26 de janeiro de 2019

Capítulo 7


Meira

DENDERA FAZ UM último ajuste em meu cabelo.
— Você está pronta.
Nessa dá um gritinho e leva as mãos à boca. Meus olhos se voltam para o reflexo de Dendera, meu coração palpitando quase na garganta. O entusiasmo dela é quase tão palpável quanto o de Nessa, ainda que não tão verbal.
Fecho os olhos, endireito as costas, mantenho a expressão impassível. Quando olhar, verei alguém capaz e composta, uma guerreira e uma líder ao mesmo tempo. Posso ser tanto a rainha de Inverno quanto a garota-soldada órfã, como meu ato desafiador contra Noam esta noite mostrará.
Abro os olhos.
Meu cabelo, com metade presa para trás em uma fileira de tranças, e metade em cachos em volta dos ombros, brilha com um branco radiante. Meu vestido tem presilhas prateadas nos ombros que deixam os braços expostos e um cinto se curva, justo, na cintura. No pescoço, aninhado junto ao tom marfim de minha clavícula, está o condutor real de Inverno, o medalhão prateado em formato de coração com o floco de neve solitário gravado no centro.
Sorrio, experimentando uma expressão, da mesma forma que Dendera me fez experimentar vestidos diferentes. O fingimento falha e meu estômago se aperta com um nó sempre presente de preocupação de que aquilo seja um erro. De que eu esteja errada no que planejei, de que precise não ser inconsequente ou impulsiva ou fazer coisas que sei que são perigosas.
Mas mantenho aquele sorriso no rosto até doer.
Aliso a saia plissada e sigo Dendera e Nessa para fora do quarto.
Conall e Garrigan aparecem atrás de nós, junto com Henn, que pega a mão de Dendera. Dou um sorriso furtivo para ela, mas Dendera está absorta demais em Henn para ver.
Meu séquito e eu seguimos pelo palácio, dando a volta para entrar no salão de baile pela porta mais próxima dos fundos. Sei o que nos espera além dela — um altar, junto com soldados cordellianos, Noam, Theron, os outonianos e meu povo, todos ansiosos pela cerimônia.
Eu também deveria estar ansiosa. Mas um rompante súbito de música faz todos ao meu redor enrijecerem, como se ninguém tivesse certeza de que estão ouvindo o que acham que estão ouvindo. Digo a mim mesma para passar pela porta que une o corredor ao salão de baile, mas não consigo.
Essa música. É alegre e delicada, ecoa pelas paredes ao meu redor com progressão de perfeição despretensiosa. Se eu pudesse colocar notas no som de flocos caindo, de água se cristalizando em gelo, de neve soprando ao vento, seriam essas.
É esse o som de Inverno.
Dendera aperta meu braço, com um sorriso sonhador no rosto.
— Os instrumentos são liras, uma descoberta resgatada no palácio. Parece que Angra não destruiu todos os nossos tesouros.
Ainda, diz minha reação instintiva, partindo o transe da música. Mas não — ele está morto. Finn e Greer não trouxeram notícias de Angra. E mesmo que volte de alguma forma, terei aliados unidos para enfrentá-lo. Angra não pode mais nos ferir.
Uma porta se abre à esquerda, deixando uma lufada do ar almiscarado subir dos corredores de pedra abaixo. Sir aparece, seguido por Greer e Finn, cada um com pelo menos uma caixa nos braços. Os bens que designei para Cordell e Outono.
Sir semicerra os olhos para mim.
— Minha rainha, tem certeza de que deseja ir em frente com isso?
Estou prestes a mudar de ideia.
— Sim.
Ele move a caixa que carrega, a insegurança estampada no rosto.
— Confio em você, minha rainha. Todos confiamos em você para tomar as melhores decisões para nosso futuro, mas eu...
Coloco a mão no braço de Sir.
— Por favor, William. Me deixe fazer isso. Me deixe ao menos tentar.
Isso o silencia, e Sir me encara na quietude, como se estivesse procurando algo em meus olhos. Mas não diz mais nada, e Nessa pega minha mão para me levar para o fim do corredor marfim. Sou arrastada de volta a todas aquelas vezes em Abril quando ela se agarrou a mim em busca de força ou por alguma necessidade sombria de se certificar de que eu estava ali.
Meus dedos se fecham em volta dos dela, e Dendera abre a porta.
A comemoração se revela ao nosso redor, abrigada dentro de um salão de baile semidestruído. O lado sul do teto sumiu completamente, apenas uma fração da parede restou, o que permite que flocos de neve e o céu cinzento da noite entrem. Uma escada de mármore junto à parede mais afastada leva à ala que abriga meu quarto e mais algumas dúzias de outros. As outras paredes se erguem por três andares no ar, decoradas com as mesmas molduras de marfim e detalhes prateados que o restante do palácio. Rachaduras percorrem as paredes como serpentes pontiagudas; pedaços de argamassa caem do teto quebrado como se fossem rompantes de chuva de cacos.
Mas ao entrar, não poderia imaginar que o salão de baile estivesse de outra forma que não inteiro.
Todos estão ali. Os residentes de Jannuari, os visitantes outonianos, alguns soldados cordellianos, todos se entrosando ao som da música de liras e ao céu nublado pela neve.
E os invernianos conseguiram encontrar ao menos uma pequena peça de roupa branca para usar em honra de nosso reino — uma camisa ou um lenço ou um vestido com branco estampado sobre cinza. Centenas de cabeças de cabelos brancos com roupas brancas, girando e se movendo como muitos flocos de neve. A nevasca de Inverno.
O altar está à direita do corredor do qual acabei de sair, adornado com pompons de seda branca e buquês de plantas invernianas, galhos de sempre-verdes e galanthus leitosas. O cheiro de pinho fresco e o aroma floral adocicado como o mel se misturam com o ar frio que entra pelo teto, criando uma atmosfera que satura todos os meus nervos com pensamentos sobre Inverno.
A atmosfera é levemente interrompida quando vejo quem espera no altar: Noam, Theron e dois membros da realeza outoniana.
Consegui evitar Theron desde nossa reunião mais cedo, mantendo-me em meu quarto ou no porão. Agora que o encaro, vejo nos olhos dele uma pergunta atada à preocupação e envolta em anseio.
Minha atenção passa de Theron para o pai dele, ambos de costas eretas e vestindo os uniformes cordellianos verdes e dourados. Totalmente normal, como se não tivéssemos encontrado a entrada para o abismo de magia.
Concentração. Respire.
Diferentemente de Noam, os outonianos tiveram a decência de permanecer no próprio reino desde o renascimento de Inverno, para nos dar tempo de nos recompormos — o que significa que não os conheci ainda. O rei Caspar Abu Shazi Akbari, cuja linhagem tem a conexão com o condutor de sangue feminino de Outono, está ao lado da rainha dele, Nikoletta Umm Shazi Akbari, irmã de Noam, cujo casamento produziu a herdeira do sexo feminino da qual Outono precisava depois de duas gerações sem uma filha.
Caspar me observa tão atentamente que tenho medo de cair para trás. Ele tem os cabelos pretos na altura dos ombros, pele quente, cor de terra e os olhos pretos intensos, característicos de Outono. A túnica de dourado reluzente sobre calça vermelho-rubi parece simples demais para um rei, mas a fina fileira de folhas douradas entrelaçadas no cabelo dele declaram a posição de Caspar.
Nikoletta, em contraste, sorri para mim. Ondas suaves de cabelos loiro-escuros caem sobre os ombros dela, muito mais claras do que os cabelos pretos como a noite dos súditos outonianos. Na cabeça de Nikoletta está uma coroa de rubis que abriga uma variedade de contas penduradas. Tecido vermelho desce por trás da coroa, misturando-se ao vestido vermelho-sangue dela, o qual está sobreposto com flores douradas e mais rubis.
— É com a mais profunda honra que apresento...
Dou um salto. Dendera foi até o altar, a voz dela pede silêncio por cima da música e das conversas. Todos se viram para nos olhar.
— ... a salvadora de Inverno...
Nessa puxa minha mão, saltitando de animação, mas não consigo me unir a ela. No canto da multidão, do outro lado do altar, Alysson sorri para Dendera, com um braço entrelaçado ao de Mather. Mas ele me encara diretamente, sem piscar. A boca de Mather se abre como se ele quisesse dizer algo, mas então se interrompe no silêncio pesado do salão de baile e hesita. Preso entre aqueles três meses em que não nos falamos e nossa interação de mais cedo.
Antes que qualquer coisa possa acontecer, a voz de Dendera irrompe pelo salão de baile com tal força que espero que o restante do teto desabe.
— ... Rainha Meira Dynam!
A multidão passa de cautelosa a exaltada, uma explosão frenética que sobrecarrega as liras quando elas recomeçam. Nessa solta minha mão e eu me movo para o altar com passos cuidadosos, os vivas da multidão ecoam em meus ouvidos. Meu povo, aplaudindo.
Não importa o que aconteça, essa cerimônia valeu a pena, ao menos para ouvir meu povo tão feliz.
Levo as vozes deles para meu coração, tranco-as bem no fundo, e subo no altar, deixando Noam, Theron e Nikoletta e Caspar à direita. Estão tão perto que sei que me veem tremendo, provavelmente me ouvem puxando ar.
A animação da multidão se dissipa até que o silêncio parece mais intenso do que qualquer comemoração. Todos os olhos me encaram.
— Estamos aqui hoje... — Com a boca seca, pronuncio com dificuldade palavras altas. — Estamos aqui hoje para agradecer aos bravos atos de Cordell e de Outono.
Aceno para que Sir, Greer e Finn se aproximem, cada um ainda carregando as caixas.
— Os últimos meses nos permitiram reabrir nossas minas, o que significa que Inverno é um reino viável e vivo de novo.
A última parte digo a Noam, encarando-o, embora minha voz se projete pelo salão. Os olhos de Noam brilham quando meus homens me acompanham no altar.
Indico para que Finn se adiante com as duas caixas dele.
— À Outono, a primeira parte de muito que é devido.
A multidão irrompe em aplausos reverentes quando Finn dispõe os bens aos pés de Caspar. Caspar inclina a cabeça em um agradecimento silencioso e Nikoletta aplaude baixinho. Nenhum dos dois parece confuso com a pequena oferta; na verdade, simplesmente parecem gratos por apenas estarem ali.
Indico para que Sir e Greer se adiantem.
— E para Cordell. O primeiro de muitos pagamentos.
Noam olha para as três caixas que os homens dispõem aos pés dele antes de olhar para mim, para Sir e para ainda mais longe, para a porta do corredor. Ninguém mais se move para trazer o restante do pagamento.
O rosto de Noam se contrai. O brilho em volta da adaga no quadril dele passa de um delicado tom de lavanda para um índigo pesado.
— Deve estar enganada. — As palavras de Noam soam baixas, apenas para aqueles no altar.
Sir e Greer recuam, juntando-se a Finn no canto do altar. Sorrio o mais serenamente possível, ignorando a forma como Theron me observa, silencioso, observador.
— Inverno deve muito a Outono e Cordell — digo, mantendo a voz elevada. — E continuaremos a pagar aos dois reinos até que nossas dívidas sejam quitadas. Agradecemos a esses reinos pelo serviço e o sacrifício deles. — Dou início a uma salva de palmas pesadas que é imitada e propagada, sinalizando o fim da cerimônia.
O ruído dos vivas e dos aplausos aumenta de novo, assim como a música das liras, agitando-se em uma comemoração pós-cerimônia. Os convidados são contagiados por ela, dançando e conversando em pequenos grupos, todos agradavelmente distraídos quando Noam segura meu braço antes que eu consiga descer do altar.
— Isso está longe do fim — rosna Noam, e os dedos dele marcam minha pele exposta.
Ergo o rosto para Noam, mas não o vejo. A atração mais forte de magia de condutor que reside em meu corpo se conecta com a magia de Noam pelo contato pele a pele, e memórias escoam da mente dele para a minha, as mesmas que vi antes: Noam, ao leito de morte da esposa, mas algo a respeito do remorso dele parece... errado.
Uma torrente de emoções violentas me atinge, sobrepujando qualquer outra coisa. Vou destruí-la, pensa Noam. O que é meu não será negado por uma criança.
Sir empurra Noam para trás.
— Nada disso aqui — murmura ele, com os dentes trincados.
Um movimento no canto do altar avisa que os soldados cordellianos se prepararam, esperando que Noam dê a ordem. Além deles, as risadas e a música da festa não diminuem, ninguém além de nós repara na tensão.
Eu me aproximo de Noam.
— Pagaremos o que lhe devemos, mas Inverno jamais concordou com as coisas que você exige.
Noam se aproxima devagar, o hálito quente dele sopra meu rosto.
— Não pode me vencer, rainha-criança. Devastarei este reino com a brutalidade da Sombra das Estações se precisar.
Theron agarra o braço do pai.
— Não está falando sério.
Noam não tira o rosto de mim.
— Estou. — Ele inclina a cabeça, o ódio lampeja uma nova expressão: desprezo. — O que pretende fazer com os recursos que guardou? Vá em frente. Use essa viagem para negociar ajuda para sua terra patética. Mas saiba disto — Noam aponta o dedo para mim e eu recuo, o choque me faz ceder. Ele sabe o que pretendo fazer? — Nenhuma quantidade de aliados vai salvá-la de minha ira. Acha que tenho medo dos reinos Ritmo? Não, senhora rainha, este é o último ato de imprudência que tolerarei. Vou permanecer em Inverno enquanto você vasculha o mundo, e se voltar sem uma forma de abrir aquela porta, vou tomar seu reino à força. Chega de jogos, chega de enrolar; Inverno será meu. Prove para mim que é útil. Faça com que eu me sinta feliz por ter permitido que vivesse.
Theron empurra o pai para trás, lançando-o cambaleante até a beira do altar.
— Pare.
Mas Noam já foi longe demais para intervenções. O lábio superior dele estremece com um grunhido e o rei segura o braço de Theron com força.
— Não pense que não sei onde está seu coração, garoto. Esta viagem não é apenas um teste para Inverno, prove para mim que é digno de ser meu herdeiro. Não vou mais tolerar jogos de qualquer um de vocês.
Minha boca se fecha, os músculos se retesam e só o que enxergo, sinto e penso é um pânico ressoante que tem início no estômago e se espalha pelo corpo. A magia se ergue como um rompante espiralado, ameaçador, empurrando mais e mais, até a superfície.
Engulo em seco, engasgo. Não, agora não...
Antes que eu consiga acrescentar mais provas de minha fraqueza à cruzada de Noam, saio correndo do altar com a mão no peito, tentando e fracassando e implorando à magia que se suprima de volta dentro de mim.
Minha culpa. É claro que Noam descobriria meu plano... Foi burrice pensar que não descobriria. E temos um prazo agora.
Deveria ter permitido que ele drenasse meu reino até secar? Não deveria ter revidado? Não, é claro que não. Mas não assim. Não como... eu.
A magia dispara, tirando ar dos meus pulmões. Cambaleio pela porta e me atiro de volta ao corredor, o barulho da comemoração se abafa entre as paredes altas e estreitas.
Alguém me diz algo, distante e enevoado, e meus joelhos estalam quando caio no chão.
Mas não usarei a magia — não sou fraca, não tenho medo. Eu sou a rainha.
— Minha rainha! — Sir se ajoelha diante de mim.
Eu me apoio no chão, trincando os dentes.
— Eu... Eu fiz aquilo...
O rosto de Sir se suaviza. Suaviza.
— Você tentou, minha rainha. Mas entende agora.
Pisco para ele. As palavras de Sir entram em minha mente como pedras afundando em uma piscina.
Ele permitiu que eu fizesse isso. E não está com raiva — está ansioso. Como se tivesse me permitido esse único lampejo de quem eu costumava ser como um teste de meu crescimento. Hannah teria feito o mesmo — me deixaria mergulhar fundo, sabendo que eu perceberia minha tolice e voltaria mancando para o que era certo.
Entendo. Sempre entendi, mas achei — esperei — que pudesse lidar com aquilo como eu.
Mas apenas uma rainha pode dar conta de governar um reino, não uma garota-soldada órfã. Ninguém mais consegue lidar com o próprio passado; por que achei que o meu nos ajudaria?
Ao meu redor, Nessa, Conall e Garrigan estão de pé, com as expressões contraídas de preocupação.
Sir permanece ajoelhado ao meu lado, inexpressivo.
— Está bem, minha rainha?
— Não — resmungo. Odeio Sir por não ter acreditado em mim; odeio a mim mesma por ter acreditado em mim. — Mas juro que ficarei.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!