26 de janeiro de 2019

Capítulo 4

Mather

— BLOQUEIE!
A espada de Mather cortou o ar um segundo depois do comando dele, mas assim que as palavras saíram, Mather soube como aquela briga terminaria. O oponente tropeçaria no piso irregular do celeiro quando a incerteza lampejasse nos olhos dele; então perceberia o erro, corrigiria o movimento com exagero e acabaria de costas no chão com a lâmina de madeira de Mather pressionada na clavícula.
Segundos depois, o homem piscou, olhando para Mather do chão.
— Desculpe, meu senhor — murmurou o homem, e fez um rolamento para ficar de pé, entregando a espada de treino para o próximo da fila.
Mather expirou, observando o hálito se condensar em nuvens brancas no ar da tarde.
Pelo menos o oponente seguinte, um menino chamado Philip, era da mesma idade de Mather. Uma boa mudança em relação aos homens mais velhos, que encaravam Mather com uma mistura de medo e vontade desesperada.
De todos os invernianos resgatados dos campos de trabalhos forçados de Primavera, apenas seiscentos tinham vivido em Jannuari. Duzentos vinham do oeste de Inverno, setecentos das florestas centrais e meros cento e cinquenta da encosta sul das montanhas Klaryn. Entre aqueles que tinham vivido na capital inverniana, pouco mais de três quartos tinham optado por repovoar Jannuari. O restante não suportou a visão dos lares devastados pela guerra e se dispersou três meses antes para a natureza agora indomada de um reino de Inverno novo e desconhecido.
Pelo doce gelo no céu, Mather não acreditava que tanto tempo tinha se passado. Que fazia três meses desde a batalha em Abril, na qual ele quebrou o condutor de Angra e o rei de Primavera morreu. Três meses de liberdade.
E menos de um mês desde que William e Meira e um contingente tinham partido para as minas do sul. Em horas — momentos, segundos — eles voltariam, junto com Noam, o qual viria de um dos descansos curtos demais em Bithai. O rei cordelliano trotaria de volta para a capital inverniana como o canalha empertigado e arrogante que era, e levaria embora as riquezas que os invernianos tinham conseguido extrair.
O chacoalhar de armaduras chamou a atenção de Mather para a porta do celeiro. Dois soldados cordellianos passaram durante o patrulhamento do quarteirão inabitado de Jannuari, sorrisos de deboche estampados no rosto quando olharam para a cena do lado de dentro.
Mather segurou a espada de treino com mais força. Mas descobriu que não conseguia odiar os soldados emprestados por rirem — o que os invernianos estavam fazendo era risível, treinar pessoas por tão pouco tempo depois de anos de escravidão, esperando que tudo se curasse e se encaixasse imediatamente. A maioria dos invernianos começara apenas recentemente a se parecer com pessoas de novo em vez de escravos famintos. Fazer com que lutassem quando os olhos deles transmitiam terror e lembranças ainda vivos...
Mather se virou para Henn.
— É cedo demais.
Henn inclinou o corpo para a frente de onde estava, encostado na parede, observando o treinamento no lugar de William.
— Só estamos fazendo isso há algumas semanas. — Ele indicou com a cabeça para que Mather prosseguisse. — Lutem.
Uma ordem. Mather grunhiu, o som gorgolejou na garganta dele. Ordens eram tudo o que recebia agora. Ordens de William, ordens de Henn. Ordens da rainha dele.
Uma agitação perto da porta chamou a atenção de Mather de novo, mas não foram armaduras cordellianas. Botas, o farfalhar de tecido e uma voz que Mather conhecia bem.
— Voltamos.
William.
Ninguém pareceu notar a forma como Mather ficou mais sombrio à chegada de William, um evento que deveria ter feito com que ele fingisse um sorriso, no mínimo.
Henn se afastou da parede, percorrendo a distância até William como um homem inebriado.
— Estão todos de volta?
Mather viu as perguntas não ditas percorrerem o rosto de Henn — Dendera está segura? Ela está bem? — pois perguntas semelhantes tomavam conta dele. Se você voltou, William, significa que Meira também voltou — ela está segura? Está bem?
Ao menos sente minha falta?
Borrões vermelhos cobriam as bochechas de William, um sinal dos ventos frios que acompanharam o grupo desde as minas. Ele sorriu para Henn, limpando neve das mangas. Parecia errado para Mather sempre que William exibia aquela expressão. Depois de 16 anos em que William fora estoico e rigoroso e impiedoso, a felicidade parecia esquisita nele.
— Sim — começou William, com uma sobrancelha erguida. Depois de uma pausa, ele gesticulou para a porta atrás de si. — Dispensado. Vá até Dendera. Ela está igualmente ansiosa para ver você.
Henn deu um tapa no ombro de William e disparou para fora. Isso fez de Mather a única pessoa para relatar o progresso dos homens em treinamento, e quando William se virou para ele, Mather percebeu que sua boca tinha secado mais violentamente do que as planícies Rania ao meio-dia.
— Relatório — ordenou William, observando os invernianos que estavam atrás deles.
O que Mather tinha a relatar? A coisa mais notável que os invernianos em treinamento tinham feito desde que haviam começado tinha sido comer um café da manhã completo e mantê-lo no estômago.
— Não estão fisicamente prontos para isso — afirmou Mather, com a voz equilibrada.
O sorriso de William não se alterou.
— Estarão. O treinamento vai ajudar.
— Precisam se curar primeiro. — Mather inclinou os ombros para a frente, completamente ciente de como os sujeitos da discussão estavam logo atrás deles, observando, ouvindo. — Precisam trabalhar o que aconteceu. Precisam entender o que aconteceu...
Mather se interrompeu. A máscara de William falhou, uma rachadura que aparecia sempre que o rapaz insistia demais. Como quando William tentara explicar o motivo para manter a paternidade de Mather em segredo como um “sacrifício necessário para Inverno”, e em vez de aceitar essa explicação, Mather exigira saber por quê. Porque fazia sentido, mas não fazia, e embora Mather tivesse chorado no chão do chalé que a família Loren tinha reivindicado, William simplesmente ficara de pé, dissera a Mather que aquilo já estava no passado, e então se fora.
Mas tudo o que William dizia agora era: “Não, eles precisam disso. Precisam entrar em uma rotina”.
O que parecia exatamente com: Está no passado, Mather. Olhe apenas para o futuro.
Mather ficou ofegante. Não conseguia respirar, maldição...
Ele deu um grito de aviso e disparou para Philip. O menino se atirou para trás com um grito de susto e bloqueou alguns dos golpes ágeis de Mather, antes de tropeçar em um monte de palha e bater no chão em uma explosão de poeira.
Mather envolveu o cabo da espada com as duas mãos. Com um único impulso vigoroso, ele saltou, caiu sobre o menino e enfiou a espada no chão à distância de um dedo da cabeça de Philip.
Todos no celeiro ficaram em silêncio. Nenhum arquejo, nenhum grito de preocupação. Apenas dezenas de olhos observando Mather e Philip e a espada de madeira oscilando verticalmente no piso do celeiro.
Os olhos de Philip se detiveram na espada de Mather, na rachadura no piso, então de volta.
— Então. — Os lábios dele relaxaram em um sorriso. — Isso significa que perdi, certo?
Mather soltou uma gargalhada. O som aliviou a tensão, e alguns dos homens esperando na fila riram quando ele ajudou Philip a se levantar.
Mas os olhos de Philip se voltaram para cima do ombro de Mather e a risada se dissipou, uma ausência de som que alertou todos os sentidos de Mather.
Ele só teve tempo de pegar a espada do chão antes que William o golpeasse. Mather ficou de joelhos, bloqueou o ataque, e driblou para desviar até se levantar. William girou a lâmina e mergulhou de novo.
Ao redor dos dois, vozes invernianas se elevavam com encorajamentos, comemorações do povo preenchiam o ar, tão incrivelmente diferentes da vida que Mather estava vivendo meses antes que preencheram cada músculo dele, fizeram com que se desse conta de algumas coisas.
Se estão todos felizes, talvez ignorar o passado valha a pena.
Mather concentrou cada gota de frustração na luta, deixando que os vivas se dissolvessem sob a necessidade repentina de derrotar William. Ele inspirou o ar frio. O ar de Inverno. O reino que deveria liderar, proteger, defender.
E estava tudo sobre os ombros de Meira agora.
Mather não queria precisar dela. Mas amá-la era fácil, algo que se desenvolvera ao longo do tempo, como lutar com espadas ou atirar flechas — uma habilidade que Mather aperfeiçoou metodicamente até que um dia a praticasse sem pensar. Mas precisar de uma família? Nem em um milênio precisaria de uma.
Jamais conseguiria perdoar William por deixá-lo pensar que era órfão.
Mather parou subitamente. A lâmina de William continuou pelo ar e atingiu o ombro dele, derrubando Mather de barriga no chão. Ele fez uma expressão de raiva e se levantou, a espada caiu em algum lugar atrás de Mather conforme ele se atirou contra William. O ombro de Mather se chocou contra o estômago de William, o que lançou os dois em um emaranhado de grunhidos e braços e pernas e socos. Não durou muito — em poucas torções firmes, William prendeu os braços do jovem atrás das costas, a bochecha de Mather memorizava a sensação do piso de madeira áspera.
William se curvou, levou a boca à orelha de Mather.
— Não importa se eles fracassem cem vezes — falou William, quase sem ofegar. — Só importa que estamos aqui. Este é nosso futuro.
Mather grunhiu, inspirando ar empoeirado.
— Sim, Sir.
Ele sabia que William odiava quando Meira o chamava daquela forma — não que William jamais fosse dizer a ela que parasse. Mather apenas queria ver a inquietude em outra pessoa, para que soubesse que não era o único que a sentia.
A mão de William sobre Mather ficou tensa. Ele segurou o rapaz no chão por mais um segundo antes de recuar, e quando Mather se colocou de pé, com as mãos fechadas, ele não conseguiu encarar o grupo de invernianos, que estavam mudos.
— Por hoje basta — disse William a todos, como se nada tivesse acontecido.
Mather se virou para a porta primeiro. William segurou o braço dele, puxando o jovem conforme todos atrás dos dois se agitavam para guardar as espadas de treino.
— Trouxemos um novo carregamento de mercadorias. Separe-as e esteja na cerimônia esta noite.
Ordens. Mais joias para que separasse, contando pilhas de pagamento para um reino que exigiria ainda mais. Mather não sabia por que Noam insistia em armazenar os bens ali e encenar uma cerimônia em vez de mandar tudo para Bithai. Talvez quisesse provocar ainda mais os invernianos, forçar Meira a entregar cada joia a ele, uma a uma.
Mather lançou um aceno de cabeça curto a William e se deteve quando percebeu que William também pretendia sair. Retornar para Meira e Noam, sem dúvida.
Mather permaneceu até que o celeiro esvaziasse, e somente então ele se permitiu sair pela porta. Estava tão distraído que não reparou a figura de pé do lado de fora até que a atingisse, o ombro doendo no local onde se chocou com a armadura.
— Olhe por... — começou Mather, com um punhado de xingamentos a postos. Escória cordelliana atrapalhada...
Mas não era um cordelliano qualquer. Era o capitão Brennan Crewe, o homem que Noam colocara no comando dos soldados baseados em Jannuari. O número dois na lista de cordellianos que Mather odiava, atrás de Theron e de Noam, que empatavam em primeiro.
Mather se virou, saiu batendo os pés antes que pudesse registrar qualquer reação no rosto de Brennan. Só conseguiu dar poucos passos antes de ouvir neve estalar, passos que trotavam atrás dele.
— Espere um momento! — gritou Brennan. — Como vai o treinamento? Pela sua careta, estou vendo que vai tão bem quanto eu imaginava. Meu rei ainda não entende por que se dão ao trabalho de treinar um exército quando recebem toda a proteção de que podem precisar de Cordell.
Mather parou, as botas abrindo buracos na neve. O celeiro de treinamento estava a leste do palácio, conectado por uma extensão de neve e uma trilha irregular que era coberta por flocos de neve mais rápido do que se podia limpar. Mas estavam sozinhos, nenhum soldado patrulhando por perto. E depois da interação com William, Mather não tinha forças para ficar de boca fechada.
— Vai tão bem que você deveria dizer a seu rei para não ficar confortável demais aqui — disparou ele, ao se virar.
As sobrancelhas de Brennan se ergueram.
— Você se esquece de seu lugar, lorde Mather.
Mather fervilhou de ódio, mas trincou o maxilar para se acalmar. Ser rebaixado de rei para lorde não o incomodava, não mesmo — o que o incomodava era quem tinha todas as responsabilidades nos ombros agora.
— Peço desculpas, capitão. Esqueci mesmo meu lugar em relação ao seu. Tenho muita dificuldade em me lembrar de que você não é um soldado de verdade, mas um presente destinado a proteger um investimento. Tornaria as coisas muito mais fáceis se todos os soldados cordellianos caminhassem por aí usando laços nos capacetes.
Brennan avançou para Mather. O rapaz se esticou quando o capitão se aproximou, mas antes que sentisse o doce vazio dos instintos tomarem conta de seus movimentos, Brennan sorriu.
— Podemos ser presentes — disse ele —, mas pelo menos somos desejados. Sua rainha voltou, não soube? Mas convocou você? Não, suponho. Você provavelmente está a caminho de continuar a tarefa de contar a riqueza de Cordell. Age com tanta certeza de sua importância para Inverno, mas nós dois sabemos que seu papel neste reino mal passa daquele designado a um camponês.
Quando Brennan terminou de falar, Mather não conseguia ver nada além de estrelas no campo visual, o corpo estava tão quente de ódio que ele esperou que os flocos de neve que caíam chiassem na pele. Mather se moveu, mas não se lembrava de ter feito isso — só viu, repentinamente, um punhado do colarinho de Brennan, o tecido esticado para fora da armadura peitoral quando Mather puxou o homem para a frente.
— Não faz ideia do que está falando — rosnou Mather.
A atenção de Brennan se voltou para além do ombro de Mather. Os olhos dele se arregalaram.
— Rainha Meira.
Ela estava ali, agora?
Mather soltou Brennan e se virou, as botas dele giraram nas pedras escorregadias devido ao gelo. Mather desabou na neve, o pânico se dissipou tão rapidamente quanto tinha se instaurado.
A trilha atrás dele estava vazia.
Brennan gargalhou.
— Mas está certo, lorde Mather. Não tenho ideia do que estou falando.
Mather saltou e ficou de pé, disparando pela trilha como se pudesse escapar de sua humilhação.
Todos sabiam dos fracassos dele, de como não somente não era mais rei, mas não era mais alguém a quem a verdadeira governante de Inverno ao menos recorria? Será que todos reconheciam o quão profundamente Mather tinha caído? Ninguém mais via quanto estresse e dificuldade recaíam sobre Meira agora?
E naquela noite, Mather precisaria ver Meira rodopiar pelo salão de baile nos braços de Theron, e fingir que observá-la bastava para ele. Embora cada parte de Mather gritasse para que ele lutasse por ela... Ele não conseguia. Meira não o procurara nos últimos três meses desde que tinham retornado. Mather a vira brevemente, em reuniões — mas somente isso.
Não queria precisar lutar por ela. Queria que Meira o quisesse, e ela não o queria.
Ela queria Theron.
Por mais que doesse a Mather admitir, Theron merecia Meira. Fora Theron quem a salvara de Primavera; Theron quem arriscara a vida para levar o exército de Cordell para combater Angra.
E fora Mather quem fizera nada enquanto Meira caía, inconsciente, aos pés de Herod durante a batalha. Mather quem caminhara pelos corredores do palácio de Noam até que o piso estivesse quase gasto enquanto Meira passava meses no campo de prisioneiros de Angra. Era ele quem não fazia nada agora, de novo, porque não sabia o que podia fazer por ela, e não suportava ficar perto de Meira quando a rainha tinha...
Theron.
Ele não era mais rei. Não era mais um órfão. Não estava mais na vida de Meira.
Nada daquilo era a liberdade que Mather achou que queria.

2 comentários:

  1. Eu tô bolada real pelo Mather. Vacilo da glr tratar ele assim

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  2. Mano, to meio pistola agr com o Mather, se ele esta tão infeliz assim, procura ela ué. As pessoas complicam tanto as coisas, Meira não o procura pq acha que ele não a quer e Mather faz a mesma coisa pelo mesmo motivo

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Boa leitura, E SEM SPOILER!