15 de fevereiro de 2019

Aprendendo Sobre Perdas



Em uma pequena cidade no Tennessee, o Irmão do Silêncio Zachariah e a Irmã de Ferro Emilia investigam uma feira que tem causado problemas por toda a cidade. Entre homens com uma sorte infalível no jogo e pessoas arrancando os próprios olhos fica evidente para eles que há uma influência demoníaca no amontoado de barracas que promete incríveis experiências. Agora os dois precisam seguir seus instintos e o mais difícil de tudo, ignorar os próprios desejos para derrotar um velho inimigo.


Na manhã de 23 de outubro de 1936, os habitantes de Chattanooga, no Tennessee, acordaram e encontraram cartazes nas laterais dos prédios de todas as ruas. POR TEMPO LIMITADO, era o que se lia, MAGIA, MÚSICA E O MAIS MISTERIOSO BAZAR DE MERCADORES. PAGUE SÓ O QUE PUDER E ENTRE NA TERRA DAS FADAS. VEJA O QUE MAIS DESEJA. TODOS SÃO BEM-VINDOS.
Algumas pessoas passavam por esses cartazes balançando a cabeça. Era o auge da Grande Depressão, e mesmo que o presidente, Franklin Delano Roosevelt, prometesse mais empregos em projetos como o túnel, os trilhos e o acampamento no Parque Nacional Great Smoky Mountains, as vagas eram escassas e os tempos, difíceis, e a maioria das pessoas não tinha dinheiro para gastar em bobagens e diversão. Além disso, quem desejaria chegar até o alto da Lookout Mountain apenas para ser barrado, pois o que podia pagar era nada? Ninguém liberaria a passagem a troco de nada.
Mas muitos habitantes de Chattanooga viram os cartazes e pensaram que talvez tempos melhores estivessem por vir. Havia uma nova política, o New Deal, e talvez também houvesse nova diversão. E não tinha uma única criança que visse os cartazes e não desejasse de todo o coração o que eles prometiam.
Vinte e três de outubro foi uma sexta-feira. No sábado, pelo menos metade da cidade de Chattanooga correu para a feira. Alguns levaram colchonetes e lonas para acampar. Se houvesse música e festividades, talvez ficassem mais de um dia.
As igrejas de Chattanooga mal receberam pessoas na manhã de domingo. Mas a feira na Terra das Fadas de Lookout Mountain estava mais apinhada do que uma colmeia.
No topo da montanha, um rapaz que morava por ali e se chamava Garnet Carter recentemente havia estabelecido a comunidade da Terra das Fadas, que incluía o Golfe Tom Thumb, o primeiro campo de mini-golfe dos Estados Unidos. Havia a estranha paisagem natural de Rock City, onde a esposa de Garnet, Freida Carter, abrira caminho entre rochas altas, cobertas de musgo, plantando flores silvestres e importando estátuas alemãs para que as trilhas fossem vigiadas por gnomos e personagens de contos de fadas, como a Chapeuzinho Vermelho e os Três Porquinhos. Pessoas abastadas vinham nos feriados e passeavam no funicular, que também eram os trilhos mais íngremes do mundo, o quilômetro de Chattanooga até o hotel Lookout Mountain. O local era conhecido como o Castelo Sobre as Nuvens, e, se todos os quartos estivessem ocupados... bem, havia também a Estalagem da Terra das Fadas.
Para os ricos, tinha golfe, dança de salão e caçadas. Para os interessados em história, tinha o campo da Batalha Entre as Nuvens, onde o Exército da União tinha vencido, há pouco tempo e com muito esforço, os Confederados. Ainda era possível encontrar cápsulas de balas e outros vestígios dos mortos por toda a montanha, além de pontas de flechas utilizadas pelos Cherokee. Mas os nativos foram expulsos, e a Guerra Civil já tinha acabado. Uma guerra ainda maior ocupava a memória recente, e muitas famílias de Chattanooga perderam seus filhos e pais nela. Humanos faziam coisas terríveis uns contra os outros, e havia traços dessas coisas terríveis para todos os lados.
Se seu gosto pendesse mais para bourbon do que para história, bem, também havia muitas destilarias em Lookout Mountain. E quem poderia saber que outros prazeres ilegais ou imorais seriam encontrados em um Misterioso Bazar de Mercadores?
Naquele primeiro sábado na feira, homens e mulheres com dinheiro e bom gosto se misturavam às crianças de rosto fino e às esposas dos fazendeiros. Os brinquedos eram gratuitos para todos. Havia jogos com prêmios e um zoológico interativo com um cão de três cabeças e uma serpente alada tão grande que era capaz de engolir um boi inteiro todos os dias ao meio-dia. Os violinistas tocavam músicas tão bonitas e melancólicas em seus instrumentos que todos que ouviam ficavam com lágrimas nos olhos. Uma mulher dizia que conseguia falar com os mortos e não queria nada em troca.
Havia também um mágico, Roland, o Surpreendente, que fez uma semente virar árvore em pleno palco, e depois a fez florescer, perder as folhas e secar, como se todas as estações passassem em um piscar de olhos. Era um homem bonito, aparentando uns sessenta anos, com olhos azul-claros, bigode branco lustroso e cabelos brancos como a neve com uma mecha preta, como se algum demônio o tivesse tocado com a mão suja.
Havia coisas deliciosas para comer a preços muito baixos ou mesmo distribuídas gratuitamente, e todas as crianças comiam até passar mal.
Como prometido, o Bazar era cheio de objetos notáveis em exibição, cuidados por pessoas ainda mais notáveis. Alguns dos clientes também atraíam olhares curiosos. Havia pessoas em terras distantes com rabos enrolados ou chamas em suas pupilas.
Uma das barracas mais populares oferecia um produto local: um licor claro e potente que diziam ser capaz de produzir em quem o tomasse sonhos de uma floresta ao luar cheia de lobos correndo. Os homens naquela barraca eram taciturnos e não sorriam com frequência; mas, quando o faziam, tinham dentes perturbadoramente brancos. Eles habitavam as montanhas e eram discretos, mas, no Bazar, pareciam estar em casa.
Uma das tendas tinha enfermeiras tão adoráveis que não era nenhum sacrifício deixar que coletassem seu sangue. Elas enchiam um ou dois frascos, “para fins de pesquisa”, diziam. E os doadores recebiam moedas que podiam ser utilizadas no Bazar como dinheiro.
Logo além das tendas, uma placa levava ao Labirinto de Espelhos. Dizia: VEJA VOCÊ MESMO. O MUNDO VERDADEIRO E O FALSO LADO A LADO. Aqueles que atravessavam o labirinto saíam um pouco atordoados. Alguns chegavam ao centro, onde recebiam a oferta de uma entidade que cada um descrevia de forma diferente. Para uns, a pessoa no recinto aparecia como uma criança pequena; para outros, uma senhora com um vestido elegante — ou até mesmo como uma pessoa amada e há muito morta. A entidade usava uma máscara, e, se você confessasse um de seus desejos, a máscara era colocada em você e, bem, deveria conferir pessoalmente. Isso, é claro, se conseguisse encontrar o caminho pelo labirinto até o local onde o mascarado o esperava.
Ao final do primeiro fim de semana, a maior parte de Chattanooga tinha subido para ver pessoalmente os estranhos encantos da feira.
E muitos voltaram no segundo fim de semana, apesar dos rumores sobre o comportamento preocupante que aqueles que haviam frequentado o espaço nos primeiros dias, àquela altura, começavam a apresentar.
Uma mulher alegou que o homem com quem era casada era um impostor que havia assassinado seu verdadeiro marido, o que teria sido facilmente esquecido caso não tivessem encontrado no rio um corpo exatamente igual ao do rapaz. Um jovem se levantou na igreja e disse que conseguia ver e conhecia os segredos de toda a congregação, só de olhar para as pessoas. Quando resolveu revelá-los em voz alta, o pastor tentou fazê-lo parar, até o sujeito começar a dizer o que sabia sobre o pastor. Com isso, o líder espiritual se aquietou, deixou a igreja, foi para casa e cortou a própria garganta. Outro homem ganhou sucessivamente um jogo de pôquer até que, bêbado, confessou, soando espantado, que conseguia enxergar as cartas de todos como se fossem as próprias. Ele comprovou a afirmação nomeando cada carta em ordem, e depois disso foi espancado e largado inconsciente e ensanguentado na rua por seus amigos de infância.
Um menino de dezessete anos, que ficara noivo recentemente, voltou da feira e naquela noite, aos berros, acordou a casa inteira. Ele destruiu os próprios olhos com dois carvões quentes, mas se recusou a dizer por quê. Aliás, ele nunca mais voltou a falar, e sua pobre noiva acabou terminando o relacionamento e indo morar com a tia em Baltimore.
Uma menina linda apareceu na Estalagem da Terra das Fadas ao anoitecer alegando ser a Sra. Dalgrey, mas os funcionários da estalagem sabiam muito bem que a Sra. Dalgrey era uma viúva de quase oitenta anos. Ela se hospedava lá todo outono, e nunca dava gorjeta para ninguém, por melhor que fosse o serviço.
Outros terríveis incidentes foram relatados nos arredores de Chattanooga, e, durante a semana, depois que a feira tinha sido anunciada, notícias sobre esses acontecimentos chegaram aos ouvidos daqueles cuja função era evitar que o mundo humano fosse incomodado e atormentado pelos caprichos maliciosos dos habitantes do Submundo e dos demônios.
É normal que alguns problemas surjam com uma feira. Prazer e encrenca são irmãos. Mas havia indícios de que essa feira, em particular, era mais do que aparentava ser.
Para começar, o Bazar Bizarro não consistia apenas em enfeites e bugigangas. O Bazar era um verdadeiro Mercado das Sombras, num local onde nunca tinha havido outro antes, e os humanos estavam percorrendo os corredores e mexendo livremente nas mercadorias. E tinha também rumores de que havia um artefato de adamas nas mãos de alguém que não deveria tê-lo. Por este motivo, na quinta-feira, 29 de outubro, um portal se abriu em Lookout Point, e dois indivíduos que tinham acabado de se conhecer entraram sem sequer serem notados por nenhum dos humanos ali presentes.
Uma das pessoas era uma jovem ainda não totalmente transformada em Irmã de Ferro, apesar das mãos já apresentarem as cicatrizes e os calos de quem manuseava adamas. Seu nome era Emilia, e essa era a última missão à qual suas Irmãs a enviaram antes que se juntasse a elas: recuperar o adamas e trazê-lo de volta para a Cidadela Adamant. Seu rosto era atento e sorridente, como se ela gostasse do mundo, mas não acreditasse que ele fosse corresponder.
Seu acompanhante era um Irmão do Silêncio que tinha Marcas no rosto, embora não tivesse os olhos nem a boca costurados. Em vez disso, estavam apenas fechados, como se ele tivesse preferido se recolher no próprio mundo. O Irmão era bonito o suficiente para que, se alguma das mulheres do Lookout Point visse seu rosto, pensasse nos contos de fadas nos quais um beijo é o suficiente para despertar alguém de um encantamento.
Irmã Emilia, que conseguia enxergar muito bem o Irmão Zachariah, achou que ele era um dos homens mais bonitos que já vira. Certamente era o primeiro que Emilia via em muito tempo. E se a missão fosse bem-sucedida e os dois voltassem para a Cidadela com o adamas, bem, certamente não seria ruim se o belo Irmão do Silêncio fosse o último homem que visse na vida. Não havia problema algum em admirar a beleza quando a encontrava por acaso.
— Bela vista, não? — indagou ela. Do lugar onde estavam, dava para ver a Georgia, o Tennessee, o Alabama, as Carolinas do Sul e do Norte, e, no horizonte, Virginia e o Kentucky também, todos espalhados como uma tapeçaria bordada em azul e verde, com alguns pontos vermelhos, dourados e laranja, onde as árvores começavam a mudar de cor.
A resposta do Irmão Zachariah surgiu dentro da mente da mulher: É extraordinário. Mas confesso que imaginei que os Estados Unidos fossem diferentes. Alguém que eu... conheci... me contou sobre Nova York. Foi onde ela cresceu. Falávamos sobre um dia visitarmos as coisas e os lugares que ela amava. Mas conversamos sobre muitos assuntos que eu sabia, mesmo naquela época, que provavelmente nunca aconteceriam. E é um país muito grande.
Irmã Emilia não sabia ao certo se gostava de ter alguém falando em sua mente. Ela já tinha encontrado Irmãos do Silêncio antes, mas era a primeira vez que um deles falava diretamente em sua cabeça. Era como receber uma visita quando a louça estava empilhada na pia, e o quarto, uma bagunça. E se a pessoa pudesse enxergar os pensamentos desorganizados que você, às vezes, tentava esconder? Sua mentora, Irmã Lora, garantiu a Emilia que, apesar de os Irmãos do Silêncio normalmente conseguirem ler as mentes daqueles que os cercavam, isso não acontecia com elas. Mas, por outro lado, e se isso fosse parte do teste que tinha que cumprir? E se a tarefa do Irmão Zachariah também fosse examinar seu cérebro, para se certificar de que Emilia era uma candidata apta?
Com licença! Você pode me ouvir?, pensou, o mais alto que pôde.
— É sua primeira vez nos Estados Unidos, então? — acrescentou ela, aliviada, quando o Irmão Zachariah não respondeu.
Sim. Em seguida, como que por educação, Zachariah completou: E você?
— Nascida e criada na Califórnia — disse Irmã Emilia. — Cresci no Conclave de São Francisco.
São Francisco é parecido com esse lugar?, perguntou o Irmão Zachariah.
Ela quase engasgou.
— Na verdade, não. Nem as árvores são as mesmas. E o chão de lá costuma tremer. Algumas vezes, só o bastante para mover a sua cama por alguns centímetros enquanto você tenta dormir. Outras, derruba prédios sem aviso. Ah, mas as frutas são as melhores que você pode provar. E o sol brilha todos os dias.
Seu irmão mais velho voltou a ser uma criança nos braços da mãe durante o terremoto de 1906. Metade da cidade pegou fogo, e o pai de Emilia disse que até mesmo os demônios mantiveram distância durante a destruição. A mãe, que estava grávida, sofreu um aborto. Se aquele bebê tivesse sobrevivido, Emilia teria tido sete irmãos, todos homens. Em sua primeira noite na Cidadela de Ferro, ela acordou de hora em hora porque tudo estava muito quieto e pacífico.
Você parece ter saudade disso, observou o Irmão Zachariah.
— Eu tenho. Mas nunca foi minha casa. Bem. Acho que a feira é por ali, e nós aqui conversando quando temos trabalho a fazer — respondeu a Irmã Emilia.


Apesar de seus olhos, orelhas e boca terem sido fechados pela magia da Cidade do Silêncio, Jem ainda conseguia sentir o cheiro e ouvir a feira muito melhor do que qualquer mortal. Tinha cheiro de açúcar e metal quente, e, sim, de sangue também, e o som de vendedores, música e gritos animados. Logo ele também poderia ver.
A feira acontecia sobre um terreno em que provavelmente ocorrera uma grande batalha em algum momento. Jem conseguia sentir a presença dos humanos mortos. Os restos esquecidos estavam agora enterrados sob um campo gramado, onde uma espécie de cerca tinha sido erguida em torno de muitas tendas coloridas e estruturas elaboradas. Uma roda-gigante pairava acima de tudo, com os carrinhos pendurados na roda central, apinhados de pessoas sorridentes. Através de dois grandes portões totalmente abertos, uma ampla avenida podia ser vista entre eles, recebendo todos que se aproximavam.
Namorados em trajes dominicais cruzavam os portões, enlaçando a cintura um do outro.
Dois meninos passaram correndo. Um deles tinha cabelos pretos e desgrenhados. Pareciam ter a idade que Will e Jem tiveram há muito tempo, quando se conheceram. Mas o cabelo de Will estava branco agora, e Jem não era mais Jem. Era o Irmão Zachariah.
Algumas noites atrás, sentado ao lado da cama de Will Herondale, ele vira seu velho amigo lutar para respirar. A mão de Jem sobre a coberta ainda era jovem, e Tessa, é claro, jamais envelheceria. Como se sentiria Will, que amava os dois, ter que seguir para tão longe deles?
Mas Jem deixou o amigo primeiro, e Will nunca o deixou. Só haveria justiça quando, em breve, fosse Jem quem ficasse para trás.
Em sua mente, o Irmão Enoch se pronunciou: Vai ser difícil. Mas você vai conseguir suportar. Nós vamos ajudá-lo a superar.
Vou suportar porque devo, respondera Jem.
Irmã Emilia parou e ele a alcançou. Ela observava a feira, com as mãos nos quadris.
— Que interessante! — falou. — Você já leu Pinóquio?
Acredito que não, retrucou Jem. Apesar de ter a impressão de que certa vez, quando visitara o Instituto de Londres, talvez tivesse escutado Tessa lendo a história para um jovem James.
— Um boneco de madeira que quer ser um menino de verdade — disse a Irmã Emilia. — Então uma fada lhe concede um desejo, mais ou menos, e ele se mete em diversas encrencas em um lugar que eu sempre imaginei ser como esse.
E ele consegue?, perguntou Jem, quase contra a vontade.
— Consegue o quê? — repetiu a Irmã Emilia.
Consegue se tornar um menino de verdade?
— Bem, é claro — respondeu a Irmã. Depois, animadamente, emendou: — Que tipo de história seria se ele só fosse um boneco? O pai de Pinóquio o ama, e é assim que ele começa a se tornar um menino de verdade, suponho. Essas sempre foram minhas histórias favoritas, aquelas em que as pessoas conseguem fazer coisas, ou esculpir em madeira e fazer com que se tornem reais. Como Pigmalião.
Ela é um tanto animada para uma Irmã de Ferro, disse o Irmão Enoch na mente de Jem. Não era uma crítica, mas também nenhum elogio.
— Claro — continuou a Irmã Emilia —, você mesmo me parece uma espécie de história ambulante, Irmão Zachariah.
O que sabe sobre mim?, Jem perguntou.
Ela respondeu, impertinente:
— Que combateu Mortmain. Que já teve um parabatai e ele se tornou diretor do Instituto de Londres. Que a mulher dele, a feiticeira Tessa Gray, usa um pingente dado por você. Mas eu sei algo a seu respeito que talvez você mesmo não saiba.
Isso me parece improvável, disse Jem. Mas prossiga. Diga-me o que sabe sobre mim.
— Me dê seu bastão — pediu a Irmã Emilia. Ele o entregou, e ela o examinou cuidadosamente. — Sim — falou. — Foi o que pensei. Feito pela Irmã Dayo, cujas armas eram tão incrivelmente forjadas que se dizia que um anjo havia tocado sua fornalha. Veja. A marca dela.
Tem me servido muito bem, falou Jem. Talvez um dia você também encontre reconhecimento nas coisas que fizer.
— Um dia — disse a Irmã Emilia. Ela devolveu o bastão. — Talvez.
Havia um brilho alegre em seus olhos. Jem percebeu que isso a fazia parecer muito jovem. O mundo parecia um tipo de prova de fogo, e nele todos os sonhos eram alterados e testados. Muitos ruíam por completo, levando você a prosseguir sem eles.
Na mente de Jem, os irmãos murmuraram em concordância.
Após quase setenta anos, ele já estava praticamente acostumado a isso. Em vez de música, ele tinha um coro severo de irmãos. Há muito tempo, ele imaginou cada um deles como um instrumento musical. O Irmão Enoch, pensara, seria um fagote ouvido através da janela mais alta de um farol desolado, com as ondas batendo embaixo.
Sim, sim, o Irmão Enoch disse. Muito poético. E o que você seria, Irmão Zachariah?
Jem tentou não pensar no seu violino. Mas não podia guardar segredo dos Irmãos. E aquele violino já fora abandonado e negligenciado por muito tempo.
Ele falou, tentando pensar em outras coisas enquanto caminhavam: Pode me dizer se sabe alguma coisa sobre Annabel Blackthorn? Uma Irmã de Ferro? Ela e um amigo meu, o feiticeiro Malcolm Fade, se apaixonaram e fizeram planos de fugirem juntos, mas, quando a família descobriu, ela foi forçada a entrar para a Irmandade de Ferro. Ele ficaria mais sossegado se soubesse alguma coisa sobre a vida dela na Cidadela Adamant.
— É evidente que você sabe muito pouco sobre as Irmãs de Ferro! Nenhuma delas é forçada a ingressar na Irmandade. Inclusive, é uma grande honra, e muitas que tentam são recusadas. Se essa Annabel se tornou uma Irmã de Ferro, foi o que ela escolheu para si. Não sei nada sobre ela, mas a maioria de nós muda de nome quando é consagrada.
Se souber de alguma coisa, meu amigo ficaria muito grato. Ele não fala muito sobre ela, mas acredito que Annabel sempre esteja em seus pensamentos, concluiu Jem.
Quando Jem e a Irmã Emilia passaram pelos portões da feira, a primeira coisa estranha que viram foi um lobisomem comendo algodão-doce em um cone de papel. Pedaços grudentos cor-de-rosa estavam presos em sua barba.
— A noite de hoje é de lua cheia — lembrou a Irmã Emilia. — A Praetor Lupus mandou alguns integrantes, mas dizem que os lobisomens aqui fazem o que querem. Eles controlam as destilarias e patrulham as montanhas. Deveriam ficar longe de mundanos nessa época do mês, não comer algodão-doce e se embebedar.
O lobisomem fez careta e se afastou.
— Atrevido! — disse a Irmã Emilia, e por pouco não foi atrás do licantrope.
Tenha calma. Há coisas piores do que integrantes do Submundo mal-educados e que gostam de doce. Está sentindo o cheiro?
Irmã Emilia franziu o nariz.
— Demônios.
Eles seguiram o cheiro através dos becos sinuosos da feira, a versão mais estranha que Jem já vira de um Mercado das Sombras. O Mercado era, é claro, muito maior do que se esperaria de uma feira, mesmo uma com essa dimensão. Ele reconheceu uns poucos vendedores. Outros observaram, tensos, enquanto ele e Emilia passavam. Um ou dois, com olhares de resignação, começaram a guardar as coisas. Não havia regras estabelecidas no Mercado das Sombras, seu funcionamento era regulado por costumes antigos. Mas tudo ali parecia errado para Jem, e os Irmãos do Silêncio debatiam em sua mente como isso poderia ter acontecido. Mesmo que fosse correto e adequado ter um Mercado das Sombras neste lugar, não deveria haver mundanos passeando e exclamando ao verem objetos estranhos sendo oferecidos. Um homem cruzou por eles, parecendo pálido e entorpecido, com sangue ainda gotejando dos dois furinhos em seu pescoço.
— Eu nunca estive em um Mercado das Sombras — observou a Irmã Emilia, diminuindo o passo. — Minha mãe sempre disse que não era lugar para Caçadores de Sombras e insistia que eu e meus irmãos deveríamos ficar longe dali. — Ela pareceu particularmente interessada em uma barraca que vendia facas e armas.
Suvenires depois, disse Jem, prosseguindo. Primeiro, o trabalho.
De repente, estavam fora do Mercado das Sombras e diante do palco onde o mágico contava piadas enquanto transformava um cachorrinho peludo em uma melancia e depois cortava a melancia ao meio com uma carta de baralho. Dentro da fruta havia uma esfera de fogo, que se ergueu e pairou no ar como um minissol. O mágico — identificado como Roland, o Surpreendente — entornou água de sua cartola sobre a esfera, que se transformou em um rato e correu do palco para uma plateia que, primeiro, entrou em pânico e, depois, aplaudiu.
Irmã Emilia tinha parado para assistir, e Jem fez o mesmo.
— Mágica de verdade? — perguntou ela.
Ilusões de verdade, pelo menos, disse Jem. Ele gesticulou para uma mulher que estava na lateral do palco observando o mágico executar seus truques.
O homem aparentava uns sessenta anos, mas sua acompanhante poderia ter qualquer idade. Sem dúvida, era de alta linhagem Fey e tinha um bebê nos braços. O jeito como ela observava o mágico no palco fez Jem sentir um aperto no peito. Ele já tinha visto Tessa olhar para Will do mesmo jeito, com aquela atenção extasiada e amor misturados ao conhecimento de uma tristeza futura que terá que ser suportada um dia.
Quando o dia chegar, vamos ajudá-lo, soou o Irmão Enoch, mais uma vez, em sua mente.
Um pensamento atingiu Jem como uma flecha; quando o dia chegasse e Will deixasse o mundo, ele não queria compartilhar a tristeza com seus irmãos. Que outros estivessem ali com ele quando Will partisse. E também tinha Tessa. Quem ficaria para ajudá-la a suportar quando Jem levasse o corpo de Will para a Cidade do Silêncio?
A fada olhou para a multidão e então, de repente, se escondeu atrás de uma cortina de veludo. Quando Jem tentou identificar o que ela tinha visto, avistou um duende empoleirado sobre uma bandeira no topo de uma barraca próxima. Ele parecia estar farejando o vento como se cheirasse algo particularmente delicioso. O único cheiro que Jem sentia agora era de demônio.
Irmã Emilia se empertigou para ver para onde Jem estava olhando e a avistou:
— Outra fada! É bom estar novamente no mundo. Terei muitas coisas para escrever no meu diário quando voltar para a Cidadela de Ferro.
Irmãs de Ferro escrevem diários?, Jem perguntou educadamente.
— Foi uma piada — disse a Irmã Emilia. Ela pareceu verdadeiramente decepcionada. — Irmãos do Silêncio tem algum senso de humor ou costuram isso também?
Colecionamos piadas de toc-toc.
Ela se animou.
— Sério? Você tem alguma preferida?
Não, retrucou o Irmão. Foi uma piada.
E se pudesse, teria sorrido. Irmã Emilia era tão humana que ele percebeu que isso estava despertando parte da humanidade que ele tinha posto de lado há tanto tempo. Esse também devia ser o motivo pelo qual estava pensando em Will e Tessa, e na pessoa que ele fora antes. Seu coração doeria um pouquinho menos, ele tinha certeza, depois que cumprissem a missão e voltassem para o lugar de onde vieram. Irmã Emilia tinha parte daquela faísca que Willjá teve, quando resolveram ser parabatai. Jem foi atraído por aquele fogo e pensou que ele e a Irmã Emilia também poderiam ter sido amigos em outras circunstâncias.
Ele estava pensando nisso quando um menino pequeno puxou sua manga.
— Você faz parte da feira? — perguntou. — É por isso que está vestido assim? É por isso que seu rosto é assim?
Jem olhou para o menino e depois para as marcas do braço para se certificar de que elas não tinham se apagado de algum jeito.
— Você consegue nos ver? — perguntou a Irmã Emilia ao menino.
— Claro que consigo — respondeu ele. — Não tem nada de errado com meus olhos. Mas acho que tinha antes. Porque agora vejo todo tipo de coisa que eu nunca tinha visto.
Como?, Jem perguntou, se abaixando para olhar nos olhos do menino. Qual é o seu nome? Quando começou a ver coisas que não via antes?
— Meu nome é Bill— respondeu o garoto. — Tenho oito anos. Por que seus olhos estão fechados assim? E como você consegue falar se a sua boca não está aberta?
— Ele é um homem de talentos especiais — explicou a Irmã Emilia. — Você deveria provar a torta de frango dele.
Onde está a sua família, Bill?
— Eu moro na St. Elmo, e vim naquela ferrovia inclinada junto com a minha mãe. Hoje eu comi um saco inteiro de balas e não tive que dividir nada com ninguém.
— Talvez a bala tivesse propriedades mágicas — cochichou a Irmã Emilia para Jem.
— Minha mãe falou para eu não andar por aí — prosseguiu o menino —, mas nunca presto atenção nela, a não ser que esteja furiosa feito touro bravo. Eu atravessei o labirinto de espelhos sozinho e cheguei até o meio, onde fica a moça chique. Ela disse que como prêmio eu podia pedir o que quisesse.
E o que você pediu?, Jem perguntou.
— Pensei em pedir uma batalha com cavaleiros de verdade, cavalos de verdade e espadas de verdade, como no Rei Arthur, mas a moça disse que se o que eu queria era uma aventura de verdade, deveria pedir a chance de enxergar o mundo como ele realmente é, então foi o que fiz. E depois disso ela colocou uma máscara em mim, e agora está tudo estranho, e ela também não era uma moça. Era uma coisa da qual eu não queria mais ficar perto, então fugi. Já vi todo o tipo de gente estranha, menos minha mãe. Vocês viram? Ela é pequena, mas bem feroz. Tem cabelos vermelhos como os meus, e um gênio de cão quando está preocupada.
— Sei tudo sobre esse tipo de mãe — confessou a Irmã Emilia. — Ela deve estar procurando você por todo canto.
— Eu sou uma provação constante para ela. Ou, pelo menos, é o que ela diz — constatou Bill.
Ali, apontou Jem. É aquela?
Uma mulher baixinha estava perto de uma tenda onde se lia MISTÉRIOS DO VERME DEMONSTRADOS TRÊS VEZES POR DIA e olhava na direção deles.
— Bill Doyle!— falou ela, avançando. — Você está muito encrencado, meu garotinho!
A mulher tinha uma voz forte.
— Vejo que meu destino se aproxima — disse Bill em um tom grave. — Vocês devem fugir antes que se tornem parte da batalha.
— Não se preocupe conosco, Bill — respondeu a Irmã Emilia. — Sua mãe não pode nos ver. E eu não nos mencionaria para ela. Ela vai achar que você está inventando coisas.
— Parece que estou em uma situação muito complicada — disse Bill. — Felizmente sou tão bom em me livrar de encrencas quanto sou em entrar nelas. Tenho muita experiência. Foi um prazer conhecê-los.
Então a Sra. Doyle pegou o braço do filho, puxando-o para a saída da feira, e fazendo uma careta para a criança enquanto se afastavam.
Jem e Irmã Emilia se viraram para observá-los em silêncio. Finalmente, a Irmã Emilia disse:
— O labirinto de espelhos, então.
Independente de terem encontrado o jovem Bill Doyle, ao chegarem ao labirinto de espelhos, estavam certos de que aquele era o lugar que procuravam. Era uma estrutura pontiaguda, toda pintada com tinta preta brilhosa e ameaçadora, com riscos vermelhos. A tinta vermelha estava tão fresca e molhada que a construção parecia sangrar. Cruzando a entrada, espelhos e luzes cegavam. O MUNDO VERDADEIRO E O FALSO, dizia a placa. VOCÊ SABERÁ ATÉ COMO É CONHECIDO. AQUELES QUE ME PROCURAM SE ENCONTRAM.
O fedor de maldade demoníaca era tão forte que até Jem e a Irmã Emilia, que tinham marcas que os protegiam contra o cheiro, se retraíram.
Cuidado, as vozes na cabeça de Jem alertaram. Esse não é um demônio Eidolon comum.
Irmã Emilia já tinha sacado a espada.
Temos que ter cuidado. Pode haver perigos aqui para os quais não estamos preparados, alertou Jem.
— Acho que conseguimos, pelo menos, ser tão corajosos quanto o pequeno Bill Doyle foi diante do perigo — retrucou a Irmã de Ferro.
Ele não sabia que estava lidando com um demônio.
— Eu me referia à mãe dele — disse a Irmã Emilia. — Vamos.
Então Jem a seguiu para dentro do labirinto de espelhos.


Eles se viram em um corredor longo e brilhante com muitas companhias. Havia outra Irmã Emilia e outro Irmão Zachariah, compridos e monstruosamente magros e ondulados. Em um momento, estavam eles novamente, achatados e horrorosos. Em outro, viam-se os reflexos de suas costas. Em um dos espelhos, estavam na costa de um mar roxo e raso, mortos e inchados, mas parecendo muito satisfeitos assim, como se tivessem morrido de uma grande felicidade. Em outro, começaram a envelhecer rapidamente e depois ruir até os ossos, que viraram poeira.
Irmã Emilia nunca gostou muito de espelhos. Mas por estes, ela tinha o interesse de uma artesã. Quando um espelho é fabricado, deve ser coberto por algum metal que reflete. Prata podia ser usada, mas vampiros não gostavam muito desse tipo. Os espelhos no Labirinto de Espelhos, ela pensou, deviam ter sido tratados com alguma espécie de metal demoníaco. Dava para sentir o cheiro. A cada respirada ela enchia a boca, a língua, a garganta com uma espécie de resíduo gorduroso de desespero e horror.
Ela avançou lentamente, com a espada à frente do corpo, e esbarrou em um espelho, pensando que fosse espaço aberto.
Cuidado, disse o Irmão Zachariah.
— Você não vem até a feira para ter cuidado — falou ela.
Foi tempestuoso e talvez ele soubesse disso. Mas ser tempestuosa também é uma espécie de armadura, tanto quanto ter cuidado. Irmã Emilia apreciava as duas coisas.
— Se é um labirinto, como vamos saber qual é o caminho que devemos seguir? — perguntou. — Eu poderia quebrar os espelhos com a minha espada. Se eu quebrasse todos, encontraríamos o centro.
Segure sua espada, respondeu Irmão Zachariah. Ele parou na frente de um espelho no qual a Irmã Emilia não estava presente. Em vez disso, havia um menino magro, de cabelos brancos, segurando a mão de uma menina alta com um rosto lindo e solene. Estavam em uma avenida.
— Isso é Nova York — disse Irmã Emilia. — Pensei que não tivesse ido!
O Irmão Zachariah avançou pelo espelho, que permitiu sua passagem como se ele jamais tivesse estado lá. A imagem desapareceu como bolhas de sabão estouradas.
Vá até os reflexos que mostram o que mais quer ver, disse o Irmão Zachariah. Mas que sabe que são impossíveis.
— Ah — disse a Irmã Emilia involuntariamente. — Ali!
Havia um espelho onde uma Irmã muito parecida com ela, mas de cabelos grisalhos, segurava uma lâmina brilhante entre pinças. Ela a colocou na água fria, e o vapor subiu em forma de dragão, que se contorcia esplendidamente. Todos os seus irmãos também estavam lá, observando admirados.
Também passaram por aquele espelho. Foram passando por todos os espelhos, até a Irmã Emilia sentir o peito apertado de desejo. Suas bochechas ruborizaram, pois o Irmão Zachariah podia enxergar seus desejos mais vaidosos e frívolos. Mas ela também viu os dele. Um homem e uma mulher que achou que fossem seus pais ouvindo o filho tocar violino em um grande salão de concerto. Um homem de cabelos pretos, olhos azuis e marcas de expressão em torno da boca, resultado de muitos sorrisos, fazendo uma fogueira em uma sala enquanto a menina solene, que agora sorria, ficava sentada no colo do Irmão Zachariah, que não era mais um Irmão, mas um marido e parabatai na companhia daqueles que mais amava.
Chegaram a um espelho onde o homem de cabelos negros, agora velho e frágil, estava deitado em uma cama. A menina estava ao lado dele, acariciando sua testa. De repente, o Irmão Zachariah entrou, mas quando tirou o capuz, tinha os olhos abertos, claros, e uma boca sorridente. Ao ver isso, o velho sentou na cama e rejuvenesceu cada vez mais, como se a alegria tivesse renovado sua juventude. Ele se levantou da cama e abraçou seu parabatai.
— É terrível — disse a Irmã Emilia. — Não deveríamos ver o coração um do outro assim!
Atravessaram aquele espelho e ficaram cara a cara com um que mostrava a mãe da Irmã Emilia sentada diante de uma janela, segurando a carta da filha. Ela tinha o olhar mais triste no rosto, mas então a mãe no reflexo começou a compor lentamente uma mensagem de fogo para a filha. Tenho tanto orgulho de você, minha querida. Fico tão feliz que tenha encontrado o trabalho de sua vida.
Não vejo nada de constrangedor em você, disse o Irmão Zachariah com sua voz tranquila. Ele estendeu a mão, e, após um instante, a Irmã Emilia desviou o olhar do reflexo da mãe que escrevia todas as coisas que nunca falara. Ela aceitou com gratidão a mão oferecida.
— É constrangedor ser vulnerável — admitiu. — Ou, pelo menos, foi o que eu sempre achei.
Eles passaram pelo espelho e ouviram uma voz:
— E isso é exatamente o que uma fabricante de armas e armaduras pensaria. Não concorda?
Eles tinham chegado ao coração do labirinto, e havia um demônio ali —um homem bonito, com um terno feito sob medida, o pior que a Irmã Emilia já tinha visto.
Belial, reconheceu Irmão Zachariah.
— Velho amigo! — exclamou o demônio. — Estava torcendo para que mandassem você atrás de mim.
Esta era a primeira vez que Irmã Emilia encontrava um Demônio Maior. Ela empunhava a espada que tinha feito em uma das mãos, e, com a outra, segurava a mão quente do Irmão Zachariah. Não fosse por essas duas coisas, teria retornado e corrido.
— Isso é pele humana? — perguntou, com voz trêmula.
Qualquer que fosse a matéria-prima do terno, ele tinha a aparência brilhosa e ligeiramente rachada de couro mal-acabado. Tinha uma aparência rosa, cheia de bolhas. E, sim, ela concluiu que aquilo que acreditava tratar-se de uma flor estranha na lapela era, na verdade, uma boca contraída em agonia, com um montinho cartilaginoso de nariz por cima.
Belial olhou para o punho manchado despontando sob a manga e com um peteleco afastou a sujeira.
— Você tem um bom olho, querida — falou.
— De quem é essa pele? — perguntou a Irmã Emilia.
Ela percebeu, aliviada, que sua voz estava mais firme agora. Não era tanto o fato de que quisesse saber as respostas, mas, sim, por ter descoberto desde o princípio do seu treinamento na Cidadela de Ferro que fazer perguntas era uma forma de disciplinar o medo. Receber novas informações significava que você tinha algo em que se concentrar, além do quão assustadores eram suas professoras e seu entorno.
— Um alfaiate que eu empregava — informou Belial. — Era um péssimo alfaiate, sabe, mas no fim das contas fez um bom terno. — Ele deu o sorriso mais charmoso para os outros dois. Mas, nos espelhos à sua volta, os reflexos rangiam os dentes e se enfureciam.
Irmão Zachariah aparentava calma, mas a Irmã Emilia conseguia sentir o quanto o aperto em sua mão estava mais forte. Ela perguntou:
— Você é amigo dele?
Já nos encontramos, disse o Irmão Zachariah. Irmãos do Silêncio não escolhem suas companhias. Mas devo confessar que gosto mais da sua do que da dele.
— Isso doeu! — exclamou Belial, com um olhar malicioso. — E, temo, é verdade. E eu só gosto de uma dessas duas coisas.
Qual é o seu assunto aqui?, perguntou o Irmão Zachariah.
— Assunto nenhum — disse Belial.— Isso é puro divertimento. Veja, encontraram adamas nas cavernas sob Ruby Falls. Um pequeno rastro na pedra. Você sabia que as pessoas vêm de todos os cantos do país para verem Ruby Falls? Uma cachoeira subterrânea! Eu mesmo ainda não vi, mas ouvi dizer que é espetacular. No entanto, joguei algumas partidas de minigolfe. E me enchi das famosas balas. Tive que comer o vendedor de balas depois para tirar o gosto da boca. Acho que ainda tem um pouco dele preso entre meus dentes. Chattanooga, Tennessee! O slogan deveria ser “Venha pelo adamas, fique pela bala!” Poderiam pintar essa frase em celeiros. Vocês sabiam que existe uma cidade embaixo de Chattanooga? Sofreram inundações tão terríveis no último século que finalmente construíram outra por cima das estruturas originais. As construções antigas ainda estão lá, subterrâneas, ocas como dentes podres. E, claro, tudo está em terreno mais alto agora, mas as tempestades ainda acontecem. Elas desgastam as rochas, e o que vai acabar acontecendo? Os alicerces vão ruir, e tudo será destruído. Tem alguma metáfora aí em algum lugar, Caçadorezinhos de Sombras. Você constrói e luta, mas um dia a escuridão e o abismo chegarão em uma onda e varrerão tudo que você ama.
Não o tivemos tempo para fazer turismo em Chattanooga, disse o Irmão Zachariah. Estamos aqui para pegar o adamas.
— O adamas! Claro! — exclamou Belial. — Vocês são tão apegados às coisas.
— Está com você? — perguntou Irma Emilia. — Achei que significasse a morte dos demônios, sá de tocar.
— Os comuns explodem, sim — confirmou Belial. — Mas eu sou um príncipe do Inferno. Sou mais resistente.
Demônios Maiores dão conta de adamas, explicou o Irmão Zachariah. Mas pelo que eu saiba, é agonizante para eles.
— Agonia, agonia — repetiu Belial. Seus reflexos nos diversos espelhos choravam lágrimas de sangue. — Sabe o que nos causa dor? O fato de nosso criador ter dado as costas para nós. Não somos permitidos perante o trono. Mas adamas, isso é material angelical. Quando tocamos, a dor da ausência do divino é indescritível. Mas mesmo assim é o mais próximo que chegamos de sua presença. Então tocamos o adamas, sentimos a ausência do nosso criador, e nessa ausência sentimos uma faísca mínima do que já fomos. Ah, essa dor é a coisa mais maravilhosa que pode se imaginar.
E Deus disse: não o guardarei Belial no coração, observou Jem.
Um lampejo tímido de dor passou pelo rosto do demônio.
— Claro, você também, meu querido Irmão Zachariah, foi cortado daqueles que ama. Nós nos entendemos. — E então ele disse algo em uma língua que a Irmã Emilia não reconheceu, quase cuspindo as sílabas terríveis e sibiladas.
— O que ele está dizendo? — perguntou ela.
E teve a impressão de que o recinto estava ficando mais quente. Os espelhos brilhavam com mais intensidade.
Está falando abismal, o Irmão Zachariah respondeu calmamente. Nada de importante.
— Ele está fazendo alguma coisa — sibilou a Irmã Emilia. — Temos que contê-lo. Algo está acontecendo.
Em todos os espelhos Belial estava inchando, e o terno estourava como pele de linguiça. As versões espelhadas da Irmã Emilia e do Irmão Zachariah diminuíam, encolhendo e escurecendo como se tivessem sido queimadas pelo calor de Belial.
Toc-toc, disse o Irmão Zachariah.
— O quê? — perguntou a Irmã Emilia.
Ele repetiu: Não preste atenção em Belial. Ele se fortalece assim. Não é real. São ilusões. Nada mais. Demônios não matam aqueles com quem têm dívidas. Toc-toc.
— Quem é?
Soletre.
A garganta da Irmã Emilia estava tão seca que ela mal conseguia falar. O punho da sua espada estava fervendo, como se ela estivesse com a mão no forno.
— Soletre quem?
Se você insiste, disse o Irmão Zachariah. Q-U-E-M.
E quando a Irmã Emilia finalmente entendeu a piada, foi tão ridícula que, apesar de tudo, ela riu.
— Péssima! — falou.
Irmão Zachariah olhou para ela com seu rosto sério e sem expressão. Você não me perguntou se os Irmãos do Silêncio têm um bom senso de humor.
Belial tinha parado de falar abismal. Parecia incrivelmente decepcionado com os dois.
— Isso não tem a menor graça — falou.
O que você fez com o adamas?, perguntou o Irmão Zachariah.
Belial alcançou o colarinho da camisa e pegou uma corrente. Pendurada na ponta havia uma meia-máscara de adamas. Irmã Emilia viu a pele do demônio ficar vermelha e depois em carne viva, e então amarelada de pus onde a máscara o tocou. E onde ele tocou a máscara, o metal acendeu em ondas flamejantes em turquesa, escarlate e verde-azulado.
Mas a expressão de indiferença orgulhosa do demônio não se modificou.
— Tenho usado em nome dos seus preciosos mundanos — falou. — Fortalece o meu poder enquanto eu fortaleço os deles. Alguns querem ser pessoas diferentes das que são, então dou a eles essa ilusão. Forte o bastante para que possam enganar os outros. Outras pessoas querem ver algo que cobiçam, que perderam ou que não podem ter, e eu também posso fazer isso. Outro dia, um jovem, um menino, na verdade, ia se casar, mas estava com medo. Ele queria saber as piores coisas que poderiam acontecer com ele e com a menina que amava, para que pudessem se preparar e seguir em frente. Soube que ele não foi tão corajoso, afinal.
— Arrancou os próprios olhos — disse a Irmã Emilia. — E quanto a Bill Doyle?
— Esse vai ter uma vida incrível, eu acho — disse Belial.
— Ou vai acabar em um hospício. Quer fazer uma aposta?
Não devia ter um Mercado de Sombras neste lugar, afirmou o Irmão Zachariah.
— Muitas coisas não deveriam existir, mas existem — disse Belial. — E muitas coisas ainda não existem, mas podem existir, se você desejar o suficiente. Admito, torcia para que o Mercado das Sombras oferecesse um disfarce melhor. Ou, pelo menos, que os distraísse quando vocês aparecessem para arruinar minha diversão. Mas vocês não se distraíram nem um pouco.
A Irmã Emilia vai pegar o adamas, disse o Irmão Zachariah. E depois disso, você vai tirar o Mercado daqui porque estou pedindo.
— Se eu fizer isso, acaba a dívida que tenho com você? — Belial quis saber.
— Ele lhe deve um favor? — perguntou a Irmã Emilia. E pensou, não é à toa que costuram as bocas dos Irmãos do Silêncio. Eles têm muitos segredos.
Não, o Irmão Zachariah informou a Belial. Para Emilia, ele disse sim, e é por isso que não precisa ter medo dele. Um demônio não pode matar alguém com quem tem uma dívida.
— Mas eu posso matá-la — retrucou Belial, dando um passo na direção da Irmã Emilia. Ela ergueu a espada, determinada a morrer com honra.
Mas não vai, o Irmão Zachariah disse calmamente.
Belial ergueu uma sobrancelha.
— Não vou? Por que não?
Porque você acha que ela é interessante. Eu certamente acho.
Belial ficou calado. Em seguida, assentiu.
— Pegue. — Ele entregou a máscara para a Irmã Emilia, que soltou a mão do Irmão Zachariah para pegá-la. Era mais leve do que imaginava. — Mas suponho que não vão deixar que você a utilize. Vão temer que eu a tenha corrompido de alguma forma. E quem pode saber?
Já acabamos, disse o Irmão Zachariah. Vá embora e não volte mais.
— Pode deixar! — respondeu Belial. — Mas quanto àquele favor... Me dói ficar endividado com você quando posso ser útil. Fico imaginando se não existe algo que eu possa oferecer. Por exemplo, o yin fen para o seu sangue. Os Irmãos do Silêncio ainda não descobriram a cura, não é?
Irmão Zachariah não disse nada, mas a Irmã Emilia viu como suas juntas ficaram brancas quando o punho cerrou. Finalmente, ele falou: Prossiga.
— Talvez eu conheça uma cura — disse Belial. — Sim, acho que conheço uma cura garantida. Você pode voltar a ser quem já foi. Você pode voltar a ser Jem. Ou...
Ou?
A língua comprida de Belial se esticou para fora, como se ele estivesse sentindo o gosto do ar e o achasse delicioso.
— Ou eu poderia contar algo que você não sabe. Existem alguns Herondale, não os que você conhece, mas da mesma linhagem do seu parabatai. Eles correm grave perigo, a vida deles está por um fio, e eles estão mais próximos de nós do que você pode imaginar. Eu posso contar algo sobre eles e colocá-lo no caminho para encontrá-los, se quiser. Mas você precisa escolher. Ajudar alguém ou voltar a ser quem era. Voltar a ser aquele que deixou as pessoas que mais ama para trás. Aquele de quem eles ainda sentem saudade. Você pode ser ele, se escolher. Escolha, Irmão Zachariah.
Irmão Zachariah hesitou por um longo instante. Nos espelhos que os cercavam, Emilia teve visões das promessas de Belial, de tudo que a cura significaria. A mulher que o Irmão Zachariah adorava não ficaria sozinha. Ele estaria com ela, capaz de compartilhar sua dor e amá-la plenamente mais uma vez. Poderia correr para perto do amigo que amava, ver os olhos azuis dele brilharem como estrelas em uma noite de verão quando abraçasse o Irmão Zachariah transformado. Eles poderiam dar as mãos sem uma sombra de luto ou dor sobre eles, pelo menos uma vez. Passaram a vida esperando por esse momento, e temiam que nunca fosse chegar.
Em centenas de reflexos, os olhos do Irmão Zachariah se abriram, cegos e prateados de agonia. Seu rosto se contorcia como se ele fosse forçado a suportar uma dor terrível, ou pior, forçado a abrir mão da mais perfeita felicidade.
Os olhos do verdadeiro Irmão Zachariah permaneciam fechados. Seu rosto continuava sereno. Finalmente, ele disse:
Os Carstairs têm uma dívida vitalícia com os Herondale. Essa é a minha escolha.
— Então eis o que tenho a contar sobre esses Herondale perdidos. Há poder no sangue deles, e também muito perigo. Eles estão se escondendo de um inimigo que não é nem demônio nem mortal. Esses perseguidores são engenhosos, estão chegando e vão matá-los se os encontrarem.
— Mas onde eles estão agora? — perguntou a Irmã Emilia.
— A dívida não é tão grande assim, minha querida. E agora já está paga — retrucou Belial.
Irmã Emilia olhou para o Irmão Zachariah, que balançou a cabeça.
Belial é o que ele disse, falou. Um adúltero, avarento e poluidor de santuários. Um criador de ilusões. Se eu tivesse feito a outra escolha, você realmente acha que eu estaria melhor?
— Quão bem nos conhecemos! — disse Belial. — Todos nós desempenhamos um papel, e você ficaria surpreso, acho, se soubesse o quanto ajudei. Acredita que só ofereci truques e ilusões, mas eu realmente estendi a mão da amizade. Ou você pensa que posso simplesmente fazer aparecer esses Herondale como se fossem coelhos na cartola? Quanto a você, Irmã Emilia, eu não lhe devo nada, mas faria uma gentileza. Ao contrário do nosso conhecido aqui, você escolheu o caminho que está seguindo.
— Escolhi — disse a Irmã Emilia. Tudo o que ela sempre quis foi fazer coisas. Moldar lâminas serafim e ser conhecida como uma mestre da forja. Caçadores de Sombras, parecia, só tinham glória na destruição. O que ela queria era poder criar.
— Eu poderia fazer com que você fosse a maior manipuladora de adamas que aquela Cidadela de Ferro já viu. Seu nome seria repetido através de gerações.
Nos espelhos, a Irmã Emilia viu as lâminas que poderia fazer. Viu como seriam usadas em batalha, como aqueles que as empunhavam agradeciam a quem fabricou. Abençoavam seu nome, e acólitos vinham estudar com ela, e eles também abençoavam seu nome.
— Não! — exclamou a Irmã Emilia para seus reflexos. — Eu vou ser a maior manipuladora de adamas que a Cidadela de Ferro já viu, mas não será porque aceitei sua ajuda. Vai ser por causa do trabalho que farei com a ajuda das minhas irmãs.
— Louca — respondeu Belial. — Não sei nem por que perco o meu tempo.
Roland, o Surpreendente!, gritou o Irmão Zachariah. E antes que a Irmã Emilia pudesse perguntar o que queria dizer com isso, ele estava correndo para fora do labirinto.
Ela conseguia ouvi-lo batendo em um espelho atrás do outro com seu bastão, apressado demais para achar o caminho de volta do mesmo jeito que encontrou o de ida.
Ou talvez ele soubesse que a magia dificultaria a possibilidade de chegar ao centro, mas acreditava que derrubar coisas na volta funcionaria bem.
— Um pouco lento na sacada — disse Belial para a Irmã Emilia. —Enfim, tenho que me arrumar. Nos vemos por aí, menininha.
— Espere! — pediu a Irmã Emilia. — Tenho uma oferta para você.
Ela não conseguia parar de pensar no que tinha visto nos espelhos do Irmão Zachariah. O quanto ele queria estar com seu parabatai e com a menina que devia ser a feiticeira Tessa Gray.
— Prossiga — disse Belial. — Estou ouvindo.
— Sei que as coisas que nos oferece não são reais — começou a Irmã Emilia. — Mas talvez a ilusão de algo que não podemos ter seja melhor do que nada. Quero que você proporcione uma visão ao Irmão Zachariah. Algumas horas com a pessoa de quem ele mais sente saudade.
— Ele ama a feiticeira — respondeu Belial. — Eu poderia dá-la para ele.
— Não! Feiticeiros duram. Acredito que um dia ele terá suas horas com Tessa Gray, mesmo que não ouse esperar por isso. Mas o parabatai, Will Herondale, é velho e frágil, e está se aproximando do fim da vida. Quero que lhes dê alguns momentos. Em um tempo e um lugar onde possam ser felizes e ficar juntos.
— E o que receberei em troca? — perguntou Belial.
— Se eu tivesse concordado com sua oferta anterior — disse a Irmã Emilia — acho que meu nome teria vivido em infâmia. E mesmo que eu um dia fosse celebrada pelo meu trabalho, mesmo assim, cada lâmina que eu fizesse seria manchada pela ideia de que você teve alguma participação no meu sucesso. Todas as vitórias teriam sido envenenadas.
— Você não é tão burra quanto a maioria dos Caçadores de Sombras — afirmou Belial.
— Ah, pare de tentar me lisonjear! — respondeu a Irmã Emilia. — Você está usando um terno feito de pele humana. Ninguém que tenha discernimento vai se importar com o que você tem a dizer. E é isso. Prometo que se você não der ao Irmão Zachariah e a Will Herondale o que estou pedindo, meu objetivo de vida será fabricar uma lâmina capaz de matá-lo. E continuarei fabricando até conquistar meu objetivo. E esteja certo, não só sou talentosa como sou obstinada. Pergunte à minha mãe, se não acredita em mim.
Belial encarou-a. Ele piscou duas vezes e desviou o olhar. A Irmã Emilia conseguia enxergar, agora, a forma como ele a via refletida nos outros espelhos, e ela gostou, pela primeira vez, de sua aparência.
— Você é interessante — disse ele. — Como o Irmão Zachariah falou. Mas talvez também seja perigosa. Você é pequena demais para um terno. Mas um chapéu. Você daria um belo chapéu. E talvez um par de polainas. Por que eu não deveria matá-la?
Irmã Emilia se empertigou.
— Porque você está entediado. Está curioso para saber se vou ser boa ou não no meu trabalho. E se minhas espadas falharem com aqueles que as empunharem, você vai se divertir bastante.
— Verdade. Irei.
— Então temos um acordo?
— Sim — respondeu Belial.
E desapareceu, deixando Irmã Emilia em uma sala com paredes espelhadas, segurando uma máscara de adamas em uma das mãos, enquanto a outra mantinha uma espada incrível, mas que não era páreo para as que ela fabricaria um dia.
Quando Irmã Emilia emergiu na feira, muitas barracas já tinham desaparecido ou simplesmente sido abandonadas. Havia poucas pessoas em volta, e as que viu pareciam tontas e entorpecidas, como se tivessem acabado de acordar. O Bazar Bizarro tinha desaparecido por completo, e não havia lobisomens por ali, apesar de a máquina de algodão-doce ainda girar lentamente, com fios de açúcar flutuando pelo ar.
Irmão Zachariah estava na frente do palco vazio, onde se apresentaram o mágico e sua esposa fada.
Todos nós desempenhamos um papel, e você ficaria surpreso, acho, se soubesse o quanto ajudei, ele disse.
Irmã Emilia percebeu que citava Belial.
— Não faço ideia do que isso signifique — disse ela.
Jem acenou para a placa acima do palco. ROLAND, O SURPREENDENTE.
— Papel. Rolo — repetiu ela. — Surpreso.
Truques e ilusões. Ele me ofereceu a mão da amizade. Habilidades manuais. Truques de mágica. Eu deveria ter percebido logo. Achei que o mágico parecia meu amigo Will. Mas ele e a esposa fugiram.
— Você vai encontrá-los de novo — disse Irmã Emilia. — Tenho certeza.
Eles são Herondale e estão em apuros, respondeu o Irmão Zachariah. Então eu vou encontrá-los, porque preciso. E Belial disse algo importante para os meus irmãos.
— Prossiga.
Sou o que sou, começou o Irmão Zachariah, um Irmão do Silêncio, mas não totalmente parte da Irmandade, pois por muito tempo fui dependente de yin fen contra a minha vontade. E agora sou, ainda que não totalmente por minha vontade, um Irmão do Silêncio; para conseguir sobreviver apesar do yin fen no meu sangue, que já deveria ter me matado. Irmão Enoch e os outros há muito tempo procuram uma cura e não encontram nada. Começamos a achar que talvez não houvesse uma. Mas o Irmão Enoch ficou muito interessado na escolha que Belial me ofereceu. Ele disse que já está pesquisando curas demoníacas associadas a Belial.
— E se você se curasse — perguntou a Irmã Emilia — escolheria não ser quem é?
Sem hesitar, respondeu o Irmão Zachariah. Mas não sem gratidão pelo que meus Irmãos da Cidade do Silêncio fizeram por mim. E você? Vai se arrepender de escolher uma vida na Cidadela de Ferro?
— Como posso saber? Mas acho que não. Tenho a oportunidade de ser quem eu sempre soube que deveria ser. Vamos. Já concluímos o que viemos fazer aqui.
Ainda não. Hoje a lua estará cheia, e não sabemos se os lobisomens voltaram para as montanhas. Enquanto houver mundanos aqui, temos que esperar e observar. Os Irmãos do Silêncio enviaram mensagens para a Praetor Lupus. Eles têm um posicionamento rígido de Proibição, sem contar que são severos com quem come mundanos.
— Parece pesada — disse a Irmã Emilia. — O posicionamento de Proibição. Entendo que comer pessoas em geral é errado.
Lobisomens vivem sob um código rigoroso, observou o Irmão Zachariah. Olhando para ele, a Irmã Emilia não era capaz de dizer se ele estava brincando. Mas tinha quase certeza de que sim.
Mas agora que passou no seu teste, sei que deve estar ansiosa para voltar para a Cidadela de Ferro. Sinto muito por mantê-la aqui.
Ele não estava errado. Ela queria, de todo o coração, voltar para o único lugar no qual já tinha se sentido em casa. E sabia que parte do Irmão Zachariah devia estar temeroso de voltar para a Cidade do Silêncio. Ela vira o suficiente nos espelhos para saber onde o coração e a casa dele estavam.
— Não lamento ficar mais um pouco aqui com você, Irmão Zachariah — falou ela. — E não lamento tê-lo conhecido. Se nunca mais nos encontrarmos, espero que um dia uma arma que eu fabrique com minhas mãos seja útil para você de alguma forma. — Em seguida, bocejou. As Irmãs de Ferro, ao contrário dos Irmãos do Silêncio, precisavam de coisas como sono e comida.
Irmão Zachariah se sentou na beira do palco e bateu no espaço ao seu lado.
Eu fico de olho. Se está cansada, durma. Nada vai acontecer enquanto eu estiver vigiando.
— Irmão Zachariah? Se alguma coisa estranha acontecer hoje à noite, se você vir alguma coisa que achou que não fosse voltar a ver, não se assuste. Nada de mal ocorrerá.
O que quer dizer?, o Irmão Zachariah perguntou. O que você e Belial discutiram depois que saí?
No fundo da mente, seus irmãos murmuraram: Tenha cuidado, tenha cuidado, tenha cuidado. Ah, tenha cuidado.
— Nada muito importante. Mas acho que Belial está com um pouco de medo de mim agora, e tem mesmo que estar. Ele me ofereceu algo para que eu não seja sua arqui-inimiga.
Diga o que isso significa, pediu o Irmão Zachariah.
— Mais tarde — respondeu a Irmã Emilia com firmeza. — Agora estou tão cansada que mal consigo falar.
Apesar de faminta, a Irmã Emilia estava tão cansada que não conseguia comer. Dormiria primeiro. Ela subiu no palco ao lado do Irmão Zachariah, tirou a capa e a transformou em um travesseiro. A noite ainda estava quente, e se ela sentisse frio, bem, acordaria, e ela e o Irmão Zachariah poderiam fazer a vigilância juntos.
Ela torceu para que seus irmãos, agora homens feitos, fossem tão gentis e corajosos quanto este homem era. Dormiu se lembrando das brincadeiras de luta antes de eles terem idade suficiente para treinar, rindo, tropeçando e jurando serem grandes heróis. Seus sonhos foram muito doces, apesar de ela não ter conseguido se lembrar de nada ao acordar, já de manhã.


Irmãos do Silêncio não dormem como os mortais, mas mesmo assim o Irmão Zachariah, ao sentar e escutar a feira deserta, teve a sensação de estar sonhando quando a noite, enfim, caiu. Irmãos do Silêncio não sonham, mas lentamente as vozes do Irmão Enoch e dos outros se dissiparam em sua mente e foram substituídas por música. Não música de feira, mas o som de um qinqin. Não deveria ter nenhum qinqin na montanha acima de Chattanooga, mas mesmo assim ele escutou. Enquanto ouvia, descobriu que não era mais o Irmão Zachariah. Era apenas Jem. E não estava sentado em um palco. Em vez disso, estava empoleirado em um telhado, e os sons, cheiros e visões ao redor eram todos familiares. Não era a Cidade do Silêncio. Não era Londres. Ele era Jem outra vez, e estava na cidade onde nasceu. Xangai.
— Jem? Estou sonhando?
E, mesmo antes de virar a cabeça, Jem soube quem estava sentado ao seu lado.
— Will? — chamou.
E era Will. Não o Will velho, cansado e desgastado como Jem o vira pela última vez, nem mesmo o Will de quando conheceram Tessa Gray. Não, esse era o Will dos primeiros anos em que viveram e treinaram juntos no Instituto de Londres. De quando fizeram o juramento e se tornaram parabatai.
Pensando nisso, Jem olhou para o seu ombro, onde a marca de parabatai tinha sido feita. A pele não estava marcada. Ele percebeu que Will fazia o mesmo, ao procurar embaixo do colarinho pelo símbolo no peito.
— Como isso é possível? — quis saber Jem.
— Essa é a época em que juramos ser parabatai e passamos pelo ritual. Olha. Está vendo a cicatriz aqui? — indagou Will. Ele mostrou a Jem uma marca no pulso.
— Foi um demônio Iblis que fez — respondeu Jem. — Eu me lembro. Duas noites depois que decidimos. E foi a primeira luta que tivemos depois que resolvemos ser parabatai.
— Então esse é o nosso quando — disse Will. — Mas o que não sei é onde estamos. Ou como isso está acontecendo.
— Eu acho — falou Jem — que uma amiga fez um acordo por mim. Acho que estamos aqui juntos porque o demônio Belial tem medo dela, e ela pediu isso. Porque eu não tive coragem de pedir por mim mesmo.
— Belial! — repetiu Will. — Bem, se ele tem medo de sua amiga, espero jamais conhecê-la.
— Gostaria que a conhecesse — disse Jem. — Mas não vamos perder tempo conversando sobre pessoas pelas quais você não se interessa. Pode não saber onde estamos, mas eu sei. E receio que o tempo que nos resta não seja suficiente.
— Sempre foi assim conosco — lamentou Will. — Mas vamos agradecer por sua amiga assustadora, porque qualquer que seja o nosso tempo aqui, estamos juntos e não vejo nenhum sinal de yin fen em você, e sabemos que eu nunca fui amaldiçoado. Não importa o quanto dure, não há sombra sobre nós.
— Não há sombra — Jem concordou. — E estamos em um lugar onde sempre quis estar com você. Em Xangai, onde nasci. Você se lembra de quando conversávamos sobre viajar juntos? Eram tantos lugares que eu queria mostrar.
— Eu me lembro de como você gostava muito de um ou dois templos — retrucou Will. — Você me prometeu jardins, embora eu não saiba por que você pensa que eu me importo com eles. E tinha algo sobre algumas vistas, formações rochosas famosas ou coisas do tipo.
— Esqueça as formações rochosas — falou Jem. — Tem um restaurante de bolinhos no fim da rua e eu não como comida humana há quase um século. Vamos ver quem consegue comer mais em menos tempo. E pato! Você tem que experimentar o pato! É uma iguaria incrível.
Jem olhou para Will, contendo um sorriso. Seu amigo retribuiu o olhar, mas nenhum deles conseguiu conter a risada.
Will foi o primeiro a se pronunciar:
— Nada é tão doce quanto me deliciar com os ossos dos meus inimigos. Principalmente com você ao meu lado.
Havia uma leveza no peito de Jem que ele mesmo percebeu, finalmente, se tratar de alegria. E viu a alegria refletida no rosto de seu parabatai. O rosto da pessoa amada é o melhor espelho de todos. Ele mostra sua própria felicidade e sua própria dor, e o ajuda a suportar ambas, pois enfrentar qualquer uma delas sozinho é como ser vencido por uma correnteza.
Jem se levantou e estendeu a mão para Will. Sem perceber, ele prendeu a respiração. Talvez aquilo fosse um sonho, afinal, e, talvez quando Jem o tocasse, Will desaparecesse outra vez. Mas a mão de Will era sólida, quente e forte, e Jem o segurou com facilidade. Juntos, começaram a correr sobre as telhas.

A noite estava muito bonita e quente, e eles eram jovens.

6 comentários:

  1. Esse é um dos meus contos favoritos❤❤❤❤❤

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  2. Estranho a presença de Belial nessa história

    E ele pareceu um tanto diminuído(em comparação com Azazel e Asmodeus), pro cara que é "o oposto da luz, do bem e de Jesus Cristo. Seria o mais importante demônio na Terra, que comandava as forças da escuridão contra os homens de bom coração. Criado junto com Lúcifer, de Belial foi dito ser um rei do inferno e comandante de 80 legiões" e também nenhuma menção à "Ele não pode resistir a tentação de gabar-se, "Eu era o primeiro dos anjos". Miguel supostamente era o segundo, Gabriel o terceiro, Uriel o quarto e Rafael o quinto."

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  3. "Se souber de alguma coisa, meu amigo ficaria muito grato. Ele não fala muito sobre ela, mas acredito que Annabel sempre esteja em seus pensamentos, concluiu Jem."

    Ahhhh... Annabel... :/

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  4. Puta q pariu isso é mt bom. Eu só quero uma amizade como Will e Jem, isso é pedir d mais?

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Boa leitura, E SEM SPOILER!