17 de janeiro de 2019

Capítulo 6

— Aí está você, seu pequeno bastardo — Livius rosnou.
Ele agarrou Magnus pela garganta. Magnus tentou alcançar a lâmina que enfiara debaixo da camisa novamente, mas, ainda enfraquecido da briga com o ladrão, ele falhou.
Maddox estava ao seu lado em uma batida de coração.
— Deixe-o em paz!
— Benito pegou meu olho — sussurrou Livius. — E esse pequeno ladrão pagará por essa perda com sua vida.
Magnus se esforçou para olhar para Maddox, pensando que ele poderia usar sua estranha magia novamente para deixar Livius inconsciente. As mãos de Maddox estavam em punhos, seu rosto uma careta de concentração. Mas seus olhos corriam de um lado para o outro, aparentemente incertos.
Livius empurrou Magnus para trás, sua atenção movendo-se totalmente para o garoto.
— Sua magia ainda não funciona em mim, não é? — Seu sorriso parecia mais o aparecimento dos dentes de um predador. — Sorte minha.
— Deixe Magnus ir. Não é culpa dele que os homens do agiota tenham vindo atrás de você. É culpa sua!
— Eu lidarei com você mais tarde. — Com um empurrão, ele enviou Maddox tropeçando para trás e, em uma repetição da história recente, Maddox bateu a cabeça contra a parede de pedra e caiu no chão, inconsciente.
Magnus olhou para seu amigo, então deu uma olhada de fúria ao homem.
— Ele é um garoto e você o trata como um boneco de pano!
— Ele recebe o que merece.
— Não. Ninguém merece um tratamento como esse. De ninguém.
Magnus segurou a adaga obsidiana. Ele estava preparado para matar hoje? Para lutar contra Livius até a morte?
Como se ele tivesse alguma chance contra alguém assim. Alguém astuto, cruel e implacável, quase tanto quanto o próprio rei.
Por um momento, Magnus desejou que ele também pudesse ser tão implacável. Seria de grande ajuda em um momento como este.
Ele deu uma última olhada em seu amigo, Maddox Corso, o menino bruxo com uma sorte sombria o suficiente para assustar uma bruxa poderosa.
Mas Maddox tinha um bom coração, um que Magnus invejava. E ele esperava – ele rezava – para que o que ele disse a Maddox pudesse fazer alguma diferença.
Ele não teria que tolerar abuso deste guardião horrível.
Ele era forte. Tão forte. Magicamente forte. Mas mesmo sem magia, ninguém tinha o direito de intimidá-lo. Especialmente não um covarde chorão como Livius.
Por favor, por favor, que ele se lembre disso, Magnus pensou, seu peito apertado.
Livius puxou uma adaga afiada da bainha em seu cinto.
— Eu vou arrancar seus olhos. Mas primeiro, acho que vou remover sua língua mentirosa.
Magnus olhou para o homem com desafio.
— Fará o mesmo com Maddox?
— Não. Eu preciso dele vivo e bem. Mas ele vai sentir muito por tentar escapar de mim hoje.
Magnus olhou para Maddox, desejando que ele se levantasse do chão, desejando que seus olhos ficassem negros com magia. Desejando que ele transformasse Livius em cinzas que se espalhariam com o vento da noite.
Mas Maddox não se levantou.
— Adeus, meu amigo — sussurrou Magnus. — E boa sorte.
— O que você disse? — Livius exigiu.
Nada que você mereça ouvir, Magnus pensou.
— Você quer me matar? — Magnus nivelou seu olhar para este homem patético que sentia a necessidade de intimidar e atormentar alguém que ele achava que era menor, mais fraco, para conseguir o que queria. Ele ganhou moedas a custo da magia de Maddox. Mas realmente não tinha ideia do que Maddox poderia ser capaz?
— Oh, eu quero. — Livius confirmou. — Isso não devolverá meu olho, mas sei que será muito satisfatório.
— Então me mate — Magnus retrucou. — Mas você terá que me pegar primeiro.
Com um último olhar de dor para seu amigo caído, Magnus se virou e correu o mais rápido que pôde, sabendo que ele tinha que ganhar tanto de Livius quanto do sol a fim de voltar para casa.
E ele correu, o mais rápido que pôde, ainda mais rápido, ele pensou, do que quando perseguiu o cavalo fugitivo. As solas de suas botas pesadas, mais destinadas a percorrer a neve e o gelo, batiam na estrada de terra. Seus músculos doíam, suas pernas gritavam, mas ele corria como se sua vida dependesse disso – e ela dependia mesmo.
Quando passou dos limites da cidade, ele arriscou um olhar por cima do ombro. Livius ainda não desistira. Ele perseguiu Magnus, embora mais devagar do que antes, graças à sua nova lesão.
Tinha que ser o suficiente.
Você não deveria tê-lo insultado, Magnus se repreendeu enquanto segurava a lâmina.
Oh, mas tinha sido tentador demais balançar a carne diante do rosto de alguém que se considerava a fera mais perigosa da terra, mas que na verdade não era nada além de um covarde tremendo por baixo de tudo.
Porque era isso que Livius era: um covarde que culpava os outros por seus próprios erros.
Patético.
A cabeça de Magnus ainda parecia estar inconsciente, seus membros gritavam por misericórdia de serem usados ​​em sua capacidade total, mas o ardor em sua mão o forçou para frente, ao longo da estrada de pedra que levava da cidade de volta à villa de lorde Gillis.
Mas Livius estava começando a alcançá-lo.
Ele não podia pensar nisso. Só podia pensar em quão baixo o sol estava, agora apenas um raio de luz no horizonte enquanto ele se aproximava dos penhascos.
villa estava em sua visão. Agradecendo à deusa por ele não ter se esquecido qual direção seguir e, em sua confusão, ir para o sul em vez do oeste. Não havia nada no sul que o interessasse. Apenas o oeste. Apenas a villa que ficava nos penhascos com vista para o mar, uma extensão de água prateada que refletia o sol poente e, com isso, a última esperança de Magnus de que ele pudesse voltar para sua casa.
Ele tropeçou ao entrar no terreno, mas se endireitou imediatamente, felizmente não caindo no chão. Isso certamente seria o fim dele.
Os jardins o envolveram, mas o som de insetos e pássaros, o doce aroma das flores, as árvores e os arbustos se transformaram em criaturas míticas, tudo embaçado enquanto ele corria.
Magnus tinha apenas um alvo em vista: a estátua de Valoria.
Vinte passos de distância. Quinze. Dez.
Um olhar por cima do ombro mostrou-lhe que Livius estava a apenas um braço de distância, os lábios afastados dos dentes em uma carranca violenta.
Magnus bateu a mão sangrenta contra a estátua um momento antes de sentir o aperto do braço de Livius em torno de sua garganta.
E então Livius desapareceu.
O jardim desapareceu.
E Magnus agora tinha a mão direita pressionada contra a superfície das ruínas cobertas de gelo da estátua da deusa.
Quando ele exalou, sua respiração criou uma nuvem espessa no ar gelado.
— Então... — Uma voz cortou sua concentração. — Parece que você foi bem-sucedido.
Tremendo, fosse pela repentina e drástica mudança de temperatura ou pelo fato de que ele havia escapado da morte no intervalo de um único batimento cardíaco, Magnus se virou para a velha e descobriu que não tinha palavras para responder.
Suas sobrancelhas cinzas levantaram-se.
— O Príncipe Sanguinário está sem palavras. Que inesperado. — Ela gesticulou para ele com a mão com garras. — Dê aqui, garoto.
Magnus estendeu a adaga obsidiana, e ela a arrancou dele sem uma única palavra de gratidão. Sua boca enrugada se transformou em um sorriso.
— Muito bom.
— O que você fará com isso? — ele pergunto. — Quem você vai matar?
Ela olhou para ele, divertida em seus olhos verdes desbotados.
— Matar? Meu querido garoto, matar está no meu passado. Meu passado distante. Essa lâmina é tudo para mim.
Seus olhos se arregalaram quando ela puxou a manga de sua capa, em seguida, pressionou a borda da lâmina em sua pele, cortando profundamente. Sangue carmesim fluía, pingando no chão.
Magnus pressionou-se de volta contra a estátua em ruínas, certo de que testemunhava a velha mulher tirar sua própria vida.
Ela apertou os olhos, o sorriso ainda fixo em seu rosto enrugado.
— Eu já posso senti-la — ela murmurou. — A magia de Samara é tão forte quanto sempre.
Magnus assistiu com descrença quando a aparência da velha começou a mudar, chocado ao perceber que era o oposto do que testemunhara com Samara. As rugas da velha mulher se suavizaram, sua pele se firmou. Seus cabelos grisalhos se tornaram cor de ébano, seus lábios se encheram e se tornaram do vermelho das rosas frescas. Ela endireitou as costas, a corcunda desapareceu completamente. Seu sorriso se alargou, exibindo dentes brancos brilhantes.
E quando ela abriu os olhos, agora emoldurados com grossos cílios pretos, eles eram de um verde esmeralda vívido.
Ela era, sem exceção, a criatura mais linda que Magnus já vira em toda a sua vida.
No entanto, sua mão esquerda ainda era a de uma ave de rapina com garras.
— Quem é você? — ele perguntou com sua garganta apertada.
— Silêncio — ela disse, sua voz agora melodiosa e hipnótica. Ela pegou a mão ferida dele, apertando-a com a mão sadia. — O tempo está ficando mais curto. Quando eu curar esta marca, você se esquecerá de tudo o que aconteceu hoje.
— Não. — Magnus tentou se afastar dela, mas ela era incrivelmente forte. — Eu não posso esquecer. Eu preciso lembrar, lembrar o que vi, o que aprendi, quem conheci.
— Não funciona dessa maneira — ela falou pacientemente. — Você esquecerá. Aqueles cujos caminhos se cruzaram com o seu também se esquecerão de você.
— Não... meu amigo, ele precisa se lembrar de mim! — Maddox tinha que lembrar o que Magnus havia dito a ele sobre mudar sua vida para melhor.
A bruxa balançou a cabeça.
— Tem que ser assim, você não vê?
— Eu não vejo? Eu não vejo nada além de uma bruxa egoísta que pensa que tem uma palavra a dizer para o meu destino.
— Seu destino? Meu querido, esta incumbência foi inteiramente sobre mim. Você foi simplesmente a ferramenta que usei para conseguir o que precisava. Confie em mim, se pudesse usar esse portal eu mesma, eu usaria. As coisas que eu mudaria... — Ela balançou a cabeça, seu olhar melancólico. — Numerosas demais para contar. Agora fique quieto e permita-me pegar emprestada um pouco mais da magia de Samara para compensar a minha própria.
Suas mãos começaram a brilhar com luz dourada, e a dor de seu ferimento se intensificou. Ainda assim, ele não conseguia se afastar dela.
Finalmente, ela o soltou e assentiu.
— Está feito. Adeus, jovem. Que o seu caminho nunca cruze o meu novamente.
Ela se virou para sair.
E Magnus tentou desesperadamente manter suas memórias.
Mas enquanto ele observava o ferimento em sua mão se curar em poucos momentos, os milagres que ele testemunhou, a magia que ele tinha visto e o estranho novo amigo que ele fez desapareceram de sua mente.
Nada restava exceto a familiar sensação de gelo sob as grossas solas de suas botas.
Que estranho, pensou ele. Por que me sinto tão tonto?
— Magnus! — A voz afiada do rei cortou as ruínas congeladas. — É hora de partir.
Magnus piscou, de repente cansado, tão cansado que ele sentiu que poderia dormir por uma semana.
— É claro — disse ele.
O rei ficou por perto, franzindo a testa profundamente.
— Onde está o seu manto?
Magnus percebeu que o manto que vestia há alguns momentos havia desaparecido. Ele examinou a área, imaginando se o tirara sem perceber, mas não estava em lugar nenhum.
— Eu... Eu não sei.
O rei Gaius murmurou algo em desaprovação em voz baixa.
— É irrelevante. Vamos lá. Agora. Eu já vi o suficiente, e tenho certeza que você também.
Sim, Magnus tinha visto o suficiente, mais do que suficiente. Ele estava pronto para voltar ao palácio e tirar esse dia da mente para sempre.
Talvez testemunhar a execução da bruxa o tivesse incomodado muito mais do que ele pensava. Por que o rei condenava as acusadas de bruxaria à morte? Seria simplesmente para os poucos que acreditavam que os elementia realmente existiam?
Magnus permaneceu por um momento enquanto seu pai voltava para sua comitiva, para os guardas e carruagens que os aguardavam do outro lado das ruínas. Ele olhou para a marca vermelha na estátua congelada, se perguntando por que não a tinha notado antes.
Aquilo era sangue?
Não importava. Nada importava, exceto retornar para o palácio e para sua irmã.
Quando ele começou a se afastar, ele notou outra coisa.
Na base da estátua em ruínas, alguns lírios amarelos haviam atravessado o solo nevado.
Impossível, ele pensou. Não havia flores em Limeros nessa época do ano, não naquele gelo frígido.
Empurrando quaisquer pensamentos remanescentes de seu manto desaparecido, os lírios milagrosos e uma estranha sensação de perda para fora da sua mente, Magnus seguiu seu pai para fora das ruínas do que diziam que havia sido, muito tempo atrás, um exuberante e perfumado jardim que escondia uma grande e poderosa magia.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!