21 de janeiro de 2019

Capítulo 8


POR QUE SIR escolheu Cordell como nosso ponto de encontro ainda é um mistério.
Está certo que é o reino estável mais próximo de nosso antigo acampamento. Mas lembro dos sermões de Sir sobre Cordell. O Rei Noam é um covarde, esconde-se por trás da riqueza, acumula o poder do condutor dele como todos os demais Ritmo, e assim por diante.
Então, quando nos destinamos a nordeste no dia seguinte, precisei perguntar.
Embora já o tenha feito meia dúzia de vezes e não tenha recebido resposta. Mas Sir e eu tivemos uma conversa bastante livre de raiva e ele me chamou de soldada, então isso deve valer alguma coisa.
— Por que vamos a um reino Ritmo pedir ajuda?
Sir me olha, o rosto meio interessado e meio irritado.
— Persistência pode levar você à morte.
— Quando desencadeada pela tortura, também pode conseguir respostas.
Sir ri com escárnio.
— Ritmo ou não, Cordell é mais perto. E estamos com pressa agora.
E também desesperados, se Sir espera que consigamos ajuda em Cordell. Nada jamais é tão simples e, se eu conseguir adivinhar o motivo da decisão de Sir, algo está definitivamente errado.
— Qual é sua próxima jogada?
Sir se concentra no horizonte, nas ondas infinitas, cor de creme, da pradaria e no sol pulsante.
— Reunir apoio — sussurra ele. — Conseguir um exército. Libertar Inverno.
Ele diz isso como se fosse fácil. Exatamente o que temos trabalhado para conseguir há 16 anos.
E agora, porque temos metade do condutor de Hannah, finalmente está ao alcance.
Minha vida inteira se voltou para conseguir a primeira metade do medalhão — jamais enxerguei ou questionei além disso.
— Espere... não temos um condutor inteiro ainda. Por que Noam concordaria em nos ajudar? E onde está a outra metade do condutor mesmo?
Sir me olha, mas os lábios dele ainda formam uma linha fina.
— É um risco que precisamos correr por causa da localização da outra metade. — A voz dele é inexpressiva e percebo que há algo que não diz, mas Sir prossegue com a resposta a minha outra pergunta. — Se você quisesse esconder algo, manter seguro do mundo, para que sempre soubesse onde está, onde o guardaria?
— Comigo, acho... — Olho para ele. — Não.
Sir dá de ombros.
— Angra está com a outra metade? Guardada com ele?
Sir não responde, me deixa juntar as peças. Os quebra-cabeças dele costumam ser meio irritantes.
— Então Angra guardou uma metade constantemente em movimento pelo mundo, para que fosse um sacrifício conseguirmos recuperá-la, enquanto estava com a outra metade no pescoço esse tempo todo? — Sacudo a cabeça. — E eu achando que pegar a primeira metade fosse um sucesso.
— E é — corrige Sir.
Um dos cantos de minha boca se ergue e me delicio com as palavras. E é.
— Por que você não foi com Mather?
A pergunta sai antes que eu perceba que estava pensando nela. Não que Dendera não seja capaz de lutar ao lado de Mather também; apesar do fato de que ela preferiria não ser uma soldada, é nossa segunda melhor em luta corpo a corpo. Mas Sir ainda é o melhor, e o melhor deveria estar com Mather.
— Não podemos ser capturados juntos. — Sir vira a sacola e abre. — Nós dois somos valiosos demais para a causa.
Ele me passa um pedaço de carne seca. Olho para Sir, esperando mais explicações, mas ele enfia um cubo de queijo na boca e retorna ao silêncio com a mesma facilidade que o quebrou.
É isso. Não porque se importa comigo, não porque quer me proteger. Não tem nada a ver comigo. Nunca tem.
Forço a carne seca garganta abaixo, minha mão gira a pequena pedra azul no bolso. A superfície entalhada é áspera contra meus dedos e imagino rios de força e bravura fluindo dela, por meu braço, para meu coração. Imagino que é realmente um condutor, minha fonte de força sobre-humana enfiada na palma da mão — tanto um símbolo de poder quanto um lembrete de Inverno.
Tiro a mão do bolso. Não preciso de força inventada. Sou forte o bastante sozinha — eu, Meira, sem magia ou condutor ou nada.
Mas... seria legal. Pelo menos uma vez, não ser tão fraca. Não olhar para o que fizemos e sabemos e ainda termos tanto a percorrer antes de podermos estar em segurança.
Ser poderosa.
Paramos para montar o acampamento quando o sol se põe. A essa altura, o calor, junto com minhas dúvidas permanentes sobre Sir me amar, me tornaram uma pilha trêmula de ansiedade. Então, quando ele pega o primeiro turno de vigia, me obrigo a cair no sono para limpar a mente. Espantosamente, o sono vem mais fácil e mais rapidamente do que qualquer sono em muito tempo, como se a forma como Sir tivesse falado comigo tivesse feito com que parte do estresse se dissipasse.
Odeio o quanto a opinião dele é importante para mim.
Fecho os olhos, me encolho como uma bola nas ondas douradas da grama e caio nos sonhos como as estrelas caem pelo céu noturno.


Chalés me cercam em uma rua de paralelepípedo, cercas salpicadas de neve e gelo, janelas cobertas de geada. Uma nuvem espessa de fumaça cobre o céu, sendo soprada das chaminés dos prédios industriais no limite da cidade.
Estou em Jannuari.
Conheço as ruas como conheço o ritmo do meu coração. Cenas que montei de histórias e das lembranças de outras pessoas, imagens roubadas e emoções. Mas o medo me paralisa onde estou, na rua fria de pedras, serpenteando por meus braços e minhas pernas em rompantes violentos e acelerando minha pulsação, mais e mais rápida. Vi Jannuari nos sonhos durante anos, ouvi com atenção histórias sobre a cidade. Então, por que estou apavorada?
Uma onda de corpos dispara contra mim, vinda das ruas curvas de Jannuari. Estamos correndo, correndo desesperadamente, conforme explosões ricocheteiam ao nosso redor.
É a noite da queda de Inverno.
— Não — sussurro. Não podemos fugir. Angra nos encurrala. Ele vai levar todos embora, vai nos aprisionar...
— NÃO! — grito diversas vezes, agarrando as pessoas ao meu redor. Mas elas não cedem, não me ouvem, o terror as trancafia atrás de paredes impenetráveis de desespero.
Então estou em segurança.
Acontece tão rápido — a mudança — que caio de costas e me choco contra a parede da sala em que me encontro agora. Um escritório pequeno e confortável, iluminado por uma lareira quente à esquerda. O cheiro almiscarado de carvão queimando instantaneamente me relaxa, o cheiro de lembranças que não são minhas.
A janela diante de mim se abre para a noite, deixando entrar um ocasional floco de neve. As pessoas no cômodo não reparam em mim. Estão concentradas demais em uma mulher que está de pé à porta, uma mulher que não deve ter mais de 30 anos, com ondas oscilantes de cabelos brancos e com o rosto mais suave e tranquilo que já vi. Como se nada, nem mesmo os canhões de Angra, pudessem abalar a mulher.
Há um medalhão no pescoço dela. O condutor.
Hannah.
— Sinto muito — sussurra ela, com lágrimas escorrendo pelas bochechas. — Não posso dizer...
— Não! — Sir dispara. E Alysson está ao lado dele, e Dendera atrás, e Gregg e Crystalla. Viva. Estão todos aqui, vivos...
Um grito começa a sair de minha garganta antes que a mão de alguém tape firme minha boca. Na escuridão, Sir olha para mim com raiva, a boca dele forma uma careta por trás da barba branca por fazer. O sonho deixa névoa ao encalço e pisco, confusa, com a pulsação voltando ao normal. Sonhei com Jannuari antes. Sonhei até com Hannah antes. Todos sonharam, tenho certeza — Inverno domina cada momento de nossas vidas acordados, então por que não nossos sonhos também? Isso não é motivo de preocupação.
Mas não consigo fazer com que a inquietude me deixe, principalmente quando Sir acena para minha direita, chamando minha atenção para cascos.
Cavalos disparam pelas planícies, lançando vibrações pelas palmas de minhas mãos, enquanto estou deitada de costas no chão. Sir abaixa a mão de minha boca quando a percepção me faz estremecer.
Primavera?, pergunto, sem emitir som.
Ele faz que não.
— Vem do sudoeste — sussurra Sir. — Seguindo para nordeste.
Semicerro os olhos. Obviamente, Sir espera que eu saiba quem é o exército galopante, mas estou perdida. Os reinos a sudoeste de nós são Verão e Outono. Os veranianos só deixam o reino deles para enviar coletores para encher seus bordéis, mas raramente viajam tão longe, além do canto deles do mundo, principalmente quando Yakim e Ventralli estão muito mais perto e tão cheias de escravos em potencial. Outono tem os próprios problemas de um reino em colapso; não tiveram uma herdeira do sexo feminino por duas gerações antes de o rei atual ter uma filha, mas é apenas uma.
Devido à natureza da magia de condutor, os portadores não conseguem usá-la totalmente até serem, no mínimo, adolescentes. Precisam conseguir, conscientemente, impor sua vontade sobre a magia, e crianças não conseguem domar a quantidade de magia dentro de um Condutor Real, ou controlar o que conseguem conjurar.
Mas Outono tem um aliado poderoso — Cordell. A irmã do Rei Noam se casou com o Rei de Outono há dois anos. Foi o casamento dela com o Rei de Outono que deu ao reino de sangue feminino uma filha diante dos ataques de Angra — depois que Inverno foi assimilado por Primavera, Primavera voltou sua ganância para o reino enfraquecido e sem herdeira de Outono. Os ataques aumentaram depois do nascimento da princesa de Outono, em um esforço para conquistar o reino antes que ela cresça para usar o poder. E com Noam ligado por sangue e casamento a Outono, um dos reinos Ritmo mais poderosos foi forçado a se importar com um reino Estação por motivos diferentes da proximidade com as montanhas Klaryn.
Por isso, Sir quer que vamos para Cordell. Noam precisa ajudar a impedir Primavera agora — ou ajuda ou deixa a irmã e a sobrinha dele serem massacradas por Angra. Se aqueles cascos são algum indicativo, ele já está ajudando.
Bato no chão, animada.
— Cordell! — Dou um gritinho. — Eles são cordellianos? Cavalgando de volta de Outono?
Sir toca o nariz com um gesto malicioso que diz “ensinei você direito”, então fica de pé e solta um assobio longo, de estourar os tímpanos. O som ecoa pelo escuro e os cascos, dezenas deles, param.
Meu peito bate forte. Espero mesmo que sejam cordellianos. E que ao menos alguns deles tenham empatia por viajantes, de reino Estação ou não. Porque se eles se ativerem ao preconceito entre os reinos Ritmo e Estação ou se forem Primavera...
Mas Sir não comete erros assim. Espero.
Fico de pé também. A massa sombreada do exército paira a poucos passos de nós. Uma sombra, a figura escura de um cavaleiro montado, se destaca da massa e cavalga adiante. Conforme ele se aproxima, o uniforme dourado e verde-escuro cordelliano — e as medalhas que pendem dele, o que marca o homem como oficial — se tornam visíveis.
Ele tem uma espada em uma das mãos, rédeas na outra, para continuar cavalgando e nos empalar se necessário.
O oficial para longe o bastante para que vejamos o rosto dele.
— Identifiquem-se ou... — O homem para e os olhos dele se arregalam tanto que a parte branca brilha no escuro. — Folhas douradas! — exclama o homem, e me assusto com as palavras. Devem ser uma referência cordelliana. — Invernianos?
Passo a mão pelos cabelos brancos, colocando-os sobre um dos ombros, e engulo em seco o nó de ansiedade que se acumula em minha garganta. Esse é o momento em que ele vai cuspir em nós e dizer algo desdenhoso sobre os bárbaros reinos Estação ou em que vai nos ajudar.
Sir dá um passo adiante.
— William Loren, General de Inverno. E esta é Meira — Sir me indica —, também de Inverno. Nosso acampamento foi atacado por Angra e estamos a caminho de Cordell.
O oficial abaixa a espada e meu corpo relaxa levemente.
— Qualquer um em busca de refúgio de Angra é muito bem-vindo em Cordell. Sou o capitão Dominick Roe, do Quinto Batalhão de Cordell.
Aparentemente, Dominick abaixa a espada sinaliza um “está tudo bem” para os homens dele, pois o regimento instantaneamente abaixa as armas. Não vão cuspir em nós — vão nos ajudar. Sorrio.
— Está oferecendo boas-vindas acolhedoras para nós em Cordell? — insiste Sir.
Dominick aponta para dois dos homens dele, e os homens obedientemente abrem caminho pela multidão, ambos puxando cavalos sem cavaleiros ao lado. O rosto do capitão exibe uma careta, mas, na escuridão, pode ter sido apenas um truque do luar.
— Tudo que posso oferecer é escolta até Bithai.
Bithai, a capital de Cordell. Não poderíamos pedir por mais; um regimento inteiro de soldados liderados por um capitão que claramente não gosta de Angra e não tem o preconceito entre reinos. Sir deve ter passado o turno de guarda dele fazendo pedidos.
— Aceitamos — diz Sir. — Sua generosidade será recompensada.
Os dois homens para quem Dominick apontou nos oferecem os cavalos. Monto um e encaro Sir quando ele se ajusta na montaria. Os ombros de Sir se soltam e ele se curva um pouco na sela, parecendo relaxado pela primeira vez desde que voltei da missão a Lynia. Porque desde então...
Meu peito dói e fecho os olhos. Não posso pensar no que aconteceu. Não posso me perguntar ou me preocupar com quem fugiu, quem chegou a Cordell. Não até chegarmos a algum lugar seguro ou, pelo menos, o mais seguro possível.


As ondas de grama da pradaria cor de creme somem por volta do meio da manhã do dia seguinte. Eu me endireito na sela, com os olhos arregalados, conforme observo a mudança vibrante de cenário. Nunca fui a Cordell. Não tivemos motivo para ir a um reino que Sir odeia, quando há outros que nos venderão comida e suprimentos. Mas, agora, queria que tivéssemos vindo antes. É lindo.
A grama sob os cascos dos cavalos é de um verde tão vibrante que meus olhos doem. Colinas se estendem ao nosso redor, suaves e íngremes, com pés de bordo perfeitamente posicionados começando a se tornar laranja e dourados. Passamos por uma fazenda e somos envolvidos por um odor floral e fresco — lavanda, uma das mercadorias de exportação mais populares e mais caras de Cordell. Alguns soldados acenam para um fazendeiro e os trabalhadores dele, que soltam as ferramentas e os baldes para acenar de volta.
Seguimos em frente, deixando os trabalhadores em seus campos violeta efervescentes. Os soldados, atraídos pelo verde e pelo sol e pelo aroma de lavanda, comemoram e gritam com a alegria que acompanha estar em casa.
Sir não parece revigorado pela animação dos homens. Ele avalia cada fazenda por que passamos, cada mancha de aldeia, mais do que provavelmente prestando atenção a quantas construções exuberantes há, quantos campos parecem férteis demais. A expressão de Sir não muda e, nessa não mudança, percebo a mesma raiva que Sir sente toda vez que começa a falar de Noam.
Exatamente como Inverno concentrava a magia na mineração, Cordell concentra o condutor em oportunidade — em ajudar os cidadãos a trabalharem uma situação em favor deles, para que tirem o melhor proveito dela. Oportunistas, diligentes, trapaceiros: como quer que sejam chamados, podem até mesmo “fazer folhas se tornarem ouro” — uma expressão cordelliana que Sir explicou em nossas muitas lições, referindo-se ao fato de que são tão bons em fazer lucro que é como se fizessem as folhas de uma árvore se tornarem moedas de ouro. Isso explica a exclamação do capitão Dominick mais cedo — folhas douradas.
Mas embora Cordell tenha recursos infinitos, Noam não é conhecido por fazer alianças políticas com qualquer um, exceto os reinos Ritmo tão abastados quanto Cordell. O casamento da irmã dele com o Rei de Outono foi um escândalo que Noam aceitou quando encontrou formas de tornar a união benéfica para Cordell... mas se rebaixar para auxiliar refugiados invernianos?
Depois de três horas perambulando pelos campos de verde e lavanda, vemos algo ainda mais magnífico se erguer diante de nós: Bithai. A cidade se estende por um amplo planalto cercado por cerca de vinte pequenas fazendas diferentes, todas fervilhando com as atividades do meio da manhã. Quanto mais nos aproximamos, mais densas ficam as casas, o povo, até que o regimento vira para uma estrada de paralelepípedos que se conecta a uma ponte levadiça e até a cidade demarcada por um portão.
Assim que cruzamos o portão, a cidade explode ao nosso redor com uma algazarra de mercadores gritando, rodas de carruagem chacoalhando por estradas e burros relinchando ao vento matinal. Prédios se alinham com simetria perfeita ao longo de ruas de paralelepípedo cinzento, as avenidas se curvam e serpenteiam em ângulos precisos pela cidade. Cada estrutura, seja casa, loja ou pousada, é um misto de pedras cinza empilhadas sob telhados curvos de telhas marrons. Bandeiras oscilam à brisa acima de nós, flâmulas com um ramo de lavanda diante de uma folha dourada de bordo sobre um fundo verde. Tudo está limpo, organizado — fontes e vinhas decoram cantos aleatórios como se a cidade inteira devesse ser parte do perímetro do palácio. O que faz sentido — Bithai é a entrada de Cordell, a melhor exibição de poder de Noam. É claro que ele manteria o mais perfeito possível.
Cidadãos acenam conforme cavalgamos, parabenizando os soldados, gritando encorajamentos para os homens que partiram há tempos. Algumas mulheres soltam as cestas de produtos e praticamente derrubam cavalos nas tentativas de beijar os maridos. Muitas vezes, civis recuam de Sir e eu, suas bocas se contorcem em sinal de confusão diante de dois invernianos em Bithai. Mas os soldados estão distraídos demais para se importarem com preconceitos políticos, e se põem a acenar e comemorar com entusiasmo, os rostos se iluminam com alívio por estarem em casa. O sentimento me faz sorrir.
Lealdade. Orgulho. Posso sentir no ar, no modo como os homens gritam cumprimentos para os pedestres e pedem notícias de Cordell. Esses homens amam o reino deles. Esses homens têm o que vejo todos os dias que falta aos olhos de Sir, na careta constante de Finn e no olhar distante de Dendera — um lar.
O regimento reduz a velocidade até um trote tranquilo e se vira na última estrada ampla, galhos de bordo se arqueiam sobre nós. A luz passa pela copa das árvores, algumas folhas caem e dançam ao redor da cerca de ferro retorcido que acompanha os dois lados da estrada de tijolos dourados.
Sir para ao meu lado. Tento encará-lo para ter alguma pista do que planejamos fazer a seguir, mas ele apenas olha adiante. Então faço o mesmo.
Ah, doce neve. Sério?
O regimento para subitamente e preciso morder a língua para evitar perguntar se Noam quer compensar por alguma coisa. Porque posso entender querer ter um reino exuberante e querer ter uma capital impecavelmente imaculada... mas isso?
Um portão interrompe a entrada principal do palácio pela estrada de acesso. Esse portão é de ouro, imponente, pelo menos três vezes mais alto do que eu, e coberto de vinhas verdes de metal que sobem por ele. Rosas de metal escarlate florescem ao longo das vinhas, pássaros azuis se empoleiram em projeções de metal. Mas, pior de tudo, um par de pés de bordo altos, cada um de um lado do portão. Totalmente de ouro, as folhas tilintam ao vento com uma linda — e totalmente excessiva — melodia.
— O coração do reino deles — sussurra Sir. É o silêncio repentino dele que me faz perceber que o entusiasmo dos homens foi substituído por um ar mais profundo de solenidade.
— Não é — eu me contenho e passo a sussurrar — ouro de verdade, é?
Sir confirma levemente com a cabeça. Minha boca se escancara. Não é à toa que Sir odeia Noam; ele usou a quantidade de ouro suficiente para governar um reino para fazer duas árvores.
O regimento desmonta, deixando que Sir e eu sigamos. Quando todos estamos diante do portão, os homens cordellianos se curvam na altura da cintura em reverências e se detêm por um momento, cabelos esvoaçando à brisa, antes que um murmúrio baixo ecoe das silhuetas abaixadas deles.
Eu me aproximo de Sir.
— Estão cantando?
Sir assente. Ele não parece feliz. Mas não é uma insatisfação do tipo “vou socar a garganta de Noam” — é melancólica e um pouco invejosa.
— É o Poema de Bithai.
Os soldados terminam os murmúrios nada assustadores para as duas árvores de ouro e reúnem os cavalos. O capitão Dominick se move entre os homens, todos agora ocupados, levando as montarias para a direita, por uma estrada separada que envolve o terreno do palácio pelos fundos.
Dominick gesticula para o portão.
— General William, Lady Meira...
Lady. Meu nariz se franze, o título me deixa arrepiada. É melhor que isso não vire moda — não tenho certeza se quero ser Lady.
— ...por favor, sigam-me, levarei os dois ao nosso rei.
O pescoço de Sir fica vermelho. Essa viagem vai destruí-lo de dentro para fora. Não que eu me sinta melhor por estar aqui — a maioria das experiências que tive com habitantes dos reinos Ritmo fez com que eu me sentisse inútil de uma forma subhumana. Zombaria conforme caminhávamos pelas ruas; vegetais podres atirados contra nós conforme saíamos da cidade. Por que Cordell seria diferente? Mas ninguém foi cruel até agora, então vou atrás de Sir conforme Dominick nos leva pelo portão para um jardim exuberante.
Uma fonte cospe água no ar no centro de uma pequena passarela de pedra — a coisa toda é ladeada por arbustos de azaleias de um vermelho-vivo e arbustos de lavanda na altura dos ombros. Partículas de pólen flutuam pelo ar, disparando como insetos perseguindo um ao outro entre raios de sol. À direita, uma passarela de pedra serpenteia para dentro de uma floresta de pés de bordo, uma trilha escondida para encontros românticos à meia-noite ou tentativas de assassinato.
Diante de nós está um palácio da mesma pedra cinza do restante de Bithai. Esse prédio faz com que todos os outros pareçam anões, no entanto, reluzindo com quatro andares de janelas brilhantes, sacadas de marfim e cortinas espessas de veludo.
No momento em que Dominick gesticula para que entremos no palácio, um grito me faz virar. Sir para também e relaxa por tempo suficiente para sorrir, uma expressão suave e de verdadeiro alívio que me enche de conforto.
— Meira!
Viro na direção da floresta quando um borrão de cabelos brancos e seda azul sai da escuridão do jardim — Mather.
Um sorriso se abre em meu rosto, apagando todos os resquícios de exaustão da viagem. Ele corre para a frente e me pega em um abraço de quebrar os ossos e me deixar imóvel.
Nem me importo com o fato de que minhas costelas acabam de estalar.

6 comentários:

  1. Já shippo esses dois. São tão lindos😍

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  2. Algo me faz achar que eles são irmãos

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    1. EI VEI. QUE MERDA KKKKK coitados. Espero q não.
      Mas eu tenho uma teoria que ela que é a herdeira e ele sabe. Todos sabem. Menos ela

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  3. Se eles forem irmãos eu infarto... Mas acho que pode ser isso sim... Ela é a herdeira... Bem pensado Emy.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!