1 de fevereiro de 2019

Capítulo 10

Mather

QUANDO MATHER ERA criança, podia treinar com armas todos os dias; podia ouvir com atenção inabalável as lições de William sobre estratégia de guerra, economia e história; podia ser bondoso e justo. Mas nenhuma dessas coisas o tornava o herdeiro do sexo feminino de que Inverno precisava, e com cada lição ele sempre sentia aquele puxão insistente no fundo da mente sussurrando seu verdadeiro valor — o qual era, na época, meramente algum dia dar continuidade à linhagem do sexo feminino do reino dele.
E nas noites escuras e silenciosas, quando o acampamento inteiro dormia nas tendas improvisadas em qualquer que fosse o local que William tivesse escolhido, Mather se via desejando algo impossível. Algo que não ousava dizer em voz alta, não quando a salvação do reino dele dependia disso:
Ele desejava que a magia desaparecesse. Desejava um mundo livre dela, onde o valor de um líder se baseasse em quem ele era de verdade, não em gênero.
Mather acalentara esse desejo até que Angra fosse deposto e Meira se revelasse a real herdeira. Então, quase pareceu que no final das contas magia poderia ser algo realmente bom — ela salvara o reino deles. Então Mather afastou aquele desejo, e tentou aceitar o mundo como ele era.
Mas quando os gritos de Phil se transformaram em um choro que era mais sentido do que ouvido, Mather desejou mais do que nunca que a magia não existisse.
Mather ficara preso ao chão a cada uivo torturante de Phil, incapaz de sequer ver o que estavam fazendo com o amigo. E quando o silêncio finalmente recaiu, enfiaram uma sacola em sua cabeça, seus pulsos e pernas foram atados e tudo apertava, sufocava e doía.
Mather foi atirado sozinho dentro de algum recipiente de madeira e o ar tinha um leve cheiro de orvalho, o que significava que estavam no rio Langstone ou ele estava em algum tipo de caixa que estivera em um navio. O balanço e o arrastar da caixa eram irregulares demais para que Mather supusesse estar sendo puxado por uma carruagem ou um barco. Mas eles viajaram, e viajaram, e viajaram mais um pouco, e assim que Mather achou que desmaiaria por causa da péssima ventilação dentro da caixa, o movimento parou.
O peso da caixa o lançou contra uma das paredes. O ombro de Mather só tocou a madeira por meio segundo antes que a parede desaparecesse; a madeira era uma porta que se abriu e o lançou.
Embora Theron tivesse enfiado o condutor de Cordell de volta no cinto de Mather, ele não conseguira se curvar no ângulo necessário para alcançá-lo, e, por isso, não tivera como soltar as amarras durante a viagem. Não tinha nada que escorasse a queda quando se chocou com o chão.
Pedras. Cascalho, em grande parte. Nenhuma grama.
Onde estavam?
Mãos ergueram Mather pela parte de cima dos braços, e depois de tanto tempo amarrado, ele sibilou de dor com mais essa contorção. Levaria semanas até que seus músculos o perdoassem. Tais pensamentos eram os únicos que Mather se permitira durante a jornada. Qualquer outra coisa...
Mather trincou o maxilar.
Seus captores arrancaram a sacola da cabeça dele, cortaram as amarras nas pernas e até mesmo soltaram os grilhões dos punhos. A liberdade morreu mesmo antes de ter tempo para florescer — se eles se sentiam confortáveis em soltar as amarras, Mather devia estar intensamente cercado.
— Pelo gelo — xingou ele, baixando a cabeça até o peito e com os olhos se enchendo d’água devido à intromissão lancinante da luz. Mather piscou para clarear a visão e ergueu novamente a cabeça para observar os arredores.
Mather estivera em uma carruagem durante aquela parte da viagem, ao menos. Penhascos se erguiam em volta e um céu azul forte com o cinza de pedras sombrias. Se não soubesse, teria dito que estavam nas montanhas Klaryn, mas não tinham viajado tanto tempo assim.
Um tum chamou a atenção de Mather para a carruagem. Alguns dos soldados — dez no total, e nem Angra nem Theron estavam entre eles, o que era tanto um alívio quanto assustadoramente preocupante — abriram outro compartimento perto dos fundos da carruagem, do qual arrastaram Phil.
Espantosamente, ninguém impediu Mather quando ele se colocou de pé com dificuldade e então caiu, seus joelhos cedendo devido à falta de uso. Mas a determinação venceu, permitindo que Mather em parte se arrastasse e em parte se atirasse contra Phil, que caiu no chão pedregoso sem ao menos gemer.
Mather segurou Phil de pé, as mãos se enterrando nos ombros dele. Um dos olhos de Phil estava tão inchado que não se abria; o outro piscava para afastar o sangue que escorria de um corte na sobrancelha.
Mas era isso. Não havia outros ferimentos que Mather conseguisse ver, e Phil não mancava de nenhuma das pernas ou apoiava as mãos sobre qualquer corte.
— O que fizeram com você? — indagou Mather.
Phil olhou para ele com lágrimas escorrendo dos olhos.
— Eu... contei a eles... aonde ela foi...
O rosto de Phil exibiu pesar quando os soldados agarraram Mather e o puxaram para trás, atirando-o contra uma das muitas rochas que ladeavam a clareira. As mãos de Mather estavam cobertas com o musgo poeirento das pedras e, quando ele se virou, fechou-as em punhos, posicionando as pernas na melhor pose defensiva que o corpo ainda sem equilíbrio conseguia fazer.
Phil tinha apenas três soldados por perto — os últimos sete estavam reunidos em torno de Mather.
Um dos soldados atirou algo aos pés de Phil. Mather piscou. Aquilo era...
Phil franziu a testa para o objeto, ergueu o olhar para os soldados, então para Mather.
Era o chakram de Meira.
O soldado mais perto de Mather falou, com escárnio:
— Angra quer que ela o tenha de volta. Que considere isso como um presente, uma prova da leniência dele. Ele também quer que ela reencontre você, para que possa mandar uma mensagem dele.
Exaustão e fome e uma infinidade de preocupações fizeram com que o cérebro de Mather observasse detalhes como um cavalo em um campo lamacento. Um soldado lançou o punho e Mather se abaixou, mas outro soldado interrompeu o desvio com um soco no estômago. Mather ofegou e curvou o corpo quando o ar lhe foi sugado dos pulmões.
O soldado se abaixou por cima de Mather enquanto ele se curvava de joelhos.
— Se sobreviver a isso, diga a ela que é isso que vai acontecer a todos que se colocarem contra Angra. E mesmo que você não sobreviva, bem, imagino que isso também servirá de aviso para ela.
Com isso, o soldado golpeou a coluna de Mather com o cotovelo e o jogou de barriga no chão. Mather caiu com um gemido fraco.
Phil soluçou, inerte nos braços dos soldados.
Os demais atacaram. Sete contra ele — Mather tentou revidar, mas mesmo ao fazer isso, sentiu o quanto era inútil a cada soco que recebia.
Angra sabia onde Meira estava. E Mather perderia aquela luta.
Não estaria lá para ajudá-la.
Mather saltou de pé e disparou contra o homem mais próximo. Um lampejo forte interrompeu sua visão e fez cada nervo em seu corpo entrar em choque. Um clarão branco e depois um silêncio sepulcral.
Mather desabou no momento em que um soldado atirou outra pedra, mas nada mais lhe veio — apenas dor.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!