21 de janeiro de 2019

Capítulo 3

QUANDO EU TINHA oito anos, mudamos o acampamento mais uma vez para dificultar que Angra nos encontrasse — dessa vez, para Outono. Até então, minha vida não tinha sido maior do que os limites de nossos tristes campos na floresta Eldridge. Passamos pela capital de Outono, Oktuber, a caminho das florestas ao sul, enchendo as carroças e estocando os cavalos com suprimentos.
Outono era tão parecida com a Eldridge de folhas exuberantes quanto um floco de neve se parece com uma chama. A umidade densa de Eldridge era inexistente no frio seco de Outono, com as florestas amarelas e vermelhas dormentes e quebradiças e coloridas com calor. Oktuber era um labirinto de celeiros aos pedaços e de tendas marrons, azuis e cor de laranja como o sol, com o céu azul cristalino brilhando no alto, um contraste forte e belo com os tons de terra do reino. Mas foram os próprios outonianos que me deixaram boquiaberta — eram lindos.
Os cabelos deles pendiam como trepadeiras, tão escuros quanto o céu noturno, oscilando à poeira levantada das estradas que entremeavam as cidades de tendas de Outono. A pele deles brilhava com o mesmo marrom acobreado das folhas de algumas das árvores, mas enquanto as folhas eram enrugadas e secas, os rostos dos outonianos eram perfeitamente macios.
Toquei minha pele, pálida como as nuvens pairando acima de nós, e passei os dedos pelo capuz que cobria meu cabelo branco ofuscante. Durante a vida inteira, estive cercada apenas por outros refugiados invernianos. Jamais me ocorreu que alguém pudesse ter aparência diferente, mas quando olhei para olhos pretos estampados em peles marrons exuberantes, desejei que minha pele tivesse aquele lindo tom e que meus olhos azuis também fossem um mistério escuro.
Contei sobre o desejo a Alysson, que fora encarregada de manter Mather e eu longe de problemas enquanto o restante recolhia suprimentos. A sobrancelha dela se ergueu diante da minha confissão.
— O mundo está cheio de belas pessoas, Meira. Aposto que em algum lugar lá fora há uma garota outoniana que quer ter a pele da cor da neve, tanto quanto você quer ter a pele da cor da terra.
Meu olhar percorreu os arredores, mas não havia ninguém nos observando, pelo menos não com o mesmo desejo com o qual eu os observava. Puxei o capuz.
— Então por que precisamos esconder nossos cabelos?
A mão de Alysson foi até o cabelo dela, envolto em um pedaço de tecido azul. Pensando bem, esconder nosso cabelo branco não ajudava muito a evitar que as pessoas soubessem quem éramos — na verdade, só fazia com olhassem duas vezes para nós, reparando primeiro nos chapéus ou nas cabeças envoltas em tecido, então em nossa pele pálida e nos olhos azuis e em como estávamos deslocados. Mas Sir jamais voltou atrás na insistência de que precisávamos ao menos tentar nos disfarçar, ou Angra receberia notícias de nosso paradeiro.
Depois de respirar profundamente, Alysson tocou minha bochecha. Os dedos dela estavam gelados.
— Você não precisará se esconder para sempre, querida. Algum dia nossas feições vão se misturar, não se destacar.
Duvido que ela tenha se referido a se misturar a Primavera.


Coloco as mãos dentro dos bolsos sob o manto preto pesado, a lã densa oscila ao redor das armas presas às minhas costas e nas pernas. O capuz do manto cobre minha cabeça, me escondendo nas sombras conforme caminho casualmente pela estrada de terra, a escuridão da meia-noite cai sobre mim do céu com a lua crescente. De poucos em poucos segundos, olho para cima pelo capuz, observando as muralhas de Lynia logo adiante, o portão no fim da estrada está ladeado por tochas tremeluzentes e um punhado de vigias do reino da Primavera.
Um calafrio percorre minha espinha, mas mantenho a postura ereta e confiante, acrescentando um ritmo arrogante às passadas quanto mais me aproximo do portão norte de Lynia. O rio Feni gorgoleja à esquerda, marcando a fronteira norte de Primavera antes de desaguar no mar Destas. Uma ponte se conecta ao portão adiante, ligando Lynia às planícies Rania por sobre o rio em uma vastidão de pedra e madeira. Meus olhos desviam até lá, até o campo escuro além, antes de se voltarem para a frente de novo. Uma rota de fuga para memorizar.
O reino de Primavera se estende à minha direita, drasticamente diferente das terras de pradarias gramadas e estéreis das planícies Rania. Durante o dia, colinas de verde exuberante se alastram ao redor, florestas de cerejeiras em flor, campos de flores selvagens em um arco-íris de cores. À noite, Primavera parece muito mais o que realmente é — envolta em sombras, tudo mergulhado em negro.
Não levou muito tempo para viajar até Lynia, com o ritmo apressado que Finn impôs. Um pouco mais de dois dias depois de partirmos, chegamos à cidade do porto. Escondemos os cavalos em um celeiro abandonado e esperamos até a noite, então nos separamos para alcançarmos Lynia pelo norte e pelo sul. Entrar em Lynia é a parte fácil — sair será a parte divertida.
Mais um viajante caminha pela estrada à minha frente, um homem encurvado sobre o cavalo. Ele chega aos guardas primeiro, murmura alguma coisa sobre encontrar trabalho no cais de Lynia no dia seguinte e, depois de alguns momentos de murmúrios baixos, eles o deixam passar sem problemas. Engulo em seco. Com base no trabalho de reconhecimento que Finn e eu fizemos, a patrulha em Lynia aumentou ao longo da muralha e dos portões, tornando impossível entrar despercebido. Mas é possível se passar por cidadão de Primavera e valsar para dentro de Lynia com a benção dos guardas. Mantenho o ritmo tranquilo conforme me aproximo.
— Alto! — ordena um dos guardas, estendendo a mão para bloquear meu caminho.
Dou um passo para trás, com o cuidado de manter o rosto longe da luz direta das lâmpadas à direita e à esquerda.
— A caminho da pousada Flor Dançante — recito o disfarce que Finn e eu inventamos. Minha voz saiu baixa e grave, para manter meu gênero o mais neutro possível. — Vou encontrar um homem a respeito de trabalho.
O que não é totalmente mentira. Bem, ir à pousada Flor Dançante é mentira — Sir nos contou a respeito dela e um punhado de outros marcos em Lynia. Nosso verdadeiro alvo é a Fortaleza, onde reside o governo de Lynia e, de acordo com Sir, é a localização da metade do medalhão. Meus olhos percorrem os guardas — todos os cinco — e param na grande torre circular que se ergue acima dos outros prédios de Lynia. Fica no centro da cidade, a uma viagem de pelo menos meia hora. Finn verá o mesmo do lado dele da cidade.
Retorno o olhar para os guardas. Dois deles me avaliam, o restante se recosta preguiçosamente contra a muralha, as armaduras peitorais refletem a luz tremeluzente das tochas — armaduras de prata com um sol negro no peito. O sol de Angra. Não tenho certeza do quanto mais consigo fechar os punhos; minhas unhas já se enterram nas palmas das mãos.
— Muita gente vindo em busca de trabalho a esta hora. Estranho, não é? — Um dos guardas inclina a cabeça, os cabelos loiro-Primavera dele são curtos, rentes à cabeça, os olhos verdes parecem translúcidos na combinação da luz do fogo com a escuridão.
Exatamente com o que eu contava.
Finalmente, inclino a cabeça para trás, o capuz do manto desliza apenas o bastante para que a luz do fogo alcance meu rosto. As chamas dissolverão meus olhos azuis como fazem com os dele, me fazendo parecer, ao menos o suficiente para os guardas, uma cidadã de olhos verdes de Primavera. Cidadãos de Primavera têm a pele alguns tons mais escura do que a dos invernianos, mas ainda assim pálida, e a luz amarela deve me fazer parecer o suficiente com um deles para que me deixem passar. Espero. Não há truque de luz no mundo que possa fazer meus cabelos parecerem outra coisa além de branco, então ele fica preso em segurança sob um chapéu preto, o que também vai me fazer parecer mais com um garoto do que uma garota. Espero. Tantos espero. Mordo a língua, mantendo a concentração no guarda.
Os olhos dele me percorrem, uma sobrancelha se ergue com uma expressão que faz meu sangue congelar nas veias.
— E para que tipo de trabalho vai encontrar esse homem, garota? — diz ele com escárnio.
Os colegas se animam. O fato de que sabem que sou uma garota não é ideal, mas é a parte do disfarce com que estou menos preocupada — se souberem que sou inverniana, será ruim de milhares de formas diferentes.
Inspiro para me acalmar e estampo o sorriso mais tímido que consigo, inclinando levemente o corpo na direção do homem.
— Trabalho pelo qual você não pode pagar — respondo, piscando um olho para ele e caminhando para além dos guardas, até a cidade. Prendo a respiração, esperando que gritem para que eu pare, esperando que um deles corra atrás de mim e tente me convencer de que pode pagar. Mas só ouço gargalhadas e um dos guardas aplaude.
— Deixe nosso rei orgulhoso! — grita ele, e corro para dentro da cidade, deixando os soldados debochados bem para trás, antes que nojo ou medo tomem conta de mim pelo que acabei de fazer.
Forço a concentração de volta para a tarefa. O porto fica na parte da costa nordeste de Primavera, Lynia está dormindo e tranquila, desprovida de qualquer indício da brutalidade habitual de Primavera, principalmente porque o campo inverniano de trabalhos forçados está a um dia de viagem para dentro do continente. Angra não pode ter escravos invernianos feridos e inertes maculando a imagem de Primavera quando navios mercantes de outros reinos aportam ali. A paz de Lynia é apenas uma máscara pintada para que o restante do mundo possa fingir que mãos invernianas rachadas e enrugadas não fizeram as mercadorias que eles compram.
As ruas ao redor do portão não estão exatamente cheias, mas também não estão desertas. Algumas tavernas se erguem em halos de luz de tochas, a comoção de risadas e música emana em rompantes abafados vindos de dentro. Um punhado de bêbados cambaleia de taverna em taverna, mas é só. Como se o restante de Lynia preferisse ficar aconchegado nas camas a participar de frivolidades noturnas.
Já estive em muitas cidades de Primoria para saber que isso não é normal — a maioria das cidades permanece barulhenta e iluminada, mesmo depois que o sol se põe, e entrar despercebida nelas é fácil demais. Mas, em Primavera, tudo é mais silencioso e mais tenso. Se eu ficar parada e prender a respiração, posso praticamente sentir o mal de Angra. O modo como ele usa a magia do condutor para despejar devoção sobre o povo, para que cada cidadão de Primavera responda a todas as situações como o guarda: “Deixe seu rei orgulhoso!”.
Outros reinos usam os condutores como devem ser usados — para aumentar as forças já existentes da terra e do povo. Para fazer com que campos gerem uma infinidade de frutas, para tornar os soldados fortes, para curar as pessoas doentes. Mas Angra usa o condutor para aprimorar o que é mau — para afastar qualquer coisa boa, a não ser que o beneficie. Para tornar todas as almas do reino uma casca vazia de servidão.
Eu me esgueiro por um beco deserto, o coração bombeando adrenalina em correntes fortes pelo corpo, mas não reduzo o passo, mesmo quando chego à pilha de caixas encostada na parede ao fundo. Em um movimento brusco, subo as caixas, escalando a parede, e rolo para as telhas do telhado ao lado, vários andares acima.
Soldados de Primavera podem achar as ruas desertas de Lynia mais fáceis de patrulhar, mas avistar soldados inimigos em telhados é uma tarefa um pouco mais difícil.
Pedaços de telha se quebram sob minhas botas conforme dou impulso para uma corrida, a centímetros da beirada do telhado e três andares acima, no ar da noite. Eu me atiro ao vazio, com o manto preto esvoaçante atrás do corpo em meio a uma nuvem de fumaça de chaminé. O telhado seguinte desliza sob mim como um campo sob os cascos de um cavalo, nada além de velocidade e do tranco dos meus pés correndo ao encontrar terreno sólido. Caio e rolo para a sombra de uma chaminé e espero um pouco, prendendo a respiração. Nenhum grito de alarme. Nenhum ruído de armadura se aproximando.
Erguendo-me sobre a cidade, tenho uma vista desobstruída da terra além dos muros de Lynia. A silhueta das montanhas Klaryn pinta dentes pretos pontiagudos pelo horizonte sul, uma besta silenciosa, dormente, que vigia todos os reinos Estação — o reino do Verão, mais a oeste, Outono a seguir, então Inverno e, por fim, o reino da Primavera, no mar Destas. Desejo que pudéssemos nos ver como as montanhas nos veem — repousando lado a lado nos braços de um gigante vigilante — em vez de como inimigos, separados, divididos. Se o fizéssemos, talvez juntos pudéssemos encontrar o caminho de volta para o abismo de magia.
Meus dedos passam pelo bolso, pela bola de lápis-lazúli de Mather, guardada contra minha coxa, e resmungo comigo mesma. Sir teria me dado um tapa na nuca a esta altura para que eu me concentrasse novamente no que estou fazendo, em vez do que pode ser feito.
Percorro os próximos telhados sem problemas, medindo o progresso em direção à Fortaleza sob o céu preto-azulado. A única coisa que me preocupa agora é a sombra escalando a parede oeste da torre. Finn deveria ser um soldado terrível, mas por qualquer que seja o motivo, a compleição atarracada e de dimensões invernianas dele superou minha silhueta apenas levemente mais alta e de agilidade inverniana em todas as missões em que trabalhamos juntos.
Sem hesitar, eu me atiro do último telhado para um mastro horizontal que se projeta da lateral da torre, com a bandeira de Primavera oscilando sob mim, um sol negro contra um fundo amarelo. Coisas aleatórias, esses mastros com bandeiras — quase como se os arquitetos os tivessem incluído no projeto caso soldados inimigos precisassem de um modo rápido de entrar. Quando reconstruirmos Inverno, não haverá mastros em prédios. Em lugar algum. Ponto final.
Parapeito, varanda, parapeito, mastro — salto nesse padrão até chegar à sacada mais alta. O brilho quente e laranja de luz de lareira passa por uma abertura no centro das cortinas espessas e Finn já está lá, agachado na projeção da varanda, sorrindo para mim.
Eu me balanço para cima, diante de Finn, e digo, sem emitir som, odeio você.
Ele abre um sorriso mais largo.
Esperamos um pouco, atentos a qualquer sinal de vida do lado de dentro. De acordo com Sir, aquele cômodo é o escritório do mestre da cidade. Nenhum ruído ecoa de volta para nós, exceto pelo crepitar constante de uma lareira e o leve farfalhar das cortinas, que varrem o piso de pedra à brisa. Olho por cima do ombro, avaliando a noite abaixo de nós. Da sacada, é uma queda direta até a rua, com alguns parapeitos pelo caminho. Outra rota de fuga para memorizar — a partir da Fortaleza, ao menos.
Nós nos abaixamos com cuidado até o piso da sacada e seguimos de fininho em direção às cortinas. Finn espia por uma brecha, os olhos dele refletem o brilho dourado, antes de assentir para mim. O cômodo está vazio.
A adrenalina me deixa agitada de animação quando pego uma das cortinas, abro e entro no escritório.
A lareira ao fundo crepita com uma pilha alta de lenha — o mestre da cidade deve pretender voltar em breve. Poltronas de encosto alto estão dispostas em círculo sobre um tapete escarlate luxuoso diante da lareira, e uma mesa está encostada em uma das paredes. Acima da mesa, pende um velho mapa amarelado que mostra os reinos de Primoria cercados pelo mar Destas ao leste, as intermináveis planícies Rania se estendem entre os reinos, para o oeste, e montanhas intransponíveis se encontram ao norte e ao sul. Alguns candelabros pendem das paredes, mas é só — simples e direto.
Sigo para a mesa enquanto Finn, ainda na sacada, fica de olho na porta fechada do escritório.
A maioria das gavetas está destrancada, entulhada com penas e frascos de nanquim e folhas de pergaminho em branco. Meus dedos percorrem as quinquilharias, separando, buscando o mais silenciosamente que consigo. A informação que Sir nos deu, logo antes de partirmos, percorre minha mente e ajuda a acalmar meu coração acelerado: Conseguimos roubar um mapa da Fortaleza; achamos que o estão escondendo em algum lugar abaixo dela, em um porão, talvez. Onde quer que esteja, estará trancafiado, então encontrem a chave primeiro, mais provavelmente no escritório do mestre da cidade.
Repito essas palavras na cabeça conforme percorro as gavetas, olho embaixo de papéis, mexo em frascos de nanquim. Nada.
Finn assobia quando vozes chegam até mim do outro lado da porta — alguém se aproxima.
Pânico percorre meu corpo, rompantes de tontura que tornam difícil vasculhar tudo com cuidado. Fecho a última gaveta, as vozes do lado de fora estão tão próximas que consigo distinguir algumas palavras — “Uma honra receber você”, “Bem-vindo, Herod”.
Dou um esbarrão na mesa, meu corpo estremece com temor quando encaro Finn do outro lado da sala. Minha boca forma a pergunta: Herod?
Finn gesticula para que eu me apresse. Nada a respeito do comportamento dele muda, os 42 anos o tornam um pouco mais habilidoso do que eu em controlar emoções. Mas não são apenas emoções que se acumulam dentro de mim à menção do nome. Lembranças percorrem minha mente, uma após a outra, matança, terror e medo, todos originados do General Herod Montego.
Afasto as imagens de nossos soldados cambaleando para trás no campo, com ossos despontando do peito, delirantes de dor, e me atenho ao conselho de Sir: Concentração na mesa. Não se distraia. Não deixe que o medo tome conta de você — o medo é uma semente que, depois de plantada, jamais para de crescer.
Sem medo — não agora, não aqui. Verifico a mesa mais uma vez, desesperada, o som de risadas vem do outro lado da porta. Estão bem do lado de fora...
Uma carta, enfiada sob um peso de papel de ferro pesado, com formato de uma flor selvagem. Pego a carta sem parar para pensar no que diz e disparo para a varanda, minhas botas guincham no piso de pedra. Um segundo depois de eu sair, depois de a cortina oscilar de volta para o lugar, um segundo depois que eles pudessem ver minha sombra no piso de pedra, a porta se abre e vozes fluem em nossa direção.
Finn olha pela fenda entre as cortinas, erguendo a mão, exibindo os dedos para me dizer quantos ele vê. Cinco soldados. Dois criados. Quatro nobres.
Finn abaixa os olhos para o papel em minha mão e acena para que eu me aproxime. Metade da concentração dele está na conversa atrás da cortina.
Eu me mexo, agachada diante de Finn, e respiro profundamente para me acalmar antes de encarar o papel. Minhas mãos param de tremer o suficiente para que eu consiga erguer o papel ao feixe de luz da lareira.

Relatório: Para todos os oficiais de Primavera
Estatística da População dos Campos de Trabalho
Campo de Abril: 469
Campo de Bikendi: 141
Campo de Zoreon: 564
Campo de Edurne: 476

O documento prossegue com a descrição do número de mortes, de nascimentos, que coisas foram construídas por quais campos. Mas minhas mãos tremem de novo e não consigo me concentrar nas palavras.
São as estatísticas invernianas dos campos de trabalhos forçados de Primavera. Os números são... pessoas.
Toco os números com os dedos trêmulos. Os totais são tão pequenos. Será que sabíamos que era tão ruim assim? Eu suspeitava que sim — as lições de Sir sobre a queda de Inverno eram chocantes. O modo como ele descrevia como Angra planejou o ataque, como se soubesse que Inverno cairia naquele dia, como posicionou cada soldado que tinha por todo o reino, movendo-os em segredo até que tudo explodisse em uma onda inevitável de destruição. Não havia para onde correr — Angra bloqueou qualquer rota de retirada para Outono, ou para as montanhas Klaryn, ou para o rio Feni, ao norte. Ele nos entrincheirou em nosso reino e, quando quebrou o medalhão, quando nossos soldados não tinham mais força fornecida pela magia que os ajudasse a enfrentar Angra, nós caímos. Apenas 25 de nós conseguimos escapar.
Sinto o peso disso agora. Ver as estatísticas comprovou o que Sir vem dizendo há anos — todo dia, caminhamos para o limite em que invernianos se tornam nada além de lembranças.
— Confio em meu rei, de verdade — ecoa uma voz dentro da sala. Viro a cabeça para cima, toda a adrenalina e o medo se tornam ódio. Finn contrai os lábios, em aviso, e atiro o papel para ele em resposta. — E sei que estava programado para ficar aqui mais tempo — continua a voz. — Mas quero isso fora de minha cidade. Esta noite. Antes que mais da escória inverniana venha até nós.
O mestre da cidade. Expiro. A metade do medalhão ainda está aqui — não a perdemos ainda. Meu alívio dura pouco quando Finn avalia o papel, olha de volta para mim e a expressão dele não é medo ou choque — apenas dor. Arrependimento.
Meus olhos se arregalam. Sabia que era tão ruim assim? Pergunto, sem emitir som.
Finn enfia o papel no bolso e inclina a cabeça uma vez. Sim, ele sabia. Todos no acampamento provavelmente sabem. É apenas uma das coisas sobre as quais não falam, um das partes dolorosas demais de nosso passado. E eu também sabia — só não tinha os números exatos na mente para alimentar meu ódio.
Herod gargalha e meus nervos disparam. Matá-lo vai ser tão bom.
— Acalme-se. Terá ido embora dentro de uma hora.
— Está seguro aqui. — Uma voz diferente. Provavelmente um dos homens do conselho de Lynia. — Não me importa se os invernianos sabem que está aqui. Lynia pode protegê-lo muito mais do que qualquer outra cidade...
— Silêncio — grita o mestre da cidade.
Mas Herod gargalha.
— Ambicioso, seu homem.
— Não ambicioso — corrige o conselheiro. Ouço um farfalhar conforme alguém caminha pela sala. Meu coração dispara no peito, estão se dirigindo até a mesa. Será que vão reparar que o papel sumiu? — Confiante. O cofre que construímos para ele é perfeito. A Fortaleza acima...
Excelente: a localização da metade do medalhão. Sir estava certo, está sob a Fortaleza.
Um movimento brusco do lado de dentro é seguido pelo estalo do rosto do conselheiro encontrando o punho de Herod. Corpos se movem, cadeiras caem e, em meio à comoção, a voz de Herod se ergue.
— Não fale da localização dele! Esse foi nosso acordo, vocês o escondem e jamais proferem uma palavra sobre a localização. Não é seguro enquanto aquele garoto respirar.
Fervilho de ódio. Mather vai continuar respirando enquanto eu estiver respirando, seu assassino.
Mas o conselheiro não reage. Algo farfalha e percebo que são papéis sobre a mesa, o ruído de um peso de papel. Arregalo os olhos para Finn, que faz uma careta antes que o conselheiro sequer fale.
— O... — começa o conselheiro, obviamente confuso. — Algo está faltando.
Uma pausa, então um grunhido ressoa na quietude. Consigo sentir o gosto da fúria de Herod no ar enquanto o grunhido dele se transforma em três palavras que fazem meu coração pesar.
— Não estamos sozinhos.

2 comentários:

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Boa leitura, E SEM SPOILER!