17 de janeiro de 2019

Capítulo 4

Magnus examinou a surpreendentemente opulenta casa da cortesã enquanto ela puxava a ele e a Maddox para dentro. Mesmo os aposentos de Lucia no palácio, embora grandes e confortáveis, não eram tão cobertos por obras de arte e artefatos de ouro como os de Samara Balto. Lucia tinha uma área de estar onde ela lia seus livros favoritos, mas não era nada parecido com esta, feita de seda e veludo.
Tudo aqui era puro luxo, muito mais digno de alguém que morava em Auranos.
Mas talvez a deusa Valoria não fosse tão rigorosa com seus súditos como sempre se acreditou, com base nos ensinamentos e leis criadas durante seu reinado.
No entanto, a julgar pela expressão de admiração no rosto de Maddox, Magnus estaria disposto a apostar que esses aposentos eram uma anomalia, e não uma ocorrência normal por aqui.
— Sentem-se. — Samara acenou com a cabeça para a pequena mesa redonda de ébano que brilhava sob um candelabro de velas acesas.
— Eu prefiro ficar de pé. — Magnus levantou a adaga obsidiana. — Você sabe o que é isso.
Seu olhar se fixou no objeto por um momento antes de ela assentir, tensa.
— Eu sei. E sei quem o mandou.
— Isso é algo excelente de se ouvir. — O estranho alívio de estar cara a cara com alguém que poderia entender sua situação trouxe um nó à sua garganta. — Talvez você possa me explicar como tudo isso é possível.
— Por quê? Para então poder se esquecer quando voltar?
Ele estudou a cortesã com surpresa, seu punho apertando a lâmina.
— Ela falou isso, que eu esqueceria. Mas eu não vou. Como poderia esquecer algo disso?
Samara deu a ele um delicado sorriso.
— Sente-se, jovem rapaz.
Magnus desprezava receber ordens, mas Maddox já havia se sentado à mesa e o observava com um olhar interrogativo.
— Quaisquer que sejam as perguntas que você tenha sobre tudo isso… — disse Magnus ao garoto — … temo que não possa respondê-las, já que estou tão confuso quanto você.
— Então eu não vou falá-las em voz alta.
Magnus não poderia fazer o mesmo. Então, de má vontade, sentou-se à mesa em frente a Maddox. Samara sentou-se ao lado dele.
— Quem é a velha que me enviou para encontrá-la? — perguntou ele, desenrolando a bandagem para mostrar a ferida na palma da sua mão. — Ela fez isso comigo.
Samara olhou a marca.
— Tudo o que vou dizer é que ela é muito poderosa e você nunca deve tentar enfrentá-la.
— Como ela a conhece?
— Nossos caminhos se cruzaram.
— Mas… como isso é possível? Ela é velha, mas não pode ser velha o bastante para poder ter estado aqui, a não ser… — A cabeça de Magnus começou a doer enquanto tentava resolver esse mistério. — Que tipo de magia é essa?
— O jeito como diz isso... você não acredita em magia, não é? — ela falou.
— Não. Não até hoje, de qualquer maneira. E ainda é quase impossível aceitar o que aconteceu comigo. Elementia é mais uma lenda do que qualquer coisa. E bruxas... Eu não sei. — A imagem da bruxa gritando por misericórdia em sua execução o fez estremecer. — Eu nunca vi prova de seu poder, não uma prova real e tangível. Apenas palavras, apenas acusações. — Ele exalou trêmulo. — E as deusas são... Eu nunca as considerei mais que fábulas.
— Realmente, meu amigo — Maddox falou — acho que você tem vivido sob um musgo bem grosso. Todo mundo sabe que as deusas são reais. Como poderiam não ser?
— Saber e ver são duas coisas diferentes. — Então Magnus franziu a testa. — Você acabou de me chamar de seu amigo?
— Chamei?
— Chamou. Eu ouvi.
— Erro meu.
— Eu diria que sim.
Maddox deu-lhe um olhar fulminante.
— Claramente, não tenho amigos. E, com base no pouco tempo em que o conheço, tenho poucas dúvidas de que você também tenha algum.
— Claramente. — Os lábios de Magnus apertaram, e ele voltou sua atenção para a cortesã. — Meu tempo corre curto. Eu só tenho até o pôr do sol, e realmente prefiro não esperar tanto tempo. Faça o que for preciso em relação a essa lâmina. — Ele empurrou a adaga obsidiana pela mesa em direção a ela. — E eu seguirei meu caminho.
— Ainda não — disse ela, balançando a cabeça. — Primeiro eu preciso conhecê-lo melhor.
Magnus fez uma careta.
— Tão gentil quanto é, eu não tenho moedas de ouro comigo, nem estou tentado a me distrair com tais ofertas.
— Não se preocupe, garoto, essas ofertas foram revogadas no momento em que descobri quem o mandou para cá. — Samara não sorriu, em vez disso, parecia irritada com ele. — Por que ela mandou um menino fazer o trabalho de um homem? Ela testa minha paciência todas as vezes.
— Isso aconteceu antes?
— Esta é a terceira vez. E cada uma é mais difícil para mim do que a última. — Samara desviou o olhar por um momento, sua testa vincada como se pensasse profundamente. Quando ela voltou seu olhar para Magnus, sua expressão havia mudado para uma que era ilegível. — Quero apenas ver a sua sorte para saber com quem estou lidando e se você pode ser confiável. Assim saberei com certeza que foi a velha que o enviou e não outra pessoa.
— Uma cartomante? — Magnus disse secamente. — Essas trivialidades são destinadas a festas tolas em Auranos.
Ela franziu a testa.
— Auranos?
Magnus suspirou.
    Esqueça.
— Eu não vou continuar até que faça isso. — Ela estendeu a mão para ele. — Me dê sua mão.
Ele a estudou, querendo fazer exigências, querendo que ela seguisse suas ordens sem hesitação, como os criados do palácio.
Mas ela não sabia quem ele era e quem era seu pai. E, francamente, ele não tinha tempo ou inclinação para tentar explicar.
— Muito bem — disse ele. — Mas se apresse com isso.
Magnus estendeu a mão, e ela pegou, apertando-a na dela, e buscou profundamente em seus olhos.
Então o olhar dela ficou vazio. Ela o fitava, concentrando-se em algum ponto invisível à distância.
— Sinto gelo em caminhos familiares, ameaçando fazê-lo escorregar. Suas botas são novas e não se prendem ao chão gelado como você gostaria. Escorregar o faria parecer um idiota na frente de seus colegas, e não pode ser assim, não é?
As sobrancelhas de Magnus se ergueram enquanto ela delineava algo que acontecera há menos de um mês. Desde então, o sapateiro do palácio colocara diferentes solas em suas novas botas de couro, muito mais adequadas ao clima gelado de Limeros.
Ela não esperou por uma confirmação.
— Agora vejo um labirinto... um labirinto... empoleirado no penhasco mais alto do reino. É esculpido de milhares de blocos de gelo, tão bonitos quando captam a luz. Você acha que é quase tão bonito quanto a quem foi presenteado, alguém próximo a você. Sim, sinto que ela é a razão pela qual você sente tanta urgência de voltar para sua casa. Ela é da família, mas para você ela é mais que uma família.
— Minha irmã — ele se viu dizendo, a imagem de Lucia clara em sua mente. O rei não era tão cruel e inflexível em relação a ela como era em relação a Magnus, mas Magnus ainda não queria deixá-la sozinha no palácio sem sua proteção.
Lucia não sabia que ele tinha tornado uma prioridade vigiá-la, mas ele tinha. Quando ficou mais velha, ficou mais bonita – trazendo pretendentes indignos para as portas do palácio, procurando um compromisso com a princesa.
Era nauseante, realmente. Ela tinha apenas quinze anos e preferia muito mais falar de livros do que de garotos.
Magnus esperava que permanecesse assim para sempre.
— Diga-me — Magnus falou, roçando os dedos contra a bochecha marcada, desejando testar as habilidades aparentemente impressionantes de Samara. — Você pode ver como eu consegui isso?
O olhar de Samara permaneceu distante, mas suas sobrancelhas se uniram.
— Um momento de curiosidade infantil, quando você descobriu um segredo obscuro do passado – e as lembranças que despertou trouxeram dor... dor para vocês dois.
Magnus franziu a testa.
— Confie em mim, aquele que me deu isso não sentiu dor em suas ações – apenas constrangimento por um filho que nunca se elevou às suas expectativas impossivelmente altas e provavelmente nunca o fará.
— Quanta dor — disse Samara, balançando a cabeça, como se não tivesse ouvido uma palavra do que ele disse. — Tantas sombras para navegar na escuridão crescente. Mas vejo uma luz, uma luz dourada tão brilhante quanto o sol, a qual você será atraído sem escolha. Você resistirá, mas irá falhar. Tenha cuidado, no entanto. Mariposas também são atraídas pelas chamas.
Magnus retirou a mão da mulher e o olhar dela finalmente clareou. Ela piscou algumas vezes.
— Fascinante, realmente — ele disse sem muito entusiasmo. — Você viu o que precisava? Não mencionou a velha.
Ela o observou por um segundo em silêncio, depois assentiu.
— Eu vi o suficiente. — Sem outra palavra, ela se virou para Maddox. — Agora é sua vez.
Maddox assistiu tudo isso em silêncio, com os olhos arregalados.
— Eu?
— Sim. — Ela estendeu a mão e pegou a mão dele na dela. — Olhe para mim.
Ele assentiu, não dando a ela tanta resistência quanto Magnus. Magnus reprimiu quaisquer palavras para apressar aquilo e tentou convocar a pouca paciência que lhe restava.
Atraído por uma luz dourada tão brilhante quanto o sol.
Uma mariposa para uma chama.
Que coisa totalmente sem sentido.
Maddox observou a mulher, a antecipação pela previsão do futuro em seu rosto jovem.
— O que você vê? — ele perguntou.
Samara franziu um pouco a testa.
— Eu vejo um homem que você despreza mas com quem é forçado a viajar. Vejo uma mãe que se preocupa, uma mãe que guarda tantos segredos que se esqueceu como se confia em alguém. Eu vejo… que uma cobra resolverá um dos seus problemas.
— Uma cobra? — Maddox repetiu, franzindo o nariz.
— Eu vejo alguém cuja vida tocará a sua, um viajante de uma terra longe daqui.
— É uma garota? — Magnus perguntou. — Talvez ele se torne a mariposa atraída para sua perigosa chama?
As bochechas de Maddox ficaram vermelhas.
— Quieto.
Samara, com o olhar distante, sorriu agora.
— Eu vejo muita aventura no seu futuro, Maddox Corso, e eu vejo... — Seu sorriso desapareceu. — Eu vejo... — Um engasgar estrangulado travou sua garganta.
— O quê? — Magnus se aproximou dela, alarmado por sua estranha reação ao garoto. — O que você vê?
Sua boca estava aberta, movendo-se, mas nenhum som saiu. Seu pescoço foi para frente e para trás. Magnus estendeu a mão e segurou seus ombros, tentando firmá-la, mas ela estava rígida ao toque.
Então ela piscou, e quando abriu os olhos, eles se tornaram negros.
Magnus estava de pé em um instante, sua cadeira guinchando.
— Solte-o, bruxa!
Samara soltou a mão de Maddox e se levantou, cambaleando para trás. Apertou a mão contra os olhos, o peito arfando.
— O que há de errado com ela? — A voz de Maddox tremeu.
Magnus colocou a mão no ombro do garoto.
— Eu não sei.
Quando Samara afastou as mãos do rosto, os olhos voltaram para a cor habitual, um azul índigo. Seu olhar fixo em Maddox, e não havia mais curiosidade amigável lá.
Havia apenas medo nu.
Ela apontou para a porta.
— Quero que você saia.
— Eu? — Maddox se levantou, olhando para Magnus com confusão.
Magnus só podia dar de ombros para ele.
— Saia — disse Samara novamente. — Eu senti a magia negra dentro de você, e não vou deixar que contamine minha casa com ela.
— Magia negra? Eu... Eu tenho magia, magia que não entendo completamente, mas eu nunca faria mal a alguém!
— Saia! — ela gritou, pegando a lâmina obsidiana da mesa e indo na direção dele.
Magnus se colocou entre os dois.
— Não se atreva — ele rosnou para a mulher. — O que quer que você pense que viu não tem influência em minha visita aqui. Você foi quem insistiu em ver nossa sorte, bruxa. Já as viu. Agora preciso que faça o que vim atrás. — Ele acenou para Maddox. — Espere lá fora.
Maddox não discutiu dessa vez. Ele saiu, fechando a porta atrás dele.
Samara tremeu da cabeça aos pés.
— Eu nunca vi nada parecido antes — ela sussurrou. — Uma escuridão se espalhando como asas negras para cobrir o mundo em sua totalidade. Um sentimento de perda, de vazio... de destruição. Aquele garoto... aquele garoto é um demônio.
Magnus conhecia muitas pessoas supersticiosas, desde o sumo sacerdote que conduzia as orações semanais no templo do palácio até as servas da cozinha que usavam amuletos de prata contra o mal ao redor de seus pescoços. Até mesmo sua mãe, a rainha Althea, usava um anel de ouro que ela sentia ter trazido boa sorte e fortuna à sua vida.
Considerando que a mulher era casada com o frio e brutal Rei Gaius, Magnus imaginava que ela tinha começado a usar tal anel tarde demais.
Sua mãe acreditava em demônios, mas Magnus não. E mesmo se o fizesse, Maddox Corso certamente não era um deles.
— Quer que eu volte para a velha e diga a ela que você falhou? — Ele perguntou suavemente, na esperança de persuadir esta bruxa a agir com tal ameaça. — O que acha que pode acontecer então?
O olhar dela se moveu para o dele.
— Você ainda não tem magia suficiente para voltar.
Não tinha? O pensamento era alarmante, mas a velha havia avisado que, se falhasse, nunca mais voltaria.
— Você sabe disso com certeza? — ele blefou.
A cor foi drenada de seu lindo rosto.
— Você ao menos sabe o que estou prestes a fazer?
— Não. E eu não me importo. Só quero que faça.
Samara olhou para a adaga obsidiana.
— Eu sou uma escrava, sabe. Existo apenas para fazer essa tarefa para ela. Não posso usar minha magia para mais nada. Uma vez, eu fui a bruxa mais poderosa de toda Mítica. Agora sou uma cortesã que se esconde com outro nome, outra identidade, para que a deusa não me encontre.
— Valoria — disse ele, ainda surpreso ao usar o nome em tal contexto.
Ela assentiu, procurando o rosto dele. Magnus poderia dizer que ela procurava respostas que ele não possuía.
— Valoria estava com inveja de mim, inveja de qualquer bruxa com elementia forte. Fui condenada à morte, mas aquela mulher – aquela velha que o enviou aqui – enviou outra para ajudar a me resgatar a tempo. Agora devo fazer o que ela me pedir até o dia em que não terei mais nenhuma magia para dar a ela. E esse será o dia em que morrerei.
Magnus não queria ouvir isso. Ele não queria se sentir mal por alguém que não conhecia, alguém que viveu mil anos antes de ele ter nascido.
No entanto, havia tanta dor em sua voz quando ela contou essa pequena história para ele. Sua história puxou algo profundo dentro dele.
— Eu sinto muito... — ele começou, sem saber o que dizer.
Samara sacudiu a cabeça.
— Estamos todos presos em vidas que não escolhemos, não estamos? Não há escapatória. Não para você, não para mim, nem para ninguém.
Ele balançou a cabeça, sentindo suas bochechas esquentarem enquanto a frustração aumentava dentro dele.
— Não tenho certeza se acredito nisso.
— Você é jovem. — Ela assentiu com compreensão. — Vai aprender.
— Essa é uma lição que não quero aprender.
— Somente um tolo se recusa a aceitar a realidade.
Não, ela estava errada. Magnus poderia mudar sua vida completamente se quisesse e deixar suas memórias de seu pai para trás. Ele poderia fugir e não olhar para trás, como havia instigado Maddox a fazer.
A vida era uma série de escolhas – escolhas conscientes – que definiam a vida de uma pessoa.
Mesmo não fazendo uma escolha, a pessoa ainda estava escolhendo.
No entanto, essa mulher não percebia ou não acreditava em tal possibilidade.
Samara sentou-se à mesa novamente e segurou a adaga obsidiana nas mãos, erguendo-a como uma oferenda. Ela fechou os olhos.
E então Magnus sentiu... algo. Uma agitação no ar, semelhante ao desassossego antes da chegada de uma tempestade, que arrepiou os pelos de seus braços.
Seu coração batia forte enquanto observava a bruxa invocar sua magia, a rocha negra que ela segurava começando a brilhar com luz âmbar.
— Não chegue muito perto — ela disse — ou posso acidentalmente curar aquela ferida em sua mão. Sem isso, você não poderá voltar.
Magnus se afastou dela até que suas costas pressionassem a porta, e ele assistiu com descrença quando o rosto dela começou a mudar. Sua beleza desapareceu, seu cabelo escuro tornando-se cinza e quebradiço. Rugas serpenteavam em seu rosto como rachaduras na terra seca. Suas costas ficaram curvadas, suas bochechas, ocas.
Finalmente, o brilho desapareceu e ela abriu os olhos, agora de um azul desbotado.
— Está feito — disse ela.
Magnus não se mexeu, não conseguiu falar. Tudo o que ele podia fazer era olhar.
Ela sorriu cansada para ele, essa mulher que agora parecia ter séculos de idade.
— Não se preocupe, meu jovem. Levará algum tempo, mas vou me recuperar. Meu negócio sofreria se não acontecesse. Agora, perdoe-me por não levantar, mas meus ossos estão fracos. Tome isto — ela levantou a adaga obsidiana da mesa, seus olhos enrugados se estreitando — e retire-se da minha vista para sempre.

Um comentário:

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Boa leitura, E SEM SPOILER!