26 de janeiro de 2019

Capítulo 9

Meira

TENTO SAIR AOS tropeços da comemoração, mas Nessa suplica a Sir que me deixe descansar, e nem consigo expressar o quanto sou grata pela insistência dela. Nessa corre para acender velas em meu quarto, e Sir se fixa ao portal, entre Conall e Garrigan, que retomam os postos como se nada tivesse mudado. Como se eu não tivesse tido outro ataque de pânico e basicamente nos condenado a uma invasão cordelliana.
Sir cruza os braços.
— Vou com você.
Desabo na cama, com um braço sobre os olhos enquanto ouço o sussurrar constante de velas se acendendo.
— Não. Precisa ficar aqui, caso Cordell... — Paro.
Noam vai ficar para se plantar mais firmemente em Inverno durante minha ausência. Fui uma tola.
— Minha rainha, imploro a você que...
— Você implora? — Eu me sento. — Mas acho que é apropriado, um general implorando à rainha dele. Estou cansada demais para discutir isso, Sir, então considere sua súplica ouvida. Mas vai ficar aqui mesmo assim.
Quando comecei a falar, o comportamento de Sir estava severo, defensivo, mas agora ele se recosta junto ao portal, os olhos brilham com uma emoção que jamais vi nele: orgulho.
Sir tem orgulho de mim.
A garotinha em meu interior, aquela sempre tão ansiosa pela aprovação de Sir, se desfaz. Mas será que ele ainda teria orgulho se soubesse o quanto estou lutando para permanecer calma assim? Se soubesse da batalha tempestuosa em minha mente, da luta entre Meira, a órfã soldada, e a rainha Meira?
Sir tem orgulho de alguém que não existe.
— Tudo bem — diz ele. — Mas Henn irá com você. E Conall e Garrigan, obviamente.
— E eu — acrescenta Nessa, segurando uma vela acesa. — E Dendera vai querer ir com Henn.
Assinto.
— Tudo bem, mas chega, quero que as pessoas fiquem em Inverno caso Noam tente alguma coisa. Planejo encontrar aliados para nós, independentemente do fato de ele saber disso, mas precisamos de uma presença firme aqui enquanto eu estiver fora.
— Não deixaremos que meu pai saia impune disso.
A voz invade o quarto, junto com um súbito “Alto!” de Conall.
Fico de pé subitamente quando Theron entra às pressas, os cabelos se soltando do coque. Sir estica o corpo, tão pronto quanto Conall e Garrigan para tirar Theron do quarto.
Mas ergo as mãos.
— Não, tudo bem. — Olho para todos os demais. — Podem nos dar licença?
Sir estaca, o olhar dele dispara de Theron para mim. Eu me preparo para discutir com Sir, declarar meus motivos, quando ele assente.
— Conall e Garrigan estarão do lado de fora — diz ele, mais para Theron do que para mim. — Eu preciso voltar para a comemoração.
Meus ombros se curvam para a frente. Ainda parece errado quando ele não discute comigo.
Mas Sir vai embora, Nessa o segue, e Conall fecha a porta com um último e breve franzir de testa para Theron. Quando a porta se fecha, Theron relaxa, a tensão nos ombros dele se dissipa.
— Eu sabia que você estava planejando algo — começa Theron. — Mas jamais achei que seria aquilo.
Toda a mágoa que tenho contido faz força para inundar o ar entre nós, mas mantenho a expressão estoica.
— Como sabia?
— Porque quando entrou no salão de baile — Theron sorri —, estava com o mesmo olhar que tinha logo antes de se trancar no escritório de meu pai em Bithai.
Não consigo sorrir de volta para ele, embora sinta o quanto Theron quer desesperadamente que eu o faça.
— Estava errada — digo. — Não deveria ter escondido o que é devido a seu reino. Nós pagaremos a dívida com Cordell. — Em algum momento.
Theron dá um passo adiante, perto o bastante para que eu consiga sentir o calor emanar do corpo dele.
— Não precisa falar comigo assim. Estou do seu lado.
— Não está, não — disparo, com o maxilar tenso. — Você é Cordell, tanto quanto eu sou Inverno. Sempre precisará escolher seu reino a mim.
— Não chegará a esse ponto. — A força das palavras de Theron me cala. — Sei que está com raiva de mim por ter contado a meu pai sobre o abismo de magia, mas defendo o que fiz. Sabe por que ele me deixou ficar tanto tempo aqui? Porque espera que eu relate seu progresso sempre que retorna, como se você fosse uma propriedade dele que eu devo supervisionar. Não continuarei vivendo dessa forma quando uma solução está tão próxima. Precisamos dessa magia, Meira, e precisamos do apoio de Cordell para procurar pelo mundo. Depois que tivermos as chaves, nós conseguiremos controlar a abertura daquele abismo. Não meu pai. Poderemos dar magia a todos.
Ele está muito determinado, a confiança irredutível e cega. Seguro um suspiro na garganta, mordo a língua enquanto luto contra contar a verdade a Theron. Mas se esse é o objetivo dele... Precisa saber o que poderia acontecer.
— Se todos no mundo tiverem magia, ela será usada para coisas negativas também — começo. — Isso deu força a Angra, uma Ruína que foi criada pelo uso negativo de magia. Ela retornará e deixará o mundo sombrio. Não posso permitir que aconteça.
— O quê? — Theron hesita. — Como sabe disso?
Como, de fato? Minha mãe morta me contou por meio de nossa conexão com magia de condutor porque, aliás, Theron, eu sou o condutor de Inverno. Inteiramente.
— Enquanto eu estava em Abril, eu... Ele me contou. Tentou me destruir. Funcionou.
Mentiras, mentiras, mentiras.
Theron semicerra os olhos. A princípio, parece incrédulo, mas quanto mais o silêncio se prolonga, mais percebo que está me avaliando.
— Por que não acha que somos fortes o bastante? — pergunta Theron. — Angra pode ter sido alimentado por esse uso negativo de magia, mas e quanto à bondade em Primoria? As pessoas boas não merecem ser poderosas?
— A questão não é quem merece o quê... Alguém vai usar a magia negativamente. Você não acredita de verdade que todos no mundo são confiáveis?
— Não, mas preciso acreditar que somos fortes o bastante como um todo para enfrentar qualquer mal que surja. E se estivermos cientes do que vai acontecer, e todos tivermos magia para combater esse mal, podemos superar qualquer coisa.
A ferocidade da fé de Theron na bondade do mundo parte meu coração. Nessa tem a mesma inocência, vê apenas o bem, ignora o mal.
Reconhecer isso em Theron extingue minha certeza. Quero que ele acredite na bondade do mundo. Preciso que acredite nisso, pelo garoto apavorado que se encolheu na cela de Angra e reprime tais lembranças. Como a felicidade de meu povo, a de Theron parece um punhado de neve aninhado na jaula que são minhas mãos. Mas em vez de estar em um lugar frio e maravilhoso onde isso pode prosperar, estou em algum lugar quente e sufocante, o calor lambe meus dedos e tenta, com toda força, derreter a neve ali dentro.
Encontrarei uma forma de manter o mundo a salvo do mal uso da magia. Não preciso da ajuda de Theron para fazer isso — preciso que ele permaneça como é.
— A bondade precisa ser preservada — digo, em concordância que não é exatamente concordância. — Mas vou encontrar aliados que fiquem ao meu lado contra seu pai, se chegarmos a esse ponto. Isso pode levar à guerra com Cordell, e não vou pedir que você...
Uma das mãos de Theron segura minha bochecha, a outra se apoia em meu ombro, fazendo uma carícia suave. Mas a distância criada quando Theron contou ao pai sobre o abismo aumenta entre nós, e não inclino o corpo junto ao dele como costumava fazer.
— Não precisa me pedir que apoie você — diz Theron. — Conheço os riscos e eles superam, sempre superarão, as consequências. Vamos partir para encontrar as chaves. Buscaremos nos monumentos e nos arquivos de cada reino e, pelas folhas douradas, até nos cofres se precisarmos, mas a magia não cura tudo. Este mundo está dividido há muito tempo.
Franzo a testa.
— O que está dizendo?
Theron desliza a mão para trás de minha cabeça, me segurando.
— E se essa viagem não fosse apenas um disfarce para apresentar Inverno ao mundo? E se realmente fosse o que você planeja para ela, uma forma de encontrar aliados, porém mais? Podemos partir com outra intenção além de encontrar as chaves: unir os reinos de Primoria em paz perpétua e duradoura. Se eu fizer um tratado, podemos apresentar aos reinos do mundo. Pela primeira vez em séculos, não há guerra entre qualquer um dos reinos de Primoria. Podemos aproveitar essa oportunidade, e quando o abismo se abrir, traremos magia para um mundo já a caminho de se curar.
Ouvi um discurso como esse antes, mas proferido de lábios bem diferentes. Mather sonhava com tais coisas, quando era rei e eu, apenas uma soldada. Só que seu desejo era que as pessoas fossem julgadas pelo seu caráter, não por gênero e linhagem, e daí viria a paz e a igualdade. Naquela época, eu era inexperiente o bastante para acreditar que poderíamos alcançar tal equilíbrio, mas já vi muito agora. Paz permanente e equilíbrio são metas impossíveis. Muito melhor seria almejar um estado geral de igualdade, para que, não importa o mal que um reino conjure, jamais fosse imbatível.
E se a magia se espalhar entre todos, males como esse preencherão o mundo.
Meu corpo fica tenso sob as mãos de Theron.
— Estamos sem guerra há apenas três meses, e Inverno já está à beira do conflito com Cordell. Paz é... impraticável.
Theron faz que não com a cabeça.
— Não se o mundo assinar um tratado que una uns aos outros. Quando problemas surgirem, intercederemos; quando males surgirem, nos uniremos. E quando levarmos isso a eles, Ritmo e Estação juntos, mostraremos como esse futuro pode ser.
Ele curva o pescoço para baixo e toca os lábios nos meus em um beijo faminto, poderoso, como se tentasse me transmitir a certeza que sente. Não consigo processar o que acontece rápido o suficiente para decidir se deveria ou não me afastar.
Theron quer usar a viagem para procurar uma forma de abrir o abismo de magia sob o pretexto, que não é um pretexto, de unir o mundo. O que parece uma meta linda e admirável, não fosse pela mera impossibilidade dela. Mal tenho certeza se encontrarei aliados subornando-os, quem dirá fazer com que reinos Ritmo concordem com um estado de paz e unificação com todos os reinos Estação.
A compreensão me atinge como um soco.
Theron encontrou um motivo legítimo para ir até Verão, Yakim e Ventralli. Um que não envolve Inverno — ou, pelo menos, Noam seria capaz de argumentar que não envolve.
Cordell não precisa de mim nessa viagem. E encontramos o abismo de magia — Cordell também não precisa mais de Inverno.
Eu me afasto, tocando a testa de Theron com a minha.
— Já contou a seu pai sobre isso?
Theron fecha os olhos, os braços dele se abaixam e envolvem minha cintura.
— Não. Pode ser melhor esperar até depois que Yakim e Ventralli assinem. Posso assinar por Cordell no lugar dele.
Expiro. Noam não sabe.
Theron se move para me beijar de novo, e me vejo à beira de um precipício que jamais imaginei: se discordar do plano de Theron para a paz, será que ele vai correr para o pai em busca de apoio como fez com o abismo de magia, independentemente dos próprios motivos?
Os lábios de Theron se movem até meu maxilar, descem devagar por meu pescoço com toques suaves. Ele geme, um som baixo que dias antes teria derretido cada nervo em meu corpo. Mas agora não consigo sentir nada além dos pensamentos que obstruem minha mente.
Isso é política. Essa é a vida de uma rainha — esconder coisas, fazer sacrifícios, guardar segredos, tudo pelo bem de meu reino. É para isso que Dendera e Sir e todo mundo parecem me empurrar, pelo menos — uma vida de fingimento e de ocultar a verdade.
Theron desliza a mão por minha coluna, os lábios dele pairam sobre minha orelha em uma pausa que me deixa consciente.
Afasto o corpo dele.
— Deveríamos... Deveríamos dormir um pouco. Foi um longo dia.
Ele para. A percepção se estampa em seu rosto e Theron faz que não com a cabeça, o tom de pele se intensifica com um rubor escarlate.
— Sim. Não deveríamos... — Ele se recompõe um pouco e coloca o espaço de um braço entre nós. — Não vou forçá-la a fazer nada que não esteja pronta para fazer.
Meu próprio rubor aquece cada superfície da pele. Não tinha sequer pensado naquilo. Mas quando olho para Theron agora, percebo que provavelmente deveria, ao menos para decidir o que espero de nosso relacionamento.
— Eu sei — digo. — Só... Não quero que fiquemos juntos porque queremos que o conforto afaste nossos pesadelos ou porque sinto...
Que tenho uma dívida com você.
Theron me salva de precisar explicar ao tomar minha mão. Ele está tremendo, um tremor que passa para meus músculos e ricocheteia por meu corpo.
— Não precisa explicar — sussurra ele, com a voz grave e inebriante. — Sei que as coisas andam caóticas, mas realmente acredito que essa viagem será o início de um fim para esse caos. Em breve, só teremos que pensar em nós.
Parte de mim quer rir disso, da ideia de ser tão despreocupada que meu único pensamento é em um garoto. Não consigo prever que isso algum dia aconteça.
Theron aperta minha mão e recua, o momento passa.
— Partiremos em alguns dias — diz ele para mim. Theron faz uma reverência na altura da cintura, sem tirar os olhos de mim. — Lady Meira.
Forço um sorriso fraco.
— Príncipe Theron.
Ele oferece um último sorriso e sai.
Esse dia se esforçou para me destruir, uma avalanche de emoções após a outra. E quando Theron fecha a porta do quarto atrás de si, a porta que dá para minha varanda range e sou atingida pelo pensamento entorpecedor de que ainda não acabou.
Uma figura cambaleia para dentro do quarto, oscilante como se movida pelo vento.
Não, não, não.
Apenas um olhar para Mather basta para arruinar o controle que ergui essa noite.
Tudo o que sou agora é a verdade por baixo: trêmula e sofrendo e desesperadamente apavorada. Foi há apenas algumas horas que fiquei feliz pela forma como a presença dele me desmanchava?
— O que está fazendo aqui? — resmungo, mas franzo a testa quando os olhos vermelhos de Mather têm dificuldade em se fixar na minha direção. — Está bêbado?
Mather belisca a pele acima do nariz e gargalha, como se estivesse chocado por ter conseguido.
— Espere, espere... — Mather ergue dois dedos para mim. Levo um momento para perceber que está imitando o que costumava fazer na época que me surpreendia quando criança, dois dedos no meu pescoço no lugar de uma arma. — Está morta — declara Mather. — E eu posso beber.
Afasto a nostalgia.
— Escalou bêbado até minha varanda?
— Eu estava perfeitamente equilibrado — diz Mather, arrastado, e cambaleia um passo para a frente, dando uma trombada no pé da minha cama. A gargalhada na expressão de Mather se dissipa quando ele se lembra de algo sério, sombrio. — Mas por que você deveria se importar? Sou apenas um de seus suplicantes, deleitando-me com sua presença.
— Mather... pare! Por que está aqui?
Há quanto tempo está aqui? O que viu?
Um calafrio percorre meu corpo, e ele parece leve e pesado, preso e flutuante. Mather gesticula com o braço em uma reverência.
— Desculpe, minha rainha. Minha bela senhora. Minha serena governante. Desculpe se lhe causei dor. Não é nada que não tenha feito comigo, se serve de consolo.
— Do que está falando? Eu não...
— Ah, você não? — Mather caminha até mim, um ódio poderoso dançando com a bebedeira para criar aquele animal ferido e cruel diante de mim. — Philip... Phil... E aqueles garotos do campo de Bikendi, estão todos ignorando o passado, e não quero mais fazer isso. Achei que queria apenas entorpecer tudo, mas não quero isso, Meira, quero você. E achei que você também queria... Maldição, hoje achei que nós... — Mather para, dá uma gargalhada interrompida. — Pelo gelo, sou um idiota, porque venho até aqui e mesmo depois do que Theron fez, você ainda quer a ele.
Contenho o gemido que devora minha garganta, mal consigo me conter conforme fragmentos dolorosos se enterram fundo.
— Não sei o que viu com Theron, mas não foi...
— Eu estraguei tudo — interrompe Mather, com o rosto sério. — Sei que estraguei tudo. Perdi minha chance e, droga, Meira, não tinha problema com engolir isso, e lamber minhas feridas, e esquecer você. Mas Noam, o abismo da magia, todas essas ameaças, deveriam ser problemas meus. Odeio que agora sejam os seus, mas não posso tomar tudo de volta para que você fique segura. Não posso fazer nada, Meira. Há um motivo pelo qual ficamos três meses sem conversar, e preciso me obrigar a ver esse motivo. Ainda faço o que posso por Inverno, mas não posso viver assim. Preciso que saiba que para mim, chega. Não vou esperar que você volte para minha vida.
Toda a dor e a surpresa de Mather estar ali explode dentro de mim, lançando estilhaços para braços e pernas. Mas não estilhaços de dor ou pesar — estilhaços de ódio.
Ele não faz ideia do que está acontecendo. E a pior parte é que... eu poderia ter contado, se Mather não entrasse gritando comigo, bêbado, abrindo buracos no meu semblante já frágil de compostura.
— Sinto muito por você estar tão triste — disparo. — Sinto muito porque o magoei. Achei que poderia falar com você porque eu precisava falar com você, e não pensei duas vezes nisso. Mas foi o que nos meteu nessa confusão, eu não pensar nas coisas direito, e eu deveria ter sido mais esperta. Então, não...
A testa de Mather se enruga.
— Como assim você nos meteu nessa confusão?
Minha cabeça está zunindo, o corpo estremece em ondas incontroláveis.
— Não, você não tem o direito de entrar de fininho em meu quarto, gritar comigo e merecer qualquer explicação.
Eu me viro para a porta, prestes a gritar Garrigan e Conall para que arranquem Mather para fora de minha vida. Não deveria ter conversado com ele mais cedo. Apesar de tudo pelo que passou, todas as coisas que sofreu, é a única pessoa que sei que ainda é ele mesmo, que não deixou que o passado o modificasse. É o Mather com quem cresci, o Mather por quem me apaixonei, e isso me faz esquecer minhas próprias máscaras e querer parar de tentar me conter tanto.
O mundo embaça, se dobra, e caio para a frente, apoiando-me na porta.
Não posso ficar perto de Mather. Não tenho condições de ficar perto de ninguém que me faça sentir como Meira, a garota-soldada órfã — por isso é muito melhor para mim estar perto de pessoas como Theron e Sir. Quem eles são torna mais fácil para mim ser rainha.
Tudo a que tenho me agarrado com tanta força se liberta em disparada e me volto para Mather, procurando os olhos dele em meio à névoa de minhas lágrimas. Ele se curva para a frente como se esperasse uma discussão. Por que não esperaria? Sempre estamos errados; ele em um lugar e eu em outro, e nós dois gritando porque só daríamos certo de voltássemos para o modo como as coisas eram antes.
Mas as coisas não dariam certo de qualquer forma, não é? Mather era o rei e eu era uma camponesa. Agora, sou a rainha e ele é um lorde, mas ainda é...
Completamente, irritantemente, magnificamente descomplicado.
Contenho um arquejo.
— Eu escolheria você se isso não desfizesse quem eu preciso ser.
O corpo de Mather relaxa. Todo o impulso de brigar se esvai e ele me olha boquiaberto, encarando-me por alguns segundos de total quietude antes de inclinar a cabeça para o lado, os músculos do rosto se contraem. O vazio que Mather deixa em mim aumenta quando percebo que ele segura as lágrimas, que talvez uma parte ínfima de Mather quisesse que eu lutasse por ele e por como deveria ter sido. Meira e Mather, sem títulos ou responsabilidades.
O peito de Mather se esvazia.
— Acho que se quiséssemos... Acho que poderíamos ter sobrevivido a sermos desfeitos.
Arquejo, minhas lágrimas queimam as bochechas.
Os olhos de Mather, vermelhos por causa do álcool, encontram os meus por tempo o bastante para que eu veja a tristeza ali, a realidade recaindo sobre ele.
— Minha rainha — diz Mather.
Busco, às costas, a maçaneta e abro a porta, revelando os rostos confusos de Conall e Garrigan, que apenas ficam mais confusos quando Mather passa por mim e sai para o corredor.
Ele se vai. Simples assim. Sem último adeus ou um olhar final.
Como se jamais tivéssemos nos amado.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!