26 de janeiro de 2019

Capítulo 3

Meira

HANNAH?, DIGO, HESITANTE, e minha magia acende uma faísca ínfima de frio. Diga que ele está errado.
Mas a emoção que irradia dela é o oposto do que eu esperava: ela está admirada. Maravilhada. O mesmo choque desnorteado que recai sobre todos.
Estávamos tão perto, diz Hannah, arquejando. A Tadil, esse tempo todo — estávamos tão perto...
As palavras dela se dissipam, mas sei o que quer dizer.
Antes de Angra tomar Inverno.
O minerador se coloca de pé, me guiando, sem palavras. Sir me deixa sair aos tropeços atrás dele sem protestar, arrastando os pés atrás de mim como se estivesse sendo arrastado contra a vontade até a mina. Somos seguidos por Theron, Garrigan, Conall e alguns soldados cordellianos.
O sol da manhã ilumina os primeiros passos para dentro da abertura da mina, mas mais para dentro, quando a terra começa a serpentear em torno de paredes de pedra serrilhadas, tudo está coberto em escuridão. O minerador pega uma única lanterna acesa, muito provavelmente aquela que ele carregava enquanto correu para fora da mina, e o restante de nós pega outras, as acende e o segue.
A caverna se torna visível, ferramentas entulham um corredor com a largura de dois braços e pouco mais do que a altura de um homem adulto. Silêncio nos envolve assim que entramos no túnel, o único barulho é o arrastar abafado de nossos pés conforme damos passos cautelosos para as sombras.
Dedos roçam minha cintura, um toque delicado que fica mais forte quando dou um sorriso fraco para Theron. Ele não diz nada, mas consigo ver, pela forma como a boca do príncipe se abre, que ele quer dizer algo. O que há para dizer, no entanto, além de murmúrios de incredulidade?
Aperto os dedos de Theron e o empurro adiante, guiando-o para a escuridão.
Mais entradas surgem pelo caminho, mas o minerador à frente de nosso grupo nos leva além de todas elas, mergulhando no túnel mais profundo das montanhas Klaryn. O ar tem cheiro de sujeira antiga e almiscarada e cobre minha pele com camadas finas que parecem, de alguma forma, tão invernianas quanto a neve. Isso não ajuda muito a apaziguar a tensão que revira meu estômago quando o túnel diante de nós termina em uma abertura.
As lanternas dos outros mineradores iluminam a parede irregular, obviamente uma expansão inesperada pela forma como as pedras estão empilhadas em aglomerados desordenados de escombros pelo chão. O resto dos mineradores invernianos parecem ilesos, o que alivia parte de minha preocupação. Todos estão de pé no túnel, olhando, boquiabertos, para a rachadura na parede, com medo demais para entrarem, assombrados demais para se afastarem.
Quando nos veem, recuam, todos os olhos se voltam para mim. Mas estou com tanto medo, tão espantada quanto eles, que a lanterna treme em minha mão, a luz pulsa desnorteadamente.
Alguém fez aquele lugar. Além da abertura, cortes perfeitos em formato de diamante transformam a terra preto-acinzentada em um piso parecido com mármore. As paredes em volta da sala são feitas das mesmas rochas irregulares que o restante da mina, mas mesmo isso parece intencional, pois chama toda a atenção para os fundos da câmara, onde a pedra foi polida até se tornar uma parede lisa.
Naquela parede está algo que me faz arquejar em choque.
Eu me adianto, além das pilhas jogadas de rochas, apoiando a lanterna no portal, pois as que estão atrás de mim iluminam aquele novo espaço. Assim que entro na sala, o ar estala na minha pele, uma descarga como a eletricidade de uma tempestade que se prepara para liberar cascatas de relâmpagos. Estremeço, os pelos em meus braços se arrepiam.
O ar está pesado e úmido com magia.
E acho... Acho que estou olhando para a porta do abismo.
Theron toca meu cotovelo e me assusto. Não sabia que tinha me seguido até a câmara, mas parece ser o único corajoso o bastante — ou burro o bastante — para fazê-lo. Todos permanecem presos à entrada, encaram boquiabertos, com horror espantado, a mesma coisa que chama minha atenção como um mosquito para uma chama.
Uma porta se ergue diante de nós, imensa e espessa, feita da mesma pedra cinza que o restante da sala. Quatro imagens estão entalhadas no centro da porta — uma, um emaranhado de videiras em chamas; outra, livros empilhados; outra, uma simples máscara; e a última, a maior, centralizada acima das três menores, é o topo de uma montanha banhada em um raio de luz com palavras estampadas em arco acima dela, A ORDEM DOS ILUSTRES.
Dou um passo adiante, minhas botas estalando no piso de pedra.
Um raio de luz projetado sobre o topo de uma montanha. Onde vi isso antes?
E quem é a Ordem dos Ilustres?
Theron sussurra.
— Pelas folhas douradas. — Ele dá um passo adiante. — Isso são... fechaduras?
Seguro o braço de Theron, evitando que nós dois entremos demais na sala. Aquele lugar parece perigoso, como se estivesse à espera de algo, e não quero descobrir o que é.
Mas ele está certo — no centro dos três pequenos entalhes há uma fechadura.
— Acha que é isso? — sussurro a uma altura que mal agita o ar.
A mão de Theron se fecha sobre a minha, no ponto onde seguro o braço dele, e o príncipe assente, confuso.
— Sim — diz Theron, sorrindo como se parte de si estivesse se erguendo acima das muralhas de medo dentro dele. — Encontramos. Vamos ficar bem agora. — Theron me olha, então para a porta. — Vamos ficar bem...
Por cima do ombro, olho para todos ainda amontoados à entrada. Os olhos de Sir encaram os meus, e ofego diante da compreensão do que aquilo significa exatamente.
Da última vez que nosso mundo teve mais do que apenas os oito Condutores Reais, a Ruína foi criada. As pessoas começaram a usar os condutores individuais para coisas que feriam umas às outras, assassinato e roubo e maldade, e isso deu à luz uma magia sombria que se infiltrou nas mentes das pessoas, encorajando-as a usar a magia para o mal, o que deu início a um ciclo de desespero.
E quando abrirmos aquela porta, se ela realmente abrigar o abismo de magia...
Poderíamos estar errados. Poderia ser apenas... Uma sala. Em uma montanha?
O que mais poderia ser?
Minha garganta se fecha. É realmente isso, não é? Eu deveria ter impedido Noam há muito tempo. Não deveria ter deixado que fizesse isso com meu reino — como encontramos aquilo?
Theron arregala os olhos com espanto. Ele está satisfeito com o achado, vai querer abrir a porta, e ver essa expressão em Theron me deixa mais desnorteada. Não pensei.
Saí entrando sem me lembrar quem Theron é, quem ele é de verdade — não apenas uma fonte de conforto, não apenas meu amigo. Ele quer isso. Cordell quer isso.
Recuo para mais longe dele.
Theron estende a mão para mim.
— Meira?
Cortante e afiada, uma sensação fria percorre meu corpo em um rompante de magia.
Minha magia, não a faísca no ar. Paro subitamente.
Meira!, grita a voz de Hannah. Ela está chateada. Com medo. Do quê?
Theron me segue. O pé dele se engancha e o príncipe tropeça para a frente, com os braços se agitando, e colide comigo, lançando nós dois ao chão, mais perto da porta entalhada.
Meira, saia daqui!
Tão frio, tão frio...
MEIRA!, grita Hannah. Mei...
Silêncio. Um silêncio profundo e doloroso, como se uma porta tivesse batido, interrompendo todos os ruídos além dela.
Um calor selvagem e determinado devora meu corpo com mordidas ensandecidas de uma dor insuportável. Uma quentura tão escaldante quanto o gelo da minha magia, espalhando-se como dedos em brasa por meus braços e minhas pernas e meu peito e meu pescoço. Ele cauteriza minha garganta, formando um nó inchado e impenetrável, intensificando-se e agredindo cada nervo, de forma que quando grito, ninguém ouve.
O corpo de Theron está pressionado ao meu, e só tenho consciência, além dos turbilhões de dor que devoram minhas entranhas e permanecem presos atrás do nó na garganta, de que nós estamos causando isso. Ou eu — eu estou causando isso, porque Theron não sente dor. A testa dele se enruga apenas em confusão.
— Meira, o que...
Uma força invisível nos atira ao ar, empurrando-nos de volta para a entrada da sala. Nossos corpos estalam com uma saraivada de golpes contra a parede de pedra antes de desabarmos, empilhados no chão. Todos à porta gritam, alarmados, e correm até nós, mas de alguma forma o nó em minha garganta se desfaz e a dor sai em disparada pela minha boca com um grito que nem mesmo parece humano. Meu corpo lateja e eu me encolho, com a cabeça nos joelhos, os braços sobre as orelhas, me balançando para a frente e para trás, tentando encontrar alguma posição que não me dê a sensação de ser queimada viva.
HANNAH!, grito para ela, para a magia, para qualquer coisa que possa fazer isso parar...
Silêncio, ainda. Apenas silêncio, é tudo que recebo dela. Pesar toma meu corpo antes que a escuridão espessa deslize sobre minha visão e pela garganta e me preencha da cabeça aos pés em uma prisão que conheço muito bem.
— Meira! — Os dedos de Theron se enterram em meus cabelos, os braços dele me envolvem. — Meira, aguente...
Pisco e estou sozinha na escuridão, no fogo e no gelo.


A escuridão se dissipa, se dissolve no brilho amarelado das tochas. Quase agradeço pela luz — estou acordada; sobrevivi; estou bem —, até que meus olhos se ajustam ao quarto.
Uma cela se revela à luz tremeluzente, pedras pretas sujas reluzem com manchas pútridas. No canto está Theron, encarando a porta com uma concentração alimentada pelo medo intenso.
Porque à porta está Angra.
— O herdeiro de Cordell — anuncia Angra ao dar um passo adiante e se agachar diante de Theron, apoiando-se no cetro. — Você dá um significado novo à palavra valente. Qual era o plano? Entrar às escondidas em minha cidade e libertar minha mais recente escrava inverniana? — Angra estende a mão, segura o queixo de Theron e chama a atenção dele. — Ou espera que seu pai invada e salve os dois?
O estoicismo de Theron se desfaz com um arquejo igual ao que emito.
Foi isso que aconteceu com ele enquanto estava preso em Abril.
Angra inclina a cabeça como se estivesse ouvindo um eco. A expressão dele se ilumina com um olhar que jamais achei que o rosto de Angra fosse capaz de estampar. Olhos relaxados, lábios entreabertos: maravilhado e espantado.
Angra se recupera, acariciando o maxilar de Theron com o polegar.
— Acha mesmo que ele virá?
As sobrancelhas de Theron se erguem, um espasmo de dúvida do qual ele nem mesmo deve estar ciente.
Angra reage a essa dúvida.
— Você e eu não somos tão diferentes. Devo mostrar o quanto somos realmente semelhantes? — Ele coloca a mão na cabeça de Theron.
Theron grita. Não me importa se isso já aconteceu, não posso deixar que ele grite assim — disparo quando Angra recolhe a mão, deixando que Theron caia para a frente.
Os ombros do príncipe se erguem e se curvam conforme ele quase vomita.
— Não. — É tudo que Theron diz, a primeira palavra abafada dele. Então, com mais terror: — Não! Ele não a matou como a sua fez...
Matou? Quem? O que Angra mostrou a ele?
Angra emite um estalo com língua.
— Ele matou, principezinho. — Angra se afasta e observa Theron se encolher. — Somos iguais.


— Meira!
Eu me levanto sobressaltada em uma névoa amarelada tremeluzente, agarrada a punhados de tecido que se repuxam ao meu toque. Estou em meu chalé, em Gaos, as paredes marrons tão irregulares e rachadas que o ar frio entra. O pequeno quarto não tem mais do que uma cama e algumas mesas, mas em cada uma delas, velas queimam. Dezenas delas. Pisco diante da luz, meus olhos disparam de uma chama irregular para a seguinte, mais rápidos do que meu cérebro consegue processar um motivo.
O tecido em meus punhos se repuxa de novo e me assusto.
Sir está aqui, com as mãos apoiadas ao lado de cada uma de minhas pernas, e seguro o colarinho dele como se pudesse arrastá-lo para uma briga. Theron também está aqui, de pé à ponta da cama, com uma vela apagada em uma das mãos e um fósforo na outra.
Angra. A lembrança. Curvo o corpo adiante, com a cabeça nos joelhos, quando solto Sir. Por que vi aquilo? Como eu...
— O abismo de magia — digo, ofegante, e me levanto. — A porta... Havia uma barreira...
Tudo retorna em disparada à minha mente: a porta de pedra, as fechaduras nos entalhes, a sensação de ser queimada de dentro para fora. Uma barreira nos impediu de chegar perto da porta. Uma salvaguarda mágica que atirou Theron e eu para longe, mas afetou apenas a mim.
Talvez o abismo tenha reagido assim porque sou magia. Talvez tenha colidido com a pessoa mais próxima e trazido à tona lembranças, puxando minha magia para fora em um frenesi. Mas Theron não é inverniano — como ela o afetou? Ou será que não fui eu, mas a magia da barreira reagindo à minha? O que quer que tenha sido, qual fosse o motivo, é apenas uma faísca na chama desse horror.
— Qualquer que seja a magia lá embaixo, não podemos tocá-la — declaro.
Theron me olha boquiaberto, como se fosse a última coisa que esperasse que eu fosse dizer.
— Aqui, minha rainha. Beba isto. — Sir tenta me dar uma taça com água, mas eu a empurro.
— Encontramos o abismo de magia — digo, me obrigando a ouvir, a sentir. — Algo o está bloqueando, uma barreira de algum tipo. Não podemos derrubar essa barreira. Se acessarmos a magia, se ela se espalhar para todos...
Theron dispara para mais perto da minha cama.
— É exatamente o que precisa acontecer.
Hesito. A visão de Theron diante de mim se choca com a lembrança dele no chão do calabouço de Angra. Mas será que o que vi foi real?
Hannah. Busco minha magia com pensamentos hesitantes, incertos. Foi...
Frio dispara por meu peito. Uma reação normal à busca da magia, mas embora geralmente ela dispare e se dissipe, dessa vez... não se acalma.
A magia se eleva ainda mais, então mergulha para braços e pernas, tomando velocidade e força conforme dispara para se lançar para fora de meu corpo. Recuo, me choco na parede ao lado da cama.
Não, imploro, gritando, na mente. PARE!
A magia não ouve. Pelo menos não a tempo — deixa meu corpo um segundo antes de eu concentrar minha força de vontade nela, sai de mim espiralando e se choca contra... quem? Onde?
Sir.
Ele fica de pé, cambaleante, abre a boca com um arquejo abafado, como se alguém tivesse golpeando os pulmões dele com um cabo de espada.
— O que... — Sir gagueja. — O que você...
Ele cambaleia para trás, as botas escorregam no piso de madeira, então Sir se choca contra a porta fechada que dá para o restante do chalé. A mão dele desce até a maçaneta e Sir a puxa, mas em vez de ela girar sob os dedos dele, a coisa toda se quebra e cai no chão com um ruído.
Salto para fora da cama, com as mãos estendidas.
Sir arrancou a porta das dobradiças.
Não — eu fiz isso com ele.
Desabo de volta na cama. Já vi a magia dar força às pessoas antes, mas o bastante para que suportassem um dia de trabalho, não destruíssem tábuas de madeira. E sempre reagia da forma como deveria — incontrolável, mas fazia o que meu povo precisava que ela fizesse.
O que aconteceu?
Sir flexiona a mão e dispara um olhar inquisidor para mim.
— Minha rainha. Por que fez isso?
Sacudo a cabeça.
— Não tive a intenção. A magia lá embaixo... Aquela barreira... Ela fez algo. Não me sinto... normal.
Meu peito está tão frio. Meu coração é como gelo, braços e pernas como neve, minha própria respiração deveria ser uma nuvem condensada. A magia parecia desperta antes, mas agora parece... descontrolada.
Sir se aproxima devagar.
— Vamos entender o que é, minha rainha. Mandaremos outra pessoa para lá, alguém que não esteja conectado a um Condutor Real.
Fico de pé de novo.
— Não, é perigoso demais. Ninguém pode descer lá.
— Nós encontramos, Meira. — Theron se intromete, a voz dele está rouca. — O abismo de magia, depois de todo esse tempo, e não quer ao menos investigar? O mundo não vê poder assim há séculos. Imagine o bem que poderíamos fazer com isso!
— E imagine o mal! — grito, incapaz de conter a preocupação. — Viu o que acabei de fazer? Minha magia poderia ter ferido Sir! E você quer mais? Mesmo que conseguíssemos chegar até ela, o mundo não receberá magia da forma como você quer. Acredita que seu pai usaria mais magia para o bem? Talvez aos olhos de Cordell, mas como isso vai afetar meu reino?
Theron solta a vela apagada e o fósforo que ainda segurava e se aproxima de mim.
— O mundo precisa disso — declara ele. — Meu pai não é o único com planos, poderíamos nos certificar de que a magia beneficie a todos. Seu povo teria, todo, a própria magia. Teriam a força necessária para evitar que qualquer coisa como a conquista de Angra acontecesse de novo.
— Não pode contar a seu pai que encontramos — imploro. — Sei por que teme Angra, mas somos mais fortes do que ele. Você não é nada como ele.
Os olhos de Theron se semicerram com confusão, percorrendo meu rosto. Paro, espero que a compreensão desanuvie suas memórias, mas Theron apenas inclina a cabeça, perplexo.
Não se lembra do que Angra fez com ele? Aquilo não foi real?
Uma porta se abre mais longe no chalé e vozes chegam até nós.
— Ela está acordada? — pergunta Nessa.
Dendera assobia quando entram no quarto aos tropeços.
— O que aconteceu com a porta?
Enquanto Sir, Nessa e Dendera começam uma discussão em voz baixa, eu me aproximo de Theron, abaixando o tom.
— Por favor, não conte a Noam.
— Meus homens também viram. Seu povo sabe que o encontramos. Ele vai descobrir em algum momento.
— Apenas alguns de seus homens estavam lá embaixo, e meu povo vai manter segredo. Por favor, Theron. Apenas me dê tempo para descobrir o que fazer.
Meu coração pesa durante a pausa que se segue.
— Quando você estava dormindo... — diz Theron, por fim. — Parecia assustada.
Ele não concordou com nada. Mudou de assunto.
— Sonhei com Angra. E você. — Hesito, sem querer feri-lo. Minhas palavras são como martelos e Theron, um vaso de porcelana. — Em Abril.
Theron se afasta de mim sobressaltado.
Tento fazer parecer banal.
— Foi apenas um sonho...
Theron agarra minha mão no ar e a segura, cada músculo de seu corpo está rígido.
— Não me lembro muito de lá — sussurra ele, cada palavra com o peso dos três meses em que ficaram abafadas. — Dias inteiros apenas... sumiram. Mas lembro de Angra me contar o que planejava fazer com você. O que planejava deixar que Herod... — A voz de Theron falha. — Angra usou magia contra mim em Abril, isso eu sei. Ele não deveria ter conseguido, Condutores Reais não conseguem afetar pessoas que não são do reino deles. E se uma magia mais poderosa existe, precisamos de proteção.
Meus braços formigam para se estenderem e envolverem Theron. Mas, apesar da dor dele, apesar das memórias da tortura de Angra que latejam em minha mente, não posso concordar com o que ele quer.
— Então é mais importante ainda que a porta fique fechada. Se for usada de forma errada, poderia ajudar essa mesma magia que você teme.
Theron faz uma careta. Não está convencido, mas Nessa corre até mim.
— Minha rainha, como está se sentindo?
Ela não pergunta o que aconteceu, ou qualquer coisa sobre o poço da mina, e presumo que Sir a inteirou o suficiente. Conall e Garrigan assumem os lugares deles vigiando meu quarto quando Sir diz algo sobre verificar Finn e Greer. Ele não fica para conferir se estou bem; simplesmente diz a Dendera para se certificar “de que a rainha descanse”.
Nenhuma ajuda de Sir — e nenhuma ajuda de Theron, o qual também vai embora. Tento ir atrás dele, mas Dendera me empurra na cama, brigando para que eu me deite. Theron não repara, some sem dizer mais uma palavra. O que eu esperava que dissesse? O que ele poderia fazer?
Poderia me ajudar com aquilo. Poderia ficar, me ajudar a lidar com... tudo.
Não. Theron está arrasado por minha culpa. Porque foi me salvar. Vi o que ele passou — pelo menos o que pode ter passado. Mesmo que não se lembre do que aconteceu, não tem como saber se o que eu vi não aconteceu. Theron não precisa me ajudar; eu preciso ajudar Theron. Tenho outras pessoas que podem...
Uma compreensão repentina abafa todos os pensamentos.
Hannah jamais respondeu. Assim que a busquei, minha magia irrompeu.
Quase a grito de novo, mas minha respiração é interrompida e não consigo tirar os olhos das farpas da porta que Nessa empurra para um canto. Nossa conexão sempre foi misteriosa — talvez a barreira a tenha partido. O frio dentro de mim lateja, como se sentisse meu dilema, soubesse que estou a poucos momentos de tentar reacender minha magia.
Tenho medo dela. Mas não posso ter medo de minha magia. Agora que o abismo foi encontrado...
Não posso ter medo de nada.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!