21 de janeiro de 2019

Capítulo 6

PENSAR NA DESTRUIÇÃO de nosso reino não é exatamente um acalento para sonhos tranquilos. Pouco depois de cair no sono, sou acordada estremecendo por pesadelos de uma sombra engolindo as ruas desoladas de Jannuari, uma escuridão tão completa e absoluta que todos os prédios e as pessoas se desintegram no esquecimento.
Ergo o corpo, arquejando em meu pesadelo, grata porque a tenda está vazia. Os únicos barulhos vêm da fogueira que crepita no limite mais afastado do acampamento. Deve ser hora do jantar.
Fico de pé, ainda totalmente vestida, e prendo os cabelos brancos em uma trança. O sol está começando a se pôr quando saio, projetando sobre as planícies Rania um brilho amarelo-acinzentado do dia que está prestes a morrer.
À esquerda, a aba da tenda de reuniões se agita e meus músculos se contraem. Não tenho qualquer vontade de encarar Sir, a não ser que ele apresente uma expressão de desculpas, o que é menos provável do que o reino de Verão congelar. Então, quando a tenda se abre, corro para longe dela, disparando até chegar ao limite sul do acampamento e subir a colina.
O sol poente pulsa diretamente diante de mim e um toque de tranquilidade percorre meus músculos. Uma das únicas coisas boas sobre esse lugar é o pôr do sol. Os tons incandescentes parecem sangrar na paisagem até que o mundo ao meu redor não passe de cores — a noite preta e abrangente, o sol amarelo tremeluzente, os raios escarlate que se espraiam, a grama marrom e oscilante da pradaria.
Deslizo para o chão, apoio os cotovelos nos joelhos enquanto a fogueira do acampamento crepita em algum lugar atrás de mim e o vento sopra em algum lugar à frente. Diante de tudo que aconteceu, parece bom, bom de verdade, apenas respirar por um momento. Então, em minha mente, desenho o mapa que vi pendurado sobre a mesa em Lynia, meus nervos se acalmam enquanto me concentro nas bordas amarelas e gastas, nas linhas marrons desbotadas, algo simples quando tudo ao meu redor... não é.
As planícies Rania — um imenso trecho de pradaria vazia entre todos os reinos. As cortes dos reinos Estação — Verão, Outono, Inverno e Primavera ao sul, unidas pelos braços das pontiagudas montanhas Klaryn. Os reinos Ritmo — Yakim, Ventralli, Cordell e Paisly, espalhados pelo restante de Primoria. Quatro reinos Estação, quatro reinos Ritmo, oito condutores.
A metade do medalhão percorre minha mente. Mordo o lábio e a fina camada de tranquilidade que construí é destruída por uma vitória que parece mais um fracasso. Será que sempre fracassaremos, mesmo quando formos bem-sucedidos? Conseguir a metade do medalhão, conseguir a metade seguinte, formar um condutor inteiro, ganhar aliados para libertar Inverno — quando parecerá o suficiente?
— Meira?
Eu me viro, com o coração na garganta, até que percebo que não é Sir — é Mather.
Ele me observa em silêncio, os olhos percorrem meu rosto. Meu coração pulsa forte entre as costelas e não desvio o olhar de Mather, odiando a forma como ele pode me desvendar com um olhar. Qualquer outra pessoa eu conseguiria ignorar, esconder o medo por trás de um sorriso arrogante, mas Mather vê tudo. Sei que ele vê, porque, pelo mais breve momento, Mather desfaz a máscara inexpressiva e o olhar dele me mostra que sente o mesmo. Um espelho de cada parte de mim que não suporto encarar.
Ele se senta ao meu lado e pergunta, com a voz baixa:
— Foi tão ruim assim?
Franzo a testa.
— Pegar a metade do medalhão? O que faz você pensar que foi ruim?
— Você mal gritou com William mais cedo. Ou está doente ou Lynia foi... Eu fiquei falando dos meus problemas enquanto você... — Os olhos de Mather permanecem no hematoma em minha bochecha como se o visse pela primeira vez. — Você não teria ido se não fosse por mim, e nem me dei conta de que você tinha se machucado. Sou um idiota.
— Não — disparo. — Não. Quero dizer, sim, você é um idiota às vezes, mas não ouse pedir desculpas. Não precisa se sentir culpado por permitir que eu fosse para Lynia. Eu faria de novo, não importa o quanto cheguei perto de ser capturada.
O rosto de Mather se fecha e hesito diante do que falei. Capturada. Ele se vira para o sol, pensamentos ilegíveis percorrem o rosto de Mather. Jamais pude confirmar se a habilidade dele de afastar as emoções era algo que Sir o treinou para fazer ou se era um dom natural. De qualquer forma, quando éramos mais novos e eu o convencia a roubar armas ou a pintar a tenda de reuniões com nanquim, Mather conseguia manter o rosto sério quando Sir perguntava se éramos os culpados. Quero dizer, é claro que éramos — éramos as únicas crianças de sete anos no acampamento cobertas de nanquim preto espesso. Mas Mather sempre se mantinha firme na mentira determinada, repetindo com uma certeza absurdamente crível que ele e eu éramos inocentes.
Até que eu caía em lágrimas e admitia a coisa toda a Sir. Mas Mather jamais ficou com raiva de mim por forçá-lo à travessura ou por ceder durante os interrogatórios de Sir. Ele apenas sorria, me abraçava e dizia algo encorajador.
Mather sempre foi um rei, em todos os momentos da vida.
Sacudo a cabeça.
— Não cheguei tão perto assim de ser capturada — corrijo. — Herod apenas... estou bem. Mesmo.
Mas os olhos de Mather percorrem cada parte de meu rosto e, quando ele finalmente me encara, ergue uma das mãos, os dedos calejados repousam sobre minha bochecha. Uma pontada de dor irradia por meu rosto quando Mather toca o hematoma ali, mas não me mexo, preciso sentir os dedos dele na minha pele mais do que me importo com a dor.
— Ninguém que encara Herod está bem — sussurra Mather.
Uma brisa fria me atinge quando a noite substitui o calor feroz das planícies.
Inspiro o ar almiscarado e tento não me mover quando Mather tira os dedos da minha bochecha, os olhos percorrendo mais uma vez meu rosto, como se estivesse buscando mais ferimentos. O olhar de Mather para em meus lábios, se detém ali, e fico dividida entre precisar saber o motivo e me obrigar a nos afastar.
— Bem, ele roubou meu chakram — digo, tentando qualquer coisa para suavizar o clima.
Mather finalmente sorri. O sorriso ocupa todas as partes do rosto dele, dos olhos até os lábios, e ilumina o ar ao nosso redor, como uma vela em uma caverna.
Mas quase imediatamente o sorriso se desfaz, a luz é abafada.
— William valoriza você, sabe.
Viro para longe, puxando folhas de grama e atirando-as ao ar. Mather não percebe meu distanciamento repentino — ou talvez perceba, mas sabe que preciso ouvir o que ele está dizendo.
— William foi um dos generais de patente mais alta de Inverno. — Mather gesticula no ar, tocando algumas das folhas de grama que soltei. — E ele acha que fracassou. Vê você como alguém que deveria estar dançando em bailes, não escalando torres e matando soldados. Apenas tente ter consideração...
Viro para Mather com o rosto vermelho.
— Consideração com o homem que não pode sequer imaginar um tapinha nas costas, quando nos coloco um passo imenso mais perto de libertarmos nosso reino?
Mather inclina a cabeça.
— Tente entender que ele se sente culpado por precisar de você para ajudar a libertar nosso reino. Não é que você não tenha feito um trabalho incrível, você fez, e todos estão reunidos em volta da fogueira agora mesmo trocando histórias sobre você.
Sorrio, pelo menos um pouco.
— Eu sou muito incrível.
Mather sorri de volta.
— Aposto que teria sobrevivido mesmo sem o lápis-lazúli.
Rio e passo os dedos pelo bolso, onde a pequena pedra está pressionada contra meu quadril. Esqueço o tempo todo que está ali, como se já aceitasse a pedra como parte de mim.
— Você está dando o crédito do meu sucesso a uma pedra?
Ele dá de ombros.
— Ninguém conseguiu a metade do medalhão antes. Não pode ser coincidência e espero que você colha elogios o suficiente a mim, por ter dado a pedra a você para início de conversa.
— Você já levou a pedra em missões do medalhão antes. Por que jamais o ajudou?
Mather suspira e, subitamente, está apenas me observando e todos os indícios de humor somem.
— Você está certa. Acho que não foi a pedra; foi o quanto você é incrível — diz ele.
Frieza se acumula em meu estômago contra o calor que sobe para meu rosto.
Sentado ali, com a luz do poente brincando com as feições marcantes dele, as palavras pairando entre nós... Mather é a força mais constante que já conheci. Angra tem todo direito de temê-lo.
Com metade do medalhão ao nosso alcance, estamos tão mais perto de Mather ser quem ele sempre deveria ser — e preciso vê-lo como esse homem. Sir mencionou algumas vezes que Mather em breve precisará se casar. E será esperado que tenha uma herdeira mulher, e vou torcer por ele e pela linda família nova, e fingir que não acaba comigo o fato de eu não ser o bastante para ele.
Então fico de pé. Tiro as folhas soltas de grama da calça e encaro Mather do alto, com raiva, ignorando o modo frenético com que minha mão segura a pedra no bolso.
— Você está certo, como sempre, Vossa Alteza. Tentarei ser mais compreensiva com Sir.
Mather ergue o rosto para mim, a boca dele se abre como se quisesse que as palavras certas saíssem. Ouvi Sir dizer a ele também: Você é realeza, ela não é, e muita coisa depende de seu futuro para desperdiçá-lo em uma aliança que não beneficiará Inverno.
Mather fica de pé com os olhos fixos em meu rosto.
— Lembra quando eu disse que o mundo não é equilibrado?
Hesito, todo o ar está preso em um nó em minha garganta.
— O quê?
Os dedos de Mather tocam minha mão, aquela que não está desesperadamente tocando a pedra, um leve formigamento do contato faz com que o nó de ar em minha garganta se aperte. Mather prende o dedo em gancho em um de meus dedos, com a respiração irregular.
— Vou encontrar uma forma de restaurar o equilíbrio — promete ele.
Encaro Mather, incapaz de processar as palavras dele. Mather não tenta explicar o que quer dizer, nem faz mais do que ficar parado ali, ao meu lado, me olhando, esperando.
Eu sei que vocês cresceram juntos, mas ele é seu futuro rei. É importante demais para permitir qualquer coisa além de amizade.
Minha pulsação dispara quando as palavras de Mather se chocam com as de Sir, pedaços conflitantes de conhecimento que me deixam zonza. Mather é importante demais para ser desperdiçado comigo. Mas...
Coloco a mão devagar na dele, os dedos ásperos de Mather engolem os meus. Como se ele estivesse esperando que eu correspondesse.
Não.
Meus dedos se esticam, devagar, e deslizo a mão para longe da dele. Vai doer demais quando terminar. Não se — quando. Quando ele se casar com a filha de algum dignitário estrangeiro. Quando seguir em frente.
Desvio os olhos de Mather, incapaz de ver qualquer emoção que dispara pelo rosto dele, se é que alguma dispara, quando me afasto. A noite projeta diversas sombras no campo, as árvores retorcidas como garras e arbustos ao leito do córrego, uma lufada de vento faz com que algumas das sombras oscilem, trechos de escuridão que se movem como javalis chafurdando...
Congelo.
Aquilo não são sombras.
Tudo em meu corpo grita em aviso e xingo Herod um milhão de vezes por roubar meu chakram.
— Mather. — O tom da minha voz o arranca da tensão entre nós. Posso sentir quando Mather os vê, a postura dele se estica. Os corpos nas árvores se movem de novo, cinco deles — batedores de Primavera.
Um dos homens sai devagar de detrás de uma árvore, de pé e à vista. Ele sabe que nós o vemos. O homem inclina a cabeça, o corpo dele está oculto pela escuridão do início da noite, e posso imaginar o sorriso que repuxa os cantos da boca dele. Meu mestre vai ficar exultante por eu ter encontrado você.
Os outros batedores seguem o homem, materializando-se da grama e dos arbustos até estarem de pé à nossa frente, ombro a ombro, com as mãos se contorcendo na altura da cintura. Esperando Mather e eu nos movermos. Um dos homens vira a cabeça na direção do estábulo e retorna tão rapidamente que eu não teria visto o movimento se piscasse. Eles vão roubar nossos cavalos e voltar para Primavera; provavelmente abandonaram os próprios cavalos algumas horas antes para evitar serem vistos. Tentarão matar alguns de nós antes de partirem, reduzir nossos números ainda mais antes de contarem a Angra onde estamos para que ele possa arquitetar o último golpe.
Para que possa ser ele mesmo o assassino de Mather.
Não podemos deixar que retornem a Primavera.
Precisamos de armas. Precisamos alertar os outros. Precisamos...
Mather toma uma decisão antes de mim, segura minha mão e me arrasta para o acampamento. Dou uma última olhada para trás. Os cinco soldados se movem, irrompendo pela grama na direção do estábulo.
Isso é culpa minha. Eles me seguiram. Eu os trouxe até aqui de Lynia, direto para cá, porque Sir está certo — eu sou apenas uma criança que não deveria lutar em uma guerra.
Mather me puxa mais rápido e algo salta para fora do colarinho da proteção peitoral de couro dele. A metade do medalhão. Ela brilha à luz do sol poente, desbotada e intermitentemente às sombras, mas imbuída de um potencial forte e incandescente. É a essência de Inverno.
Solto a mão de Mather.
— Avise Sir!
Mather para subitamente, mas eu já fui, disparando para minha tenda. A voz dele some atrás de mim, quando Mather começa a correr de novo, aproximando-se dos demais e se afastando de mim.
— Batedores! — grita ele. — Batedores, cinco deles...
Finn também tem um chakram. Eu o encontro junto com um estojo enquanto Sir grita do outro lado do acampamento.
— Certo, novo chakram — murmuro. — Está na hora de mostrar a Herod que não gostamos de ser seguidos.

3 comentários:

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Boa leitura, E SEM SPOILER!