21 de janeiro de 2019

Capítulo 9

MATHER SORRI PARA mim com aquele sorriso ofuscante e não me coloca no chão.
Tento em vão lutar contra a timidez que tenho certeza de que está deixando vermelho meu rosto pálido. Ele definitivamente está em Bithai há um pouco mais de tempo do que nós — os cabelos estão presos para trás com um laço, Mather usa uma camisa azul como o céu e calça marfim limpa, e a metade do medalhão de Hannah brilha no pescoço dele. Noam ganhou um ponto no meu livro Não Vou Matar Você: ele cuidou de Mather. Mather ri baixo.
— Demoraram para chegar.
As palavras dele vibram pelo pescoço e me deixam dolorosamente ciente do fato de que estou segurando o pescoço de Mather. Meus dedos estremecem, mas não consigo me desvencilhar e apenas rio para Mather, sentindo os músculos dele se retesarem.
— Não sabia que era uma corrida — digo. A lembrança de nosso último abraço lampeja em minha mente. O rosto de Mather cora, um leve tom rosado. Ele também está pensando nisso?
— Era, e você perdeu. — É tudo o que Mather diz, a risada dele me preenche.
Sir pigarreia. Mather me aperta mais uma vez e me coloca de volta nas pedras, onde acho difícil me equilibrar. Quem sacudiu o mundo?
— Quem mais está aqui? — pergunta Sir, direto ao ponto.
Mather não parece tão assustado pelo tom abrupto de Sir quanto eu sempre fico.
— Todo mundo.
Expiro. Estamos todos aqui. Todos sobrevivemos. Um pouco de minha culpa se dissipa — perdemos o acampamento, mas nenhum dos membros do grupo. Eu não teria conseguido me recuperar se um de nós tivesse morrido por minha culpa.
Sir expira, aliviado, também.
— Excelente. Já se encontrou com Noam?
Mather assente.
— Ontem. Dendera e eu estamos aqui há dois dias... — Ele me olha, depois olha de volta para Sir, e não continua o pensamento que teve. Mas, subitamente, parece que alguém deu um soco no estômago de Mather e todos os meus sentidos ficam alerta.
Algo está errado.
Sir assente mais uma vez e se vira para Dominick.
— Leve-nos até seu rei.
Dominick se vira e sobe as escadas até o palácio. Dois guardas parados ali abrem as portas, olhando nossos cabelos invernianos vibrantes. Bem, o meu cabelo e o de Sir não estão vibrantes no momento; nossas cabeças — como o restante de nós — estão cobertas de poeira e suor da viagem. Mas acho que, pela marcha determinada de Sir atrás de Dominick, não vamos tomar um banho antes de encontrarmos Noam.
Um banho. Luto contra a saudade quando paramos no saguão do palácio.
A única fonte de luz é o candelabro acima, que emite um brilho leve e branco. O restante da decoração é escuro — paredes de madeira polida, piso de mármore preto. Confortável, mas caro até o fim. Painéis retangulares cobrem as paredes; não sei dizer se são portas ou apenas decoração.
Um, à nossa direita, se abre.
Dominick dispara adiante e recua com uma saudação acentuada para um homem dentro da sala, fora de vista.
— Meu rei, tenho...
— Mais invernianos. Sim, presumi.
A voz grave combina com a escuridão aconchegante dos arredores. Quase como um lar, uma voz que eu esperaria de um avô, não de um rei.
Sir caminha adiante, quase empurrando Dominick para longe.
— Noam.
Certa vez, quando convenci Mather a roubar uma garrafa do vinho veraniano de Finn e ficamos um pouco bêbados, Sir me sentenciou a duas semanas lavando a louça do jantar por ser “desrespeitosa à posição de nosso futuro rei”. Mas Sir não tem problema algum em usar o primeiro nome do rei cordelliano, como se ele fosse uma criança malcriada.
Noam vai para o saguão de braços cruzados. Ele é grande — não tanto quanto Sir, mas ainda assim imponente. Os cabelos castanho-dourados estão soltos na altura dos ombros, margeado de grisalho ao redor do rosto e ainda mais na barba. Ele tem olhos profundos e misteriosos que fazem com que eu me sinta nua e invisível ao mesmo tempo, como se pudesse ler todos os meus segredos com apenas um olhar. E o condutor dele, a adaga de Cordell, está no cinto, a joia roxa no cabo brilha levemente na escuridão.
Noam, com o rosto impassível, volta os olhos castanhos para Sir. O olhar dele percorre Mather antes de parar em mim, e o rei sorri.
Isso não deve ser bom.
— É só, Dominick. Obrigado.
Dominick recua como se esperasse mais. Mas então faz uma reverência, murmura algo sobre voltar para relatar sobre Outono mais tarde e marcha para a entrada.
— William — diz Noam, embora ainda esteja me encarando. — Que bom que conseguiu vir. Negócio desagradável lidar com a Sombra das Estações. Os reinos Estação podem ser bastante — Noam pausa — voláteis.
Tento segurar uma bufada. Voláteis. E ele ainda nem me conheceu.
Mas minha reação fica presa devido ao modo como ele chamou Angra — a Sombra das Estações. Tinha me esquecido que é assim que os reinos Ritmo o chamam. Como se não passasse de uma névoa cinzenta lançada pelo restante de nós e, talvez, se nos movêssemos para o lado certo, Angra desaparecesse.
Sir entra no campo visual de Noam e dou um suspiro de alívio.
— Esperava que pudéssemos discutir em um local mais particular. — Sir olha para Mather. — Meu rei disse que já falou com ele, mas tenho alguns assuntos que gostaria de discutir também.
Sir jamais chamou Mather de “rei” antes. Futuro rei, sim. Realeza, sim. Mas nunca rei. Rei Mather Dynam. Um tremor de inquietude me percorre. Sei que ele é nosso rei e sabia que isso aconteceria. Só achei que eu teria mais tempo, até encontrarmos a outra metade do medalhão, pelo menos. Não... agora.
Noam gesticula para duas criadas.
— Acomodem Lady Meira. Precisamos que ela esteja com a melhor aparência para esta noite.
Sir e eu empalidecemos. Sir empalidecendo. Acho que não gosto mais de Bithai.
— Como é? — resmunga Sir.
Noam dá um risinho.
— O baile. Minha corte está aguardando em Bithai há dois dias, esperando uma comemoração. Agora ela pode começar. Certamente seu rei lhe contou.
O modo como ele diz a palavra rei faz minha pele se arrepiar. Olho para Mather, cujo rosto está tão vermelho quanto as azaleias do lado de fora, e o maxilar dele está tão contraído que os dentes devem ter se quebrado.
As criadas se movem na minha direção.
— Venha por aqui, por favor — diz uma delas.
Sir acena para mim. Mas há algo por trás dos olhos dele, algo que Sir mal contém, que me faz querer colocar o chakram para trabalhar, destruindo o lindo saguão de Noam.
As criadas prosseguem e, depois de outra pausa, sigo-as. Deve ser assim que as ovelhas se sentem antes de cortarmos as cabeças delas e assarmos na fogueira.
A voz de Noam ecoa conforme saíamos do saguão. Como tudo mais em Bithai, é intencional.
— Sim — diz ele. — Ainda podemos chegar a um acordo.
Eu me viro, mas Sir, Mather e Noam já entraram no que só posso supor que seja o escritório de Noam. A porta se fecha, abafando qualquer outra coisa que eu possa ouvir.
— Lady Meira, por aqui, por favor.
Lady. Sério?
Eu me dedico a seguir as criadas. O saguão termina em um salão de baile — o salão de baile, tenho certeza, onde qualquer que seja a festa que Noam planejou acontecerá naquela noite. É grande, opulento, com mármore e lustres e plantas verdes exuberantes e muito ouro. Estou um pouco enojada da riqueza de Cordell.
Duas escadarias envolvem o salão, uma de cada lado. As criadas me levam para cima daquela à esquerda, circulando, para que eu tenha uma visão de 180 graus do salão de baile. Faço questão de não olhar para ele, me concentrando, em vez disso, na lama que está presa às minhas botas.
Chegamos ao segundo andar e começamos a percorrer tantos corredores idênticos que penso que o plano de Noam era me perder em um labirinto de belezas irritantemente caras. Painéis de madeira tão polidos que consigo ver meu reflexo imundo conforme passamos, lustres de cristal que projetam pontos intermitentes de luz sobre meu corpo, tapeçaria marrom tão felpuda e aveludada que minhas botas deixam marcas. Os mesmos detalhes escuros e a sensação cara, porém confortável, do saguão.
Por fim, as criadas param diante de uma porta. A superfície polida dela permite que eu observe minha expressão assustada se mover para dentro quando a porta se abre e, atrás dela, detesto dizer, está o exato quarto que eu projetaria se tivesse recursos infinitos e nada mais com que me preocupar além de mobília.
É simples e bonito. Embora eu esperasse que fosse tão exagerado quanto o portão de Noam, não passa de uma cama com dossel (uma cama com dossel muito boa), um armário (um armário muito bom) e um tapete trabalhado, cor de lavanda, esticado no piso de madeira. As portas da sacada estão abertas diante de mim, cortinas brancas pesadas oscilam ao vento conforme caminho para o centro do quarto.
As duas criadas são apenas pouco mais velhas do que eu, usando vestidos simples feitos de tecido do verde-escuro de Cordell. Cabelos castanho-aloirados pendem em tranças suaves pelas costas delas, e uma das jovens, com os olhos castanhos arregalados, que me dão a ilusão de que ela vê tudo, se aproxima de mim.
— Está do seu agrado, Lady Meira?
— Meira.
— Sim, foi o que eu disse. Lady Meira.
Franzo a testa.
— Não, apenas Meira. Sem Lady.
— Receio que eu não possa fazer isso, Lady Meira.
Trinco os dentes e me volto para as criadas.
— Tudo bem. Quais são seus nomes?
— Mona.
— Rose.
— Bem, Mona e Rose, o que podem me dizer sobre os planos de Noam?
Mona mantém a cabeça curvada de modo submisso e Rose apenas dá de ombros.
— Só sabemos que devemos deixá-la vestida e pronta até as oito horas.
Semicerro os olhos para elas.
— E se eu me recusar?
Os olhos de Mona se arregalam. Rose, obviamente aquela no comando, toca a mão de Mona.
— Espero que não o faça. O Rei Noam deixou claro que nosso futuro a serviço dele depende de você estar no baile.
Uma de minhas sobrancelhas se ergue.
— E vocês sempre fazem exatamente o que seu rei exige?
Rose acena devagar com a cabeça, como se não tivesse certeza de por que eu sequer faço tal pergunta. Espero o mesmo de Mona, mas quando reparo que ela hesita, agitando as mãos, não consigo impedir um sorriso curioso. Rose vê minha mudança repentina de expressão e encara Mona, que ergue as mãos e acena tão violentamente que temo que os cabelos dela caiam da cabeça.
— É claro que obedeço a ele! — declara Mona. — É só... seria legal, não seria? Se nós, sei lá, tivéssemos magia própria?
O rosto de Rose fica tão vermelho quanto a flor que deu nome a ela.
— Nenhum cordelliano quer nada e você fica aqui, diante de uma convidada, e diz tais coisas? — Rose se volta para mim. — Peço desculpas, Lady Meira, Mona é nova na posição.
Mona se acalma, abaixa a cabeça e leva o queixo ao peito. Mas não responde a Rose — ela se volta para mim, com os olhos em direção ao chão.
— Perdoe-me, Lady Meira.
Quase me esqueço de me irritar ao ser chamada de “Lady” quando vejo a pequena fagulha de Rose se apagar. Não consigo tirar a surpresa do rosto, a única vez que ela se impôs foi ao pensar em ter a própria magia? Em não estar endividada e ligada a Noam?
Eu me atenho a esse pensamento, tentando entender como guardá-lo na mente. Lembro-me da bola de lápis-lazúli no bolso, da pequena pedra circular pressionada contra minha coxa. Mather queria acreditar que era mágica, que qualquer um poderia simplesmente pegá-lo do chão. Tornaria o mundo muito mais simples — ninguém precisaria depender do rei ou da rainha para ajudá-lo. Ninguém precisaria ficar dentro dos limites do reino para usufruir da magia da linhagem. Estaríamos bem menos... presos? Essa não parece a palavra certa, pelo menos como alguém que tem lutado a vida inteira para obter esse tipo de magia. Mas talvez, em outros reinos, reinos que têm magia há séculos, eles façam essas perguntas. Eles imaginem como seria estar livre dos limites rigorosos de nosso mundo.
Sacudo a cabeça para Mona.
— Não peça desculpas. Não tem problema fazer perguntas. — Mesmo que eu não tenha certeza de qual seja minha resposta a essas perguntas. Só sei que Inverno precisa de magia para ser livre. É tudo que consigo ver agora.
Rose se volta para mim.
— Certamente tem problema quando tais perguntas contradizem as ordens claras de nosso rei. — Ela ergue uma sobrancelha e um dedo ao mesmo tempo, pronta para voltar as ameaças para mim.
Recuo até a cama com dossel e me jogo nela, com braços estendidos.
— Não precisa ficar agitada. Vou ao baile.
Quando Rose começa a falar de novo, posso ouvir o sorriso na voz dela.
— Excelente. Um banho foi preparado para você ali, Lady Meira.
Minha cabeça se ergue a tempo de ver Mona apontar para uma porta à esquerda.
— Voltaremos depois que tiver descansada — diz Rose, e enxota Mona para fora.
Quando elas fecham a porta, eu me sento. A bola de lápis-lazúli se pressiona contra meu quadril, me fazendo pensar em Mather, em Sir, não em magia e quem deveria ou não tê-la. Puxo a pedra do bolso e rolo a pequena bola azul na palma da mão, a repetição me acalma.
Noam me quer por algum motivo. Ainda mais estranho é o fato de que um rei de reino Ritmo vê algo em uma refugiada de um reino Estação que valha a pena usar. E Mather e Sir sabem o que é, mas estão em uma reunião naquele momento com Noam, então minhas opções atuais são sair de fininho pelo palácio, esperando encontrar respostas em uma das muitas salas, ou tomar um banho e dormir.
Como se meu corpo já tivesse se decidido, bocejo, meus olhos ficam anuviados como quando lágrimas brotam.
Tiro as roupas de viagem e empilho a sujeira toda no canto, com o chakram guardando-as, no topo. A bola de lápis-lazúli rola para fora da pilha, batendo no piso de madeira e parando no tapete espesso. Pego a pedra e a coloco na mesa de cabeceira, encarando a superfície azul. Sei que é ridículo, mas uma pequena parte de mim relaxa, sabendo que um pedaço de Inverno está ali se eu precisar.
Sabões aromáticos e água espumante apagam rapidamente qualquer preocupação permanente, preenchendo meus sentidos com lavanda e vapor. Ah, minha nossa. Eu me acostumaria fácil a isso.
Depois de passar tempo demais enrugando, saio do banheiro e franzo a testa quando a névoa de relaxamento se ergue. Algo está errado. Verifico o quarto duas vezes, com a mente confusa, antes que meus olhos se voltem para o chão e eu veja...
Nada.
Minhas coisas sumiram. Meu chakram, as botas, tudo. Apenas a lápis-lazúli permanece na mesa. Uma camisola está agora esticada na cama, uma peça cor de marfim reluzente que provavelmente deveria ser uma troca justa por minhas roupas. Eu deveria me sentir inquieta, mas a camisola é mais macia do que pelo de coelho. Coloco-a por cima da cabeça e a névoa de relaxamento recai sobre mim de novo. E, quando deslizo entre os lençóis sedosos e a colcha quente de penas, esqueço por que deveria me sentir inquieta. Ou por que deveria ter voltado para o escritório de Noam e exigido respostas.
Ou onde sequer fica o escritório de Noam, porque todos aqueles corredores são iguais e as árvores dele são ridículas e, doce neve, que cama confortável...

6 comentários:

  1. È , pelo andar da carruagem é possivel apontar que vai da merda

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  2. Respostas
    1. Acho o que eu estava suspeitando seja verdade meira é filha de Hanna e irmã de Mather

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  3. Será que o noah quer que ela case com ele ou com alguém?

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  4. Se Mather for irmã dela eu infarto.... Mas que ela é a verdadeira herdeira... Isso é praticamente fato consumado!!

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Boa leitura, E SEM SPOILER!