26 de janeiro de 2019

Capítulo 8

Mather

QUANDO MEIRA APARECEU ao lado do altar, com as bochechas pintadas do mais atraente tom de rosa, o tecido do vestido oscilando às pernas — Mather entendeu mais violentamente do que jamais tinha entendido o significado da palavra perfeição.
E teria se odiado por pensar isso não fosse pela conversa persistente deles de horas antes. Aquela em que pareciam ser eles mesmos de novo — Mather, capaz de ajudá-la, e ela, uma garota indomável com ideias mortais nos olhos.
Agora Mather não conseguia desviar os olhos enquanto Meira se colocava perante a multidão, proferindo frivolidades sobre gratidão e dever muito a Cordell e Outono. Ela estava ali, em algum lugar. A garota com quem Mather tinha crescido. Ela estava ali, e ele também ainda estava ali, e talvez, apenas talvez...
A realidade o atingiu.
Não eram eles mesmos. Mather era um lorde e Meira era uma rainha e Theron era... dela. Theron, que sorria para Meira no momento. Mather desejou poder encontrar ao menos um lampejo de desonestidade naquele sorriso — mas era puro e sincero, e Mather odiava Theron por isso.
Esse era o motivo pelo qual ele evitara Meira por tanto tempo. Para que não precisasse ver Theron também e ser lembrado de como Meira tinha encontrado alguém melhor do que ele.
Mather desviou para a esquerda, afastando-se de Alysson e entrando na multidão que permanecia fascinada pelo discurso de Meira. Mather acabara de formar um plano para sair de fininho do salão de baile quando um rapaz do treinamento do exército entrou no caminho dele.
— Lorde Mather?
Mather recuou, os pensamentos se dissiparam. Aplausos e música de lira soaram — Meira devia ter terminado o discurso.
— Apenas Mather — corrigiu ele. — Philip, certo?
— Apenas Phil — respondeu Phil, com um sorriso, e indicou a cidade. — Alguns amigos fizeram uma troca com os cordellianos por cerveja. Você parece que precisa de um copo.
Uma risada saiu rouca pela garganta de Mather.
— É tão óbvio assim?
Phil acenou com a cabeça sem determinação.
— Bem, imagino que há dois tipos de pessoas aqui esta noite. — Ele olhou para trás de Mather, observando a multidão que agora dançava e conversava. — A maioria está comemorando. O restante está tentando esquecer que Jannuari não tem uma comemoração como essa há 16 anos. — Os olhos de Phil retornaram para Mather. — E você está definitivamente no último grupo.
Mather deu de ombros.
— Não quero esquecer — disse ele, e olhou por cima do ombro, até o outro lado do salão, até Meira, que ainda estava sobre o altar conversando com Noam, William e Theron. Mesmo de longe, Mather podia ver que a confiança dela tinha se tornado ansiedade, as mãos estavam apertando o estômago, mordendo o lábio inferior com um gesto que o fez querer passar o braço pela cintura de Meira, levar os lábios ao ouvido dela e prometer que tudo ficaria bem.
— Ah — murmurou Phil.
Mather se voltou para ele.
— Ah, o quê?
— Ah, você não é diferente de todos os outros rapazes invernianos. — Phil indicou Meira. — Tem uma quedinha pela garota que nos salvou. É natural, acho, perder a cabeça pela pessoa que tornou nossas vidas menos terríveis. Não se preocupe, a cerveja também cura isso.
Mather piscou. É claro que ele não estava sozinho no amor que sentia por Meira. Mas perceber isso o fazia se sentir ainda mais patético.
— Me leve até essa cerveja que cura tantos males — falou Mather, e Phil gargalhou.
Deixar o salão de baile não foi tão difícil quanto Mather pensou — ninguém os olhou duas vezes quando dispararam pelas portas, noite adentro. Os muros do palácio silenciaram a comemoração e a música, tornando imediata a transição do salão lotado para a noite tranquila. Mather inspirou os flocos de neve que caíam, mas Phil já estava no meio do pátio, caminhando rapidamente para a cidade escura.
Embora todo o material de construção tivesse sido guardado para a noite, o ar fedia a madeira serrada e suor, flocos de neve se agarrando a tudo que estava à vista. Mather enterrou as mãos nos bolsos e tentou não inspecionar os chalés conforme passavam. William iria querer que aquele tivesse um novo telhado — o outro ainda precisava de uma porta mais firme — as janelas daquele eram utilizáveis.
Phil cutucou o ombro de Mather.
— Vai se sentir menos miserável quando estiver cercado por pessoas que sentem o mesmo.
— Sério?
— Não. Mas todos ficarão animados por conhecer o espadachim que os pulveriza diariamente.
Mather riu.
Algumas ruas depois, Phil correu até um chalé e bateu à porta. Risadas podiam ser ouvidas do lado de dentro, parecendo deslocadas na casa em ruínas. Os reparos ainda não tinham chegado àquela área — madeira cinza empenada formava uma porta antiga, as janelas de cada lado se escondiam atrás de jutas irregulares. Cada construção naquela rua estava vazia, apenas a risada que saía de dentro daquele chalé solitário servia de barreira para a tristeza.
A porta se abriu e revelou um rapaz, um pouco mais jovem do que os dois, que abriu um sorriso e socou o ombro de Phil.
— Está atrasado! Começamos sem você.
Phil segurou o ombro como se o soco tivesse machucado de verdade.
— Contanto que vocês Sóis não tenham enxugado os barris ainda. Eli, Mather. Mather, Eli.
Eli semicerrou os olhos.
— Ex-rei Mather?
As sobrancelhas de Mather se ergueram. Ele jamais tinha sido chamado daquela forma, mas provavelmente era assim que pensavam a respeito dele. Não conseguia acreditar que não o magoava.
— Apenas Mather.
Eli não pareceu convencido, mas sumiu para dentro do chalé, gritando que tinham mais dois para a mesa. Phil fez menção de seguir quando Mather inclinou a cabeça.
— Sóis?
Phil olhou de volta. A felicidade no rosto dele hesitou, o sorriso se desfez pela primeira vez.
— Acho que você nunca ouviu isso, não é?
Quando Mather gesticulou com a mão para que esquecessem, Phil falou.
— Sabe como os soldados de Primavera têm sóis pretos nas armaduras peitorais? Era assim que os chamávamos no campo de Bikendi, pelo menos. “Sóis estão vindo, melhor calar a boca!” Agora é uma piada entre o pessoal de Bikendi. — Phil encolhia o corpo sempre que mencionava o nome do campo. Ele fez um gesto de ombros para a direção das pessoas do lado de dentro. — São todos “Sóis”. Como imprestáveis, sabe? Indesejados. Parece ridículo explicar, mas é isso.
Uma mão invisível envolveu o pescoço de Mather com seus dedos frios. Phil entrou no chalé como se não tivesse acabado de apontar a maior diferença entre Mather e todos ali.
Mather fora livre enquanto todos tinham sido separados em quatro campos invernianos de trabalhos forçados em Primavera — Abril, Bikendi, Zoreon e Edurne. Será que o odiariam por isso? Será que a presença de Mather serviria para lembrar a todos de como tinham passado a infância acovardados diante dos homens de Angra enquanto Mather passara a infância com a família?
Mather entrou no chalé batendo os pés e fechou com força a porta atrás de si. A sala estava quase um breu, iluminada apenas por algumas velas, e buracos no teto deixavam entrar torrentes de flocos de neve que caíam sobre a única mesa no centro do chalé de um cômodo. Cinco dos garotos mais jovens das sessões de treinamento, inclusive Phil, se reuniam ao redor da mesa, com taças nas mãos fechadas, poças de cerveja tingindo a madeira de marrom escuro. Outra pessoa estava sentada longe da mesa, encolhida em um canto nos fundos, em um banquinho. Uma garota, com os joelhos dobrados até a altura da testa, as mãos trabalhando furiosamente em algo conforme lascas de madeira voavam ao redor dela. Entalhando?
A batida da porta reverberou pela sala. Os rapazes pararam as risadas alimentadas a álcool para observar o recém-chegado.
— Mather. — Phil gesticulou com a mão como uma apresentação, de onde estava à mesa, apontando para as pessoas conforme dizia os nomes delas. — Trace, Kiefer, Hollis, e você já conhece Eli. Kiefer e Eli são irmãos. O fantasma ao fundo da sala é Feige, irmã mais nova de Hollis.
Feige lançou a Phil um olhar de raiva que teria abalado o soldado mais sério.
— Não sou um fantasma.
Phil revirou os olhos.
— Continue dizendo isso a si mesma, pequena.
— Deixe ela em paz — disse Hollis, com uma voz que, embora baixa, ressoara entre todos como uma ordem de um general. Ele era um garoto imenso, de ombros largos, o mais velho do grupo, provavelmente com vinte ou 21 anos. Posicionara a cadeira de modo a poder ver todos na sala, e continuava olhando para a irmã, como se para se certificar de que ela não tivesse sumido.
Phil gesticulou com os ombros para Mather.
— Estão todos em negação. Mas acho que essa é a questão, não é? Negação líquida. — Phil tomou um gole.
Trace riu com os lábios na própria taça. Era mais velho do que Mather, mas não muito, com os músculos esguios de alguém que poderia ser moldado em um fantástico soldado de combate corpo a corpo. Facas talvez, algo fácil de carregar, uma arma que vítimas só veriam quando ele quisesse.
— Não seja tão certinho. — Trace olhou para Mather ao falar, embora as palavras ainda fossem direcionadas a Phil. — Está negando tanto quanto o resto de nós.
Mather se sentou em uma cadeira entre Phil e Eli e pegou o copo mais próximo.
— Não se trata de negação. Não existe um jeito de lidar com isso.
Não era verdade. William lidara, e Alysson e todo mundo que se agarrava à alegria de “Pelo menos estamos em Inverno de novo”. De alguma forma, todos tinham conseguido aceitar estar de volta a Inverno como o suficiente para curar o passado.
Mather desejava que pudesse ser fácil assim para ele, mas não era. Por isso não se importava com as represálias que William pudesse impor a ele por beber para afastar os problemas — e pior, por aceitar que outros invernianos bebessem para afastar os problemas também.
Kiefer fez uma expressão de raiva do outro lado da mesa.
— O que você sabe sobre isso? — sibilou ele. A pergunta desfez o manto de ignorância ao qual os demais se agarravam, e todos se agitaram diante do lampejo repentino de desconforto.
Mather agitou a cerveja na taça.
— Nada — confessou ele.
Kiefer ficou imóvel. Não esperava aquela resposta e, depois de um momento, ele abaixou os olhos.
Feige deu um salto no silêncio que se seguiu. Ela caminhou pelo piso de tábua, a madeira velha nem mesmo rangeu sob a pequena silhueta, e parou ao lado de Hollis.
— Volte para seu banquinho — disparou o irmão.
Feige o ignorou, manteve os olhos em Mather, uma certeza calma estampou uma expressão de desafio em seu rosto jovem. Feige era tão pequena, mas Mather viu nela a ferocidade que se adquire quando se assiste a anos de derramamento de sangue e batalha. Aquela garota não devia ter mais do que 13 ou 14 anos, mas era... vivida. Era a única palavra em que Mather conseguia pensar para descrever Feige, mas nem isso se adequava muito bem. Uma combinação esquisita de exaurida e severa.
— Por quê? — perguntou Feige. — Eu não estou em negação. — Ela olhou com raiva para Phil, que imediatamente se encolheu. Quando a garota teve certeza de que ele havia se rendido, se virou para Mather. — O que você tem para negar, ex-rei?
Mather segurou a taça com mais força. Hollis se recostou na cadeira, com os músculos tensos, preparando-se. Todos se prepararam, tomando goladas da cerveja e evitando contato visual e prendendo a respiração. Por quê? Por Feige?
Mather deu a única resposta que podia dar.
— Fracassar com vocês.
Feige riu, os cabelos brancos dela oscilavam em mechas que provavelmente jamais tinham sido escovadas.
— Pelo menos consegue admitir. Ninguém mais governando este reino consegue.
— Ele não está mais governando este reino — murmurou Kiefer, para o próprio colo. Os olhos dele dispararam para cima, desafiadores. — Pode ser um lorde, mas é apenas um de nós agora. Está aqui em vez de dançando a noite toda com a realeza. Eles expulsaram você, ex-rei?
Mather desviou o olhar de Kiefer. Nenhum desafio ali.
— Mas talvez seja por isso que não o deixam fazer mais do que treinar o exército agora. — Feige procurou algo no bolso, um objeto de madeira que ela fechou na palma da mão. — Porque ele não é o rei, mas os mais velhos sabem que ele é capaz de admitir o que aconteceu.
Mather queria concordar com Kiefer. Ele queria dizer que não estava liderando o reino, não mais. Mas aquela noite deveria ter sido uma chance de esquecer, então Mather permaneceu em silêncio, com os dedos apertando ainda mais a taça.
Depois de uma longa pausa, o interesse de Feige sumiu. Ela atirou ao ar o objeto que segurava, um pedaço de madeira que bateu no tampo da mesa com um barulho surdo.
— Acho que você sabe que não somos invernianos de verdade. Somos diferentes deles, não podemos esquecer nossos passados porque é tudo o que conhecemos. E acho que os mais velhos percebem que você sabe disso, e é esse o motivo pelo qual não o querem por perto. Porque as pessoas que governam este reino não suportam ter por perto alguém que possa lembrá-las do grande fracasso.
Todo o sangue no corpo de Mather se esvaiu, deixando-o zonzo e boquiaberto por causa daquela garota. Era por isso que Phil a chamara de fantasma; era difícil demais acreditar que fosse real, aquela criança atirando insultos e verdades com mais precisão do que qualquer adulto.
Todos à mesa permaneceram em silêncio, imóveis. Mather virou a taça, a cerveja desceu pela garganta em uma onda amarga quando Feige voltou para o canto dela, enroscada no banquinho como se nada tivesse acontecido.
— Não há cerveja que baste no mundo — murmurou Phil. — Sua irmã será nossa ruína, Hollis.
Mather estendeu a mão para o entalhe no meio da mesa e o fechou na palma da mão.
— Não.
— Meu lorde? — Hollis ergueu o olhar.
Phil revirou os olhos.
— Sóis, Hollis. Ele é um de nós agora.
O álcool atingiu o estômago vazio de Mather e o aqueceu um pouco, o deixou mais leve, como se o corpo pudesse flutuar pelos buracos no teto. Phil começou a beber de novo, incitando todos a começarem antes que Mather pudesse elaborar a discordância.
De volta à noite deles, como se o interlúdio de Feige jamais tivesse acontecido. Eram tão bons quanto os invernianos mais velhos em fingir que não estavam feridos. Mather se juntou ao grupo. Ele queria aquilo, ou achava que queria, e se obrigou a rir da imitação de Phil de um soldado cordelliano. Queria se concentrar em piadas e estar perto de garotos da idade dele; a única pessoa da própria idade com quem tinha interagido era... Meira.
Ela precisava saber que havia outros que se sentiam como ela, além de Mather. Que as coisas estavam erradas, que não se encaixavam ali tão perfeitamente quanto deveriam.
Mather deveria disparar de volta para o salão de baile e pegar Meira nos braços e deixar que tudo desabasse.
Mather esvaziou outra taça.
Feige se dissipou em nada além de uma sombra no canto, entalhando e se balançando. Mather guardou o entalhe no colo, e embora flertasse com a ideia de fingir, se certificou de que ainda teria aquele pequeno lembrete de que aquilo não era felicidade verdadeira.
Trace recontou a tentativa fracassada de Phil de lutar com a espada mais cedo naquele dia. Mather gargalhou e forneceu detalhes, mas manteve a mão no entalhe. Não era maior do que a palma da mão dele, metade flor selvagem, metade floco de neve, com três palavras gravadas no verso.
Filho do Degelo.
Mather não tinha certeza de por que se importava tanto. Mas quanto mais bebia, mais podia fingir que as palavras de Feige não tinham atingido um espaço oco dentro dele. Mais podia fingir que não via como os garotos olhavam para o ar quando achavam que ninguém estava olhando, os olhos distantes, como se vissem o horror do passado avançando na direção deles.
Mais e mais ele podia fingir que não eram todos Filhos do Degelo.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Para comentar, por favor utilize a opção Nome/URL e preencha seu nome/apelido/nick; o URL pode deixar em branco.

Boa leitura, E SEM SPOILER!