21 de janeiro de 2019

Capítulo 7

MEU CORPO TODO se encolhe, como uma mola tensa, conforme corro de volta para o estábulo. No escuro, mal consigo discernir as cinco formas que se movem em volta de nossos cavalos, montando selas e estribos e se xingando para que se apressem.
— Meira!
A voz de Sir se choca contra mim, envolta em pânico, e uma pequena parte de mim dá um salto de desespero, querendo se esconder até o que quer que esteja assustando os adultos vá embora. Ele passa por mim às pressas e, para acompanhá-lo, preciso concentrar cada pingo de energia nas pernas conforme corro pela grama. Todo mundo está por perto — Dendera, Finn, Greer, Mather e Henn. Alysson é a única que não está entre nós, a única não lutadora do grupo.
Os batedores não param conforme nos aproximamos, não sacam armas ou tentam reduzir nossa velocidade; eles simplesmente se lançam com vigor renovado à tarefa de libertar os cavalos. O soldado de Primavera mais perto de mim usa uma faca para serrar a corda que amarra uma montaria à cerca. Disparo para impedi-lo e meu novo chakram voa da palma da mão, cortando o pescoço do soldado com um sussurro ágil e suave de movimento antes de voltar para minha mão. O soldado cambaleia para trás como se tivesse se chocado contra uma parede, a faca escorrega dos dedos dele conforme o homem cai, os joelhos se chocam contra a grama, a boca está entreaberta para o céu estrelado acima dele.
Salto por cima da cerca e para o estábulo, junto com todos, uma onda de morte inverniana. O soldado que matei está jogado ao lado de onde aterrisso e não consigo evitar olhar para o rosto dele. O homem é jovem. É claro que seria jovem. Nem todos os soldados estão marcados pelo tempo, cobertos com o sangue de todas as pessoas que mataram, prontos para morrer também.
Engulo em seco. Não há espaço para emoção na guerra — outro ditado de Sir.
Dois dos homens se viram para formar uma barreira improvisada entre um dos colegas, quase montado em um cavalo, e nós. Com expressões de assassinos, eles observam o soldado que matei e levam as mãos às espadas na cintura. Mas Sir está correndo, aproximando-se deles, e os soldados não sabem, mas já estão mortos.
Sir chuta a cerca e se impulsiona para o ar, com facas curvas em cada mão. As lâminas dele brilham na noite, graciosas e mortais, e Sir se arqueia como uma cobra se preparando para o bote. Os soldados armados nem mesmo terminaram de se virar para encará-lo quando Sir cai sobre o primeiro, deslizando as facas pelo pescoço do soldado até o tronco dele. A força da aterrissagem atira esse soldado contra o seguinte e, quando Sir arranca as facas do corpo, ele usa o movimento para cortar a garganta do outro soldado. Os dois homens caem, engasgando conforme sangue pulsa pelos ferimentos nos pescoços deles, enquanto Sir se vira para o soldado que tentaram proteger, aquele que ainda tenta com dificuldade libertar o cavalo.
O homem se vira para encarar Sir, os olhos se abaixam para os corpos aos pés dele.
— Por favor — choraminga o homem, lança a mão em direção ao cavalo, erra, e cai no chão entre os dois homens que Sir matou. — Por favor... estou implorando...
Sir fica de pé acima dele.
— Onde está sua arma? — A voz de Sir lança tremores de alerta por minha pele, a primeira sensação que tive desde que matei o soldado.
O soldado se acovarda.
— Eu não...
Sir pega uma espada da mão do homem morto próximo e a atira, cabo adiante, para o soldado balbuciante, que hesita.
— Pegue — resmunga Sir.
O soldado pega a espada. Assim que a lâmina está na mão dele, Sir dispara, enterrando as facas no peito do soldado. Olhos anuviados me encaram enquanto a boca do homem se abre e se fecha, implorando por um último suspiro, apenas um...
Um último gemido mortal e ele desaba, um peso-morto, ao lado dos demais soldados de Primavera.
A noite faz os homens mortos parecerem nada além de corpos reluzentes enroscados no sono. Quando o sol nascer, revelará o sangue, as vísceras, os córregos vermelhos cobrindo a grama dentro do estábulo. Um fedor pungente de ferro paira sobre o local, fazendo meus pulmões queimarem. Deveria chover, uma tempestade estrondosa e histérica, para lavar tudo aquilo. Os restos de cinco vidas...
Paro.
Um, dois, três, quatro.
Quatro. Não cinco. Havia cinco soldados, não?
Examino a área. Dendera e Mather ajustam selas e outros suprimentos que os soldados de Primavera arrebentaram. Greer, Henn e Finn cutucam os cadáveres, pegando armas. Sir se agacha sobre as mortes que causou, limpando o sangue das facas com uma das camisas dos homens.
E logo atrás de Sir, atrás do cavalo que o último homem tentava montar, um pedaço de corda pende da cerca, ao lado do portão aberto. Cortado.
Meus braços tremem com pavor antes de eu pronunciar o nome dele.
— Sir.
Ele me olha, embainhando as facas.
Aponto para a corda pendurada e o portão aberto.
— Havia cinco batedores.
Sir se vira e encara a corda. Os olhos dele se voltam para além dela e ali, já um pontinho no horizonte, está o último soldado, disparando em uma nuvem de poeira sobre um de nossos cavalos. O homem está longe o bastante do alcance para não ser pego. Ele contará a Angra onde estamos.
Ansiedade toma conta de meu estômago, me preenchendo com o conhecimento do que acontecerá a seguir. Sir se vira para me encarar, os olhos dele saltam de mim para Dendera e então Finn e todos. Não, não diga, não...
— Vamos partir. Agora. Peguem apenas o necessário — anuncia Sir, já desatando os cavalos da cerca. — Reúnam-se ao norte do acampamento em cinco minutos.
As palavras dele se chocam contra mim.
— Vamos fugir? — digo, com a voz esganiçada, guardando o chakram. — Não podemos simplesmente...
Sir dá um passo na minha direção e, mesmo no escuro, consigo ver que os olhos dele estão vermelhos. É a única forma com que Sir demonstra emoção, pelos olhos.
— Não vou arriscar, não quando estamos finalmente tão próximos. Comece a fazer as malas ou monte um cavalo.
Ele se vira, dá alguns passos na direção da grama até chegar a Mather, pega o braço dele e sussurra algo que fez a expressão no rosto de Mather imitar aquela de choque e raiva no meu. Sir corre até os demais, disparando as mesmas ordens para eles — guarde o que conseguir, não há tempo a perder. Eles se separam, correndo para o acampamento para obedecê-lo.
Sir não os vê conforme fala. Os olhos dele disparam pelo horizonte, estoico, calmo. Uma rocha no oceano, de pé contra as ondas que quebram. Herod pode ser grande e sombrio, mas Sir é grande e luminoso — tão imenso quanto, tão ameaçador quanto, a força dele constituída pelo puro impulso de vingança.
Com Sir liderando, como perdemos para Angra?
— Meira.
Encolho o corpo. Minha concentração estava tão fixa em Sir que não ouvi Mather se aproximar. Ele sorri, mas o sorriso é maculado pelo suor que escorre pelas bochechas, pelo pânico que nos cerca.
— Deixou que eu a surpreendesse? — adivinha Mather, tentando amenizar as coisas.
Dou de ombros.
— Preciso deixar que pense que é bom em alguma coisa.
Ele assente, os lábios ficam relaxados enquanto me observa com olhar calmo e sério. Como se jamais precisássemos abandonar o acampamento ou fugir separados pela noite até nos reunirmos em algum lugar seguro. Já fizemos isso ao menos uma dúzia de vezes desde que éramos pequenos o bastante para nos lembrar, mas Mather me olha agora como se jamais tivesse precisado me deixar antes.
— Mather? — soa como uma pergunta.
Ele se vira para mim, para, recua, hesita como se não conseguisse reunir coragem para fazer algo. Minha garganta se fecha, o choque me sufoca, não permite que eu ouse ter esperança de que Mather fará o que penso...
Por fim, ele se aproxima e me ergue contra si. Um abraço apertado, de corpo inteiro, os braços envolvendo minhas costas, me segurando contra o peito com os pés pendurados no ar, o rosto em meu pescoço.
— Vou encontrar uma forma de consertar isso — diz ele para mim, as palavras vibram por minha pele, arrepios que estremecem meu interior.
Devagar, com cuidado, relaxo em Mather, meus braços envolvem o pescoço dele.
— Eu sei — sussurro. Quando Mather começa a me colocar no chão, me agarro com mais força, mantendo a boca ao ouvido dele. Preciso dizer as palavras, mas não consigo encarar Mather conforme elas saem de meus lábios. — Todos sabemos, Mather. Você fará tudo que puder por Inverno. Ninguém jamais pensou menos de você e acho... sei que Hannah sentiria orgulho por você ser o filho dela.
Mather não responde, apenas me segura ali, ofegando no espaço entre nós. Quero levar o rosto ao dele; quero ficar desse jeito, quase em um beijo, para sempre. Os desejos conflitantes fazem minha pulsação acelerar até que eu tenha certeza de que Mather consegue sentir o ritmo no peito. Consigo sentir o de Mather, a batida rápida do coração galopante contra meu estômago.
Em um movimento brusco, ele me coloca no chão, desliza uma das mãos para minha nuca e dá um beijo em meu maxilar, detendo os lábios em minha pele, deixando a sensação permanente de raios em minhas veias. O peito de Mather se encolhe, a tensão no rosto dele se desfaz quando se afasta de mim. Vejo um brilho nos olhos dele, uma camada muito fina de lágrimas. Ele não diz nada ou concorda comigo ou faz mais do que dar um último apertão em meus dedos.
Então se vai. Dispara para o acampamento para fazer as malas ou selar o cavalo ou o que seja que Sir ordenou que fizesse.
Fico de pé no meio do estábulo, com a mão no maxilar. Meus olhos se voltam para cima, buscando Mather em meio ao caos.
O que foi aquilo?
Mas sei o que foi. Ou pelo menos sei o que quero que seja — o que sempre quis que fosse. O que preciso dizer constantemente a mim mesma que nunca, jamais poderei ser. Mas por que agora, no meio da fuga, quando não posso encurralar Mather e obrigá-lo a explicar ou pensar em um jeito de ignorar o que chegou a acontecer? Porque aconteceu. Meu maxilar parece ter sido marcado pela boca dele como um ferrete e não importa quantas vezes eu repita “Ele é nosso futuro rei” para mim mesma, não consigo tirar a impressão dos lábios de Mather da pele.
Não quero tirar a impressão deles da pele.
Sir se coloca diante de mim, arrastando dois cavalos já selados.
— Pegue suas coisas.
Abaixo a mão, as palavras de Mather e os lábios dele e os braços em volta de mim somem no fundo de minha mente; eu os seguro ali, como âncoras diante de toda essa incerteza.
— Não — resmungo para Sir. Não, não podemos simplesmente ir embora. Precisamos ficar; precisamos planejar algo melhor do que fugir. — Não posso deixá-los...
Com um movimento rápido, Sir segura meu braço e me atira no cavalo selado mais próximo. Ele salta para o próprio cavalo e pega minhas rédeas e as dele, disparando um olhar de raiva que me diz para não discutir.
Os olhares de raiva de Sir jamais me impediram antes.
— Não podemos deixar que destruam este lar também!
Alysson e Dendera sobem para as próprias montarias conforme cavalgamos para fora do estábulo. Paramos rapidamente diante da tenda de reuniões, por tempo o bastante para que Finn, Greer e Henn acenem brevemente para Sir dizendo que sim, tudo será destruído antes de partirmos. Sir agita as rédeas e, conforme continuamos, ouço um leve crepitar de fogo dentro da tenda, as chamas devoram tudo que tem importância, mapas e documentos. Eles provavelmente usaram a braseira. Não poderemos levá-la conosco. Angra vai encontrá-la, a única parte de nosso passado que possuímos, cheia até a borda de cinzas.
Enquanto mexo no cepilho da cela em busca de algo para segurar além de uma arma, os punhos de Sir sobre minhas rédeas se abaixam, a mão dele se abre apenas o suficiente para segurar a minha. É tão súbito que não sei dizer se está tentando me confortar ou se certificando de que eu não tome o controle do cavalo.
— Não é sua culpa — resmunga Sir. — Não é culpa de ninguém.
Minha garganta se fecha e apenas permaneço sentada, entorpecida e pequena. É culpa minha; levei os batedores até lá. E sei que ficar é inútil — Angra mandará muito mais do que cinco homens agora e, com apenas oito de nós, as chances são uma piada. Uma sentença de morte. Mas não posso simplesmente fazer nada — fazer nada vai me matar mais rápido do que encarar o exército de Angra inteiro sozinha.
Sir para nossos cavalos quando chegamos às planícies do lado norte do acampamento. Um segundo depois, nos reunimos com cada cavalo, cada pessoa e tudo que conseguiram pegar no tempo que Sir permitiu. Quanto aos nossos animais de pasto, espero que Angra os trate melhor do que trata nosso povo.
— Dividam-se, dois cavalos por grupo. Depois que for seguro, nos reuniremos em Cordell — anuncia Sir. Ele aponta para Dendera, que está sentada em um cavalo ao lado de Mather, que está na montaria dele. — Mantenha. Ele. Vivo.
Dendera faz uma reverência com a cabeça e fica dessa forma até que Sir puxe as rédeas do cavalo. O animal recua com um relincho poderoso, enchendo todos os cavalos com adrenalina. Por cima do barulho, Sir me olha e acena, me pedindo para seguir.
Quando ele ruma para noroeste, para dentro das agora escuras planícies, como uma das bolas de canhão de Angra, sigo-o bem de perto.
Todos seguem, um leve estouro antes de nos dividirmos. Olho para trás e, conforme Alysson galopa com Finn, Greer e Henn seguem para o leste e Dendera e Mather vão para nordeste.
Mather me olha, os olhos dele se fixam nos meus com a mesma intensidade de antes. Ele impulsiona o cavalo ao lado do de Dendera, então os dois se vão, disparando pela noite.
Sir recua seu cavalo para o lado do meu. O vento açoita minhas bochechas, secando as lágrimas conforme elas caem.
Não é culpa minha, disse Sir, e Sir só diz a verdade.


Depois de uma hora galopando sem parar, reduzimos a velocidade. Grupos esporádicos de árvores e arbustos são tudo o que vemos, as silhuetas secas e mortas abertas contra a noite. Continuamos em frente, cavalgando até o sol nascer. Até ele se pôr de novo. Até que os cavalos simplesmente não aguentem mais. Então desmontamos deles, nos certificamos de que há água por perto e os deixamos. Sir tira todo o equipamento dos cavalos antes — a sela, as rédeas, as mantas e a pequena armadura. Ele esconde as partes inúteis em arbustos secos, mantém o restante na sacola; e com um último tapinha nas ancas dos animais, continuamos para noroeste por dois dias a pé, parando apenas para dormir e verificar o horizonte em busca dos homens de Angra.
Sir mantém o suprimento de comida racionado, apenas o bastante para me deixar louca de fome. Pequenos córregos de água lamacenta passam de vez em quando, plantas comestíveis são ainda mais escassas e sombras são inexistentes. Há apenas o sol, a grama amarela, os arbustos mortos, sem folhas, durante horas.
Odeio calor. Odeio o suor que pinga entre minhas escápulas, o modo como os raios de sol assam cada área exposta da pele até que fique esfolada. Mas odeio ainda mais o silêncio, e Sir não fala. Não é apenas o silêncio normal dele — Sir está completamente mudo. Ele não me olha, não me reconhece, durante horas e mais horas de caminhada infindável.
No momento em que acho que preciso derrubar Sir no chão, ele se ajoelha ao lado de algo na grama. Um córrego, com pouco mais de um braço de largura. É a água mais límpida que vemos desde que começamos, e a névoa do calor se levanta em um rompante de alívio quando suspiro para o pequeno trecho de plantas verdes semivivas aglomeradas ao redor das margens. Vegetação resistente fica tostada ao sol, mas é mais comestível do que a maioria das iguarias das planícies Rania, como corvo.
Sir me olha quando tira a sacola dos ombros.
— Acampamos aqui esta noite e seguimos para Cordell amanhã. Ninguém está nos seguindo. Quanto mais cedo chegarmos à segurança, melhor.
Embora a tentação de água limpa esteja a poucos passos, permaneço congelada. Sir está falando comigo.
— Por que vamos a um reino Ritmo? Achei que você odiasse o Rei Noam?
Sir se vira para a água, os ombros se curvam um pouco, mas ele não responde.
— Não posso ajudar até saber o plano. E goste você ou não, minha ajuda é tudo o que tem agora.
O tom áspero em minha voz me assusta, e abaixo os braços. Sigo adiante, hesito, incerta de que reação virá. Mas quando me aproximo de Sir, só vejo os indícios de sangue seco que escorrem como redemoinhos das mãos dele para a água. Está coberto de sangue de Primavera há dias. É claro que está — quando teria conseguido limpar?
O rosto do soldado que matei lampeja em minha mente. Minha culpa. Todos os homens que morreram no acampamento foram minha culpa também.
Sir assente para a esquerda.
— Rio acima — diz ele, ignorando minhas palavras ríspidas.
Tiro o chakram do estojo e o solto na grama antes de seguir para a esquerda, lutando para abrir caminho por trechos de vegetação rasteira. Cada parte minha parece ensanguentada, suja, como se eu estivesse coberta da cabeça aos pés com as entranhas dos soldados de Angra. Eu me ajoelho e enfio a cabeça na água até os ombros. O frio lava parte do calor, flui por mim e afasta meu pânico. Meus arrependimentos.
Já matei antes. Já vi Sir matar antes. Já vi todos do acampamento, até mesmo Mather, salpicados de sangue e mancando da batalha. Eu não deveria me importar que alguns soldados de Primavera morreram; eles mataram milhares de nosso povo.
Meus pulmões começam a queimar, mas permaneço embaixo d’água, mantendo a respiração presa até que a necessidade dolorosa de ar seja a única coisa que eu sinto. Nada mais. Não tenho espaço para nada mais.
Dedos se fecham em torno de meu braço. Antes que eu consiga despertar o suficiente para perceber quem é, inspiro. Água flui para dentro de meus pulmões, pânico quente e ao mesmo tempo gélido corre para meu peito com a água indesejada e me liberto do córrego, engasgada e sem fôlego. Sir me arrasta para a grama, golpeando minhas costas com o punho para que o restante da água saia por meu nariz em uma corrente de sujeira.
Assim que meus pulmões se esvaziam, fico de pé, sacudindo poeira e água dos olhos.
— Estou... estou bem. Você me assustou. Estou bem.
Mas Sir não parece convencido.
— Nada disso é culpa sua. E você já matou antes — diz ele. Os sentidos assustadoramente perceptivos de general finalmente funcionam a meu favor para variar. — Matará de novo. O truque é não deixar que isso a incapacite.
— Não deixo. — Fecho a mão em punho, sujeira arranha meus dedos. O restante de mim está calmo, cauteloso, força cada pingo de ódio a sair pela mão em punho. — Não quero que fique fácil. Nem mesmo se for o próprio Angra. Quero sentir, sempre, para que eu jamais seja tão ruim quanto ele.
Ou você. Não quero acabar tão severa quanto você.
Encolho o corpo diante do pensamento, mais culpa se empilha sobre o restante. Ele nem sempre foi assim, lembro-me. Alysson contou a Mather e a mim sobre a noite em que Jannuari caiu nas mãos dos homens de Angra. A noite em que 25 de nós escapamos, ocultos por uma tempestade de neve criada pelo último pingo de magia de Hannah, antes que Angra quebrasse o medalhão ao meio e a matasse.
— William foi o único motivo pelo qual conseguimos fugir — contou Alysson a nós enquanto nos reuníamos em volta da fogueira certa noite, esperando que Sir voltasse de uma missão. — Podíamos ver os lampejos de fogo de canhão e nuvens de fumaça sobre a cidade e queríamos correr de volta para salvar nossos conterrâneos, mas William nos manteve em movimento até cruzarmos a fronteira, até escaparmos. — Ela parou então, acariciando a bochecha de Mather com uma das mãos. — Foi ele quem carregou você no peito durante toda a cavalgada para fora de Inverno, depois que nos libertamos de Jannuari. Sempre que um de nós implorava para que ele voltasse e ajudasse a salvar nosso reino, William colocava a mão em sua cabecinha e dizia: “Hannah confiou a nós a continuação da linhagem dela. É assim que salvaremos Inverno agora”. Embora uma guerra estourasse atrás de nós, embora estivéssemos em uma nevasca caótica para esconder nossa fuga, embora não fôssemos chegar à segurança durante dias, William foi muito bondoso com você. Um guerreiro com o coração mole.
Sir jamais contou essa história ele mesmo e, depois que Alysson nos contou uma vez, jamais ouvimos de novo. Mas eu observava Sir depois daquilo, procurando pelo coração mole que Alysson mencionara. De vez em quando, eu via um lampejo — um estremecer nos olhos, quando Mather hesitava no treino de luta, um retorcer de lábios, quando implorei para aprender a lutar. Mas foi tudo o que vi do general que, certo dia, carregou um bebê durante dias até a segurança. Como se todo o coração mole de fato tivesse sumido, mas de vez em quando os músculos tivessem espasmos por conta da memória daquilo.
Assim somos todos nós, endurecidos demais pelo que deveríamos ser. Deveríamos ser uma família, não soldados. Mas tudo o que realmente nos conecta são histórias e lembranças do que deveria ser.
Sir assente. Ele está limpo agora, cada gota de sangue se foi, exceto pelas manchas nas roupas. Como se jamais tivesse acontecido.
— Não querer esquecer o quanto é horrível matar alguém é o que faz de você uma boa soldada.
— Você acabou de... — Meu punho relaxa. — Você acabou de me chamar de soldada. De uma boa soldada.
Os lábios de Sir estremecem no que é a versão dele de um sorriso.
— Não deixe que isso a incapacite também.
O sol seca a água em minhas bochechas e começa a queimar minha pele de novo. Esse é um momento estranhamente tranquilo. Sir e eu. Luto contra a vertigem que ameaça estragá-lo.
— Deveríamos nos abraçar ou algo assim?
Sir revira os olhos.
— Pegue sua arma. Vamos para Cordell.

Um comentário:

  1. Cara... É no mínimo muito estranho... como Sir prefere fugir com ela que com a esposa... Essa menina é muito especial!!!
    Tudo bem que ela por ser a protagonista não seria qqr coisa... Mas tem muito... Muito mais por vir
    Amando tudo até aqui!!!!

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Boa leitura, E SEM SPOILER!