1 de fevereiro de 2019

Capítulo 1

Meira

ISSO ESTÁ ERRADO.
Ainda estou escondida à porta do calabouço do Palácio Donati e já consigo sentir a mudança em Ventralli, como a escuridão de uma tempestade se aproximando. Mas em vez de ficar para lutar com meu punhado de invernianos, eu os deixei para trás e segui o homem diante de mim.
E não faço ideia de quem ele realmente seja.
Qualquer guarda que pudesse estar a postos do lado de fora do calabouço se foi, atraído para o caos da tomada do reino por Raelyn. Salas se abrem à nossa direita e à esquerda, longe o bastante para que as pessoas no interior delas não reparem em nós, perto o bastante para que eu veja de relance o lado de dentro. Soldados encurralam membros da corte em grupos contra as paredes douradas, criados choram — mas ainda mais assustador são os observadores, que não fazem nada. Aqueles que observam os soldados brandindo ameaças como se fossem espadas, declarando que o rei Jesse foi deposto e que a esposa dele, Raelyn, é a governante de Ventralli porque tem um poder mais forte agora, um que todos podem usar — poder dado pelo rei Angra de Primavera.
— Ele está vivo?
— A magia dele é mais forte do que aquela dos Condutores Reais?
— Foi assim que ele sobreviveu?
Essas perguntas se erguem por cima das ameaças dos soldados, misturando-se nos ouvidos às batidas do meu coração.
— Angra ajudou a rainha ventralliana a destronar o rei. Ele — perco um pouco o fôlego — já tem influência em Cordell. Tomou Outono e Inverno e fez com que o rei de Verão fosse assassinado, mas, sabe-se lá como, isso faz com que as pessoas fiquem maravilhadas, em vez de com medo.
O homem que estou seguindo — Rares, se é que esse é o nome dele — olha para mim.
— Provavelmente Angra vinha planejando essa conquista durante os três meses em que ficou desaparecido, então a vingança dele não está sendo tão rápida quanto se pensaria — diz Rares. — E você, mais do que qualquer um, sabe o quanto é fácil para as pessoas preferirem ficar maravilhadas em vez de sentirem medo.
— Eu mais do que qualquer um? — Engasgo. — Como você poderia saber disso?
— Quer mesmo ter essa discussão agora? — A cicatriz que percorre o lado direito do rosto de Rares, da têmpora ao queixo, se enruga quando ele semicerra os olhos. — Eu tinha planejado primeiro nos levar para longe da ameaça iminente de morte...
Espadas se chocam e um soldado grita do fim do corredor. Rares dobra a esquina sem esperar minha resposta, e eu o sigo aos tropeços.
Eu não deveria estar seguindo um paisliano misterioso — deveria estar ajudando Mather a libertar os invernianos nos calabouços. Ou planejando uma forma de libertar meu reino do golpe cordelliano. Ou salvando Ceridwen de Raelyn. Ou encontrando uma forma de extrair Theron das garras da Ruína de Angra.
Hesito, tropeçando nas minhas muitas preocupações. Embora sempre tenha suspeitado que a morte de Angra tenha sido um embuste, nunca, nem em meus pesadelos mais delirantes, achei que ele poderia ser forte o bastante para dar magia a não portadores de condutores.
Mas esse poder é maculado pela Ruína, a qual foi criada quando não havia regras que atrelassem a magia apenas a linhagens reais.
Conforme Rares e eu mergulhamos de um corredor para outro, vejo os frutos da magia de Angra em primeira mão. O reino de Ventralli, de luz e cor, que existia quando chegamos desapareceu, foi substituído por um que se parece com as ruas sombrias de Primavera. Soldados marcham com os rostos contraídos pelo ódio, com movimentos ríspidos. Membros da corte se reúnem aglomerados, trêmulos, com medo, os olhos arregalados e ansiosos para agradar a seus conquistadores.
Ninguém enfrenta. Ninguém grita vingança ou luta contra os soldados.
Isso é um feito de Angra. Embora pareça que só seus subordinados de maior patente tenham recebido a habilidade de controlar magia, como Raelyn fez quando matou o rei veraniano. As pessoas que lotam os corredores simplesmente parecem confusas, influenciadas por algum fator externo, como se todas tivessem ficado bêbadas com o mesmo vinho ruim.
É isso que Angra está criando, um mundo de poder infinito, onde todos são possuídos por uma magia que os torna maleáveis, tomados pelas emoções mais profundas e sombrias.
Como posso impedi-lo? Como posso salvar...
Isso martela minha mente, a pergunta que fiz à minha magia de condutor me toma e sou puxada de volta para o momento em que corria pelas ruas de Rintiero com Lekan e Conall. Minhas maiores preocupações naquele momento eram evitar que Ceridwen assassinasse o irmão e descobrir como formar uma aliança com Ventralli, além de encontrar a Ordem dos Ilustres e as chaves deles para evitar que Cordell acessasse o abismo de magia.
Então fiz a tal pergunta — como posso salvar a todos? — e a resposta queimou em minha alma.
Sacrificando um Condutor Real e devolvendo-o à fonte da magia.
Mas sou o condutor de Inverno. Eu por inteiro. Graças à minha mãe.
Rares me puxa para trás de um vaso de planta momentos antes de um contingente de homens sair correndo de uma sala logo adiante.
— Agora não — sussurra ele. Rares tira da gola uma corrente com uma chave presa, aquela que me mostrou no calabouço, a última chave para o abismo de magia na mina Tadil. — Você me encontrou. Encontrou a Ordem dos Ilustres, e sim, ajudaremos você a derrotar Angra e impedir tudo isso. Mas primeiro, vamos apenas sair vivos daqui.
As palavras de Rares são um conforto muito necessário, tão necessário, na verdade, que somente quando ele dispara de volta para o corredor é que me pergunto... como ele sabia com o que eu estava preocupada?
Não importa. Engulo em seco, decidida. Farei isso. Aprenderei o que posso com a Ordem e usarei esse conhecimento: enfrentarei Angra na batalha e o destruirei, junto com a magia dele, ou tirarei as chaves de Angra, entrarei no abismo na Tadil e destruirei toda a magia da única forma que sei ser possível.
Seja como for, é isso que preciso fazer. Angra é forte demais — preciso de ajuda, e a Ordem dos Ilustres é o único recurso que conheço que poderia me ajudar a entender minha magia da mesma forma irrefreável que Angra entende.
Rares me leva para dentro de uma cozinha vazia cheia de mesas de madeira pesada, lareiras crepitantes e comida abandonada por criados que muito provavelmente estão se escondendo do frenesi da tomada. Ele saca um cantil de água e enche em uma bomba no canto.
— Quem é você? — consigo perguntar por fim.
Rares aponta para um cepo com facas em cima de um balcão.
— Arme-se.
— Com facas de cozinha?
Rares não para de andar.
— Uma lâmina é uma lâmina. Tira sangue igualmente.
Franzo a testa, mas deslizo algumas facas para dentro do cinto. O coldre vazio ainda pende contra a coluna — meu chakram está no salão de baile. No peito de Garrigan.
Eu me agarro à beirada do balcão.
A mão de alguém toca meu ombro e quando ergo o olhar, Rares está me observando.
— Meu nome é Rares. Não a enganei com relação a isso — diz ele. — Rares Albescu de Paisly, um líder na Ordem dos Ilustres.
Rares olha por cima de meu ombro, para a porta da cozinha que leva para o palácio. Passos ecoam, ficando cada vez mais altos, e sei que precisaremos correr antes que ele possa explicar mais.
— Contarei tudo — promete ele. — Mas primeiro precisamos estar em segurança... em Paisly. Angra não pode nos seguir até lá.
— Por que não? — Encaro Rares. — O que está planejando... por que isso é...
Rares me interrompe com um aperto no ombro.
— Por favor, Vossa Majestade. É o lugar mais seguro para que eu lhe mostre tudo que é preciso. E prometo que contarei tudo assim que puder.
— Meira — corrijo. Se vou arriscar minha vida no futuro próximo, então serei chamada como eu quero ser chamada.
Rares sorri.
— Meira.
Seguimos para a outra porta da cozinha, que leva a um jardim. Rares já está saindo quando sou tomada por um último lampejo de remorso por ir embora. Indo com ele eu estou efetivamente ajudando — a Ordem dos Ilustres é minha melhor chance de impedir Angra —, mas ainda parece que estou fugindo.
Rares se vira.
— Você não pode salvar a todos se ficar.
Outras pessoas me disseram isso antes — Você não pode salvar a todos; Inverno é nossa prioridade. Mais especificamente: Sir.
Um pesar me atinge. Mather me contou sobre a morte de Alysson, mas e quanto a Sir? Ele sobreviveu ao ataque cordelliano em Jannuari? E quanto ao resto de Inverno — em que estado se encontra meu reino? Não consigo pensar em Sir morto. Ele precisa estar vivo, e se estiver, fará tudo que puder para manter Inverno unido.
Ouço o que Rares disse de novo, percebendo agora o significado exato das palavras dele, e começo a ver todas as formas em que Rares é diferente de Sir. Os olhos de Rares são mais arregalados; a pele dele é mais escura; as mãos têm mais cicatrizes de anos de lutas. E, principalmente, em Rares vejo algo que jamais vi em Sir, algo que fez Rares acrescentar as duas palavras que mudaram completamente o significado daquela frase. Você não pode salvar a todos se ficar.
Não um fim. Uma escolha.
— Quem é você? — sussurro de novo.
Rares sorri.
— Alguém que está esperando por você há muito tempo, coração.
Logo depois de deixarmos o complexo do palácio, uma corneta soa pelo céu cinzento e nebuloso. Descobriram que fui embora. O que significa que encontraram Theron acorrentado à parede do calabouço, e Mather e os demais...
Não. Mather não deixaria que nada acontecesse com qualquer um sob os cuidados dele. Não porque ordenei que os mantivesse em segurança, mas porque ele sempre foi assim — um homem que, mesmo depois de perder o trono, ainda descobriu uma forma de ser governante. A forma como os Filhos do Degelo olham para Mather, com a lealdade inquestionável conquistada por alguém que nasceu para liderar...
Ele é a única pessoa em minha vida totalmente capaz de se proteger.
E quanto a Theron?
A pergunta me faz tropeçar enquanto Rares e eu disparamos para fora da cidade, ziguezagueando entre duas construções iluminadas e tortas, para dentro da exuberante floresta que ladeia Rintiero ao norte.
Essa pergunta. Não fui eu. Quase parecia...
Paro subitamente, Rares dá mais alguns passos adiante antes de perceber que parei. Mas a voz em minha mente me aprisiona, e levo as mãos nas têmporas.
Um destino terrível, não é, ser parte da mesma magia? Se ao menos você fosse mais forte.
Minha visão fica turva até que só consiga ver o rosto de Angra.
— Não! — grito, caindo de joelhos na terra úmida. Angra pôde ouvir meus pensamentos quando estávamos ambos no salão de baile Donati, mas ele não está perto de mim agora. Como é possível que ele fale comigo, de dentro de mim? Eu deveria ser capaz de impedi-lo...
Mas não é, certo, Alteza? Meus soldados estão indo atrás de você. Inverno está acabado. Primavera chegou.
Uma simples pergunta ecoa em resposta. Por quê?
Já fiz essa pergunta, no salão de baile do Palácio Donati, cercada pela carnificina — a cabeça do rei veraniano, os corpos de Garrigan e Noam. Mas a única resposta que obtive foi o motivo pelo qual Angra tentou destruir as minas de Inverno — ele teme o uso de magia pura de condutor contra sua Ruína, por isso passou cada momento que pôde trabalhando para desfazer essa ameaça. Por isso atacou Inverno por tanto tempo; por isso se voltou contra qualquer um que tentou abrir o abismo.
Mas o que faço agora não é nem mesmo uma pergunta consciente — é um choro na escuridão conforme o rosto de Angra preenche minha mente.
Por que isso está acontecendo...?
Vi meus amigos serem assassinados por essa guerra. Observei meu reino sofrer por isso. Neste exato momento fujo para salvar minha vida devido a isso, e depois de tantos anos, ainda não sei por quê. O que ele quer?
Mãos cobrem as minhas no local em que cubro a cabeça.
Abro os olhos. A magia se espalha por meus braços e minhas pernas, gélida, profunda e pura, transformando meu medo em choque.
Rares está vertendo sua magia em mim.
A expressão dele fica tensa, gotas de suor brotam pela testa.
— Lute contra ele!
Meu coração sabe que não preciso me submeter à magia de Rares, que não deveria me submeter a ele, mas tudo em mim quer que eu faça isso, medo e pânico me chicoteando e destruindo por dentro.
Lute! Eu me obrigo a permanecer aberta a qualquer que seja a ajuda que Rares pode oferecer.
Um choque me lança para trás. Caio com força no chão, folhas grudam em minhas roupas e minha cabeça lateja como se alguém tivesse tocado um sino dentro do meu crânio.
Vejo Rares dizer meu nome sem emitir som.
— Você... — Acho que digo. — O que você...
Dor irradia por trás de meus olhos e faço de tudo para não vomitar na vegetação rasteira encharcada. Mas Rares coloca a mão sobre a minha de novo, mesmo quando olho para ele com ódio em meio à agonia que transforma tudo em um escarlate vibrante.
Descanse agora, diz uma voz. Não é Angra — é Rares, em minha mente. Descanse e confie em mim.
Confiar em você? O que você fez? Você ainda não me contou nada!
Mas no mesmo momento em que tento combatê-la, a inconsciência chega, me embalando como os aromas tentadores que emanam de um banquete. Estou semiconsciente de Rares me levantando, do movimento brusco de ser carregada em ritmo de corrida pela floresta.
“Você se parece mais com Sir do que pensei” são minhas últimas palavras antes de tudo escurecer.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!