejos, não para necessidades. E Ceridwen desejava Jesse.
Ela o desejava porque não queria acordar sozinha todas as manhãs. Não queria saber que Jesse estava por aí, que não era dela, quando poderia tê-lo naquele momento. Era egoísta, sim — mas também perigoso e inconsequente e uma estupidez.
Mas a guerra fazia essas coisas. Fazia com que as pessoas percebessem a importância das coisas estúpidas.
Uma cama rangeu sob Ceridwen. Os lábios de Jesse tocaram a testa dela, as mãos dele alisaram seu cabelo e antes que conseguisse formar qualquer palavra, Ceridwen se desfez.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!