17 de janeiro de 2019

Capítulo 5

Maddox esperava no final da escada por Magnus, os braços cruzados sobre o peito.
— O que ela disse sobre mim... — ele começou.
— Ignore. — Magnus disse a ele.
— Como eu posso ignorar? Ela me olhou como se tivesse medo de mim!
— Aquela mulher tem medo de tudo.
— Isso não quer dizer que ela estava errada. Ela viu tanta coisa...
Magnus realmente não conhecia esse garoto, nem precisava do fardo de sentir como se quisesse proteger alguém além de sua irmã.
Vá embora e finja que você nunca o conheceu, ele disse a si mesmo. Ele não tem nada a ver com a sua vida.
Mas ele não fez isso. Em vez disso, segurou o ombro do garoto com força suficiente para atrair toda a atenção de Maddox.
— Eu só o conheci hoje — ele falou — mas eu não sou tolo, apesar do que aquela bruxa possa pensar. Ela está errada sobre você. Eu conheci pessoas malvadas, aquelas que se aproveitariam da dor e da destruição dos outros. Aqueles que deveriam ser temidos. Seu guardião é um deles, meu pai é outro. Mas você não.
Um suspiro ficou preso no peito de Maddox.
— Como você pode ter certeza?
— Eu apenas sei. — Magnus olhou para o céu. O sol havia afundado no oeste, mas ainda restava muito tempo antes do pôr do sol.
Tempo para escolhas. Tempo para possibilidades.
— Eu sei que você não quer retornar para seu guardião — ele falou.
— Eu tenho que retornar.
— Não, não tem! — A insistência do menino em sua falta de controle sobre a própria vida tanto doía quanto frustrava Magnus. — O que você precisa fazer é perceber o que quer nesta vida e... apenas agarrar. Você é quem controla o seu destino, não o seu guardião. Nem ninguém! — Magnus esfregou a mão sobre a boca, pensamentos e planos correndo em sua mente sobre como ele poderia ajudar esse garoto que era tão diferente dele e ainda assim tão parecido. Ele olhou para o céu, desanimado que o sol estivesse descendo rapidamente a oeste. Agora que ele tinha o que precisava, teria que retornar à villa de Lorde Gillis depressa. — Eu não sei se é possível, de verdade, mas se houver um jeito, talvez você possa vir comigo. Se quiser escapar de Livius, posso garantir que não há melhor maneira.
Maddox ficou em silêncio por alguns momentos atordoados.
— Pensei que você me odiasse.
Magnus levantou as sobrancelhas.
— Por que eu odiaria você? Não tenho motivo para isso. Você não roubou de mim.
— Eu posso ir para o seu reino de neve e gelo? Sério?
— Como falei, não sei se é possível, mas se for, você será bem-vindo lá.
A esperança cintilou nos olhos escuros de Maddox, mas tão rapidamente quanto apareceu, desapareceu.
— Eu não posso deixar minha mãe para trás. Livius ficará com muita raiva e se eu não estiver lá... ele sabe onde encontrá-la. Eu preciso protegê-la.
Magnus entendeu como Maddox se sentia em relação à mãe, essa necessidade de garantir sua segurança a qualquer custo. Ele respeitava isso.
— Muito bem. Então você precisa levá-la a algum lugar seguro, algum lugar que ele não vai encontrá-la. É possível.
— Você realmente acha isso?
— Maddox, meu amigo, se é possível Valoria e Cleiona... — Ele franziu a testa para o nome da deusa, a quem ele ouviu alguns dissidentes de Valoria se referirem como a “Dourada” antes de serem enviados para a masmorra.
Uma luz dourada; uma mariposa para uma chama.
A jovem princesa no sul também conhecida como a “Princesa Dourada.”
Ele balançou sua cabeça para limpar tais pensamentos irrelevantes.
    Magnus? — Maddox chamou.
Magnus tentou se concentrar apenas no garoto diante dele.
— Se é possível que as deusas existam lado a lado com os mortais, então sim, eu acho que é possível que você possa escapar das garras de Livius. — Ele sorriu com o pensamento. — Talvez você devesse fazer o que Samara disse, pegar uma cobra para arrancar o outro olho dele.
Maddox riu nervosamente com a sugestão.
— Talvez eu pegue. — Então ele ficou sério. — Você conseguiu o que precisava daquela mulher estranha?
Magnus puxou a adaga obsidiana de baixo de sua camisa, movendo-a de modo que o sol refletisse em sua superfície negra.
— Espero que sim, o que significa que é hora de eu ir.
Maddox assentiu.
— Claro. E desejo-lhe uma agradável viagem de volta ao seu reino, sua alteza.
Magnus olhou para ele.
— Você ainda não acredita em mim sobre isso.
— Que você é um príncipe? — Ele sorriu. — Não mesmo, realmente.
Magnus encontrou-se sorrindo de volta. Ele olhou por cima do ombro de Maddox quando viu alguém se aproximando do centro da cidade. O sorriso de Magnus desapareceu rapidamente.
Kalum da taverna aproximou-se dele.
— Eu imaginei que o encontraria aqui — o homem falou.
— Como foi você quem me deu as direções, não estou surpreso. — Magnus estreitou seus olhos. — Se quer mais moedas, está sem sorte.
— Não, na verdade eu vim fazer uma visita a Samara. — O olhar de Kalum estava preso na lâmina. — Parece que você não deu essa adaga bonito para ela depois de tudo, não é? Decidiu guardar para si?
Magnus não respondeu.
Kalum levantou a sobrancelha.
— Você disse que é inestimável, sim?
Ele teria que ser cego para não ver a ganância no rosto do homem.
— Não do jeito que você está pensando.
— Eu serei o juiz disso, garoto. Eu poderia usar um tesouro inestimável em minhas mãos. Que utilidade você tem para isso na sua idade? — O homem cerrou os punhos. — Dê isso para mim.
— Não.
Ele segurou a lâmina com força suficiente para que a borda afiada dela espetasse sua mão. Os olhos de Kalum estreitaram-se.
— Não faça barulho por isso, garoto. Eu sempre consigo o que quero.
— Eu também. — Magnus respondeu firmemente.
O homem avançou na direção dele tão rápido que ele não foi capaz de desviar do punho de Kalum que acertou sua mandíbula.
Kalum agarrou a frente de sua camisa e bateu a parte de trás da cabeça de Magnus com força na parede de pedra atrás dele. Estrelas explodiram diante de seus olhos e sua visão ficou confusa.
Magnus caiu de joelhos, observando como se num sonho a adaga obsidiana tombando no chão. Tudo o que ele podia fazer era assistir o homem pegando-a. Assistir enquanto ele a avaliava, seus lábios se afastando dos dentes em um sorriso satisfeito.
Assistir enquanto a cabeça do homem virava em direção a Maddox, que estava por perto, sua expressão gravada em fúria.
— O que você está fazendo, garoto? — O homem ofegou. — O que... você... está...?
Kalum largou a lâmina, e suas mãos voaram para a garganta quando ele cambaleou para trás de Maddox.
Maddox não falou. Ele simplesmente ficou ali, com as mãos em punhos ao lado do corpo, os ombros tensos, o olhar fixo no homem.
E seus olhos... Era apenas a imaginação de Magnus ou, pelo mais breve dos momentos, eles se tornaram completamente negros? Negros como os da bruxa?
A cabeça de Magnus martelava. Ele lutou o máximo que pôde para manter os olhos abertos até que, finalmente, tudo ficou preto.


Sua cabeça doía muito. Assim como seu queixo.
Esse foi seu primeiro pensamento enquanto ele lentamente piscou, abrindo os olhos.
Algo o cobriu, algo sufocantemente quente.
Era uma capa, mas não uma que pertencia a ele. Esta era fina e mal feita, mas parecia familiar.
— Finalmente. — A voz de Maddox o cumprimentou. — O príncipe acordou.
Os olhos de Magnus se concentraram, e ele viu o garoto sentado a alguns passos de distância com as costas contra a parede de pedra.
— O homem... — ele começou.
Maddox moveu a cabeça para a direita, onde o homem que tentou roubá-lo estava deitado.
— Você... você o matou. — A voz de Magnus não era mais do que um rouquejar.
— Matei? — Maddox olhou com choque para ele à sugestão. — Claro que não. Ele está inconsciente, mais profundamente do que você, ainda bem. Embora eu tenha amarrado suas mãos, o que deve atrasá-lo um pouco. Acho que isso pertence a você.
Maddox ergueu a adaga obsidiana.
Magnus não podia acreditar nos seus olhos.
— Você não a roubou.
— Por que eu roubaria? Mas eu irei trocá-la pela minha capa.
Magnus se forçou a se sentar, puxando o manto de cima dele e entregando-o a Maddox.
— Com prazer.
Sem hesitação, Maddox pegou a capa e devolveu a lâmina.
Magnus sentiu o peso estranhamente reconfortante em sua mão. Então deu a Maddox um olhar cauteloso.
— O que você fez com aquele homem...
Maddox olhou para ele, sua boca era uma linha fina e tensa.
— Foi a sua magia, a mesma magia que ajuda a vencer os espíritos.
Maddox assentiu.
— Foi.
Seus olhos se arregalaram.
— Você realmente é um menino bruxo.
Maddox fez uma careta.
— Eu realmente não gosto desse termo, mas sim. Suponho que eu seja.
— O que mais você pode fazer? — Ele perguntou, pronto para acreditar agora em milagres que ele nunca imaginou ser possível.
— Eu realmente não sei. O que fiz com ele... — Maddox apontou para o homem inconsciente. — Eu não tenho controle sobre isso. Às vezes funciona, às vezes não. Eu sou inútil, na verdade.
— Longe disso — Magnus murmurou, olhando para o menino como se o visse pela primeira vez.
Um demônio, um capaz da magia mais negra. Isso foi o que Samara disse quando tentou ver a sorte de Maddox. O que ela viu.
Magnus ainda se recusava a acreditar. Não havia nada remotamente mau sobre esse garoto, absolutamente nada.
De repente, percebeu que sua mão ferida começara a arder de novo, a dor da marca que a velha tinha cortado em sua pele era muito pior do que os ferimentos da tentativa do roubo. Ele olhou para baixo para ver que começara a sangrar de novo.
— Quanto tempo eu estive fora do ar? — ele perguntou, encolhendo-se enquanto fechava o punho para não pingar sangue no chão.
— Um bom tempo.
O peito de Magnus apertou quando ele olhou para o céu escuro. O sol tinha descido atrás dos prédios e o céu se transformou em um laranja profundo.
— É o pôr do sol.
— Quase — Maddox confirmou. Ele estudou a mão ferida de Magnus. — Você está sangrando muito. Devemos encontrar um curandeiro?
Magnus se levantou tão rapidamente que uma onda de tontura o atingiu. Ele teve que se apoiar contra a parede para se manter de pé.
— Eu tenho que ir. Sinto muito!
Antes que ele pudesse começar a correr pela rua em direção ao seu destino, percebeu que alguém mais se aproximava.
O homem familiar usava uma capa preta, uma expressão assassina e um pano ensanguentado amarrado sobre o olho direito.

Um comentário:

Para comentar, por favor utilize a opção Nome/URL e preencha seu nome/apelido/nick; o URL pode deixar em branco.

Boa leitura, E SEM SPOILER!