26 de janeiro de 2019

Capítulo 6

Meira

OS SOLDADOS CORDELLIANOS que nos escoltaram até o palácio mal se movem quando disparo para fora da sala; apenas duas pessoas se importam, e a presença delas acrescenta uma fria segurança à minha mente acelerada.
Conall não diz nada, apenas me segue quando viro à direita, mais para dentro do palácio. Garrigan o segue de perto, tão silencioso quanto, com uma expressão rigorosa e inquisidora, em vez da impassível e determinada de Conall. Os dois provavelmente estão curiosos para saber o que aconteceu, mas pelo menos dessa vez a posição que ocupam os impede de perguntar.
Seguro a saia na mão fechada e continuo andando, com as costas eretas. Sou a rainha, e estou me comportando exatamente como uma rainha se comportaria — orquestrando manobras políticas.
Por sorte, o Palácio de Jannuari salienta minha ilusão de ser rainha com mais força do que qualquer outra coisa. O lugar inteiro parece majestoso — se eu me concentrar no que poderia ser, não na ruína que é.
Antes mesmo de saber que eu era rainha, Hannah me mostrou suas lembranças do palácio através da conexão que mantemos pela magia. Vi o salão de baile, a grande praça se estendendo da escadaria de mármore como uma nuvem ondulante de um branco tão puro que o salão inteiro reluzia. Ela me mostrou os corredores, cada um mais alto do que o anterior, iluminados por candelabros que projetavam luz na perfeição de marfim. Tudo era branco — entalhes nas paredes, esculturas em nichos, molduras que dançavam em círculos e quadrados pelo teto. Tudo era lindo e inteiro e perfeito.
Todas essas imagens se misturam com o que vejo agora, criando uma colagem do velho e do novo, inteiro e quebrado. As lembranças de estátuas brancas em cada nicho, e velas tremeluzindo sobre mesas, e as paredes de painéis brancos se mesclam com o palácio semidestruído que existe agora; buracos rasgando as paredes e escombros formando pilhas.
Uma faísca de anseio se acende. Hannah me mostrando como era Inverno é uma das poucas boas memórias que tenho dela. Lembrar disso agora...
Encontrarei uma forma de trazer Hannah de volta. Pelo menos acho que quero fazê-lo.
Escancaro uma porta que dá para o porão. Garrigan e Conall me seguem para dentro do ar ainda mais gélido, as paredes cinzentas formam um contraste chocante com os corredores de marfim acima. Continuamos até chegar a um corredor, mais pedras formam o piso e paredes que abrigam portas pesadas de ferro.
Como as minas que se estendem sob as montanhas Klaryn, um labirinto de quartos serpenteia para as profundezas do Palácio de Jannuari, os pisos de pedra lisos pelo desgaste devido aos anos de passadas, candelabros cobertos de poeira, mas que ainda apoiam esferas tremeluzentes de fogo. Aqueles corredores certa vez abrigaram escritórios ou armazéns ou mesmo calabouços, mas a maioria das salas agora está fechada e em desuso.
Exceto por algumas no final.
Eu corro, meus passos gentilmente tocando as pedras. Direita, esquerda, direita de novo, até chegar a um corredor pequeno com três portas, todas bem trancadas.
Ou... deveriam estar trancadas.
Uma está aberta à direita, o que me causa um breve rompante de preocupação antes de eu me recompor. Acabamos de voltar de Gaos — os soldados ainda não terminaram de armazenar nossos novos recursos ainda. São apenas eles.
Mas quando dou um passo até a porta, sinto como se fosse drenada por dentro.
— Mather?
Ele não se levanta de onde está, sentado no chão, diante de uma caixa de madeira, com papel em uma das mãos, pena na outra. As pedras, ainda pedaços irregulares de rocha cobertos de terra, não foram polidas até se tornarem os pedaços multifacetados e brilhantes que devem ser. Os candelabros atrás de mim projetam uma luz laranja e amarela nos espólios: sinistra e ondulante, dançando pela sala e tocando cada peça.
Ver Mather faz com que ondulações vibrem por meu corpo, porque, exceto por Conall e Garrigan, que permanecem no fim do corredor, a alguns passos, estamos sozinhos.
Mather ergue o rosto para mim, a expressão dele está rígida, como se esperasse que eu fosse alguém aguardando ordens. Mas quando me reconhece, o rosto se contrai.
— Você não é cordelliana.
Franzo a testa.
— Deveria ser?
Mather se recompõe, os olhos vão de minha cabeça até meus pés tão rapidamente que eu poderia ter piscado e não notado.
— Eu... Por que está aqui embaixo, minha rainha?
É o mais próximo que estivemos um do outro em meses, e é isso que Mather diz?
— Por que você está aqui embaixo? — disparo de volta.
— Ajudando. Você não deveria estar aqui, é perigoso.
— Perigoso?
— Poderia ser esmagada. — Mather indica as pilhas de caixas ao redor.
Nenhuma delas passa da altura do meu quadril.
A concentração de Mather retorna ao papel e ele faz anotações, a mão tremendo levemente conforme escreve.
— Perigoso — repito. Meu maxilar se contrai. Mather permanece quieto, fingindo distração, e a quietude permite que a última hora, a última semana, os últimos meses percorram meu corpo.
— Está preocupado comigo? — disparo. — Precisa me perdoar, pois as únicas interações que tivemos nos últimos três meses foram em reuniões com uma dúzia de outras pessoas. Então pode imaginar por que eu ficaria confusa por você pensar em proteger a rainha de Inverno, já que durante os últimos meses agiu como se não desse a mínima para ela. Mas não se preocupe, tenho muitas outras pessoas na vida que aperfeiçoaram a habilidade de fingir se importar. Não me deve nenhum favor.
Isso atrai a atenção de Mather de volta para mim.
— Eu não... E... O quê? — Mather abre a boca, olha ao redor da sala como se estivesse tentando encontrar uma explicação nas caixas. — Eu estava apenas sentado aqui, fazendo inventário para seu reino, quando você entrou de repente. O que eu deveria ter dito? Pelo gelo, só precisa de alguém com quem gritar?
— Sim!
Mather se encolhe; minha boca se escancara e todo meu ódio recua sob uma enxurrada de emoções muito mais fortes.
Sinto falta dele. Tanta que meu peito dói, e não acredito que a dor ainda não me matou. Só quero dizer a coisa certa, ouvi-lo rir e fazer piadas sobre brincar com Sir. Preciso falar com ele, preciso que sejamos como éramos, duas crianças juntas contra uma guerra. É assim que me sinto agora, mas dessa vez... Não sou criança. E não estou com ele... Estou sozinha.
Cambaleio.
— Eu não deveria...
Mas os olhos de Mather se fecham formando uma expressão irritada antes de ele soltar a pena e ficar de pé. Algo a respeito do comportamento de Mather se suaviza um pouco, e ele afasta as pernas, como se estivesse se preparando para uma luta.
— Tudo bem — diz Mather, de braços cruzados, e o papel se amassa no punho dele. — Grite comigo.
Semicerro os olhos.
— Gritar com você?
Mather assente.
— Sim. Grite. Eu... — Mather para, fechando a boca com um estalo audível. Ele se afasta de mim, recua de novo, contraindo os lábios com frustração nervosa. — O mínimo que posso fazer é deixar você gritar comigo. Nós dois sabemos que mereço. Então — Mather gesticula para que eu continue —, grite comigo.
Estico os ombros, abro a boca, mas nada sai. Sim, ele merece. Mas gritar com Mather não vai desfazer todas as vezes que procurei por ele em reuniões e o encontrei jogado em um canto, participando tanto quanto seria esperado para um lorde de Inverno que acabou de receber o título, mas não tanto quanto seria esperado de meu amigo. Nem mesmo acho que me faria sentir melhor, porque Mather acabaria se sentindo tão exausto e miserável quanto Theron.
Mather ergue uma sobrancelha branca.
— Não precisa gritar de verdade, se não quiser. Sussurros levemente altos servem.
Suspiro.
— Não é com você que eu deveria gritar.
— Alguém merece mais do que eu?
Mather tenta ser engraçado, mas isso não funciona em face às minhas preocupações.
— Como você fazia aquilo? — sussurro, os lábios secos racham com a frieza da sala.
Mather enrijece o corpo. Ele não parece nada confuso pelo que perguntei.
— Eu me concentrava em meu dever. Colocava Inverno em primeiro lugar, acima de tudo. — O peso repentino nos olhos de Mather nega qualquer conselho que ele acaba de dar. — Mas acho que estraguei tudo. Ser rei. Faria diferente agora, se pudesse.
— O quê? Como?
Mather dá de ombros, as palavras saem mais rápido.
— Não me concentraria tanto em Inverno. Eu me permitiria me concentrar em... outras coisas também. Inverno não é tudo.
— É, sim — discordo. — Estava certo em se concentrar em seu dever. É o que estou tentando fazer, mas sinto como se mal conseguisse equilibrar tudo.
— Aconteceu alguma coisa?
A expressão de Mather é familiar, mas não é a que espero.
Não há medo. Não há ruptura. Apenas força.
Estive esperando que Mather se curasse sozinho. Torcendo e precisando e querendo que ele, de alguma forma, resolvesse os conflitos de nossas vidas para que eu pudesse ter meu amigo de volta.
Será que Mather resolveu essas coisas? Será que aceitou nossas novas vidas?
Ou está apenas escondendo a dor, como todo mundo?
— Encontramos o abismo de magia — conto, pronunciando cada palavra devagar, como se testasse a força de Mather. — E Noam vai nos mandar em busca de uma forma de abri-lo. Vamos para Verão, Yakim e Ventralli, e achei que eu...
— O quê? — exclama Mather. — Encontraram? Quando? Onde?
— Na mina Tadil. Há alguns dias.
Mather recua, os olhos distantes enquanto pensa.
— Noam não estava em Inverno quando você encontrou.
Faço que não com a cabeça.
— Então por que, em nome de tudo que é frio, contou a ele?
— Eu não queria contar — disparo. — Theron...
Ah, não.
— Não — sussurra Mather. — Theron contou a Noam?
Não digo nada, e meu silêncio confirma. Depois de uma pausa, Mather resmunga, e me preparo para um sermão. Esse será o momento em que saberei em que pé está nosso relacionamento agora, como ele reagirá a Theron.
Mas Mather apenas força o resmungo a virar um suspiro.
— Isso foi um erro dele.
Perco o fôlego e minha garganta se fecha diante do conforto inesperado que Mather oferece.
Tusso, me desvencilhando do espanto.
— Não foi por isso que desci aqui. Preciso de mercadorias. Não aquelas que daremos a Outono e Cordell.
Mather semicerra os olhos.
— Quer mercadorias? Por quê?
— Ventralli e Yakim me convidaram para os reinos deles antes de essa viagem ser planejada, e quero tirar vantagem do interesse deles em nós enquanto estiver lá. Dar algumas joias como uma oferta de boa-fé, para simbolizar poder comercial sobre algumas de nossas minas em troca de... apoio.
O rosto de Mather se suaviza, as sobrancelhas se erguem quando ele sorri. Aquele sorriso de rosto inteiro, de fazer tremerem os joelhos, que sempre me atingia quando eu era criança.
— Quer pegar algumas dos estoques que devemos a Cordell — esclarece Mather.
Assinto.
— Mais do que você imagina.
Mather solta uma gargalhada.
— Acho que imagino muito bem. — Ele se aproxima e ergue o papel no qual estava escrevendo, agora amassado pela forma que Mather o segurou. — Sou um dos invernianos ajudando a separar os recursos das minas. E o que recebemos deve ir direto para Cordell e Outono esta noite, mas... — Mather para, a malícia brilha nos olhos. — Dar tudo a eles não pareceu o melhor investimento para o futuro de Inverno.
Inclino a cabeça.
— O que quer dizer?
— Estive separando recursos de todos os carregamentos para ajudar a reconstituir nosso tesouro.
Choque percorre meu corpo.
— Quan... Quanto?
Mather olha para o papel.
— Cinco caixas. O que não é muito, eu sei, mas não queria que os cordellianos percebessem que parte do precioso pagamento deles se foi.
Mather esteve me ajudando, ajudando Inverno, de formas que eu nem sabia que precisava.
Avanço e seguro o braço dele.
— Obrig...
O olhar de Mather se abaixa para minha mão, cada parte do corpo dele congela ao meu toque. Não recuo, e o olhar de Mather sobe mais, percorrendo meu braço. Meu outro braço está coberto por uma manga justa de cor marfim, mas o que o segura está exposto até a clavícula. Não tinha percebido o quanto isso é mais revelador do que o que costumo vestir, ou costumava vestir, perto de Mather. Camisa, calça e botas.
E quando os olhos de Mather encontram os meus, as bochechas dele coram com um escarlate tão intenso que nem mesmo a escuridão daquela sala consegue ofuscar. Um frio percorre meu corpo, a sensação lancinante de cair em um monte de neve, cada parte de meu corpo formigando e alerta. Sou tomada pela sensação de estar ao mesmo tempo exposta e vestida demais, e quanto mais tempo Mather passa me encarando, mais frio sinto.
Afasto o corpo dele e fecho os dedos na palma da mão.
Mather engole em seco, a garganta agitada.
— Fico feliz por poder ajudar. Mas... — Mather para. — Você já é uma governante melhor do que eu jamais fui.
Balanço a cabeça para lutar contra a forma como Mather me olha, como se me estudasse, reparando no quanto estamos próximos, quanto poderíamos estar mais próximos. Eu o queria de volta em minha vida para ter apoio, alguém para me ajudar a salvar nosso reino, não mais uma complicação.
Mas meu coração diz outra coisa, batendo junto às minhas costelas com pulsações deliberadas e persistentes.
Ele ajudou Inverno. Não está se desfazendo à menção de problemas ou tentando evitar complicações.
— Cinco caixas — repito. — Pergunto-me se será o suficiente.
Mather retorna para nossa conversa.
— Em quanto está pensando?
Sorrio. O rubor remanescente nas bochechas de Mather se aprofunda.
— Mais — digo a ele. — Muito mais. O bastante para mandar uma última mensagem a Noam.
Mather assente.
— Sou a favor de qualquer plano que o desagrade.
Eu rio. O som me sobressalta, alto e retumbante, e fecho a boca com a palma da mão.
— Você pode gargalhar. — Mather ri de minha surpresa.
A parte de mim que passou tanto tempo sentindo falta dele suspira, contente.
O som de passadas ecoa pelo corredor, ricocheteia pela rocha como pedras caindo pela encosta de uma montanha. Eu me viro quando Sir se coloca de pé ao meu lado.
— Minha rainha. — Sir olha para além de mim, para Mather, que fica de pé, costas esticadas, ombros para trás, em uma pose súbita de alerta. Mas Sir não lança mais de um olhar para Mather, a atenção dele se volta para mim. — Precisamos conversar sobre a viagem.
— Eu sei... Mas ainda não. — Eu me viro para Mather de novo. A ideia que ele plantou brota raízes e desenvolve folhas largas, abrigando uma inconsequência semelhante àquela da garota selvagem que eu costumava ser.
Mas embora aquela garota tenha cometido erros, ela é o motivo pelo qual eu tenho um reino para governar. Devo a mim mesma pelo menos tentar ser aquela garota de novo, de alguma forma, ainda que pequena.
— Onde colocou aquelas caixas? — pergunto a Mather.
A pose dele relaxa e Mather aponta para fora para que eu o siga.
Por mais um corredor, passando por duas salas, Mather para, liderando o grupo formado por Sir, Conall, Garrigan e eu. Ele tira uma chave do bolso e destranca uma porta, escancarando-a e revelando um espaço coberto de poeira ainda menor do que as salas pelas quais acabamos de passar.
Mas no fundo estão cinco caixas, cada uma abarrotada com pedaços brutos do futuro de Inverno.
Eu me volto para Sir.
— Na cerimônia de hoje à noite, traga apenas essas cinco caixas.
Sir pisca.
— Minha rainha, Cordell está esperando muito mais do que isso.
— Eles receberão o que merecem com o tempo. Mas por enquanto... Temos uma necessidade maior.
O véu de formalidade de Sir se ergue, mostrando um lampejo da preocupação dele.
— Cordell é nosso único aliado, minha rainha. Não é sábio irritá-los.
Eu sei, e quase digo isso a ele, quase desfaço minha frágil certeza. O que estou fazendo é puramente a velha eu, algo intempestivo e inconsequente, a parte de mim que saiu às escondidas para encontrar o chakram. A parte de mim que lamenta, furiosa, sempre que preciso usar minha magia ou que Noam aprisiona ainda mais Inverno. A parte de mim que quer fazer diferença.
— Por isso vou conquistar mais aliados — digo a Sir.
É perigoso, mas precisamos desses recursos para ganhar aliados e então ter alguma vantagem.
Noam ficará furioso.
E no momento, isso parece maravilhoso.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!