26 de janeiro de 2019

Capítulo 5

Meira

A CAVALGADA DE dois dias de volta de Gaos foi curta demais. Mesmo esses últimos momentos, escondida atrás de meu cavalo no ar gélido da tarde enquanto todo mundo segue para o palácio, são curtos demais, e inspiro o cheiro de couro curtido da sela.
Minha montaria relincha para afastar os flocos de neve que repousam em seu nariz, mas, à exceção disso, permanece inabalada pela cacofonia ao redor.
— Meu rei, bem-vindo de volta a Jannuari — grita um cordelliano, um daqueles que tinha nos acompanhado até Gaos.
Outro comemora.
— Esta noite haverá uma festança!
Encolho o corpo. As vozes parecem rastejar por meus braços e pernas como trepadeiras ágeis. Theron jamais prometeu que manteria os homens dele de boca fechada — e apesar de toda minha certeza de que posso lidar com essa situação sozinha, não consigo pensar em como. Não faço ideia de quem seja a Ordem dos Ilustres, ou qual é a melhor forma de manter fechada a porta do abismo.
— Pode alegar exaustão.
Começo a me virar para Nessa, que está ao meu lado. Conall está a poucos passos de distância, observando os cordellianos com uma expressão tolerável de desprezo, enquanto Garrigan nos vigia.
— Ele já me viu cavalgar para cá — digo.
Nessa faz um gesto de ombros.
— Foi uma longa viagem. Alegue exaustão e venha com a gente até o palácio.
— Exaustão não seria uma mentira — acrescenta Garrigan, atento a meu rosto. Sem dúvida reparando nas bolsas sob meus olhos, a cor pálida de minhas bochechas.
Um ruído me distrai de Nessa e de Garrigan, o farfalhar constante de um trenó ziguezagueando pela estrada irregular e coberta de gelo. Observo-o passar por nós, os detalhes prateados e marfim maculados por rachaduras e lascas na pintura. Foi uma descoberta nos escombros de Jannuari, um de nossas poucas posses que é inteiramente inverniana, não influenciada pela assistência cordelliana. Esse é fechado como um vagão de carga, feito para transportar mercadorias, não pessoas.
E são mercadorias o que o trenó carrega. Joias, pedras, todas mineradas de Gaos, para serem acrescentadas às outras riquezas que adquirimos para pagar Cordell e Outono.
Dou um sorriso fraco para Nessa e Garrigan e saio de trás do meu cavalo quando o trenó passa.
Noam está de pé em meio a um grupo dos homens dele, conversando em voz baixa com Theron, que parece ainda mais exausto do que eu me sinto. Ele me vê aparecer e se vira com um suspiro perceptível de alívio, o que chama a atenção de Noam.
Noam se parece com Theron, mas vinte anos mais velho, inegavelmente parentes e inegavelmente cordellianos — cabelos castanho-dourados na altura dos ombros, grisalhos nas raízes, olhos castanhos emoldurados por rugas, mas ainda brilhantes sob o céu nublado. O quadril de Noam, como sempre, leva a bainha que abriga o condutor de Cordell, a joia no cabo da adaga emite uma névoa lavanda de magia.
— Senhora rainha — diz Noam, percorrendo os poucos passos entre nós.
Os soldados cordellianos se agitam enquanto conversam, observando com interesse. Há invernianos ali também, consertando, atribulados, as construções que cercam a praça, arrastando madeira e suprimentos. Atrás de tudo isso, o palácio de Jannuari se ergue. As alas restantes formam um U, envolvendo um amplo pátio com salgueiros, as paredes exteriores são adornadas com molduras de marfim e mármore branco, marcas de queimadura e buracos de canhão abertos.
Endireito os ombros.
— Rei Noam — começo a dizer. Já proferi tanta amabilidade a esta altura que deveria ter uma pronta para ser disparada: Que bom ver que retornou a Jannuari ou Espero que a viagem não tenha sido muito exaustiva. Mas estou cansada demais para fingir que não o odeio nesse momento.
— Alguma novidade sobre o progresso? — pergunta o rei. — Fico esperando pelo dia em que Inverno se mostrará um investimento melhor do que eu esperava.
Minha máscara de neutralidade política se desfaz.
— Não somos um investimento — disparo.
Theron se aproxima de mim.
— Outono chegará em poucas horas. Deveríamos começar a nos preparar para a cerimônia desta noite...
Mas Noam ignora o filho, o interesse do rei se transforma em escárnio.
— Não se engane quanto ao motivo de minha presença. — O condutor de Noam dispara luz roxa. — Está tão ciente quanto eu de que a única coisa que vale a pena em seu reino reside naquelas montanhas. Vocês não têm recursos ou apoio para aproveitar a utilidade delas. Precisa de mim, senhora rainha.
— Algum dia não precisaremos — digo, murmurando. — Eu temeria esse dia se fosse você.
O rosto de Noam se contorce.
— Uma ameaça? E eu estava aqui pensando que você estava finalmente acima dessas coisas.
Eu me seguro. Ele está certo. Odeio que esteja certo...
Um cobertor de gelo me tira o fôlego.
Respiro com dificuldade sob a ansiedade que envolve meu ódio, uma mistura mortal que deixa minha magia mais agitada. Ela se incendeia em meu peito, alimentada por cada palavra que Noam diz, cada lampejo de terror por eu estar perdendo o controle. De novo. Mas deveria estar bem agora — encontrei a barreira de magia há dias. Minha magia deveria ter voltado ao normal, não deveria?
Quase chamo Hannah. Mas apenas considerar essa opção faz a magia se elevar, cobrindo minha língua com gelo e deixando meus dedos dormentes até se tornarem tubos sólidos congelados. Preciso me acalmar — há invernianos ao meu redor. Muitos invernianos, e estou tão fria que sinto que se expirar forte, lançarei magia espiralando para fora do corpo.
Ainda bem que Theron segura o braço do pai. O movimento me distrai, um segundo de alívio.
Até que ouço o que ele diz.
— Encontramos — exala Theron, massageando a nuca como se precisasse persuadir cada palavra a sair pela garganta. — O abismo de magia. Precisamos de sua ajuda para...
— Theron! — O nome dele parte meu coração.
A magia deve ter entorpecido meu cérebro, porque Theron certamente não disse aquilo.
Mas ele jamais, de fato, prometeu que não contaria ao pai sobre o abismo de magia.
Theron sabe como me sinto em relação a isso, e sei como ele se sente em relação a isso — mas jamais achei que Theron o faria.
Não percebi o quanto estava realmente desesperado pelo abismo, como aquela faísca de esperança nos olhos de Theron está tão ancorada à descoberta. Porque agora, de pé ali, esperando a reação de Noam, Theron se parece mais consigo mesmo do que há meses.
Ele precisa daquilo.
Noam se volta para mim. Semicerra os olhos. E sorri. Um sorriso que envergonha todos os outros, abrindo-se pelo rosto do rei como se ele o estivesse guardando para aquele dia.
— Encontrou mesmo? — pergunta Noam para mim, apenas para mim, como se não tivesse sido Theron quem contou a ele.
Não, quero responder. Não, Theron está mentindo, não encontramos nada...
Noam dá um passo para o lado e gesticula para que eu vá para o palácio, os olhos dele jamais deixam meu rosto.
— Acredito que temos algumas coisas a discutir, senhora rainha. — O sorriso de Noam fica mais ríspido. — Em particular.
Sir vai até meu lado. Tarde demais para fazer qualquer coisa, mas ele percebe o olhar de choque em meu rosto e se vira para Noam.
— Algum problema?
Noam sorri.
— Meu filho acaba de me contar sobre sua descoberta. É bem-vindo para se juntar à conversa, general Loren.
Noam assente para os homens dele, e os sinto, mais do que os vejo, nos cercarem. Não são excessivamente ameaçadores, e os ruídos na praça continuam: martelos batendo, vozes murmurando em conversa. Mesmo Conall, Garrigan e Nessa permanecem perto dos cavalos, completamente alheios à forma como Noam nos chama para segui-lo para o palácio, como se fosse dele.
Sir lança um olhar de raiva a Theron quando Noam se afasta alguns passos.
— Você contou a ele?
O tom ríspido na voz de Sir é como o mesmo grunhido que ele lançava para mim tão frequentemente quando eu era nova. Mas dessa vez, está distorcido com um ínfimo lampejo de remorso. Não por si, percebo, quando meus olhos se voltam para os de Sir. Por mim.
Ele sabe o que aconteceu. Entende mais do que eu mesma consigo entender a esta altura.
Theron me traiu.
Meus pulmões inflam.
Os soldados cordellianos nos impulsionam para a frente, e começamos a caminhar na direção do palácio.
— Precisei contar — diz Theron, em tom de súplica, mas quando não o encaro, ele pigarreia e fica com a voz mais áspera. — Precisamos abrir aquela porta. Precisamos dos recursos de Cordell para descobrir uma forma de fazer isso, e tenho um plano que fará com que meu pai precise de minha ajuda para abrir a porta também. — Theron se inclina na minha direção. — Confie em mim, Meira.
— Mas eu pedi que não contasse a ele. — Finalmente encaro Theron. — Eu precisava de tempo, Theron. Precisava descobrir...
— Quanto tempo acha que temos? — A testa de Theron se enruga, e sei que ele está tentando não mostrar frustração. — Quanto tempo acha que Angra nos dará antes...
— Angra está morto — interrompe Sir. — Você fez isso para nos fortalecer contra um mal que nem mesmo está aqui?
O rosto de Theron fica sério.
— Fiz isso para que, independentemente dos males que surjam, jamais sejamos derrotados de novo.
As portas do palácio se abrem e Noam nos leva pela entrada, por um corredor, e para dentro de um escritório. Quando a porta se fecha atrás de nós, Noam para no meio da sala e entrelaça os braços às costas, sem se incomodar em nos encarar ainda. Theron dá um passo adiante enquanto Sir força os punhos no encosto de um dos sofás, contendo-se enquanto tenta avaliar a situação. Então vou até a janela, o vidro está embaçado e sujo, mas ainda mostra uma vista do pátio do palácio e de Jannuari além dele.
— Encontramos uma porta — começa Theron, quando o silêncio permanece. — Na mina Tadil. Estava entalhada com cenas, videiras em chamas, uma pilha de livros, uma máscara e luz projetada sobre uma montanha com as palavras “A Ordem dos Ilustres” ao redor. As três primeiras imagens tinham fechaduras no centro, mas não conseguimos nos aproximar para estudá-las. Há uma barreira que bloqueia qualquer um que tente.
Conheço esse tom de voz. O leve ar de distração, como se a mente de Theron percorresse as coisas mais rápido do que a boca conseguisse pronunciá-las. Eu me viro e, de fato, Theron olha distraidamente para o ar enquanto fala. Tinha o mesmo olhar em Gaos, enquanto encarava a tapeçaria — e a mim.
Recuo junto à parede.
Foi lá que vi o selo da Ordem dos Ilustres antes. Em Bithai, Theron tinha o mesmo olhar no rosto quando me ajudou a decifrar aquele livro insano, Magia de Primoria. O raio de luz atingindo o topo da montanha — estava na capa.
Eu me vejo prestes a perguntar a Hannah a respeito daquilo, mas esse instinto se estilhaça contra a percepção abrupta de que ela ainda não está aqui. Minha mente é apenas minha.
Eu me preparo para um turbilhão de saudade de Hannah, mas só sinto uma pequena e egoísta pontada de alívio. Fico feliz por ser a única em minha cabeça de novo. Mas eu não deveria sentir falta de Hannah?
Noam se vira.
— É tudo?
— Sim. Voltei uma vez, depois que a encontramos. — Theron esfrega o ombro, encolhendo o corpo, como se doesse. — A barreira é... persistente. Sempre que alguém tenta passar, ela atira a pessoa contra a parede. E não há mais nada lá embaixo.
Não tenho forças para me sentir magoada por Theron ter ido estudar a porta sem me contar.
A Ordem dos Ilustres escreveu o livro que li em Bithai meses antes. A maior parte dele eram rabiscos crípticos ou charadas, mas talvez haja algo ali que possa ser útil agora.
Imediatamente resmungo. De maneira alguma eu conseguiria o livro, não sem alertar Noam da importância dele. Poderia enviar alguém para roubá-lo de Bithai, mas mesmo quando o tinha, precisava da ajuda de Theron para decifrar qualquer das passagens. Talvez Sir ou Dendera estivessem melhor preparados para decifrar charadas centenárias.
— Os entalhes — diz Theron a Noam, dando a volta pelos sofás para ficar diante do pai. — Não conseguimos abrir a porta agora, mas acho... Acho que os entalhes poderiam nos levar até uma forma.
Endireito o corpo, com os olhos fixos em Theron.
— Como assim? — pergunta Noam.
Theron expira.
— O lugar todo parece um segredo, mas acho que seja lá quem o tenha feito, queria que fosse aberto. Mas não facilmente. Algo assim deveria ser difícil de abrir, e se eu o tivesse montado, teria feito de forma que apenas os dignos pudessem acessar tanto poder assim.
Noam fica calado, de braços cruzados.
— Acho que os entalhes têm pistas. — Theron puxa um papel do bolso e o desdobra, mostrando a Noam enquanto fala. — Eu os desenhei o melhor possível. Videiras em chamas, livros empilhados, uma máscara. Superficialmente não parecem relacionados, mas têm uma coisa em comum.
Noam finalmente perde a paciência.
— Não respondo por mim se você...
— Cada um simboliza um reino de Primoria. Videiras em chamas, Verão, com as vinícolas e o clima deles. Livros empilhados, Yakim, o conhecimento do reino. Uma máscara, Ventralli, com as máscaras e a arte deles. O que mais poderia ser? Acho que esses símbolos servem para nos levar até uma forma de abrir o abismo. Proponho formarmos uma caravana para visitar esses três reinos e ver se minhas suspeitas estão corretas — termina Theron.
Verão, Yakim e Ventralli? Mantenho o rosto o mais inexpressivo possível, mas, por dentro, a inquietude se enraíza em meu estômago. Um reino Estação e dois Ritmo? Por que a Ordem esconderia as chaves nesses três reinos? Seria tão fácil assim?
Theron obviamente acredita que sim. E ele se provou bastante habilidoso em decifrar coisas enigmáticas.
— Mas onde? — Noam gesticula com a mão para oeste, na direção geral de Verão, Yakim e Ventralli. — Por onde propõe que comecemos? O que sequer estamos buscando?
— As chaves para cada fechadura, acho. Parece certo, pelo menos, três fechaduras e três símbolos. Depois que as conseguirmos, espero que a barreira caia, é uma barreira de magia, então as chaves também devem ser mágicas...
— Então propõe que busquemos em todos os três malditos reinos? — A irritação de Noam se transforma em ódio.
— Sim... Bem, em parte. — Theron abaixa o rosto para os desenhos dos símbolos da porta do abismo. — Poderíamos começar explorando as áreas em cada reino que têm mais probabilidade de ter o que buscamos. Áreas de valor, talvez, que teriam sobrevivido às provações do tempo. Pelo menos é um começo. Poderíamos perguntar...
Noam se inclina para a frente, uma das mãos se agitando de forma ameaçadora.
— Você não deve dizer uma palavra dessa empreitada a ninguém. Nada de perguntar. Nenhuma pergunta sobre chave ou barreiras místicas ou a Ordem dos Ilustres. Se alguém souber de qualquer coisa a respeito e ouvir você falar delas, não será difícil perceber o que encontramos. — Noam trinca o maxilar. — Até mesmo partir é arriscado. Se a notícia sair destas fronteiras... Não. Deve haver outra forma de abrir aquela porta.
As sobrancelhas de Theron se erguem. Ele parece prestes a discutir com Noam, os olhos percorrem a expressão do rosto do pai.
Dou um passo adiante antes que Theron precise dizer qualquer coisa.
— Tem uma ideia melhor? — disparo para Noam.
A Ordem dos Ilustres está lá fora. Ela existe; escreveu aquele livro, fez a entrada do abismo. Ainda deve estar lá fora, ou, no mínimo, deve haver alguém em Primoria que a conheça ou que lembre de seus ensinamentos, e falar com alguém seria infinitamente mais útil do que aquele livro misterioso.
Talvez possam selar a porta ou me dizer o que a barreira fez com minha magia, para que eu a controle, ou mesmo apenas reconectar minha ligação com Hannah, para que ela possa me ajudar. Por mais que fosse estranho ter minha mãe morta na cabeça, ela era útil às vezes.
— Quer tanto assim que a porta seja aberta? — continuo. — Essa é a única pista que temos. A não ser que queira ir até Gaos tentar se atirar na barreira você mesmo. Sei que eu preferiria essa opção.
Noam faz uma careta.
— Cuidado, senhora rainha.
— Não. — Fecho a mão em punho. — Era isso o que você queria desde sempre, e encontramos. Então vamos a esses reinos, e vamos encontrar as chaves, ou a própria Ordem, ou o que quer que precisemos encontrar. — Olho para Theron, me odiando pelas meias-verdades que estou contando.
Mas ele é o motivo pelo qual estamos aqui.
— Precisamos ao menos tentar — digo. E não é completamente mentira, quero tentar. Mas tentar obter respostas, não abrir a porta.
Eles não precisam saber disso, no entanto. Theron irá até esses reinos, a paixão dele não permitirá que fique sentado sem fazer nada, mesmo que o pai discorde. E se Theron for, eu também vou. Estarei lá a jornada inteira, buscando com tanta determinação quanto ele, e encontrarei respostas. Encontrarei a Ordem ou as chaves antes de Theron, e ao fazer isso, ganharei a tão necessária vantagem sobre Cordell.
Theron parece satisfeito com minha concordância. Ele me olha com uma expressão parecida com assombro, e estremeço. Theron acha que mudei de ideia com relação a querer manter o abismo trancado.
Os olhos de Noam percorrem meu rosto. Os lábios dele se erguem em um sorriso lento novamente, maculado por um interesse condescendente, como se tivesse se lembrado de algo que o coloca de volta no controle.
— Você propõe visitar Verão, Yakim e Ventralli — diz Noam. — Alguns invernianos não voltaram recentemente de tal visita?
Contenho o pânico.
— E daí?
— Soube que Yakim e Ventralli estenderam convites a você. Já mantém relações com Cordell e Outono, espera-se que procure ser apresentada ao mundo, e isso nos dará desculpa para procurar as chaves. E se nada for encontrado em Verão, Ventralli e Yakim, você prosseguirá para Paisly. Não deixaremos sequer um reino neste mundo sem ser revirado.
Noam é o rei da oportunidade. Enquanto Inverno usa magia para força e resistência para tornar os cidadãos os melhores mineradores do mundo, Cordell usa a magia para tornar os cidadãos os melhores em analisar uma situação e saírem vencendo. É exatamente o que Noam fez: virou aquilo em algo vantajoso para ele.
Meu coração acelera, enojado, com a mesma sensação de exaustão de quando minha magia é usada. Como se eu não fosse humana, não fosse relevante, apenas algum brinquedo com que se brinca, à disposição de coisas mais fortes.
Posso não ser cordelliana, mas também consigo manipular uma situação.
— Parece que Cordell precisa de Inverno tanto quanto Inverno precisa de Cordell — digo a Noam.
Vou entrar no jogo, seu porco arrogante. Vou fingir ser uma rainhazinha obediente até poder esmagar você.
Mas com quê? Achei que teria mais tempo de arrumar um jeito de acabar com o domínio de Cordell sobre nós. Achei que pelo menos teríamos um exército inverniano, um pequeno grupo de lutadores. Mas mesmo que tudo funcione perfeitamente — que eu consiga as chaves antes deles e encontre informações da Ordem a respeito de controlar minha magia, não tenho como forçar Cordell a deixar Inverno.
Ou tenho?
Porque Noam sorri assim que termino de falar.
— Está certíssima, senhora rainha. Cordell ainda precisa de Inverno, e precisará até que o pagamento tenha terminado. E por falar nisso, não temos uma cerimônia a preparar?
Encaro Sir, cujo rosto permanece com a inexpressividade que ele veste tão bem. Poderia estar apavorado ou curioso ou diversas coisas, e eu jamais saberia.
O que sei é que Sir não me ajudou em nada. Seja porque achou que eu daria conta sozinha, ou porque está chocado demais para interceder, não sei dizer.
— Vou me arrumar para a cerimônia enquanto você e os cordellianos fazem os planejamentos de viagem necessários — digo a Sir, com o olhar fixo nele de uma forma que espero que compreenda.
Mantenha-os aqui. Distraia-os.
Sir se estica.
— É claro. Rei Noam, por favor — diz Sir, gesticulando para que Noam se sente.
Expiro, aliviada, e me volto para a porta antes que Noam possa dizer mais alguma coisa, antes que Theron possa me alcançar e tentar remendar os rasgos em nosso relacionamento. Tenho planos de viagem próprios para fazer, envolvendo nossa única outra esperança: as minas.
Yakim e Ventralli não sabem que encontramos o abismo de magia — e se Noam conseguir o que deseja, o que muito provavelmente conseguirá, não descobrirão até que ele consiga abri-lo. O que significa que ainda querem as minas de Inverno para buscarem por conta própria — e talvez Verão esteja disposto a oferecer apoio em troca de pagamento, mesmo que tenham acesso próprio às montanhas Klaryn. Enquanto vasculhamos os reinos deles atrás das chaves, eu poderia forjar uma aliança com base em um comércio claramente definido, não esse jogo sem limites e mortal que Noam está fazendo.
Não tenho controle sobre encontrar ou não as chaves antes de Cordell, ou se as chaves ao menos serão encontradas, ou se conseguirei respostas sobre como consertar minha magia. Mas mesmo que a busca se revele inútil, pelo menos Inverno sairá disso com algo.
Não voltarei dessa viagem sem uma forma de manter meu reino seguro.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Para comentar, por favor utilize a opção Nome/URL e preencha seu nome/apelido/nick; o URL pode deixar em branco.

Boa leitura, E SEM SPOILER!