21 de janeiro de 2019

Capítulo 5

VOLTO AO ACAMPAMENTO em dois dias, paro apenas para alguns descansos de meia hora. Não vejo Finn pelo caminho, mas preciso acreditar que é porque ele voltou correndo para o acampamento, com a mesma determinação, e chegou antes de mim, não porque não conseguiu sair de Lynia.
Desço do cavalo, o pobrezinho está exausto; o levo para um córrego estreito onde o animal bebe água como se jamais tivesse provado nada mais doce. Enquanto ele bebe, disparo para o outro lado do córrego e subo a colina aos tropeços, a grama da pradaria pressionando minhas coxas. Ali, sob um céu azul limpo, está nosso acampamento, como se eu jamais o tivesse deixado.
Um cavalo com o L dourado de Lynia na selaria está no curral — Finn voltou em segurança. Relaxo, inspirando o cheiro terroso de uma grama esturricada pelo sol.
Nenhum outro prisioneiro de Herod voltará aos tropeços para o acampamento, ensanguentado e quebrado. Pelo menos não hoje.
Estico os ombros e caminho para o acampamento com o máximo de dignidade que consigo reunir, considerando que ainda estou imunda de esgoto seco. Mas ninguém está por perto, ninguém cutuca uma fogueira crepitante de café da manhã ou lava roupas no poço. O que significa que quase todos estarão na tenda de reuniões, a maior de nossas opacas estruturas amarelas e marrons. Não me incomodo de alertar ninguém sobre minha presença — puxo a aba para trás e entro batendo os pés, deixando pedaços de sujeira no tapete marrom desbotado.
Nossos cinco homens estão reunidos ao redor de uma mesa sulcada de carvalho no centro da sala. Os rostos deles estão contraídos em diversos estágios de preocupação, de caretas silenciosas a gritos escancarados, tão concentrados que não reparam em mim a princípio.
— Precisamos enviar alguém de volta para buscá-la! Cada momento que desperdiçamos é mais um em que ela poderia estar morta — grita Greer. A voz grave dele ecoa mais longe do que a de qualquer outro, mas Greer raramente, talvez nunca, fala em reuniões. Os pelos de meus braços se arrepiam. Se ele está preocupado o suficiente para falar, todos deviam estar bem ansiosos.
— Eu jamais deveria tê-la deixado ir — resmunga Sir. — Como você a perdeu, Finn?
A aba da tenda farfalha ao voltar para o lugar atrás de mim e os homens se viram imediatamente, as palavras morrendo na boca quando cinco rostos chocados me encaram. Cinco rostos com olhos de um espectro de tons de azul; cinco rostos envelhecidos pela guerra e pela morte e 16 anos de vida nômade. Alguns ainda têm ataduras da última missão nos braços ou pernas.
— Não entrem em pânico, cavalheiros, estou viva — anuncio, forçando arrogância para disfarçar o quanto estou exausta. Certifico-me de esbarrar em Finn com a parte do manto mais suja quando passo entre ele e Henn. A caixa do medalhão se afasta da palma de minha mão como um bloco de gelo que está preso à pele e cai com um ruído contra uma pilha de mapas na mesa.
Silêncio. Silêncio chocado, assombrado, do tipo “só posso estar sonhando”. Meu peito gela e espero pelo leve e delicado formigar de orgulho. Colocar a metade do medalhão na mesa completa a missão e, agora que terminou, agora que fui bem-sucedida, finalmente provei o que queria por tanto tempo. Isso. Que posso ajudar Inverno. Que posso usar aquilo em que sou boa — pensar rápido, lutar a distância, ser sorrateira — para ajudar meu reino. Mas só me sinto... cansada.
Dou um passo para trás. A fileira de sempre me encara: Sir, Finn, Henn, Greer... e Mather.
Ele é o único cuja atenção não foi atraída para a caixa assim que a coloquei na mesa. Os olhos azuis como joias de Mather estão indecifráveis enquanto ele me encara, o rosto fixo em uma expressão que é de alegria ou horror. Escolho pensar que é alegria.
— Meira.
Encolho o corpo e me viro para Sir, que está de pé, erguendo a caixa.
— Sim?
Ele não me olha, apenas empurra a fechadura e ergue a tampa da caixa, o rosto cinza de surpresa onírica. Não consigo ver a metade do medalhão de onde estou, mas sei o que ele vê. Dezesseis anos de lutas, de esperança de que, depois de reunirmos as duas metades de nosso condutor, fiquemos mais perto de recuperar nosso reino.
— Você... — Sir ergue o olhar para mim. E de volta ao conteúdo da caixa. De volta para mim.
Deixei Sir sem palavras. Estranhamente, essa pequena vitória faz com que eu me sinta mais leve do que recuperar a metade do medalhão e sobreviver a Primavera conseguiu fazer.
Sir começa a perguntar algo, mas respira fundo, tossindo quando inala o fedor que emana de mim.
— Alysson! — grita ele. — Pelo amor de tudo que é gelado, pode preparar um banho para Meira?
Gargalho quando Alysson entra às pressas da tenda ao lado. Ela estende o braço para mim, se contorce quando percebe o que tocará e se contenta com simplesmente me colocar para fora com um aceno.
— E quando terminar, Meira — diz Sir —, vai me contar tudo.
— Sim, Sir — respondo, sem me preocupar em esconder o sorriso.
Quando saio, a voz de Sir ecoa atrás de mim.
— Pela neve no céu. Ela conseguiu mesmo.
Não é reconhecimento, mas me faz sorrir como se fosse. Sim, eu consegui mesmo.


São precisos cinco baldes d’água, duas barras de sabão e uma pequena fogueira para me livrar da sujeira do esgoto. Depois que a última parte de minha roupa destruída está crepitando nas chamas, Alysson sai para cuidar de meu cavalo roubado. Visto uma camisa branca limpa e calças pretas — pela doce neve no céu, roupas limpas — e deixo que os cabelos molhados sequem ao vento conforme caminho de volta para a tenda de reunião.
Respiro fundo, reunindo minha força restante para encarar Sir, e mergulho na tenda. A mesa de carvalho gigante foi empurrada para o lado para abrir espaço para um aglomerado de travesseiros, o tecido marrom, em frangalhos, está esticado sobre o estofado de lã e grama da pradaria. Duas tigelas — uma contendo vegetais fumegantes, a outra com um punhado de frutas vermelhas congeladas — aguardam dentro do círculo formado pelas almofadas. As almofadas cercam outra coisa que me faz perder o fôlego devido ao ar morno aveludado: um poço circular de ferro contendo uma fogueira, afastado o bastante para não atear fogo às almofadas, mas perto o suficiente para permitir que o cheiro de terra do carvão queimando seja absorvido pelo tecido.
Vapor flutua de nabos e cebolas selvagens, transformando-se em um aroma docemente salgado. Mas é a tigela de frutas que leva meu estômago a fazer uma dancinha de animação quando desabo em uma almofada. Não como frutas congeladas desde meu último aniversário, há sete meses, e ver a tigela de esferas pretas e vermelhas faz com que mais do que fome se revire dentro de mim. Alysson as prepara para ocasiões especiais, ou tenta, quando pode encontrar gelo o suficiente para congelar as frutas. São uma iguaria inverniana, algo que todos os outros refugiados comem com solenidade e reverência.
E por falar em iguarias invernianas...
O carvão se move, lançando uma nuvem de calor para cima. Suor brota em minha testa e meu nariz formiga com o cheiro do calor. Não é para nos aquecer que temos esse poço para fogueiras — acho que o faço por todos os invernianos quando digo que preferíamos ser congelados a estarmos perto de qualquer tipo de faísca —, é para lembrança. É pelo mesmo motivo pelo qual tenho um punhado de frutas que descongelam lentamente na palma da mão.
No ano passado, Finn e eu compramos comida em um pequeno mercado nos arredores do reino de Ventralli, um dos Ritmo. Enquanto estávamos lá, encontramos uma braseira em meio a uma pilha de utensílios de ferro que um ferreiro estava derretendo. Por ele ter gastado metade de nossas economias minguadas nele, imaginei que Sir espancaria Finn com a braseira e o obrigaria a tentar vender de volta. Mas o olhar no rosto de Sir quando Finn carregou a braseira para o acampamento disparou uma pontada de desamparo pelo meu corpo. Aquele peso brando e triste da necessidade.
Inverno fez aquilo. Ou melhor, invernianos mineravam o carvão e o ferro que ia para outros reinos como Yakim e Ventralli, que deu origem à própria braseira. Mas o carvão e o ferro ainda vinham de Inverno, parte de nosso reino, arrancados das montanhas e forjados longe.
Para melhorar as economias dos reinos, os monarcas usam magia do Condutor Real para expandir certas áreas de conhecimento que os reinos desenvolveram com base na geografia ou nos talentos naturais dos cidadãos. Se certo reino mostrasse interesse em educação, o monarca usaria a magia para fazer com que o povo dominasse aprendizado; se outro reino exibisse aptidão para a luta, o monarca usaria magia do condutor para tornar os soldados mais letais. Inverno ficava ao norte da parte mais rica das montanhas Klaryn, então nossas rainhas expandiam nossa habilidade de encontrar minérios e nos garantiam resistência e coragem nos lugares infinitos e escuros da terra.
Primavera tem as próprias minas na seção deles das montanhas Klaryn, mas as minas de Primavera produzem pós mortais que alimentam seus canhões, as únicas minas no mundo que os abrigam. Achamos que era esse o motivo da guerra — Primavera queria expandir os territórios de mineração. Mas quando o reino venceu, não invadiu nossas minas. Simplesmente as selou com tábuas, como se o objetivo fosse simplesmente destruir Inverno, pedaço por pedaço, espírito após espírito, nos obrigando a sentar e assistir a posse mais valiosa de Inverno cair em ruínas.
Depois que Angra matar todos nós, ele provavelmente vai reabrir as minas. Mas, enquanto vivermos, é mais valioso exibir as minas inúteis em nossas caras, nos provocar e distrair para que cometamos erros, sejamos pegos, caiamos em suas garras. Ou, pelo menos, é o que dizemos uns aos outros, para fazer parecer menos como se a guerra      fosse inútil.
Coloco uma fruta na boca e encaro o preto alaranjado e empoeirado dos carvões que queimam. A fruta adormece minha língua, dá a sensação de tentáculos gelados subindo pelos dentes, mas a doçura fria subitamente não é tão atraente. Estendo um dedo e o coloco na beirada da braseira, mais afastado do calor, e o mantenho ali até que a queimação suba por toda minha mão. Os outros montaram tudo aquilo porque querem que eu saiba que o que fiz foi importante — importante o bastante para queimar carvão.
Mas não parecIe importante. Não como deveria.
Eu lembro agora, enquanto observo os carvões queimarem, por que jamais senti como se pertencesse de verdade a Inverno. Quero entender tudo isso tão profundamente quanto Sir e Alysson e todo mundo, um lembrete de uma época em que tudo era como deveria, mas isso se perde em mim, alguém cuja única ligação com Inverno está em histórias contadas por outros. Pensei que se eu participasse do salvamento de Inverno, sentiria como se merecesse o reino do qual todos se lembram, achei que pudesse preencher com propósito o vazio deixado por minha falta de memórias. É o que eu sempre disse a mim mesma: se eu tiver importância para Inverno, Inverno terá importância para mim. E hoje eu tive importância para meu reino.
Então, por que não sinto nada mais pela braseira do que uma leve queimação no dedo?
Atrás de mim, a aba da tenda se agita, um sussurro que quase poderia ser ignorado, como o chiado do carvão ou o vento. Meus músculos ficam tensos, os pelos em meus braços se arrepiam. Mas não me encolho, não reajo, apenas espeto um pedaço de nabo com um garfo.
Um segundo depois, dedos tocam a base de minha nuca, onde uma lâmina seria posta caso esse agressor fosse realmente um agressor. Estremeço, mas não pelo frio dos meus cabelos molhados contra a pele.
— Está morta — diz Mather, com um sorriso na voz.
Quando comecei a aprender a lutar, ele se aproximava de fininho na tenda de armas ou no pátio de treino, caminhando sem emitir ruídos até tocar meu pescoço e sussurrar aquela ameaça debochada. E não importava quantas vezes o fizesse, ainda me deixava gritando como se o próprio Angra tivesse me surpreendido. Sir, é claro, não fazia nada para impedir; ele apenas dizia que eu precisava melhorar minha atenção aos arredores.
Ergo o olhar para Mather e paro no meio da mastigada. Ele desaba na almofada diante de mim, o rosto se esticando em um sorriso.
— Morta? Eu deixei que você entrasse de fininho — digo, com escárnio. — Essa coisa toda de futuro rei de Inverno subiu à sua cabeça, Vossa Alteza.
O rosto de Mather se contorce diante do título.
— Você sempre diz que deixa eu me aproximar de fininho. Tem medo de admitir que não é tão boa quanto todo mundo pensa que é?
Engulo em seco.
— E quem não tem esse medo?
Mather abaixa o olhar para a braseira, o brilho laranja pulsa nos olhos de lápis-lazúli dele.
— William me mostrou a metade do medalhão — sussurra Mather.
Minha mão fica tensa sobre o garfo e abro a boca para dizer algo, mas só consigo pensar nas mesmas perguntas destruidoras de ilusões que fiz a ele antes de partir. Coisas que fazem nosso véu de felicidade evaporar como gotas d’água em uma cama de carvão quente. Então apenas fico calada, e, no silêncio, Mather ergue o olhar para mim, um canto da boca dele está curiosamente inclinado.
— É estranho pensar que a última vez em que algum inverniano o viu, estava em volta do pescoço de minha mãe. — Os olhos de Mather se concentram em algo além de minha cabeça, algo que paira nas lembranças remendadas que todos contaram a ele também. Lembranças da mãe, a rainha Hannah Dynam. Lembranças de como o próprio Angra marchou para o palácio Jannuari, matou a rainha e partiu o condutor ao meio.
Reconheço o olhar. O rosto de Mather assume a mesma aura de desapontamento sempre que ele erra um alvo no treino, ou quando Sir o derrota na luta, ou quando pergunto como ele usaria a magia se pudesse. Desapontamento com ele mesmo, com a inabilidade de fazer o que ele se dispôs a fazer, mesmo quando está fora de seu controle.
Ele passa a mão pelo rosto para afastar a expressão, e lá está aquele véu inexpressivo de novo, escondendo os verdadeiros sentimentos de Mather atrás de um sorriso.
Sacudo a cabeça devagar.
— Você é louco.
As sobrancelhas de Mather se franzem com a sugestão de um sorriso.
— Sou?
— Sim. — Espeto mais um nabo e deixo o garfo ali. — Conseguimos a metade do medalhão. Você só deveria sentir felicidade agora, felicidade de verdade, não seus sorrisos falsos, Senhor Herdeiro de Inverno.
O rosto de Mather fica sério. Ele para, as mãos abertas sobre o colo, como se estivesse segurando as preocupações.
— Eu não senti nada — murmura Mather, como um pensamento lento, distante — quando vi a metade do medalhão. Foi a única coisa que já vi de minha mãe. Eu deveria ter sentido algo.
Luto para estabilizar minha respiração e baixo meus olhos por um segundo para a braseira. Eu não estava me preocupando com as mesmas coisas? Esqueço às vezes como Mather se parece comigo — como somos ambos jovens o bastante para nos sentirmos separados de Inverno da mesma forma. A falta de sentimento de Mather é um pouco mais preocupante, no entanto. Afinal, ele é o rei de Inverno.
Mas não tenho como reconfortá-lo, não tenho palavras sábias para apaziguar os medos de Mather — se tivesse, poderia consertar meus problemas também.
— É só a metade de um cordão, por enquanto — digo, hesitante. — Talvez você sinta algo quando for um condutor inteiro de novo.
Mather dá de ombros.
— Eu não deveria ter qualquer conexão com ele, lembra? Sou apenas o filho dela. — O rosto de Mather estampa vergonha e ele sacode a cabeça. — Desculpe. Você está certa; este deveria ser um dia feliz. Você conseguiu a metade do medalhão. Obrigado. — Mather se inclina para a frente, com o olhar fixo. — De verdade, Meira, obrigado.
Meu rosto se contorce em confusão, mas não consigo fazer nada para me tranquilizar. Não sabia que Mather depositava tanto na metade do medalhão, que ele queria muito ter uma conexão com a mãe. Não me lembro de meus pais ou sequer sei quem foram, mas jamais me ocorreu que Mather sentisse tanta dor por pessoas que ele também jamais conheceu. Será que sente falta do pai também? O marido de Hannah, Duncan, era um lorde inverniano antes de se tornar rei. Será que Mather deseja ter conhecido o pai para ao menos conversar com alguém na mesma situação — rei de um reino de sangue feminino?
Um peso recai sobre meu estômago, me enchendo de um misto sufocante de culpa e ansiedade — quero ajudar Mather, mas sei que está tão fora de meu alcance quanto usar o condutor de inverno está fora do dele.
Felizmente, nesse momento a aba da tenda se abre e revela Sir. Ele observa a comida ausente, meus cabelos molhados. Prendo a respiração, lembrando por que estou ali de verdade — para contar a Sir o que aconteceu.
Sir se senta ao meu lado, em silêncio. Ele não me repreende por ser tão casual com nosso futuro rei, não me dá um sermão pela informalidade e pela chegada coberta de cocô.
Uh-oh.
Sir tira a caixa do bolso.
— Então — começa ele — gostaria de explicar?
De repente, me sinto como a criança malcriada que implorou a Sir que me deixasse ajudar com a resistência. A criança que agitou espadas como se fossem asas de ferro desengonçadas e não mostrava qualquer promessa para a luta, até que tentei armas de longa distância, como o chakram, e, pelo visto, eu também podia ser mortal. A criança que ele sempre vê quando me olha.
O chakram. Meu coração pesa. Pela neve no céu, preciso contar a Sir que perdi mais um disco de atirar. Com a queda da produção de ferro de Primoria, devido à inutilização das minas de Inverno, armas se tornaram caras. E ser refugiada inverniana não é exatamente uma carreira lucrativa.
Pego uma fruta, evitando os olhos de Sir.
— Ninguém mais vem? Finn, talvez?
Ele sacode a cabeça.
— Somente nós. Agora fale.
É uma ordem. Sir está irritado com alguma coisa, mas não faço ideia do que seja. Meu estômago começa a queimar, revirando toda a comida que enfiei nele. Sir não tem o direito de sentir raiva ou desapontamento. Recuperei metade do medalhão. Fiz o que ele não conseguiu fazer, mesmo depois que duvidou de mim. A única coisa que Sir deveria sentir é admiração.
É por isso que ele está irritado? Porque eu finalmente provei que precisa de mim?
Encaro Sir, com raiva.
— Estava exatamente onde você disse que estaria. Na Fortaleza. Só isso.
— Está me dizendo — começa Sir — que conseguiu entrar valsando na fortaleza de Lynia e recuperar esta metade do medalhão sem que flechas fossem atiradas, que homens fossem mortos, sem derramamento de sangue? Porque esse hematoma na sua bochecha e o fedor que permanece aqui dizem o contrário. O que aconteceu, Meira?
As rugas no rosto de Sir ficam mais profundas. Ele subitamente estampa a idade com mais clareza, os cabelos naturalmente brancos estão marfim devido aos cinquenta e tantos anos, não devido à ascendência inverniana. Sir tamborila os dedos na caixa antes de abri-la e me mostrar a metade do medalhão.
É a primeira vez que o vejo. Uma corrente de prata serpenteia ao redor da metade traseira de um medalhão em formato de coração, reluzindo, embora tenha mais de alguns séculos. Metade do condutor de Inverno. Suspiro, meus ombros se curvam.
Ainda não acredito que está aqui, à distância de um palmo de mim.
Assim que Sir abre a caixa, o corpo de Mather fica tenso. Meus olhos se voltam para ele, e quero continuar nossa conversa de momentos antes. Quero pedir desculpas por mais cedo, por ter mencionado a maior fraqueza da vida de Mather como se não passasse de uma discussão sobre o clima.
Meu fôlego fica preso contra essas perguntas de novo, as coisas que ninguém jamais ousa perguntar em voz alta.
Será que vai ser o suficiente? Será que reunir as metades de nosso condutor restaurará nossa magia ou será que Inverno para sempre será o único reino em Primoria sem magia para restaurá-lo? Se for o caso, como derrotaremos Primavera, um reino banhado em força magicamente induzida, quando só temos oito refugiados e um colar bonito? Será que outro reino sequer se aliará a nós depois que tivermos o medalhão inteiro de novo, se nosso único herdeiro é incapaz de usá-lo?
É possível viver sem magia. Fazemos isso há 16 anos — com dificuldades, mas fazemos. Plantamos um pequeno jardim nas planícies Rania. Treinamos nossos corpos para serem fortes. Mas essas coisas jamais serão suficientes enquanto todos os outros reinos no mundo tiverem algo que transcende as limitações humanas, enquanto Primavera for capaz de dizimar nossos soldados mais fortes, enquanto os reinos Ritmo puderem fazer o mesmo.
Mather estava certo: Primoria pode parecer equilibrada, mas... não está.
Sir fecha a caixa com um clique súbito e encolho o corpo. Fiquei em silêncio por muito tempo. Ele fica de pé, sacudindo a cabeça, e uma determinação de revirar o estômago me obriga a ficar de pé também.
— Foi perigoso demais — diz Sir. — Quando começarmos a procurar pela outra metade do medalhão, você não vai contestar suas missões, está ouvindo? Está de volta às missões de busca por comida.
— Não! — grito. Sir se vira, mas seguro o braço dele. Começo a sentir os efeitos da viagem, pernas trêmulas, cabeça girando. Mas não vou deixar que ele tire isso de mim. Mostrei que mereço a posição hoje, uma centena de vezes, e ao inferno que ele vai me descartar tão facilmente de novo.
— Eu trouxe a metade do medalhão! — grito. — O que mais preciso fazer?
Por favor, diga o que preciso fazer para sentir como se eu pertencesse.
Sir me encara com tanta severidade que desvio o olhar do rosto dele e tiro a mão de seu braço, o sangue lateja em minha cabeça. Estou tão cansada, exausta, ao ponto de não ter certeza se isso está acontecendo. Não posso lidar com isso agora. Preciso dormir. Preciso me recompor e parar de sentir que o que fiz não teve importância.
Saio da tenda batendo os pés, ignorando o que quer que Sir ou Mather gritem atrás de mim, e corro para minha tenda. O tamanho do acampamento não permite sessões dramáticas de batidas de pés, no entanto, pois a alcanço em poucos segundos. Mas minha tenda não é somente minha, então, quando entro apressada, Finn e Dendera me olham com os olhos arregalados.
Dendera retorna a concentração para a costura do buraco de uma das botas dela.
— Apenas uma vez gostaria de ver você sair de uma reunião com William como uma dama, em vez de como um touro raivoso.
Emito um grunhido e desabo na cama. Finn responde algo sobre eu não ser uma dama, o que me faz sorrir, mas faz Dendera tagarelar sobre como ainda há esperança para mim. Enterro o rosto no travesseiro e paro de ouvir os dois.
Dendera me contou certa vez que foi membro da corte da rainha Hannah. Era respeitada pela opinião e pela mente dela, e nenhuma mulher sob o governo de Hannah podia se sentir diminuída. Perguntei a ela e a todos sobre Inverno tantas vezes e ouvi tantos contos que as memórias deles são minhas memórias agora e posso me enganar e sentir como se eu me lembrasse. As frutas congeladas e as braseiras de ferro. As minas e as montanhas Klaryn. O aroma pesado e terroso do carvão refinado pairando sobre todas as cidades.
Se eu fechar os olhos e tapar os ouvidos e bloquear todo o resto, posso ver a corte que Dendera descreveu. Posso ver a cidade sobre a qual Sir me contou. O enorme palácio branco de Jannuari se ergue acima de mim, o pátio extenso cheio de fontes de gelo. É tão frio que estrangeiros precisam se enroscar em camadas de pele para passar de um prédio para outro, enquanto nosso sangue inverniano naturalmente nos mantém aquecidos mesmo nas piores condições. E a neve está por toda parte, sempre, tanta, que a grama sob ela é branca devido à falta de sol. Um reino inteiro envolto em uma orbe de inverno eterno.
Mas é aqui que minha memória inventada sempre me deixa na mão. O frio e a neve se dissolvem em explosões. Os gritos começam, alastrando-se pelo complexo do palácio como uma onda e estou correndo por ruas cinzentas, engasgando em fumaça conforme hordas de pessoas correm também, mais explosões nos encurralam até as garras de Angra. É o que eles estão fazendo — encurralando os invernianos como ovelhas para que possam levá-los a uma vida de escravidão e dor.
Exceto nós. Originalmente, 25 refugiados que fizeram Angra perder o sono, reduzidos aos sete que ainda vivem com o futuro rei de Inverno.
Mas não importa o quanto nossa situação seja difícil, o quanto Sir fique desesperado, ele jamais me verá como um recurso. Apenas como a criança agitada que ele teve o azar de criar.

Um comentário:

  1. Tenho a impressão de que ela é mais valiosa do que pensa, quem colocaria o próprio rei em perigo e não uma "órfã qualquer"???

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Boa leitura, E SEM SPOILER!