17 de janeiro de 2019

Punhal Carmesim



O sol refletindo nos pingentes de gelo do outro lado da janela de seu quarto despertou Magnus de um sono profundo. Ele esticou as pernas e estremeceu. Ainda grogue, viu que o fogo que mantinha seu quarto aquecido apesar do frio gelado de Limeros havia se apagado. Seu cobertor de lã havia sido afastado. O único calor vinha da garota em sua cama.
O que era estranho, já que ele não tinha começado a noite com uma garota em sua cama.
— Amia... — ele murmurou, assumindo que a criada da cozinha se juntara a ele nas primeiras horas da madrugada.
— Sinto desapontá-lo, mas eu não sou Amia.
A pressão do aço frio contra sua garganta fez suas pálpebras se abrirem. Ele deu de cara com o olhar furioso de uma menina de olhos castanhos e longos cabelos loiros, que passou a perna sobre o seu peito, forçando todo o seu peso em cima dele. Ela estava completamente vestida com calças de couro e capa de lã.
— Não — ele concordou — definitivamente não é Amia.
Um clarão carmesim o fez pensar que ela já lhe tirara sangue, mas então ele percebeu que o punhal afiado que ela segurava tinha uma coloração carmesim.
— Gostaria de adivinhar quem sou eu? — ela perguntou.
— Eu tenho escolha?
— Não.
— Justo. — Ele engoliu em seco, sentindo a borda afiada do punhal apertada com força demais para que ele descartasse como um sonho, e convocou sua esperteza além desse fato, tanto quanto poderia reunir em tão pouco tempo. — Imagino que você seja uma linda, mas mortal assassina, paga para me matar.
— Errado. Ninguém me pagou.
— Então... uma assassina não paga.
— Não é pelo negócio.
— Quantos você já matou?
— Homens? Quatro. Príncipes com suas esnobes cabeças reais enfiadas em suas bundas? Nenhum. Pelo menos não até hoje. — Seus olhos se estreitaram. — Adivinhe de novo quem eu sou.
Ele percorreu o rosto dela, tentando não ceder a qualquer lampejo de medo. Em seus dezessete anos, nunca teve sua vida ameaçada antes. Bem, não tão descaradamente, de qualquer maneira. Ele tinha inimigos, claro. Muitos que se diziam amigos cujos sorrisos e expressões amigáveis caíam, ele sabia, quando virava as costas.
Ele era o filho do Rei Sanguinário, herdeiro do trono de Limeros. Todos eram obrigados por lei a serem corteses e cordiais com ele – todos exceto o próprio rei, é claro.
— Ah, sim... — ele começou. — Eu me lembro agora. Foi um banquete, digamos, três meses atrás. Você é filha de lorde e lady Modias, aquela que pediu a honra de minha companhia enquanto eu estava ocupado conversando com lorde Lenardo...
— Não — ela retrucou. — Eu não sou uma garota aleatória de uma festa. Pense um pouco mais, seu parvo, e tenho certeza de que conseguirá descobrir. Mais uma chance.
Desta vez ele se concentrou mais. Na cor dourada do cabelo dela... Sim, agora parecia mais familiar. Nos olhos dela. Na curva da mandíbula, as sardas no nariz e nas bochechas.
Magnus a imaginou mais jovem, em pé em uma tempestade de neve e diminuindo ao longe enquanto corria para longe dele.
— Kara — ele sussurrou — Kara Stolo.
— Aha — Ela deu a ele a ponta fria de um sorriso. — É isso aí. Eu sabia que você não poderia ter se esquecido da garota cuja vida você destruiu.
— Não foi minha culpa — disse ele, sua voz áspera. Até para ele, parecia uma mentira.
— Sim, definitivamente, foi sua culpa — ela sussurrou, inclinando-se mais e apertando a adaga mais fundo em sua carne. — E esta noite você pagará o preço pelo o que fez.


Dez anos atrás

Magnus havia tomado uma decisão muito importante: ele fugiria de casa.
— E você irá comigo — ele falou para sua irmã mais nova, Lucia, enquanto estavam deitados no chão da sala de jogos.
— Para onde iremos? — ela perguntou, desviando o olhar de um dos poucos livros de história que seu pai lhes permitia ler. Contava a história da deusa radiante Valoria de uma forma que permitia às crianças entender melhor suas leis, regras e grandeza. Lucia gostava particularmente das figuras da deusa fazendo milagres com sua magia da água e da terra, como criar uma cascata à partir da rocha seca para que seus humildes súditos pudessem aliviar sua sede.
Magnus olhara as imagens, mas aos sete anos não compartilhava o interesse na leitura que sua inteligente e ansiosa irmã de cinco possuía.
— Sul — ele disse. — Para Auranos.
Ela inclinou a cabeça, seus cachos negros saltando.
— Mas nós estávamos lá! E você se machucou! Por que você iria querer voltar?
Ele tocou o curativo na bochecha direita que cobria a ferida, essa que certamente deixaria uma cicatriz horrível. Ele sabia que não poderia contar a sua irmã sobre a lesão, não mais do que ela já sabia. Ela ficaria arrasada ao saber que foi o pai deles quem fez isso, uma reação cruel à tentativa tola de Magnus de roubar uma adaga brilhante e cravejada de joias.
Roubo era considerado tão maligno quanto assassinato em Limeros, com a mais severa das penalidades.
Sua garganta se fechou e lágrimas ameaçaram cair, mas ele as obrigou a recuar. Ele era o irmão mais velho e precisava ser forte. Em Auranos, ele conheceu a família real Bellos, que tinha sido tão gentil e calorosa e acolhedora – três qualidades que os Damoras não compartilhavam. A lembrança da filha deles, a princesa Cleiona, da mesma idade de Lucia, com cabelos dourados que combinavam com o calor do sol auraniano, deu-lhe esperanças desde o retorno à congelada e sombria Limeros de que seu futuro poderia ser tão brilhante quanto.
Porém uma vez que eles voltaram, nada havia mudado. Ele odiava isso aqui. E odiava seu pai.
Ele pensou que, se viajasse para lá e pedisse educadamente, a família Bellos poderia aceitá-lo em seu seio.
— Apenas confie em mim, irmã — ele disse a Lucia — Empacote suas coisas e vamos.
Ela balançou a cabeça.
— Eu não posso ir e você também não. Eu vou contar ao pai!
— Não. — Ele agarrou seu pulso, a raiva queimando como fogo dentro dele. — Você não pode contar a ele. Por favor, prometa que não vai contar nada!
Ela soltou um suspiro trêmulo, seus ombros caíram.
— Muito bem. Eu prometo.
— Eu voltarei por você. Algum dia. Tudo bem?
Ela assentiu e seu lábio inferior tremeu.
— Eu sentirei tanto a sua falta.
Magnus beijou sua testa e se levantou com as pernas trêmulas. Determinação inchou em seu peito quando ele pegou sua pequena bolsa cheia de roupas e várias moedas de ouro em uma saco de pano que ele havia roubado de seu pai, passou furtivamente pela babá, que cochilava em uma cadeira do lado de fora da porta do quarto de jogos, e desceu o corredor com um propósito. Nem um único guarda postado em todo o palácio perguntou-lhe sobre o seu destino enquanto passava por eles. Pelo o que eles sabiam, ele estava indo para a capela para rezar para a deusa.
Ele puxou o capuz de seu manto de lona preta. Tinha pegado do filho de um servo como um disfarce, mas sabia que o tecido fino faria pouco para mantê-lo aquecido. Ele o fechou mais e se preparou contra a noite fria enquanto saía do palácio. Havia uma pequena aldeia a três quilômetros do palácio que seria seu primeiro destino. Lá, ele usaria as moedas que roubara para subornar um adulto para ajudá-lo a conseguir uma passagem a bordo de um navio para Auranos. Ele não diria a ninguém quem era.
Uma tempestade se formava no céu noturno, nuvens grossas bloqueando a lua e todas as estrelas. Iluminados apenas por tochas postas na estrada, os três quilômetros agora pareciam ser como centenas de quilômetros, mas finalmente ele chegou à aldeia. Tremendo, ele empurrou a porta de uma taverna, ocupada com clientes jantando e reclamando sobre o tempo.
— Veja isso. — Um homem mastigando um pedaço de carne com a boca aberta acenou com a cabeça em direção a ele. — Diversão acabou de chegar.
— Eu não sei — seu amigo zombou de Magnus. — Não parece tão divertido para mim. Diga-me, criança, onde está a sua mãe em uma noite amargamente fria como esta noite? Será que ela gostaria de ajudar a me aquecer?
Os dois riram alto disso, pedaços de carne voando da boca do primeiro homem.
Magnus estreitou os olhos.
— Como você ousa falar assim comigo!
— Oh, me perdoe, pequeno lorde.
Eles continuavam rindo.
Magnus mordeu o lábio inferior. Ele não queria deixar transparecer que era o príncipe. Ele era simplesmente um garoto procurando um meio de viajar para um lugar melhor.
— Eu tenho moedas — ele disse. — Quero ir para Auranos.
— Eu pareço um navio para você? — O segundo homem disse — Ou talvez um cavalo com uma carroça atrás de mim? Vá embora, pequeno.
— Espere — o primeiro homem disse, seu olhar se aprofundando no rosto de Magnus, parcialmente sombreado pelo capuz de sua capa. — Você diz que tem moedas?
— Eu... — Magnus hesitou, pressentindo o perigo. Estúpido, ele se repreendeu. Foi tão estúpido anunciar tal coisa. — Deixa pra lá.
Ele se virou, mas o homem agarrou seu pulso, puxando-o para mais perto.
— Dê aqui — o homem zombou. — Eu mesmo poderia usar alguma moeda. Gastei a minha última nesta refeição.
Sem qualquer esforço, o homem arrancou a bolsa de Magnus com força suficiente para sacudir seus ossos. Ele vasculhou lá dentro até que encontrou a pequena bolsa de moedas. Ele abriu os cordões e olhou para dentro, as sobrancelhas se erguendo.
— Muito bom. Você roubou isso? Há mais de onde isso veio? Me diga onde conseguiu isso, criança.
Antes que o homem movesse a atenção das moedas, Magnus se virou e fugiu da taverna, deixando sua bolsa para trás, respirando tão rápido em seu pânico para escapar que ele tinha certeza de que suas entranhas congelariam.
Começou a nevar, grandes flocos batendo em seu rosto e se juntando em seus cabelos. Ele puxou o capuz para cima, enrolando seu manto ao redor dele enquanto o vento chicoteava e a neve grudava em seu rosto e cabelo.
Ele começou a andar, sem saber qual direção tomar. Atrás dele, podia ver o palácio limeriano à distância — um imponente castelo negro sobre a aldeia, suas torres escuras e pontiagudas cortando o céu noturno. Ele se perguntou se seu pai já havia notado sua ausência. Magnus tocou a bochecha enfaixada e se afastou do castelo. Não, ele nunca voltaria. Ele preferiria congelar até a morte do que ver seu pai novamente.
Ele andava em círculos, tentando bolar um plano, tentando descobrir uma maneira de embarcar em um navio sem uma única moeda para gastar ou uma posse única em seu nome, além das roupas que vestia. A noite ficou mais escura, e quando Magnus parou por um momento, olhou ao redor e percebeu com uma sensação de náusea em suas entranhas que estava perdido.
Um grito à sua esquerda chamou sua atenção, vindo do beco entre duas lojas da aldeia. Hesitante, ele se aproximou o suficiente para espiar o corredor.
Era o homem que pegou sua bolsa de moedas antes. Um homem muito maior o pressionava contra a lateral de um prédio. Ele segurava um grande punhal prateado com o cabo carmesim contra a garganta dele. Na outra mão, estava a bolsa de Magnus.
— Você deve ter mais — o homem grande rosno.u — Vamos lá, seja um bom camarada e compartilhe suas riquezas.
— Era uma criança — o primeiro homem engasgou — eu roubei isso de uma criancinha.
— Certamente você roubou.
O primeiro homem virou e encontrou os olhos de Magnus.
— Aquele garoto bem ali! — A atenção do ladrão mudou para Magnus. Magnus fez uma careta quando viu a enorme cicatriz que cobria toda a bochecha esquerda do ladrão.
— Bem, olhe para isso — disse o ladrão, erguendo uma sobrancelha negra e grossa. — Você é uma criancinha.
O primeiro homem aproveitou a oportunidade para empurrar o ladrão e escapar.
Magnus levantou as mãos, lutando contra as lágrimas.
— Não me machuque.
O ladrão pesou a bolsa de moedas na mão e estudou a forma encolhida de Magnus.
— Eu não machuco crianças. Na verdade, eu não machuco ninguém, apesar do que você acabou de ver. Intimidação, claro. Mas ninguém vai derramar sangue por minha culpa. — Ele mostrou a adaga a Magnus. — Eu pintei o cabo vermelho para me lembrar disso. Eu derramei muito sangue no passado, mas essa parte da minha vida acabou.
— Papa — uma pequena voz disse das sombras. — Posso sair agora?
O ladrão soltou um suspiro.
— Ainda não, Kara.
— Eu já saí. — Uma garotinha loira veio para o lado do homem, colocando a mão na dele enquanto ele embainhava o punhal. — Quem é você? — ela perguntou a Magnus.
Seus cabelos dourados e claros lhe recordavam tanto a princesa do sul. Apenas a visão disso o acalmou.
Antes que ele pudesse responder, provavelmente com a primeira mentira que lhe ocorresse sobre sua verdadeira identidade, o ladrão falou.
— O quê? Você não reconhece o herdeiro do trono, o filho do rei Gaius Damora? — O ladrão abaixou a cabeça. — Saudações, Príncipe Magnus. Posso ser tão ousado a ponto de perguntar o que está fazendo em uma noite tão inclemente?
Magnus olhou para ele com choque e mais do que um traço de pânico circulando em seu intestino.
— Você sabe quem eu sou?
— Sei. Eu trabalhava para seu pai até recentemente. Era um desses guardas que príncipezinhos como você não prestam atenção. — Ele pausou, como se esperasse que a notícia assentasse. — Este não é um lugar seguro pra você, vossa alteza.
— Eu não estou com medo. — Mesmo ao dizer isso, ele ouviu o tremor vergonhoso em sua voz que desmentia a afirmação.
— Oh, mas deveria estar.
Magnus tentou parecer tão digno e composto quanto seu pai sempre exigia que ele parecesse. Se este homem fora guarda do palácio, certamente sabia como receber ordens.
— Qual o seu nome?
O homem curvou a cabeça.
— Eu sou Calum Stolo, vossa alteza. E essa é minha filha, Kara.
Estava funcionando. Ele manteve o tom comando em sua voz, tentando se sentir muito mais maduro e equilibrado do que um menino de sete anos.
— Muito bem. Calum, eu ordeno que você encontre para mim uma passagem a bordo de um navio com destino a Auranos. Desejo partir imediatamente.
— Hmm. — Calum olhou para a filha. — O que você acha que eu devo fazer?
Kara deu de ombros.
— Levá-lo para um navio?
— Não acho que isso seja uma boa ideia.
— Por que você fugiu? — Kara perguntou a ele. Novamente, o cabelo dela o fez pensar em Auranos, seus dias quentes, prados verdes e céu azul constante.
— Porque eu odeio o meu pai.
— Todo mundo odeia seu pai — disse Calum, depois franziu a testa. — Bem, não todos. Alguns apenas têm medo dele. Mas eu sei de uma coisa sobre o rei Gaius que me leva a não fazer o que pede, vossa alteza.
Decepção caiu através dele, e Magnus enviou um olhar afiado para o homem alto.
— O quê?
— Se ele descobrir que seu único filho e herdeiro desapareceu, ele irá pessoalmente revirar todos os três reinos de Mítica, de norte a sul, procurando-o. Tem alguma ideia de quantas pessoas se machucariam? Seriam assassinadas? Tudo porque você decidiu que queria deixar sua vida privilegiada e mimada?
— Você disse que não gostaria de mais derramamento de sangue. — Magnus apontou furiosamente para o curativo. — Ele me deu isso! Ele chamou isso de lição e me fez jurar segredo!
Calum não falou por um momento enquanto acariciava silenciosamente sua própria cicatriz.
— Sinto muito pela sua dor, vossa alteza. Verdadeiramente. Mas a vida é uma série de ferimentos. Nossas cicatrizes são como os anéis em um tronco de árvore, mostrando o progresso ao longo da vida. Como nos curaremos e avançaremos através da adversidade... é isso que faz a diferença. Não podemos fugir dos nossos problemas, precisamos enfrentá-los. — Sua expressão ficou séria, sua testa franzida. — Venha. Vou levá-lo de volta para sua casa.
Magnus queria discutir, queria reclamar e gritar e fazer exigências. Mas esse homem estava certo? Seu pai realmente mataria muitas pessoas por sua decisão de fugir?
Sim. É claro que ele mataria.
Com o coração pesado, Magnus relutantemente permitiu que Calum Stolo e sua filha o acompanhassem de volta ao palácio. Assim que entraram no terreno do palácio, guardas correram para cercar o trio. O som de passos pesados desceu pelo caminho congelado, e os guardas se separaram para deixar passar um furioso rei Gaius.
A raiva do rei não estava focada em Magnus, no entanto. Estava focada em Calum.
— Você ousaria roubar meu filho de mim? — o rei rosnou. — Para quê? Resgate? Qual era a sua intenção?
Um guarda arrancou a bolsa de moedas de Calum e entregou-a ao rei, que a inspecionou com cuidado.
— Magnus, venha aqui.
Com apenas um segundo de hesitação, Magnus foi para o lado de seu pai.
O rei sacudiu a bolsa no rosto de Magnus.
— Ele roubou isso de você?
Não, Magnus roubou aquilo do pai. Mas o anúncio disso morreu em sua língua. Em vez disso, viu-se acenando com a cabeça com lágrimas vergonhosas nos olhos, tão assustado que agora tremia. Magnus olhou para Kara, ainda apertando com força a mão de seu pai, e rapidamente desviou o olhar, envergonhado por sua mentira.
— Você está em casa. — Seu pai colocou a mão firmemente no ombro de Magnus, em seguida, agachou-se na frente dele. — Você está seguro. Graças à deusa.
— Vossa Majestade... — Calum começou.
— Silêncio. — O rei ergueu-se a toda a altura intimidante, o rosto uma máscara de ódio. — Eu permiti que você deixasse seu posto, Stolo, já que era incapaz de continuar fazendo o seu trabalho no nível que eu precisava depois de sua lesão. E é assim que me paga por essa bondade? Sequestrando meu filho e roubando de nós? — Ele acenou para os guardas. — Levem-no para as masmorras. Quero que ele seja executado imediatamente.
— Não! Papa! — Um grito escapou de Kara quando seu pai foi arrastado pelos guardas em direção à masmorra.
— Deixe minha filha ir! — Calum exigiu. — Ela não teve nada a ver com isso.
— Sim. — O rei assentiu e sacudiu o dedo. — Deixe a garota ir. Ela pode congelar lá fora esta noite que eu não me importo.
Os olhos arregalados de Kara estavam em Magnus, esperançosos, como se esperasse que ele dissesse algo para impedir isso.
Mas Magnus não tinha palavras. Ele não podia admitir a verdade, não agora. Sua punição seria muito pior do que qualquer bochecha cortada. Mentiras – especialmente para o rei – eram frequentemente recebidas com a língua do mentiroso arrancada de sua cabeça.
Eu sinto muito, ele pensou enquanto a garotinha – lágrimas escorrendo pelas bochechas sardentas dela – se virava e corria para a fria noite nevada.


A lembrança daquele momento horrível estava tão fresca hoje como se tivesse acontecido ontem.
— Você quer me matar — Magnus falou, sua garganta seca.
— Quero matá-lo faz 10 anos. — Kara confirmou.
— Talvez eu possa lutar pela minha vida.
Ela riu disso.
— Infelizmente, não acredito que você possa. Estive observando-o ultimamente. Eu testemunhei suas aulas de esgrima... você parece pouco interessado em erguer a arma, muito menos em aprender a lutar com ela. Se ganha algum duelo, é apenas porque seu oponente o permite. Arco e flecha é uma piada, mas novamente, ouvi que despreza a caça. Por que aprender a apontar uma flecha? Não tem havido uma guerra em gerações, e você está todo confortável e aconchegado aqui atrás das paredes do palácio. Não parece que quer mais fugir, não é? Então, não, eu não acho que você poderia lutar por sua vida agora mesmo, não sem ter sua garganta cortada.
Ele queria discutir com ela, mas sabia que era a verdade.
— Você acha, não é?
— Vamos lá, o príncipe de Limeros é conhecido por uma coisa... seu senso de humor profundamente sombrio. Você não tem melhor resposta para mim? Gostaria de me comparar com as garotas que o seguem por aí, babando em você, esperando pela chance de aparecer em seu caminho? Aquelas que fingem que não acham a cicatriz em seu rosto repulsiva?
Ele recuou.
— Suas palavras são tão afiadas quanto sua adaga. É a adaga do seu pai, não é?
— Demorei algum tempo para recuperá-la. Apenas recentemente, na verdade. Esse punhal era importante para ele; representava a nova vida que ele queria levar, que não continha a violência que era necessária quando ele trabalhava para o seu pai. A nova vida que você roubou dele.
— Eu nunca quis que ele fosse executado. — Sua mandíbula ficou tensa. — Eu entendo sua necessidade de vingança, mas deve haver outro caminho. Eu sei que você não vai acreditar em mim, mas o que aconteceu... Eu me arrependi profundamente.
— Sério?! — Ela inclinou a cabeça. — Então prove.
— Como? Morrendo devagar? Ou prefere que seja rápido?
— Quando peguei esta adaga de um guarda que escolheu vendê-la a um ferreiro local, também descobri a verdade depois de todo esse tempo. Meu pai não foi executado como o rei ordenou.
Os olhos de Magnus se arregalaram de choque.
— O quê?
A expressão dela permaneceu sombria, em vez de aliviada com a notícia.
— Isso mesmo. Ele está no calabouço. Ainda. Depois de todos esses anos. Pelo menos — ela continuou, a preocupação deslizando através de seus olhos castanhos — foi o que me disseram. Eu não quero ter esperança, não depois de todo esse tempo, mas se houver uma pequena possibilidade... — sua atenção voltou para o rosto de Magnus, e a borda de seu punhal cortou mais perto de sua garganta. — Você vai me ajudar a libertá-lo.
— Vou? E se eu não ajudar?
— Então eu vou matar você e encontrar outro jeito de libertar meu pai. Simples assim.
— Simples, certo.
Ele olhou o punhal carmesim cautelosamente.
— Prefiro que ninguém descubra que uma garota que parece tão pequena e inocente como você me forçou a me submeter ao seu pedido sob ameaça de morte. Eles provavelmente não acreditariam em mim de qualquer maneira.
— Garotas podem ser perigosas — Kara disse a ele. — Especialmente garotas que parecem pequenas e inocentes.
— Eu vou me lembrar disso.
— Certamente. Vamos lá.
— Eu preciso me vestir adequadamente. Estou vestindo um camisolão de dormir.
— Percebi. — Ela acenou com a cabeça em direção a uma cadeira de madeira ao lado da lareira apagada. — Enquanto você roncava pacificamente, tomei a liberdade de pegar sua capa e suas botas. Nada mais é necessário.
Lentamente, tomando cuidado com o punhal que ela ainda insistia em segurar a centímetros de sua carne, Magnus deslizou da cama. Manteve os olhos em Kara quando calçou as botas de couro preto e puxou o manto negro sobre a fina camisa cinza de dormir. Suas pernas pareciam nuas mesmo cobertas pela roupa de lã.
— Você vai liderar o caminho. — Ela gesticulou com o punhal. — Mova-se.
— Como você entrou aqui, afinal? — Ele perguntou quando saíram de seus aposentos e desceram o corredor.
— Eu tenho os meus meios. Uma garota aprende muito em dez anos sem ninguém para protegê-la. Você direcionou um pensamento para mim durante todo esse tempo? Ou me esqueceu no momento em que mentiu para o rei sobre o que meu pai fez?
Ele queria se virar e olhar para ela, mas manteve o olhar fixo no corredor de pedra, iluminado por tochas, que os levaria ao seu destino.
— Eu pensei em você, mas percebi que você também estava morta. Eu me lembro de ser uma noite fria e uma das piores tempestades de neve do ano. O que você tinha, seis anos na época?
— Sete.
— Da minha idade.
— Acredito que sim. Há guardas à frente. Por favor, jogue junto, Vossa Alteza. Eu não gostaria de acrescentar mais cicatrizes à sua coleção atual.
Essa garota era tão boa com um punhal que se sentia tão confiante no meio do palácio, cercada de inimigos? Uma única palavra dele para um guarda de passagem significaria o fim de sua vida em meros momentos.
A culpa por suas escolhas naquela noite, tanto tempo atrás, manteve a sua boca fechada, e tudo o que ele fez foi acenar com a cabeça rapidamente para os guardas quando passaram.
— Para responder à sua pergunta... — disse Kara — ... fiz amizade com algumas criadas que faziam compras na aldeia na semana passada. Elas me arranjaram um emprego aqui como camareira depois que eu lhes contei o quanto precisava de dinheiro para sobreviver. Meninas gentis, elas eram. Não tinham ideia de que eu menti em cada palavra que falei.
— Elas ainda estão vivas? — ele perguntou firmemente.
— É claro que estão. Eu não sou uma assassina.
— Você disse que matou quatro homens.
— Quatro homens que mereceram as mortes prematuras, acredite em mim. Sei que até meu pai teria aprovado tal violência. Para onde agora? — ela perguntou enquanto ele a levava para fora do palácio, passando pelos jardins de gelo, e por um caminho que levava a um conjunto de escadas esculpidas no penhasco no topo do qual o palácio se empoleirava.
— Quase lá. Eu não desço aqui muitas vezes.
— Tenho certeza disso. — Foi dito com tanto desdém que ele finalmente lançou um olhar por cima do ombro. — O que você está olhando? ela perguntou com firmeza.
— Alguém que possui mais veneno em suas veias do que eu.
— Me poupe de suas observações, Vossa Alteza — ela disse sem um pingo de respeito. — Eu não preciso da sua piedade ou compreensão. Tudo o que preciso é do meu pai.
— Dez anos. — ele disse. — É muito tempo se ele estiver realmente trancado aqui. Esse tanto de tempo pode mudar alguém. Torná-los sombrios, bravos, amargos... loucos, mesmo.
— Continue andando. — Ela espetou-o nas costas com o punhal e ele lançou um olhar odioso para ela. — Ou eu vou prendê-lo em algum lugar por uma década, e você pode descobrir se é verdade.
Uma única sentinela estava na porta principal da masmorra, uma enorme porta de ferro que exigia um homem tão grande e musculoso como aquele guarda para abri-la.
— Vossa Alteza. — O guarda curvou-se ao ver Magnus baixar o capuz para mostrar seu rosto.
— Eu desejo entrar nas masmorras. — Ele disse calmamente.
O guarda levantou sua cabeça grande, a testa franzida com uma carranca.
— Mal amanheceu.
— E?
— E... este parece um pedido anormal — ele olhou para Kara parada atrás de Magnus. — Vossa Alteza, está tudo bem?
Uma palavra. Uma simples palavra: Não. Isso era tudo que precisava para acabar com isso.
Magnus tocou seu pescoço onde Kara havia pressionado seu punhal. Ele desprezava que lhe dissessem o que fazer sem qualquer escolha no assunto. Acrescente a isso à ameaça de morte se ele não obedecesse e a acusação de que ele era um mentiroso e um covarde que não sabia como lutar...
O herdeiro do trono precisava ser respeitado por todos, não importando o que esse respeito exigisse. Seu pai mostrou-lhe isso com todos os comandos, todas as ações, todas as execuções que ordenou. Cada lei que ele criou. Cada vez que atingiu Magnus, foi para ajudar a torná-lo mais forte.
Magnus tentou dizer isso a si mesmo todas as noites antes de dormir, um sono que era frequentemente atormentado por pesadelos – incluindo o rosto de Calum naquela noite nevada quando ele se separava de sua filha.
Um dia, entretanto, o trono seria dele, e ele seria o suficientemente forte para criar leis e exigir execuções. Um rei não se permitia ser ameaçado por uma simples menina escorregadia carregando nada além do punhal do seu pai e uma boca cheia de ameaças vazias.
Uma palavra de Magnus para este guarda, e estaria terminado.
Ele olhou por cima do ombro e viu que havia um brilho de suor na testa de Kara. Suas mãos estavam escondidas sob as dobras de seu manto, presumivelmente também escondendo o punhal. Seu olhar disparou do guarda para ele. A mente de Magnus relampejou àquela noite de neve dez anos atrás. Ela tinha então o mesmo olhar em seu rosto que agora, seus olhos azuis arregalados, os lábios em uma linha fina e reta.
Ela estava assustada.
Magnus se virou totalmente para o guarda.
— Qual o seu nome?
— Francis, vossa alteza.
— Francis, parece uma boa ideia discutir comigo. Não é?
— Discutir? Não, Vossa Alteza, não mesmo.
— Eu disse que desejava entrar nas masmorras e ainda assim a porta não está aberta para a minha entrada. Por certo, meu pai deverá saber da hesitação do que pedi exatamente para você fazer.
— Não mesmo, Vossa Alteza. Me desculpe.
Francis foi até a porta, colocou as mãos enluvadas no cabo, torceu, e com os músculos flexionando, empurrou a porta para dentro.
— Bom. — Magnus assentiu enquanto entrava nas masmorras. — Você vai nos acompanhar. Minha amiga e eu estamos procurando um prisioneiro aqui com de nome Calum Stolo. Supostamente, ele está aqui há dez anos.
O guarda franziu a testa.
— Calum Stolo...
— Deve haver um registro, alguma forma de organização. Eu devo admitir, não tenho a mínima ideia de como essa masmorra funciona, mas acho que você sabe.
— Sim. É claro. Eu vou checar imediatamente. — Francis fez uma reverência e o grande guarda saiu correndo para fazer o que o príncipe ordenara.
Houve silêncio então no corredor escuro, e Magnus olhou em volta para o teto alto acima deles, esculpido no penhasco. O gotejamento de água era um som constante aqui, e vozes ecoavam contra as paredes de pedra. Havia três túneis no corredor, e Francis desapareceu no do meio.
Kara não disse uma única palavra desde que ele saiu. Ela também não tirou o punhal carmesim de seu esconderijo novamente.
— Você vai realmente me ajudar — ela finalmente sussurrou.
— Eu vou tentar.
Ela suspirou estremecida.
— Príncipe Magnus, obri...
Ele ergueu sua mão.
— Não me agradeça ainda. Francamente, nenhuma gratidão sua é necessária, jamais. Se eu soubesse que seu pai ainda estava vivo... — Ele suspirou. — Eu não sei o que teria feito, para ser honesto. Mas se eu conseguir acertar hoje, darei o meu melhor.
Ela assentiu enquanto o guarda retornava com um pergaminho.
— Você disse Calum Stolo — Francis deslizou o dedo indicador pela página. — Sim, aqui está o registro dele. Parece que ele morreu há dois anos, morto por outro prisioneiro.
— Não! — Kara gritou.
Francis ficou tenso ao ouvir seu grito. Magnus não conseguia encontrar os olhos dela. Na verdade, queria olhar para qualquer outro lugar além de Kara.
Não poderia ter acabado. Não tão facilmente assim. O som do grito de pesar de Kara o perseguiria pelo resto de seus dias.
Magnus cerrou os dentes.
— Verifique novamente.
Francis segurou o pergaminho perto do peito.
— Vossa Alteza, eu acabei de verificar e...
Magnus se lançou para frente, segurando a frente da túnica do guarda em uma mão.
— Verifique novamente — ele repetiu.
— Sim, senhor. É claro, senhor. — Francis alisou o papel amassado diante dele. A testa do guarda enrugou-se. — Não, não. Desculpe, minha visão não é tão boa quanto costumava ser. Essa foi a entrada anterior. Calum Stolo está aqui... sim, já faz dez anos.
O aperto no peito de Magnus diminuiu em uma fração.
— Por que ele foi poupado da execução por tanto tempo?
— Vossa Alteza, eu não sei. Normalmente, quando alguém está aqui há muitos anos, significa simplesmente que a sua existência foi esquecida.
— Leve-me até ele — disse Kara com firmeza.
Francis levantou uma sobrancelha para ela.
— Jovem senhorita...
— Faça exatamente como ela diz — Magnus ordenou com o máximo de comando em sua voz. Este não era o momento de vacilar, especialmente agora que haviam encontrado uma esperança renovada. Ele fez sua escolha, e ele veria essa decisão até o fim, qualquer que fosse.
O guarda assentiu, e Magnus e Kara seguiram-no pela passagem da direita, que levava a um longo corredor alinhado com portas de ferro. Magnus segurou a manga no nariz para bloquear o fedor de fluidos corporais, carne podre e morte. Ele desejou que também pudesse tapar as orelhas para os gemidos e gritos desesperados que reverberaram por trás das portas.
— Não reaja — Magnus disse calmamente para Kara, agora andando ao seu lado. — O que quer que você veja, não reaja de qualquer forma que possa causar alarde desse guarda. Não queremos que ele traga nenhum de seus amigos para cá, está bem?
Ela assentiu com um único movimento de cabeça.
— Tudo bem.
Francis conduziu-os até o final do corredor e desceu um lance de escadas, mais fundo na masmorra, para outro corredor.
— Aqui. — Ele colocou a mão em uma das portas de ferro.
— Abra — Magnus disse.
Desta vez, Francis não discutiu. Ele pegou um anel de chaves de seu cinto, rapidamente escolhendo uma e deslizando-a na fechadura. Com um som desagradável, ele girou o trinco e abriu a porta.
Dentro de uma cela que não era muito mais larga que quatro ou cinco passos estava um homem encostado contra a parede, o rosto sujo e cheio de cicatrizes coberto por uma longa barba, os olhos vagos.
Kara se moveu para ele, mas Magnus pegou seu braço para impedi-la. Ele manteve seu rosto em branco, desprovido de qualquer emoção.
— Ele sairá junto conosco. — Magnus disse para o guarda. — Eu estou oficialmente perdoando-o por seus crimes.
— Vossa Alteza, um perdão só pode ser dado pelo próprio rei.
Apenas um guarda à vista. Talvez houvesse outros, mas Magnus não vira um único. Apenas uma testemunha.
Mas o que ele faria? Matá-lo? Magnus nunca matou nada em sua vida. Kara não estava errada em sua observação de suas pobres habilidades de luta, não que ele fosse escolher matar esse guarda simplesmente por ficar em seu caminho.
Havia outras maneiras de um príncipe real conseguir o que queria.
— Diga-me, Francis. Pode um bom, honrado e leal guarda como você ser subornado para libertar um prisioneiro que todo mundo, certamente o próprio rei, esqueceu há muito tempo? — Magnus perguntou devagar.
— Vossa Alteza? — Francis deu-lhe um olhar de choque, mas foi um que também continha um pedaço de interesse.
Não demorou muito para que Magnus e Kara saíssem da masmorra com Calum Stolo entre eles. Ele andava devagar, rígido e não emitiu um único som. Não disse uma única palavra. Mas ele ainda era capaz de andar, o que Magnus tomou como um bom sinal.
Magnus os acompanhou até a aldeia a três quilômetros dali, onde os conheceu há dez anos. Ele raramente vinha aqui, especialmente sozinho. Esta manhã seria uma exceção.
Kara observou seu pai com cautela, acariciando os cabelos grisalhos da testa.
— Papa, você pode me ouvir?
Magnus não queria apenas ir embora, ainda não. Depois de tudo o que soube em tão pouco tempo sobre Kara e seu pai, ele precisava saber se tudo foi em vão. Se o homem não fosse melhor do que um vegetal, sua culpa por aquela noite tempestuosa continuaria. E os pesadelos... por mais infrequentes que se tivessem tornado ao longo dos anos, ele queria que parassem.
Ele olhou para o rosto do homem à sombra da aldeia. Uma padaria tinha acabado de abrir para o dia, e o cheiro de pão recém-assado batalhava com o fedor do pai de Kara, por tanto tempo prisioneiro.
— Você está aí, Calum? — Magnus perguntou baixinho. — Eu sinto muito por como aquela noite acabou. De verdade.
Calum piscou uma vez. Então de novo.
E então sua mão disparou e agarrou a garganta de Magnus tão apertada quanto o laço de um carrasco.
— Você... — Calum conseguiu dizer, seus lábios descascados, com dentes podres, sujeira cobrindo seu rosto marcado. — Você me deixou lá, todos esses anos...
— Eu... não... sabia... — Magnus não conseguia respirar, não conseguia pensar. Para um homem que tinha estado em uma cela de masmorra por uma década, ele tinha a força de dez cavalos.
— Papa! — Kara chorou. — Papa, ele não sabia! Ele não sabia que você estava lá! Ele pensou que você estava morto. Ele é a razão pela qual eu fui capaz de libertar você. Você está livre. Papa, você está livre!
Calum congelou ao som de sua voz; seu aperto na garganta de Magnus se afrouxou. Ele se virou para olhar para a filha e arregalou os olhos como se a visse pela primeira vez.
— Kara...
 Ele soltou Magnus e desmoronou em um abraço apertado nos braços de sua filha. Levou vários instantes antes que ele se virasse para olhar para Magnus novamente.
— Você não sabia — ele disse, a dúvida ainda revestindo suas palavras.
Magnus balançou sua cabeça.
— Não. Mas eu sei que você quer que eu pague por todo o sofrimento que suportou desde então. Eu mereço punição pelo o que fiz. Eu aceito isso.
Calum soltou um som seco e ofegante, uma tosse ou uma risada.
— Você era apenas um menino.
— Isso não é desculpa.
— Não, não é uma desculpa. Mas é uma razão. Você era uma criança de sete anos apavorada com seu pai. Eu vi em seus olhos – esse medo. Pensei que sua vida poderia ser diferente com ele do que experimentei como seu guarda, que ele iria valorizá-lo e tratá-lo como ouro. Mas ele não o faz, não é? Nem mesmo agora.
Este homem tinha grandes habilidades de observação.
— Meu pai faz o que faz porque é rei e sabe melhor.
— Bah. Seu pai faz o que faz porque ele é um porco bastardo fedorento. Para dizer o mínimo. — Ele olhou nos olhos de Kara, e uma profunda paz caiu sobre suas feições. — Eu estou livre.
Ela assentiu.
— Sim. Finalmente.
Calum se virou novamente para Magnus.
— Temos família em Terrea. É para lá que vamos em seguida, eu acho. Preciso me recuperar longe desse reino congelado. — Ele hesitou. — Você fugiu naquela noite em que nos encontramos por um motivo. Ainda quer fugir?
Magnus engoliu o nó na garganta.
— Algumas vezes, quero. Enquanto meu pai estiver vivo, admito que o desejo de fugir ainda existe.
— Então fuja de novo — disse Kara, estendendo a mão para pegar a dele, seu olhar tentativamente esperançoso. — Conosco.
A sugestão o fez sorrir. Fugir, aos dezessete anos, e começar uma nova vida longe daqui. Outra família, outro reino, outro futuro.
— Temo não poder — disse ele, afastando-se do seu toque e dando alguns passos para trás. — Veja bem, o décimo sexto aniversário da minha irmã está chegando. Há um banquete real planejado, que eu devo participar.
— Vossa Alteza... — Kara começou.
Magnus balançou a cabeça, resoluto.
— Eu sou o herdeiro do trono, e meu futuro não tem nada além de poder e grandeza. Por que eu iria querer me afastar disso para começar uma nova vida em outro lugar?
Ele deixou suas palavras se estabelecerem, esperando o impulso de superá-lo, para que ele fizesse exatamente o que eles sugeriam e se despedissem de Limeros para sempre.
O desejo estava certamente lá, mas não forte o suficiente para ele agir sobre isso.
— Boa sorte para vocês — disse ele, assentindo. — Vocês dois.
Então, segurando o olhar de Kara por um momento mais longo, ele se virou e fez seu caminho de volta para seu pai, sua mãe, sua irmã e para o único lar que ele já conhecera.


Tradução: Joyce Marielle

8 comentários:

  1. Gente não acredito 😄 amoo de paixão Obrigada Karina vc é de mais 😘

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  2. Ângela Nascimento18 de março de 2019 18:06

    😢😍😍 Perfeitoo

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  3. A gente ler antes ou depois de qual livro?

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    Respostas
    1. Pode ser em qualquer momento, pois esses dois contos se passam antes dos eventos de A Queda dos Reinos, quando Magnus ainda era mais novinho

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Boa leitura, E SEM SPOILER!