26 de janeiro de 2019

Capítulo 32

Meira

RAELYN E OS soldados sorriem, as únicas pessoas no salão que não estão abaladas pela incredulidade. Estão satisfeitos com o caos.
Meu corpo enrijece com o choque, aquela única emoção afasta as demais, de modo que tudo que sou, tudo que sinto, é ação. Empurro o joelho para cima e acerto Theron no estômago, empurrando-o para longe de mim, e mergulho na direção de Raelyn.
Angra não está aqui, e esse fato constante me deixa zonza, porque se ele está causando tanta dor e nem mesmo está presente, o que está acontecendo com o restante do mundo? Posso não poder combater Angra agora, mas Raelyn... Raelyn morrerá. Alguém sofrerá por isso...
Salto para ela, mas o salão de baile muda, se retrai, e antes que meus pés toquem o palco, uma força maligna puxa minhas pernas sob meu corpo. Eu caio sobre os cotovelos, a dor reverbera pelos braços já feridos devido à perseguição de mais cedo, sobre os telhados de Rintiero.
Confusa, minha mente gira ao ver como é errado os soldados abaixando o corpo de Noam até o chão e tirando o condutor de Cordell do cinto dele. Como é errado que Mather e o Degelo dele tentem chegar até mim, mas lutem contra soldados, que Conall e Nessa estejam ajoelhados sobre Garrigan, Nessa aninhando a cabeça do irmão no colo e murmurando uma canção de ninar em meio ao tumulto.
— Deite a cabeça na neve — diz ela, aos soluços, tropeçando nas palavras, e quanto mais Nessa tenta forçar as palavras a saírem, mais meu corpo se enche de tristeza.
A força que me jogou no chão me chama a atenção, mas não consigo entendê-la em meio a todo o resto. Só vejo aquela palavra pulsando por meu corpo: errado, errado, errado, e o manto entorpecedor e vazio de choque que se agarra a mim, que se torna eu.
Theron inclina a cabeça e me observa como se eu fosse um animal que ele abateu na caça, algum troféu precioso que está decidindo como esfolar. A própria expressão não é o que me faz tremer — é ver aquele semblante em Theron, que jamais, durante todo o tempo em que o conheço, me olhou com tanta posse.
— Meu rei!
A voz precede um objeto sendo atirado no ar. Theron o pega, os olhos dele não deixam os meus, os dedos se fecham no cabo da adaga em meio ao brilho púrpura que ela emite. O condutor de Cordell — o condutor dele.
Theron é o rei de Cordell agora.
Só essa ideia seria o suficiente para me deixar sem ação, mas quando outra imagem aparece em meus olhos, eu me dissolvo por completo. Cada ímpeto de lutar, cada última faísca de vontade — tudo evapora quando outra pessoa surge à porta ao lado do palco, saindo das sombras para a luz como se estivesse ali o tempo todo.
Eu quase poderia ignorá-lo como outra visão ou algo em minha cabeça, exceto pela forma como Raelyn também olha para ele. E Jesse, e meus invernianos, todos encarando com alegria ou horror o rei de Primavera.
— Convincente, rei Theron — ronrona Angra, encarando Theron. — Convincente mesmo.
Não consigo olhar de volta para Theron. Pela primeira vez, decido me concentrar em Angra, continuar olhando-o boquiaberta em vez de encarar a realidade apavorante de que Theron está tão possuído pela Ruína de Angra quanto Raelyn. E agora que Angra também o conduz, a Ruína não tem limites.
Sem pensar, busco a magia dentro de mim e desejo que se estenda para os invernianos no salão, preenchendo-os com um rompante de frio gélido. Foi isso que impediu a Ruína há tanto tempo — a proteção de magia pura de condutor.
Mas Angra pegou Theron. Começou a trabalhar nele há muito tempo, em Abril, quando ele usou a Ruína para invadir a mente de Theron e encontrar as fraquezas dele. Aquelas fraquezas são tudo que o rei é agora, que tem sido há meses. Eu deveria ter visto a mudança nele... Deveria ter insistido mais sobre o motivo pelo qual ele estava tão magoado, deveria tê-lo ajudado...
Mas será que ele sequer sabe que a Ruína o tem? Será que percebe que é isso o que é? É aquele que empunha o condutor de Cordell agora, mas se a Ruína já está profundamente arraigada na mente de Theron, e ele não sabe como usar magia para bloqueá-la ou lutar...
A magia é escolha. Não vai salvar Theron a não ser que ele queira.
Grito de novo e tento correr até o palco para Angra. Não resta nada dentro de mim a não ser instinto puro e desesperado, meus dedos estão curvados em ganchos mortais e os dentes mordem como os de um lobo raivoso. Vou impedir isso, ainda posso consertar isso, ainda posso...
Alguém me agarra com os dedos apertados sobre o tecido de minha blusa, e me contorço, sabendo de quem são essas mãos, o quanto tão abominavelmente diferente isso é de todas as outras vezes que ele me segurou. Vejo de relance a adaga de Cordell presa ao cinto dele conforme Theron me puxa de pé e Raelyn se vira para Jesse, o qual observa tudo isso acontecer com os olhos vazios de um homem completamente incrédulo.
— Por favor, impeça isso — murmura Jesse, com a voz triste e falhando.
— Se quer que seus soldados obedeçam, obrigue-os. — A afirmação de Raelyn é um desafio. — Mas não vai, porque é fraco. E nós não aceitaremos mais governantes fracos.
Ela sinaliza para que um dos homens arranque o condutor de Ventralli do cinto de Jesse. O soldado atira a coroa a Raelyn, que a pega. O objeto é impotente nas mãos dela, no entanto — esse objeto condutor apenas reage a Jesse. Mas Raelyn não precisa mais de Condutores Reais. Tem a Ruína de Angra.
— Um penduricalho tão bonito — cantarola a rainha, fechando os dedos sobre as espirais da coroa. — E tão frágil também.
Escancaro a boca. Não pode querer dizer o que acho que quer — Angra não permitiria que ela a quebrasse. Jesse se tornaria como nós, infinitamente poderoso.
Raelyn estica os ombros.
— Algo incrivelmente fantástico acontece quando um Condutor Real se quebra em defesa de um reino, me disseram. Mas se quebrasse por acidente...
Jesse avança, observando a esposa com um terror entorpecido.
Ela se vira para Jesse e se aproxima. Antes que qualquer um possa interferir, a rainha golpeia Jesse no maxilar com a coroa. Jesse cai para trás, sangue explode no rosto dele quando o salão de baile ressoa com o som delicado de duas das safiras da coroa se soltando e atingindo o chão.
Ele se quebrou. O condutor de Jesse se quebrou.
O brilho cinza imediatamente se extingue.
Encaro Jesse, esperando, torcendo para que Raelyn estivesse errada. O condutor dele não foi quebrado em defesa do reino, porque Jesse está parado ali, sem sequer reagir, mas talvez a magia ainda o tenha procurado...
Jesse olha das espirais quebradas do condutor para Raelyn, o sangue pingando em fios vermelho-rubi da boca. Esse é um homem que não estava defendendo nada, se importando com nada, quando o condutor dele se quebrou. Nenhuma emoção para impulsionar a magia.
O que acontece com a magia quando um condutor é quebrado irresponsavelmente? Quando quem empunha o condutor não tem emoção nos olhos, nenhum ato de altruísmo ou sacrifício na forma como ele encara a esposa, os olhos vítreos com uma derrota dolorosa?
A magia é escolha. E se Jesse escolheu não se importar, talvez a magia tenha apenas... sumido.
Meu corpo desaba nas mãos de Theron.
O controle de Angra está se expandindo.
Um estalo ilumina minha mente, deixando que uma única pergunta escape.
Por quê?
Por que agora? Se Angra tem planejado essa tomada desde que caiu em Abril, por que esperar tanto tempo para executá-la? Por que não apenas varrer o mundo imediatamente?
Angra sai do palco, sorri para mim como se fosse um amigo há muito separado.
— De fato, por que agora, Alteza? — provoca ele, e me sobressalto, incrédula, batendo em Theron.
Angra me ouviu. Ele ouviu meus pensamentos. Possuímos... somos o mesmo tipo de magia agora, no entanto, então talvez estejamos conectados? Essa ideia é perturbadora demais para considerar.
Angra se aproxima de mim.
— Você tem um controle tão frágil dessa magia, não é? Esperava mais depois do caos que lançou sobre Abril. Mas não importa.
— Meira! — O grito sofrido de Mather vem das fileiras de soldados que pegaram ele e os demais invernianos. Um clangor de armaduras se segue quando Mather se debate para se libertar.
— Tem um plano agora, não tem, rainha de Inverno? — murmura Angra. Ele estende a mão, passando um dos dedos por minha bochecha, e me preparo para uma enxurrada de visões...
Mas nada vem.
Angra sorri.
— Sim, planos tão amplos.
Angra viu algo, mas eu não?
Ele... me bloqueou.
Tremo, cada músculo em meu corpo é um terremoto de horror.
Angra pode controlar a magia dele mais do que eu posso.
Isso — a carnificina aos meus pés, o sorriso vitorioso de Angra diante de mim — é tudo que temi a vida inteira.
E não posso me mover, não posso combatê-lo, cada nervo está inerte ao saber que apesar de tudo que fiz, tudo que sofremos, ainda falhamos.
Eu falhei com Inverno.
— Sempre fui mais poderoso do que você — dispara Angra. Theron ajusta o toque em meus braços, os dedos se apertam. — Mas acha que tem uma forma de me derrotar se matando, hmm? Não, Alteza. Vou me certificar de que permaneça viva por muito, muito tempo, o suficiente para me ver matar todos em seu reino. Depois que todos em Inverno estiverem mortos, depois que eu tomar posse de cada floco de neve naquela terra miserável... — Angra para, leva a mão ao meu bolso e pega a chave envolta no quadrado de tecido. Ele mantém os olhos em mim conforme leva a mão ao bolso do casaco de Theron e pega a chave que ele guardava, segurando as duas, triunfante, diante de meu rosto. — Farei com que me veja destruir suas minas de uma vez por todas. Derrubarei aquelas montanhas.
Minha boca se abre, um lampejo de esclarecimento surge em meio a meu desapontamento. Nossas minas?
Os olhos verdes de Angra se semicerram sobre os meus e todas as perguntas se resumem em uma resposta que eu espero há anos.
Quando Primavera tomou Inverno, Angra jamais usou nossas minas. Ele as fechou e deixou que apodrecessem, apesar das riquezas que possuíam. Sempre que outro reino tentava tomar as minas de Angra — por força, como Yakim e Ventralli tentaram, ou por tratado, como Noam fez —, ele retaliou. Retaliação violenta e destrutiva, massacrando os exércitos que invadiam ou marchavam para o reino que ousava negociar com ele.
Angra tomou a única pessoa no mundo que queria dar magia pura a todos — Theron, o qual, por sua vez, matou a outra única pessoa que queria abrir o abismo — Noam.
As minas. O abismo de magia.
Foi esse todo o motivo da guerra. Por isso Angra massacrou Inverno durante séculos — porque sabia que um dia o encontraríamos. Angra até mesmo deixou que Theron continuasse a busca pelas chaves, esperando tomar o mundo para que estivesse de posse da única forma de abrir o abismo.
Essa é a fraqueza dele. É isso que Angra teme.
Magia pura de condutor para combater a Ruína.
Angra percebe minha revelação — vejo na forma como o rosto dele fica tenso de fúria antes de se suavizar em um sorriso forçado. Ele passa os olhos para Theron e se aproxima, sibilando palavras para mim.
Não quer que Theron ouça o que quer que vai dizer.
Contenho o pensamento, não quero que Angra veja mais revelações que eu possa ter.
— Jamais me derrotará — sussurra Angra. — Destruirei tudo muito antes de você ter a chance. Você não é nada nesta guerra, não importa o quanto pense que é grandiosa, mas fico satisfeito em permitir que seja aquela a quem culpo por cada momento que precisei esperar por esse momento. Você é incapaz de impedir isso, Alteza, entenda isso agora. Não importa que caminho tome, vai acabar da mesma forma para você, morte e fracasso.
Dou um puxão na mão de Theron, força inesperada corre por minhas veias. Angra tem uma fraqueza, ainda. Ele teme algo.
— O que oferece é maligno. O mundo saberá disso... Não cairá sob seu controle.
O sorriso doentio de Angra retorna.
— Rei Theron — anuncia ele, ainda de olhos em mim. — Amarre nossos convidados. Podem precisar de tempo para aprender o que você aprendeu.
— Theron. — Eu me contorço nas mãos dele e Theron dá um passo para trás, me puxando consigo. — Theron, pare. Viu o que Angra fez com o mundo! Pode combater... Tem magia agora!
Minha voz ecoa pelo salão de baile, todos estão imóveis, como se estivessem tão desesperados pela resposta de Theron quanto eu.
Ele me olha, a expressão lampeja uma variedade breve de emoções. Resolução, luto, esperança.
— Você verá — diz ele para mim. — Essa é a melhor forma de unir o mundo. Passei meses repassando isso, Meira... Passei meses buscando outras opções. Angra está oferecendo esse poder a todos. Chega de condutores, chega de limitações. Você verá. Precisa entender.
Eu me sentiria melhor se ele soasse louco. Se as palavras saíssem irritadas e grosseiras, tagarelando planos para fazer com que o mundo se curvasse a ele, como Angra. Mas Theron parece... ele mesmo.
Angra o observa conforme tenta me convencer, o sorriso se desfaz. Ele me pega tão desprevenida que quase perco. Mas não, Angra de fato sorriu para Theron.
Há mais acontecendo aqui? Será que perdi algo nas visões da memória de Theron em Abril?
Na superfície da mente, estou ciente de soldados cordellianos arrastando Nessa e Conall para longe do corpo de Garrigan, o grito cortante de Nessa quando chutam o corpo dele ao passarem.
— Você verá — diz Theron de novo, distraído, e me puxa até a porta. O restante dos soldados segue o comando não dito, os homens que seguram Jesse o levam na direção da outra ponta do salão de baile, provavelmente para que Raelyn lide com ele depois.
Theron me arrasta para longe, o restante de meu grupo está nas mãos dos soldados dele. Nem mesmo consigo oferecer algum encorajamento a eles, minha mente está fixa na forma como tudo desabou tão rapidamente. Por que não vi acontecer? Por que não senti o mal de Angra se infiltrar em um de meus aliados mais próximos... Um de meus amigos mais próximos?
E agora Angra tem as duas chaves. Theron tinha a chave de Verão; Angra tomou aquela de Yakim, e a de Ventralli...
Eu me sobressalto nas mãos de Theron.
Onde está a terceira chave?
Theron me puxa pelos corredores decorados em dourado até chegarmos a uma porta. Perto das belezas ventrallianas, essa porta parece lisa e vazia, apenas uma porta simples de ferro, com fechaduras simples, pairando em um nicho. A porta do calabouço do palácio.
O brilho colorido do palácio desaparece e dá lugar a pedras cinza pesadas que tremeluzem à luz bruxuleante do candelabro. Uma escada dispara para baixo, nos levando para as profundezas do palácio, mais longe do que qualquer chance de escapar. Chegamos a um corredor comprido e reto ladeado por portas, cada uma do mesmo ferro pesado que aquela acima. Mas essas têm janelas, pequenas aberturas com barras. Celas.
— Tranque-os — comanda Theron.
Os gritos de Nessa se abafam quando ela, Conall e Dendera são trancados. Os Filhos do Degelo são encurralados em uma cela ao lado deles, Mather é enfiado na última. Ele luta contra os soldados cordellianos, luta com cada gota de força que eu não mais tenho, chutando a porta e chocando os homens que o seguram na parede oposta. Meu corpo estremece nas mãos de Theron quando um soldado acerta a bochecha de Mather.
— Pare. — Theron abre uma cela e me enfia lá dentro. — Coloque-o aqui, então nos deixe.
Cambaleio para a frente, girando a tempo de ver Mather quando os soldados o atiram para dentro da minha cela. Ele se endireita e gira diante de mim, mantendo uma das mãos em meu braço para me segurar atrás de si enquanto ambos encaramos a porta.
Eu me agarro a Mather, usando-o para me equilibrar, usando a forma como ele se agacha defensivamente, a bochecha vermelha.
Os soldados cordellianos saem, conforme instruídos, marchando de volta para cima da longa escada. Theron inclina a cabeça e assim que a porta acima bate, entra na cela.
— Se tocar nela, mato você — grunhe Mather, dando um passo para trás, na minha direção.
Mas Theron passa por nós, para à parede à direita.
Deixando livre o caminho até a porta.
Mather repara ao mesmo tempo que eu, e cada um dos músculos dele, antes prontos para o ataque, relaxa, e Mather me puxa até a porta sem hesitar. Chegamos à metade do caminho, tão perto de sairmos, de ter alguma vantagem, quando um ruído me faz parar.
O clique pesado e sólido de uma tranca.
Eu me desvencilho da mão de Mather. Ele se vira, o pânico contrai suas feições, mas me viro para Theron, que está diante da parede. Theron, cujas mãos pendem ao lado do corpo, um dos punhos preso às correntes penduradas nos tijolos.
Ele se acorrentou à parede?
Theron se coloca de joelhos, de rosto virado para o piso de pedra sujo. Tremores agitam o corpo dele, o fazem oscilar para a frente e para trás.
— Theron? — digo, hesitante, certa de que o desespero que me atravessa torna minha voz aguda.
Os olhos de Theron pulsam com uma brevíssima e frágil faísca sobre o ombro.
— Não posso aguentar por mais muito tempo.
Disparo em sua direção quando Mather se atira até mim.
— Pare! O que está fazendo? Precisamos ir!
— Não! — grito, a palavra ecoando das paredes vazias. — Não vou deixá-lo aqui...
— Vai, sim — grunhe Theron, com os dedos enterrados na argamassa entre as pedras. Os nós dos dedos dele ficam brancos, o suor brota na testa. Luz do corredor se reflete em seu corpo, pintando-o com raios irregulares de luz. — Não deveria deixar que vá. Deveria mantê-la aqui, mas eu... Precisa ir, agora.
Reconheço isso. Um último rompante de clareza da Ruína. Um último arquejo antes que a Ruína o enterre de vez.
Dou um passo na direção de Theron.
— Não, você virá conosco. — Dou um passo adiante. — Tem um Condutor Real agora... Pode usar a magia dele para tirar a Ruína de dentro de você. Só precisa querer, Theron, só precisa...
— Não quero. — Ele tira a adaga do cinto e a atira para longe como se fosse uma chama viva e Theron fosse uma pilha de lenha seca. — Eu... Eu concordo com ele. Quero essa magia, não os condutores. Chega de condutores. Quero que o mundo seja livre, igual, mas não quero... Não vou ferir você. Não vou ferir você. — A força de vontade de Theron se liberta em um soluço que toma o corpo dele inteiro. — Não vou ferir você como feri meu...
Theron se agacha com as mãos no cabelo, soluços se misturando com gemidos irregulares.
Abro a boca, mas nada vem. O que posso dizer? O que posso fazer?
Eu me ajoelho diante de Theron, estou com a mão sobre a dele, onde Theron segura a cabeça.
Ele é um condutor agora. E sempre que toco um deles, pele a pele, estamos conectados, a magia inexplicável nos une. Cenas percorrem minha mente, e eu as observo, os músculos congelados de angústia.
Theron em Inverno antes de partirmos, dando a ordem para que os homens tomem Cordell em minha ausência. O que quer que Noam tenha feito, ou pensou que tivesse feito, ele não estava no controle. Era Theron — e o próprio Theron não sabia que estava fazendo aquilo. Momentos inteiros e ordens e desejos se projetam e se dissipam, chamas que se acendem, então se extinguem.
Theron em Verão, falando com um homem na adega de vinho. Um escravo ventralliano com um sorriso malicioso e sobrenatural que falava de uma posse mais profunda.
— Lembra o que aconteceu, não lembra? — pergunta o homem, saindo das sombras. — Lembra o que ele mostrou a você?
A adega some com um lampejo, um rompante de memória toma o lugar dela.
— Pai, pare!
Angra, pouco mais velho do que eu, grita com o pai, um homem que se parece com o próprio Angra agora, mas é mais alto e mais gordo. Eles estão de pé à entrada do Palácio de Abril, sombras e luz bruxuleante tornam a cena difícil de enxergar. Um braço se ergue, se abaixa, osso estala contra pedra, Angra grita. O pai dele sai em disparada, batendo os pés pela escuridão, deixando-o agachado sobre um corpo no chão.
Cabelo loiro desce pelos ombros da mulher, um lado da cabeça dela é uma confusão de sangue coagulado. Eu a reconheço das pinturas que pendiam no Palácio de Abril, retratos de um menino, Angra, e essa mulher.
Ela olha para Angra da mesma forma como Hannah me olhava — essa mulher é a mãe dele.
A cena some e Theron cambaleia para trás, chocando-se nas prateleiras da adega de Verão, mãos nas têmporas.
— Não...
Mas a voz é hesitante, fraca, como se parte dele realmente se lembrasse. Como se parte dele latejasse com a memória, vivesse nela.
O pai de Angra matou a mãe dele — e Angra usou essa semelhança para destruir Theron.
— Não! — grita Theron.
— Você é igual — encoraja o escravo. — Ele está vindo. Ele sempre virá atrás de você.
O brilho de uma lâmina. Theron está de pé sobre o homem, o cadáver, sangue pulsa por um ferimento no pescoço do homem.
Theron não se lembrava de nada daquilo, a Ruína o puxando de um lado para outro conforme tentava devorar a mente dele. Parte daquilo ele queria — como um poder forte o bastante para se espalhar pelo mundo. Parte ele não ousava admitir que queria — como tomar Inverno, forçar meu reino por um caminho que achou que o tornaria seguro. Para mim.
Theron se lembra de tudo agora, no entanto. Ele vê como eu vejo, minha conexão com a magia ligada ao sangue dele atrai as lembranças de como, momento a momento, segundo a segundo, a Ruína rastejou para a mente de Theron e se acomodou dentro dele como um sonho que conseguia sentir, mas do qual não podia se lembrar.
E agora, depois de semanas de jogos inconscientes, Theron não pode mais combater. Ele resistiu — lutou contra isso quase tanto quanto queria que o abismo fosse aberto.
Mas um desejo sobrepujou todos, um ao qual Angra se agarrou, com o qual lutou até a submissão.
O desejo de Theron por um mundo unificado, igualitário.
Theron geme e recuo de perto dele com a garganta seca.
— Preciso de você aqui — murmura ele. — Isso está certo. Isso está certo, isso salvará todos...
— Theron?
Ele se vira para Mather, a voz grossa e ressoando.
— Tire-a daqui!
Mather obedece. Ele me segura sob os braços e me levanta, colocando a adaga de Cordell no cinto ao fazer isso. Eu me debato junto a Mather, cercada pela certeza irrefreável de que jamais verei Theron de novo. Angra o consumirá, a Ruína destruirá qualquer coisa boa nele. Acabado, como tudo mais que Angra tomou, todas as outras partes de nossas vidas que foram levadas.
A não ser que eu salve todos.
Não posso viver em um mundo onde Theron é o brinquedinho de Angra. E essa é minha única outra opção, não é? Não viver nesse mundo.
Mather me empurra para o corredor e tranca a porta da cela de Theron, descendo a tranca pesada. Assim que a fechadura está no lugar, os gemidos de Theron se transformam em gritos, a corrente chacoalha em uma cacofonia de ruídos.
— Me soltem! — grita Theron. — Soldados! Os prisioneiros escaparam... Me soltem!
Desabo na porta da cela de Theron, ouvindo-o gritar, perdido para a loucura da Ruína de Angra. A indiferença me consome, confunde cada pedaço de mim, e só consigo olhar boquiaberta e inexpressiva para o corredor.
Mather corre para as celas diante de nós. Os soldados não trancaram as portas com chaves, apenas desceram trancas que não podem ser abertas por dentro. Ele puxa essas trancas agora, e elas rangem, mas só cedem um pouco enquanto Mather grita palavras de pânico para mim.
— Não temos muito tempo! Precisamos...
Ele para.
Um homem está na base das escadas. Cabelos pretos finos se enroscam no alto da cabeça em molas, estampas douradas espiralam pelo tecido vermelho espesso do manto dele, o colarinho se ergue, alto em torno das orelhas.
E uma cicatriz se estende da têmpora do homem até o queixo.
Quando o homem dá um passo adiante, Mather dispara para ele, erguendo a única arma que tem: o condutor de Cordell. Gesticulo com a mão para impedi-lo antes mesmo de saber o motivo.
Rares. O bibliotecário residente de Yakim.
— Você... — É tudo que consigo dizer. A presença dele aqui não faz sentido, confunde minha mente com detalhes que não se encaixam.
Como a forma que me observava em Yakim, atento, interessado. Como a roupa que usa agora e o quanto é semelhante a outra coisa, algo que...
A tapeçaria na galeria do Palácio Donati. Os mantos pesados, a pele escura.
Ele não é yakimiano.
Rares é paisliano.
Ele sorri, um lampejo breve de reconhecimento.
— A mentira era necessária, coração. Não conhecia você; você não me conhecia. É claro que ainda não me conhece, mas se quiser minha ajuda, precisamos correr. — Rares dispara escada abaixo, me deixando boquiaberta atrás dele, Mather o encara com a testa enrugada, e Theron grita por liberdade da cela dele.
Dou um salto adiante.
— Espere! O que você...
Rares se vira.
— Você queria ajuda — afirma ele, como se estivesse me dizendo que é frio no inverno.
Sacudo a cabeça. Os olhos de Mather se voltam para a escada, esperando que a porta se abra, esperando que sejamos pegos e que o sacrifício de Theron não signifique nada.
— Eu... Por que você? — arquejo.
Rares leva a mão ao bolso e puxa uma chave. A chave. A última.
Era ele que a tapeçaria queria que encontrássemos?
Rares dá um passo adiante e coloca a palma da mão em minha bochecha.
Mather avança e Rares estaria morto se eu tivesse piscado em vez de impedir Mather.
Não consigo respirar enquanto olho para os olhos de Rares, a pele dele aquece meu rosto. Uma imagem dispara até mim, a montanha, brilhando cinza e roxa, banhada em um raio de luz amarela.
O símbolo da Ordem dos Ilustres.
Rares puxa a mão de volta.
— Precisei me certificar de que você era de confiança.
— Como... — exclamo em meio ao choque.
Ele sorri.
— Explicarei tudo, coração, prometo. Você virá comigo agora?
Minhas sobrancelhas se unem enquanto tento inutilmente juntar todas as peças.
Isso só acontece com aqueles que empunham condutores, ver imagens quando os toco pele a pele. Ninguém mais em Primoria tem magia, nem mesmo a Ruína habitando alguém poderia causar tal reação, ou eu saberia que algo estava errado com Theron muito antes. Mas Rares tem uma chave — então talvez a magia da chave tenha me mostrado uma imagem de novo? Mas não, isso só funciona quando eu estou tocando a chave.
Quem quer que seja esse homem, ele tem magia. É um membro da Ordem. E é paisliano.
A Ordem é paisliana?
Minha mente pensa naquele reino misterioso, as montanhas Paisel cercando-o.
Ventralli, Yakim, Verão.
Nossas montanhas Klaryn.
Os reinos onde as chaves estavam escondidas eram aqueles que levavam de Paisly até as Klaryn. A Ordem até o abismo de magia. Era por isso que as chaves estavam lá? Mas por que foram encontradas tão facilmente? Tantos porquês...
Mas sei como obter respostas.
E agora sei aonde as chaves estavam me levando todo esse tempo.
— Meira — diz Mather, um aviso.
Meus braços tremem. Soube o tempo todo as coisas certas a fazer. Se tivesse feito escolhas melhores, se tivesse ouvido meu coração em vez da cabeça e feito o que eu sabia que meu reino precisava desde o início, poderia ter impedido tudo aquilo.
Então assinto para Rares. Se ele tem magia, se é parte da Ordem dos Ilustres, se há sequer uma chance de que Rares saiba de coisas que podem me ajudar a impedir essa confusão horrível e mortal ao meu redor, preciso ir com ele. Qualquer ameaça que ele possa abrigar, qualquer perigo que a Ordem possa representar — preciso de respostas.
Ficar asseguraria a escravização do mundo nas mãos de Angra. Partir ao menos dá uma possibilidade de esperança.
Mather empaca, a adaga de Cordell fica inerte na mão dele.
— O quê?
Eu me viro para ele.
— Precisa libertá-los e ir para o mais longe possível. E Ceridwen, a princesa veraniana, precisa libertá-la de Raelyn, e...
— Está maluca? Não vou deixar...
— Não estou pedindo, Mather. — Estou completamente louca por fazer isso. — Estou ordenando. Como sua rainha.
Isso faz com que Mather desmorone. Qualquer que fosse a força a qual ele se agarrava, ela se desfaz, os olhos dele são cobertos com o brilho que me arrasou semanas antes, quando Mather estava em meu quarto no Palácio de Jannuari e cortou os laços que nos uniam; quando ele partiu, derramando lágrimas que deixaram vazias todos os pedaços do que eu um dia fui.
Mas sou eu quem está indo embora dessa vez.
Essa diferença não facilita nada. Eu cambaleio para frente, meus braços envolvem o pescoço de Mather, um resquício do abraço de quando o vi no telhado. Tocá-lo... foi como voltar para casa. Mesmo agora, segurando-o por esse momento breve... Mather manterá meu reino em segurança. Manterá nosso reino em segurança, e saber disso, sentir isso faz com que eu me agarre ainda mais forte a Mather.
Ele também era uma escolha que eu deveria ter feito.
Os dedos de Mather apertam minhas costas, me segurando com o mesmo fervor, e durante esse momento, somos nós de novo. Meira e Mather, sem complicações.
Determinação afasta minha tristeza, deixando nada além de resolução pura e intocada. Rares corre escada acima sem dizer mais uma palavra e eu me afasto conforme Mather trabalha para abrir as celas de novo e Theron ainda grita para que alguém o liberte. Caos, apenas caos, e estou fugindo de tudo.
Não... Não estou fugindo. Estou correndo na direção de algo, na direção de ajuda.
Vou consertar isso, prometo a eles. O que quer que seja preciso. Quem quer que eu precise ser.
Não deixarei que este mundo desabe.

2 comentários:

  1. Ah velho esse livro já não faz sentido nenhum, tomara que no próximo livro ela morra

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Boa leitura, E SEM SPOILER!