26 de janeiro de 2019

Capítulo 31

Meira

DISPARAMOS COM TODA força por cima das casas e das lojas de Rintiero. Os prédios de vários andares e as estruturas irregulares tornam nosso caminho desajeitado, interrompido por rompantes de subir com dificuldades em prédios mais altos, ou deslizar por outros mais baixos. Mas nos movemos, todos nós, Mather e o Degelo dele atrás de mim conforme lidero o caminho na direção do palácio, bem acima de qualquer potencial bloqueio ou soldados nas ruas.
Raelyn e a tropa tinham ido embora quando voltamos para a praça, nada além de manchas de sangue mostravam que a luta tinha ocorrido. Ela ainda está com Ceridwen e Lekan — devem estar vivos. Precisam estar, porque não vou me permitir acreditar que enquanto eu fugia dos soldados, deixei que meus amigos fossem assassinados.
A história de Mather é repassada em minha mente conforme corro. Como Noam deu a ordem para que os invernianos parassem de treinar nosso exército; como Mather treinou aquele pequeno grupo em segredo, construindo uma defesa para nosso reino, apesar da ameaça de Noam, apesar de eu nem saber que meu povo precisava dela. Meu coração se enche de uma emoção fria e violenta, uma que eu poderia nomear, mas que me arrasaria.
Mather cuidou de Inverno. Ele os salvou, como sempre fez — o próprio objetivo que o alimentou desde que conheço Mather.
Se sobrevivermos a isso, precisarei encontrar tempo para pensar bem sobre o quanto fui idiota. Por enquanto, atenho-me à emoção de nosso abraço no telhado como se fosse uma luz no fim de uma mina longa e sangrenta. Outro objetivo a alcançar.
Mather não sabe em que estado Inverno se encontra agora, no entanto. Se Sir escapou ou não; quem sequer sobreviveu a tudo. Meu estômago se aperta quando penso em Henn cavalgando às cegas para um cerco. No entanto, ele é tão capaz quanto Sir. Na verdade, a presença dele lá ajudará.
Mas o único detalhe que negou todos os outros foi o último. Os lábios de Mather estremeceram, mas o rosto dele permaneceu um escudo estoico e impassível conforme ele murmurou: Alysson está morta.
A lembrança das palavras dele me faz cambalear agora, mas apresso o ritmo. Deveria saber que Noam nos trairia. Deveria saber que isso aconteceria — eu sabia que tudo isso aconteceria, senti cada momento de cada dia desde que Inverno foi libertado, mas jamais consegui encarar. Contar a meu povo o que poderia vir, o que Angra poderia fazer ao mundo.
Eu os subestimei, sei disso agora. Alguns podem ter sucumbido, mas aqueles atrás de mim, assim como Garrigan, Conall, Nessa, Dendera — as vidas deles não os derrotaram, mas os ajudaram a se tornar pessoas que sabem sobreviver.
Essas pessoas são as mais mortais de todas.
Paro em um telhado a algumas ruas do palácio para permitir que os demais nos alcancem. Eles podem ser rápidos e determinados, mas adrenalina dispara dentro de mim em ondas irrefreáveis, e me ajoelho no telhado, agarrando com os dedos as telhas curvas de argila.
O rei de Verão está morto. A rainha ventralliana foi consumida pela Ruína de Angra e planeja um golpe. O rei cordelliano traiu e tomou Inverno.
E em algum lugar no mundo, Angra está vivo.
Tudo está desmoronando. Minhas tentativas de encontrar as chaves e manter o abismo fechado para evitar que a Ruína se espalhe... Foi tudo em vão.
Talvez Angra tenha vencido realmente.
Eu me obrigo a ficar de pé. Angra não vencerá enquanto restar alguém para combatê-lo, até que eu esteja morta.
Engasgo nas palavras.
Não. Não preciso morrer. Sou a rainha de Inverno; sou um condutor. E mais do que isso, sou a garota que destruiu os campos de trabalhos forçados de Angra. Sou a garota que, mesmo quando as coisas pareciam piores, conseguiu salvar todos — inclusive a si mesma.
Então, quando Mather e o Degelo dele me alcançam, quando estou cercada pelo início do que sei que Inverno pode ser: forte e bravo e competente e mortal — dou a eles um aceno de cabeça firme e decidido.
Vou impedir isso. Não — nós vamos impedir isso, porque não estou mais sozinha.
Jamais estive.


Carruagens cheias de convidados chegando para a comemoração em nossa honra lotam o pátio do Palácio Donati. Ao ver as paredes do palácio brilhando sob o sol do fim da tarde, os convidados nas roupas extravagantes e reluzentes de Ventralli, cocheiros guiando casais para cima dos amplos degraus de mármore, contenho um gemido. A comemoração. Tudo segue como normal — prova de que mais ninguém sabe o que aconteceu. Talvez Raelyn não tenha voltado — talvez tenha fugido, corrido para se recompor em outro lugar. Talvez eu tenha tempo de avisar a todos.
Mas mesmo quando essas palavras ecoam em meu coração, sinto o quanto são vagas. Nada jamais é tão fácil.
Marcho pelo pátio, passo pelos convidados que chegam, passo pelos cocheiros boquiabertos que piscam ao verem minha calça surrada e o ferimento de flecha no meu braço e minha equipe de invernianos em frangalhos. Alguns criados correm em minha direção, tentam me impedir de entrar em um rompante, e eu os silencio com um olhar sério e um vislumbre do medalhão. Sabem o que é, e conhecem a única pessoa que o usaria, mesmo que essa pessoa tenha um chakram preso às costas.
Depois que entro, sigo o fluxo de convidados até o salão de baile, entremeando entre corredores altos com espelhos de moldura dourada. Vejo relances da minha imagem naqueles espelhos, lampejos esquecidos de uma garota com uma trança bagunçada de cabelos brancos, as mãos fechadas em punhos, o rosto determinado com um olhar de raiva. Meu corpo murmura, os momentos tensos de paz antes que uma parede de neve desabe em uma avalanche, então mantenho em mente apenas o passo seguinte, com medo de, se pensar mais do que isso, derreter.
Ande mais rápido. Vire aqui. Chakram? Não, nenhuma arma ainda. Devagar. Espere que Mather alcance.
O salão de baile surge a nossa direita, uma série de portas escancaradas para o corredor, deixando que música animada de instrumentos de corda flutue para fora em ondas de gargalhadas e copos tilintando. Paro, encaro o salão em formato de gota, as batidas de meu coração são uma criatura viva e determinada tentando sair rastejando por minha garganta. As paredes do salão de baile são de um pêssego pálido, o piso é um redemoinho de mármore dourado e branco. Uma das paredes altas e côncavas do salão é composta de janelas e mostra a luz do início da noite se extinguindo, além do jardim de vidro depois dela. Ceridwen me contou sobre o jardim em nosso caminho de volta de Yakim, sobre como todas as plantas são feitas de vidro — outro exemplo de como este reino tenta tornar as coisas sobrenaturalmente perfeitas.
Ceridwen invade meus pensamentos e cravo os dedos na barriga. Eu a encontrarei depois disso. Eu a salvarei como deveria ter feito assim que Raelyn marchou até a praça.
Meus olhos disparam das janelas para a multidão. Há pelo menos uma dúzia de pessoas aqui, a maioria ventrallianos, com os cabelos pretos e os olhos avelã, todas usando aquelas máscaras irritantes. Tornam impossível buscar um rosto familiar, e avalio cada pessoa em busca de um atributo reconhecível — cabelos loiros cordellianos, ou o condutor ventralliano pendurado no quadril de um homem.
Braços envolvem meu pescoço e o medo dispara em mim antes que eu reconheça a voz de Nessa.
— Onde você estava? — murmura ela. — Conall voltou e achamos... Achamos que algo tinha acontecido e...
Afasto Nessa quando os irmãos dela saem da multidão com expressão que são um misto conflituoso de preocupação e ódio. Dendera os segue, e não está nada confusa com relação ao que sente: dispara para diante de mim, os lábios formando uma linha fina, os dedos se enterrando em meu braço.
— Por que, em nome de tudo que é frio, mandou Conall de volta sem você? — Dendera para, a concentração dela passa para Mather e os outros invernianos ao meu redor. Quando se volta para mim, arregala os olhos, a preocupação cede lugar ao temor.
— Raelyn matou Simon. — Eu me ouço dizer. — E Noam...
A música para no meio, os violinos arranham notas quando os músicos param subitamente. O mesmo tipo de ruído deliberado de Lekan batendo à porta do escritório de Jesse, do galho se partindo sob as botas de Sir quando ele cambaleou de volta para o acampamento. É o som das coisas começando, e me viro na direção de Raelyn no palco dos músicos, no canto, as mãos dela estão fechadas na saia, a seda verde da máscara brilha à luz.
Arquejo, em pânico. Como ela voltou tão rápido? Não fomos muito rápidos correndo sobre os telhados de Rintiero — e Raelyn tinha cavalos, liberdade pela cidade. Além disso, tem o controle da situação, provavelmente planejou cada momento depois que soube que Ceridwen foi confrontar Simon.
Ceridwen. Meu pânico se revolta, latejando selvagem e caótico. O que Raelyn fez com ela? Onde está?
— Raelyn! — O nome dela dispara de minha garganta e avanço, meus olhos recaem sobre a atadura quase imperceptível no ombro da rainha. Instinto corre até meus dedos, preenche meus músculos com a necessidade de pegar o chakram e cortar o pescoço de Raelyn, sem errar o alvo dessa vez. Mas há muita gente no caminho agora, e me tranquiliza o fato de que ela não deixará esse salão com vida. Não permitirei.
Raelyn dá um sorriso torto conforme abro caminho pela multidão para que meus invernianos sigam. Sinto-os se moverem atrás de mim, o silêncio que recai sobre todos quando alcanço o palco.
— Rainha de Inverno — entoa Raelyn, inclinando a cabeça. — Não está gostando da comemoração?
A multidão murmura, confusa, ondas de desconforto devido à interrupção nada ortodoxa. Nem tento esconder o grunhido. Não posso mais me dar o luxo da polidez.
— Deveria ter fugido, Raelyn. — Indico o braço dela. — Não errarei uma segunda vez.
A multidão se mexe, desconfortável, ao meu lado, e Jesse abre caminho. Ele ainda usa as roupas de mais cedo, não se incomoda em combinar com a esposa dessa vez. Os cabelos pretos brilham em um rabo de cavalo apertado, e Jesse volta a atenção de mim para Raelyn, então de volta.
— O que está acontecendo?
Raelyn suspira.
— Ah, imagino que não há mal em você saber agora, querido. — As palavras dela escorrem veneno, feitiços peçonhentos que fazem Jesse dar mais um passo adiante, e a multidão dá um passo igualmente grande para trás.
Raelyn encara a multidão, o sorriso dela é tão mortal quando o tom de voz.
— Obrigada a todos por se juntarem a nós. A rainha inverniana, a família real veraniana e o príncipe cordelliano se reuniram em uma viagem de paz. Unificação é realmente um feito a se celebrar.
Ela vê algo nos fundos do salão e sorri. Viro a cabeça por cima do ombro.
Noam.
Mather me segura quando avanço, evitando que eu comece um massacre no salão do trono. Noam vê minha reação, os olhos dele brilham por trás da máscara cordelliana, os lábios se contraem no sorriso que passei a conhecer muito bem. Condescendente, controlador.
Vou cortar aquele sorriso do rosto dele.
— E hoje, celebraremos ao saber que essa unificação foi alcançada. — A voz de Raelyn ecoa. — Rei Noam, pode, por favor, se juntar a mim no palco?
Noam, ainda de olhos em mim, recua. Confusão afugenta o sorriso dele, e aquela mudança de emoção deixa meus instintos mais aguçados. Noam não estava esperando que Raelyn o chamasse. Por que ele está aqui?
Onde está Theron?
Noam caminha entremeando a multidão, acompanhado por dois dos homens dele. Ele chega ao palco, fica de pé diretamente diante de mim.
— O que é isso? — pergunta ele, olhando ao redor. Ele também consegue sentir agora. Algo errado.
— Raelyn — chamo, puxando a atenção dela para mim. — Por que não chama o rei de Verão para o palco também?
A multidão, observando, murmura curiosamente. Raelyn inclina a cabeça e assim que os olhos dela brilham de prazer, horror embrulha meu estômago.
Raelyn se volta para uma porta aberta logo abaixo do palco, gesticula para alguém nas sombras dela. Um soldado sai com uma sacola de lona marrom em uma das mãos. Ele joga a sacola no palco, e com um ruído pesado e úmido, a cabeça de Simon sai de dentro, os olhos castanhos sem vida arregalados em meio às gavinhas dos cabelos vermelho-chama dele.
A multidão fervilha. Gritos ecoam nas paredes cor de pêssego, copos se quebram na confusão e a aglomeração explode em caos conforme as pessoas disparam para as portas. Mas nós apenas ficamos ali — meus invernianos, Jesse, Noam, Raelyn e os soldados deles. Incapazes de nos mover diante dos olhos vazios e fixos na cabeça do rei de Verão.
Jesse acorda do estupor primeiro. Ele sobe ao palco e, nos momentos antes de alcançar a esposa, cada imagem que tenho do fraco, desesperado rei ventralliano se desfaz. Esse homem é músculo e poder, o corpo dele fica tenso e se estica, os olhos são mais chamas do que visão.
Jesse agarra os ombros de Raelyn e a ergue do chão.
— O que você fez com Ceridwen? — rosna Jesse. Cada palavra é uma flecha que deveria perfurar o coração da mulher.
Mas Raelyn apenas gargalha. O barulho faz com que uma inquietude percorra meu corpo, mais um rompante de instinto, e sem saber por que, eu me viro para a porta atrás de mim.
— Theron — digo.
Ele entra no salão de baile. Não está usando máscara, então nada me impede de ver a preocupação que o deixa cinzento, e quando Theron chega até mim, não parece reparar em nenhum dos demais invernianos ao meu redor. Quando a boca de Theron se abre, Raelyn interrompe.
— Sua vadia está viva, por mais um pouco, pelo menos — dispara ela para Jesse.
Expiro aliviada. Parte da preocupação diminui ao saber que Raelyn ainda não cumpriu a ameaça. Mas no momento em que meus pulmões relaxam, soldados ventrallianos marcham pela porta pela qual o outro soldado entrou — os homens que acompanhavam Raelyn mais cedo.
Jesse pisca algumas vezes antes de perceber que o puxam para longe dela, que os seus próprios homens o colocam de joelhos.
— Soltem-me! — ordena o rei, sem efeito, o olhar que Jesse lança a Raelyn está cheio de ódio. — O que estão fazendo? Soltem-me!
— Não obedecem mais a você. — Raelyn alisa o vestido, a voz está levemente perturbada pela irritação. — Agora, onde eu estava... Ah, sim. Unificação. Unificação verdadeira. Liderança fraca não será mais tolerada, e os reinos Estação não podem mais se chamar reinos, bem, pelo menos três deles. Verão, Outono e... — Raelyn para e olha para Noam. — Inverno. Posso contar a eles ou o segredo era seu para que revelasse?
Noam parece tão chocado quanto eu. Mas Raelyn se dirige a ele, os olhos do rei disparam para ela, recuperando uma pequena faísca do poder dele.
— Cordell não é parte de nenhuma trama maior. Inverno é nosso, e vim aqui informar a rainha desse acontecimento.
Theron se coloca na minha frente enquanto o pai dele fala, de costas para mim, com os ombros curvados de forma que não consigo ver o rosto dele.
— Os reinos Estação estão, por fim, onde pertencem — cantarola Raelyn. — Não é maravilhoso? Inverno e Outono foram subjugados por Cordell...
Cordell tomou Outono também?
— ...Verão foi limpo e Primavera... bem, Primavera é o único reino Estação que se provou digno do status de reino. Será o emissário de um novo mundo, e pelo exemplo, purificaremos Primoria da insuficiência. Não precisamos mais dos Condutores Reais; não precisamos das alianças de linhagens fracas. Formaremos nossos governos e reinos com base em liderança adequada. — Devagar, Raelyn dá um passo adiante e se agacha no palco para chegar ao nível de Theron. — E Cordell é parte dessa trama maior. Não é?
— De forma alguma! — grita Noam.
Theron se vira para ele.
— Você não sabe nada sobre isso!
Não sei se Theron quer fazer uma pergunta ou uma afirmação... Deveria ser uma pergunta, ele forçando o pai admitir que não sabe sobre aquilo. Mas a forma como paira diante do príncipe...
Não. Só pode ser uma pergunta.
O controle de Noam falha, o maxilar dele se contrai. O rei de Cordell se volta para Raelyn.
— Cordell não precisa das coisas que você oferece. Temos magia verdadeira, não esse mal infeccioso.
Theron fecha as mãos em punhos.
— Essa magia não é apenas de Cordell. Pertence ao mundo, todos merecem poder. É o que venho tentando alcançar nesta viagem, unir todos para mostrar a você como o mundo poderia realmente ser. Redigi um tratado, sabia disso? Um tratado unindo o mundo em paz.
O ódio chocado de Noam o faz cuspir ao falar.
— Seu menino ingênuo e egoísta! Saiu pelas minhas costas para formar alianças pelo mundo com aquela cadela inverniana sussurrando a política fraca dos reinos Estação ao seu ouvido!
Theron hesita por um momento de incerteza antes de avançar grunhindo.
— É claro que se recusa a compartilhar poder. Sempre foi seu problema. Cordell é importante, mas você não pode se comportar como se fôssemos as únicas pessoas dignas de vida!
Noam retorna o ódio de Theron, as mãos dele se fecham em punhos.
— Sempre faço o que nosso reino precisa. Sabe o que acontece quando um governante não faz o que o reino precisa? Acaba daquele jeito. — Com um gesto enojado, Noam gesticula para a cabeça de Simon, ainda silenciosamente observando o caos se desenrolar. — Acaba como um pária do qual outros reinos tiram vantagem, e morrerei antes de ver Cordell se rebaixar tanto.
Evito olhar para Simon, meu corpo se curva quando entendo o que Noam quer dizer. Verão não está melhor do que Outono esteve por muito tempo — impotente para usar o condutor sem o gênero certo como herdeiro. Supondo que Raelyn simplesmente não destrua o condutor de Verão agora, enquanto nenhum herdeiro do sexo masculino existir para fornecer um hospedeiro para a magia, e que ela mate Ceridwen para acabar com a linhagem de Verão. Pensar nisso me faz cambalear.
Theron ri com escárnio, a risada contida e aguda de um homem prestes a chorar.
— Foi por isso que minha mãe morreu, porque você era arrogante demais para admitir que Cordell precisava de ajuda de qualquer forma. Ela não era cordelliana, e não importa o quanto tenha tentado...
— Pare! — grita Noam. — Ordeno...
— ... não pôde curá-la. Cordell não bastava, mas em vez de admitir isso e deixar que ela voltasse para Ventralli para ser curada pelo condutor da linhagem dela, você a deixou...
O rosto de Noam assume um tom violento de vermelho, saliva dispara da boca do rei quando ele grita com Theron de cima do palco.
— Silêncio!
— Você a deixou morrer! — grita Theron. — E destruiu nossa chance de paz ao fazê-lo, porque só quero que todos nós estejamos seguros.
Acho que Raelyn diz algo, ou Jesse luta para chegar até ela, mas só vejo, ouço, sinto o olhar que Theron me lança por cima do ombro. O rosto dele se contrai com uma expressão doentia... Sobrancelhas arqueadas, lábios contraídos, dentes expostos. E por trás de tudo isso, erguendo-se junto com o ódio, como a luz que vem com a manhã, está cada momento em que Theron enfrentou o pai. Cada segundo em que foi um peão, em que quis uma coisa e viu o pai fazer outra, de estar tão tentadoramente perto de mudar o mundo, apenas para que tudo fosse arrancado por pessoas com interesses mais fortes.
Esse é o garoto que vi em minhas visões, agachado na prisão de Angra, chorando devido ao poder que o pai empunhava. Era tudo que Theron queria — que todos estivessem seguros por meio da unificação.
Raelyn disse essa palavra especificamente, como se soubesse o peso que tem.
Hoje, celebraremos ao saber que essa unificação foi alcançada.
A compreensão percorre meu corpo.
A magia da chave disse que deveria preparar quem quer que as tivesse para algo. E se as cenas que vi fossem coisas que eu, pessoalmente, precisava para me preparar para abrir o abismo de magia? O próprio Theron disse, antes de isso começar, que se tivesse algo tão poderoso assim trancafiado, teria feito de forma que apenas os dignos pudessem ter acesso.
E se as chaves devessem ajudar quem quer que as encontre a se tornar digno de acessar a magia?
As chaves me mostraram a visão de minha mãe para que eu soubesse que havia mais a respeito da magia do que governantes a transformando nos próprios condutores. Assim eu saberia que deveria fazer a pergunta maior e aprender a saída de que eu precisava.
Aquelas chaves possuíam magia que se curvou a mim especificamente, porque agora sei que a única forma de salvar todos é me atirar ao abismo...
E que Theron, Theron, esse tempo todo, foi uma ameaça.
— Desculpe, Meira — resmunga ele. — Desculpe mesmo.
Pânico me lacera, irrompendo em resposta a toda a emoção que Theron me mostra.
Só vi alguém desmoronar uma vez antes. No momento exato e terrível em Bithai, quando Mather decidiu que preferiria se sacrificar a Angra a nos deixar lutar infinitamente. Encarei-o exatamente como encaro Theron agora, observando enquanto ele compreendia a realidade diante de si e chegava à única solução possível.
— Theron... — Estendo a mão até ele e Theron estende o braço para me tocar também... Não, não para me tocar.
Ele passa a mão por cima de meu ombro para segurar meu chakram.
— Não! — grito.
Mas Theron me empurra para trás quando tento pegar a arma da mão dele e, no segundo entre eu cambalear para trás e avançar para cima dele, Theron mira o chakram no pai e deixa que a arma dispare.
A lâmina voa pelo ar, girando por tanto tempo que acho que talvez todos ficaremos ali para sempre, a postos entre o nada e tudo.
Mas a arma alcança Noam. Ela o alcança e desliza pelo pescoço dele, um golpe perfeito.
Todos se movem. Mather avança para mim, mas é segurado por soldados cordellianos; Garrigan desvia por eles, mirando na minha direção; ventrallianos protegem Jesse e Raelyn, mas cordellianos seguram Noam quando ele cai, mergulhando para trás com o olhar incrédulo. E eu ainda disparo na direção de Theron, minha mente determinada a impedi-lo, mas impedi-lo de fazer o quê? Ele já atirou a arma.
Meus dedos se conectam ao braço de Theron, que se vira para mim, ódio deformando as feições dele. Nunca esteve tão irritado, tão sobrenaturalmente lívido, e segura meus braços, me empurrando para trás até que eu me choque contra a parede, a moldura dos painéis fere meus ombros.
O baque por Theron me tratar daquela forma me deixa entorpecida, quando um movimento atrás dele me chama a atenção. Garrigan se desvencilha dos soldados, passando para o lugar que Theron ocupava antes de me forçar para longe.
Só pode ser um sonho. Um pesadelo. Porque quando olho para Garrigan, os olhos azuis nítidos dele brilham com urgência...
E meu chakram retorna.
O mundo inteiro se dissolve e se refaz nos segundos entre Garrigan se virar e reparar na lâmina. Não consegue pegá-la, não tão rápido.
O chakram se enterra no corpo de Garrigan com um ruído sólido.
O olhar dele desliza para baixo, puxado pelo peso da arma que desponta de seu peito.
Mesmo quando Sir caiu durante a batalha de Abril, os ferimentos não foram tão definitivos.
Garrigan está morto antes que eu sequer consiga pensar em usar magia para salvá-lo. Ele cai de joelhos, para o lado, nada além de um corpo agora.
O mundo se acelera de novo, um rompante de ruído e movimento que me sacode para o presente. Alguém diz palavras que não fazem sentido, um balbuciar incoerente.
— Ele está morto. O rei de Cordell está morto...
Olho para Theron, com as mãos trêmulas, os braços trêmulos, tudo treme no terremoto daquele momento.
Ele me encara com ódio. Os olhos dele estão quase tão sem vida quanto os daqueles que matou.

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