21 de janeiro de 2019

Capítulo 31

O MUNDO ESTÁ errado, inclinado fora do eixo, e quando fico de pé sobre as pernas trêmulas, caio para a frente, agitando os braços no ar.
Sir me segura. Ele me aninha contra o peito, os braços fortes me envolvem tão apertado que sei que deve ser um sonho, e espero que Sir me chame de doce menina e que Alysson esteja logo atrás de nós, servindo jantar a Nessa e à família dela.
Mas Sir é real. Ele está aqui. Está vivo. E, quando me afasto, olho para o rosto de Sir, o mundo para de girar um pouquinho.
Os lábios dele se entreabrem.
— Acabou.
Meus olhos se fixam além de Sir, na extensão vazia de terra onde estava o corpo de Angra. Como se quebrar o cetro o tivesse destruído. Como se fosse fácil assim.
Todos acham que foi. Todos, inclusive os soldados primaverianos, que soltaram as armas depois do desaparecimento do rei e da magia deles, agora se acovardando em rendição relutante enquanto os inimigos se regozijam. Corpos verdes e dourados e marrons e brancos dançam pela praça, comemorando para o céu nublado.
Fecho os olhos, inspiro, me concentro no ar que entra e sai de meus pulmões, nos braços de Sir em volta de meus ombros. Eu me concentro além dele, no som da felicidade pura e desinibida dos invernianos que transforma aquela cidade miserável em um paraíso por apenas um momento.
— Meira.
Abro os olhos e vejo Sir me encarando, o rosto dele está fixado em uma expressão que nunca vi antes. Levo um momento para perceber que é admiração.
— Decidimos, há muito tempo, que seria eu quem contaria a você. Os outros que escaparam, quero dizer — sussurra ele. — Não sei como Angra descobriu. Eu deveria ter...
Meu corpo fica gelado, a magia rodopiante do condutor agora está desperta e incontrolável. Inspiro, tremendo ao colocar a mão no braço de Sir.
— Não. — Faço que não com a cabeça. — Era um segredo que Hannah deveria contar, não você.
Sir franze a testa.
— Hannah?
Faço um gesto com os ombros, sem saber como explicar isso, mas Sir deixa de lado. Ele dá um passo para trás e se ajoelha ao erguer um punho para mim. Pendendo daquele punho está uma corrente de prata.
— Minha rainha. — É tudo o que Sir diz.
Encolho o corpo, detestando o medo que brota em mim com o título. Não quero que Sir me chame assim, mas a forma como ele me olha é algo que eu quis a vida inteira. Como se me visse, visse de verdade, não importa como estou. Coberta com sangue e terra e poeira, brilhando com o potencial de um reino renovado.
Como se Sir visse os sacrifícios que fez e não se arrependesse de nenhum.
Estendo a mão para o medalhão, mas outra mão chega antes da minha. Meus dedos param, estendidos no ar empoeirado, permanecendo sobre a mão de Mather quando ele pega o medalhão do pai.
Mather abre a outra metade e tira do pescoço. Ele segura as duas metades para mim, os olhos azuis como joias refletem cinza sob o céu nublado.
— São seus, minha rainha — diz Mather. As mãos dele tremem e Mather umedece os lábios. Tudo a respeito dele é forte, irredutível, mas o olhar de Mather demonstra um medo mais profundo. Medo de se desfazer, medo de que todas as muitas, muitas responsabilidades dele passem para os ombros de outra pessoa.
Ergo a mão. Centenas de coisas passam por mim, centenas de formas diferentes de como quero pedir desculpas ou me curvar ou chorar. Desculpas por ser eu. Desculpas porque a vida dele inteira foi criada para me manter segura, a existência inteira de Mather foi destruída em torno dessa única e simples mentira. Desculpas porque precisamos crescer tão subitamente. Desculpas por tudo.
Mas não digo nada disso. Pego as partes do medalhão da mão de Mather, mantendo os olhos sobre ele, a boca aberta como se talvez, apenas talvez, encontre as palavras certas.
Mather expira quando o medalhão deixa a pele dele. Então se ergue, com o peso de tudo que aconteceu. Os lábios de Mather se contraem no leve início de um sorriso, mas ele fica ali, suspenso entre a felicidade e o choque.
— Estou às suas ordens, minha rainha — sussurra Mather, e faz uma reverência com a cabeça.
Coloco a palma da mão na bochecha dele antes de sequer perceber que me movi, o corte em meu ombro me faz encolher o corpo.
Queria que não sentíssemos dor. Não agora. Não depois de tudo isso.
Dormência dispara por minha mão e meus olhos se arregalam. Não tive a intenção de chamar a magia, mas está viva agora, desperta, e a dormência sobe, cresce e dispara da palma de minha mão para a bochecha de Mather.
Ele respira fundo. Meu corpo inteiro fica frio, gélido, brilhante, e uma nova luz brilha nos olhos de Mather. Ela afasta a exaustão e o medo dele, preenchendo-o com a mesma força que preencheu os outros invernianos. Nada definitivo. Apenas uma pequena fagulha para que ele siga em frente, para que a incerteza fique sob controle até que Mather encontre a força de vontade para enfrentá-la.
Será que ele está aliviado por esse fardo ter ido embora? Ou está apenas com medo?
Mather recua, solta minha mão, e se abaixa até o chão, imitando a pose de Sir. Atrás deles, as comemorações se dissiparam, transformando-se em assombro respeitoso, e todos os invernianos se abaixam devagar. Eles fazem uma reverência com a cabeça, com os cabelos brancos sujos de marrom, vermelho e negro. Tenho dificuldade para respirar, e não consigo decidir se quero que parem ou não. Eles parecem tão felizes. Tão completos. E não consigo interromper essa felicidade, não importa o quanto seja assustador eu ser o motivo pelo qual eles se curvem. Eu, a soldada órfã.
Vejo Dendera perto do portão com Henn ao lado, os dois ajoelhados, em um abraço apertado e íntimo, e isso me deixa quase inebriada de felicidade. Greer e Finn se apoiam um no outro, há uma laceração ensanguentada na perna esquerda de Finn. Conall e Garrigan e Nessa e até mesmo Deborah — estão todos felizes, ali, seguros.
E Theron. Atrás de todos eles, Theron se detém além do portão, um contingente dos homens do pai dele, cheios de hematomas da batalha, o cerca. Os olhos de Theron encontram os meus do outro lado do espaço entre nós e ele sorri, um sorriso breve e deliberado que ecoa a reverência do momento. Theron abaixa a cabeça, imitando os cordellianos, os outonianos, absorvendo o espanto e a admiração de um reino que não é o deles. Todos sorriem devido ao alívio que veio quando o corpo de Angra desapareceu.
Talvez Angra tenha morrido mesmo. Talvez a Ruína tenha se desintegrado e o destruído junto. São tantos talvez. Tantos anos pensando que talvez venham, talvez nos salvem, talvez vejamos nosso reino completo de novo um dia.
Inclino o corpo para Mather e Sir e coloco uma das mãos no ombro de cada um deles. Os dois erguem o rosto para mim, lágrimas os fazem parecer morbidamente felizes.
Respiro fundo e sorrio.
— Vamos para casa.


Com o desaparecimento de Angra, os outros três campos de trabalhos forçados se desfazem facilmente. Primavera se dissolve em um caos de pânico sem o rei, o que torna o trabalho de nossos exércitos conjugados ainda mais fácil conforme avançamos pelo reino, lutando contra os soldados que mantêm os demais invernianos cativos. Qualquer exaustão ou medo ou dor que os invernianos tenham sentido nos campos são abafados sob a alegria exultante que trazemos ao salvá-los. É algo de que nunca me canso, ver os rostos deles se iluminarem ao saberem que estão livres.
Duas semanas se passam, duas semanas ocupadas com libertar os outros três campos, cuidar dos ferimentos de meu povo, nutri-los aos poucos. O exército de Outono parte depois que o último campo de trabalhos forçados é libertado, mas Cordell permanece, uma escolha que tento não questionar. Theron rapidamente oferece comida e suprimentos do exército dele, e aceito o que o príncipe fornece antes que Noam consiga dizer algo em contrário. Os invernianos veem uma frente unificada, soldados e comida e remédios, não uma rainha que, até poucas semanas, não fazia ideia de quem era, ou um rei que, poucos meses antes, queria dominar a terra deles em vez de salvá-los. Farei o possível para que se mantenha assim, por tempo o suficiente para que a cura definitiva chegue aos corpos e às mentes deles.
A cura definitiva começa assim que vemos Jannuari.
A capital de Inverno está logo depois da fronteira, a algumas horas de cavalgada de Primavera. As cerejeiras exuberantes e a grama cor de esmeralda de Primavera dão lugar aos campos invernianos perfeitamente brancos, colinas contínuas de neve e aglomerados congelados de árvores geladas e de cor marfim. A mudança é imediata, tomando conta de mim como uma corrente... certa. Isso é certo. O frio, as florestas congeladas, o modo como tudo é branco — o céu, o chão, o ar. Esse é meu lar.
Mas é por Jannuari que todos esperamos com ansiedade. Jannuari, nossa capital perdida, uma cidade que só vi em lembranças fabricadas. Quanto mais profundamente mergulhamos em Inverno, mais meu peito se aperta, até que eu tenha medo de me tornar sólida por antecipação, muito antes de chegarmos a nosso destino.
Os outros invernianos veem Jannuari primeiro, a linha enevoada de uma cidade ao longe. Eles me avisam com um grito de animação e saem correndo das fileiras do exército de Cordell com um vigor renovado. Centenas de pés pisoteiam com um prazer súbito os campos vazios, as vibrações estremecem o mundo inteiro.
Jannuari está diante de mim, sob um céu cinza sem neve. Bairros cercam a parte principal da cidade, a muralha está destruída, rochas partidas ao longo de um perímetro entulhado, irregular no horizonte. Dentro dele, algumas torres permanecem erguidas, as pontas determinadas estendidas para o céu como se nada estivesse errado, como se estivessem apenas esperando nossa volta.
Você não nos matou, Angra, e nós nos ergueremos de novo.
Cavalgo ao lado dos outros invernianos, mas paro o cavalo, um lindo animal de guerra emprestado do exército de Cordell. Os invernianos continuam correndo, envoltos demais na exuberância deles para repararem que parei. Meu cavalo dança, nervoso, sobre a neve antiga que preenche o campo, a grama pálida de Inverno desponta pela camada fina de gelo sob os cascos dele.
Sir para ao meu lado, nós dois expiramos nuvens de ar condensado.
— Vai precisar ser reconstruída. E precisaremos trocar mais rações com Cordell — diz ele.
Um vento frio sopra pela camisa de algodão branco que peguei emprestada com Theron. Já estamos em dívida com ele e com o pai, mais do que jamais conseguiremos pagar — e a ideia de que precisaremos de ainda mais faz meu estômago dar um nó com pesar. Sei o que Noam vai querer por tudo o que ele deu: acesso às montanhas Klaryn, a Inverno, na tentativa de encontrar o abismo de magia. Talvez seja por isso que ele não tenha impedido Theron de nos fornecer mantimentos. Talvez por isso não tenha voltado a Cordell ainda, por isso tenha permitido que o exército dele permaneça ao nosso redor, como guardas montando vigia sobre um investimento.
Qualquer que seja o motivo, precisamos de Noam e do que ele oferece e, até que tente cobrar o preço, não posso me preocupar com isso. Não muito.
— Eu sei.
— Mas será bom para eles. — Sir se move na sela, uma das mãos relaxa sobre as rédeas. — Será bom. Reconstruir a cidade conforme eles se curam. Precisam disso.
Assinto. Todos precisamos disso. Precisamos consertar algo, trabalhar nisso com as próprias mãos e sentir a vida fluir de volta em nossas veias. Fazer algo verdadeiro e brilhante e certo.
Sir me olha pelo canto do olho, virado o suficiente para que eu não veja a expressão dele.
— Você é exatamente como ela.
Busco o rosto dele.
— Hannah?
Sir assente.
— Em todos os momentos de sua vida.
Arrepios frios me percorrem. A forma de Sir de me dizer que posso fazer isso.
Posso reunir nosso reino de novo, liderá-los para um futuro melhor.
O que quer que esse futuro nos reserve, Angra reside nele também.
Engulo em seco, mordo o lábio inferior enquanto inspiro o ar tão frio. Estivemos tão ocupados com a felicidade de libertar os outros campos de trabalhos forçados, de viajar para Inverno, que não quis estragar a alegria. É tão frágil essa alegria, e parte de mim não quer dizer nada, não quer chamar atenção para coisas ruins até que precisemos.
Mas não contar a Sir poderia tornar as coisas piores quando chegar o momento. Se ele chegar. Se minhas suspeitas estiverem certas, se Angra não estiver morto e a ameaça dele não estiver acabada e tudo por que lutamos ainda seja apenas uma ilusão de paz verdadeira.
— Não acho que Angra morreu — sussurro, um som triste no ar frio. — E a magia dele... é pior do que pensávamos. Muito pior.
Sir não diz nada e, por um momento, acho que talvez minha voz tenha sido levada pelo vento. Olho para ele e Sir estampa aquela mesma expressão impenetrável que exibiu quando voltei de Lynia com a metade do medalhão. Assustado e determinado, como se estivesse encarando o futuro e não tivesse espaço para temer o passado.
Toco o medalhão no pescoço. Está inteiro agora. Inteiro e vazio, sem poder, mas tocá-lo me dá uma calma estranha. Exatamente como aquela lápis-lazúli. Exatamente como esperança. Os invernianos ao meu redor acham que o poder está agora seguro de volta ao medalhão — acham que todas as vezes que o utilizei foram como Mather me disse, um acaso. Um rompante desesperado, consequência do quanto estávamos destruídos. Não ocorre a eles que a magia poderia estar em qualquer outro lugar agora, e não tenho certeza se quero corrigi-los.
Mas não apenas eles — Cordell também. Principalmente Noam.
— Uma coisa de cada vez — diz Sir. Ele me encara, me mostra o quanto está cansado, o quanto está assustado. — Lidaremos com o futuro aos poucos.
Começo a assentir no momento em que cavalos galopam pela multidão de invernianos que ainda estão correndo e param ao nosso lado. Theron e Noam estremecem nas selas, os olhos vagando entre Jannuari, Sir e eu. Noam ao menos tenta parecer digno ao sentir frio, mas Theron se abraça e permite que os dentes trinquem como se fossem cascos na planície. Mather posiciona o cavalo dele entre o meu e o de Theron, com uma sobrancelha erguida conforme avalia nossos convidados estrangeiros quase congelados.
— Diga que há uma loja de mantos em algum lugar lá dentro — diz Theron, e um calafrio o faz se estremecer de modo esquisito sobre o cavalo.
Mather gargalha, um som cortante e lindo que não ouço há anos. Ele tem sorrido um pouco mais a cada dia, aquele sorriso lindo, de rosto inteiro, que faz tudo ao redor dele se iluminar.
— Pobre príncipe cordelliano. Não aguenta um friozinho?
— Um friozinho? — grita Theron, com a voz aguda. Ele indica o exército, os cordellianos parecem tão congelados e desconfortáveis quanto os líderes deles. — Não teremos nada além de picolé de soldados no final disso. Meu pai espirrou mais cedo e o espirro congelou no ar!
Gargalho sobre o cavalo e Theron me olha. O olhar dele muda, de uma risada leve para algo mais profundo, algo que restou de nosso beijo ansioso nos corredores do palácio de Angra.
Mather se ajeita no cavalo entre nós, o maxilar dele se contrai. Tiro os olhos de Theron quando um sorriso lento se abre em meu rosto, e quero rir diante do absurdo da situação. Problemas normais. Preocupações normais com pretendentes. Era o que Sir queria desde o início, não era? E depois de tudo... problemas normais parecem maravilhosos.
Noam resmunga do outro lado do filho, mas não diz nada. Se é porque não tem nada a dizer, ou porque os lábios congelaram fechados, não sei. Ainda precisamos discutir o arranjo do casamento, se um reino Ritmo ainda quer aliar o filho a um reino Estação, ou se a dívida crescente de Inverno com Cordell basta para uma conexão. Ele começou a me perguntar, há alguns dias, quando estávamos descansando entre as invasões aos campos de trabalhos forçados. Noam estendeu a mão para apertar a minha e, quando nossas peles se tocaram, vi mais uma vez a imagem vibrante do rei ajoelhado à cama da mulher. Uma conexão que vem do fato de eu mesma ser um condutor — uma conexão com os demais Condutores Reais — os portadores não devem estar cientes dela, exceto Angra, e apenas porque ele usou a Ruína. Noam deve achar que sou uma rainha fraca e instável, que treme quando o toca.
Acho que ele precisa acreditar nisso, no entanto. É melhor se me subestimar, se não tiver ideia de meu verdadeiro poder. Um trunfo a mais a favor de Inverno quando ele decidir cobrar tudo que nos deu.
— Se tiverem terminado de brigar por causa do frio — interrompe Sir —, acredito que apresentações precisam ser feitas.
Ele me encara, sorri e coloca o cavalo para galopar, cascos levantam montes de neve derretida conforme Sir dispara entre os invernianos que correm. Theron e Noam disparam atrás dele, ziguezagueando entre meu povo de cabelos brancos em direção a uma cidade da qual muitos de nós não se lembram. Apenas Mather permanece, a respiração dele libera lufadas condensadas e gélidas entre nós, os olhos de Mather estão sobre mim conforme observo todos ao nosso redor.
— Sinto muito — digo, suspirando.
O cavalo de Mather estremece sobre a neve, perturbado com nossa tensão. Desvio o olhar da horda que sai correndo e encaro os olhos safira de Mather por mais do que um momento passageiro. É o máximo de tempo que nos olhamos desde a batalha em Abril, e o olhar está pesado com desculpas.
Mather expira o ar pelo nariz, dando uma risada baixa de incredulidade.
— Não peça desculpas. Você não fez nada errado. — A concentração de Mather passa para a cidade além de nós. — Não mesmo.
— Eu sei, eu só... — paro subitamente, e Mather se volta para mim.
— Eu sei — repete ele, e o sorriso de Mather é sincero. Ele se move de novo, puxando as rédeas nas mãos. — Se algum de nós deveria se sentir mal, sou eu. William nos contou a verdade depois que você foi capturada, e só conseguia pensar: Você é quem tem a responsabilidade agora. Estou livre.
Mather mantém o olhar fixo no horizonte enquanto fala e, se eu não estivesse olhando para ele, poderia ter aceitado o tom tranquilo, o comportamento jovial. Mas observo o rosto de Mather enquanto ele fala, observo a forma como os olhos dele se estreitam, os lábios se contraem em uma linha fina. Há verdade demais no que Mather diz. Estou livre.
Talvez não seja uma liberdade que ele quer.
— Quando estava em Cordell — começo a dizer — e precisei interpretar a futura rainha deles, eu fingi que era... — Minhas palavras hesitam e engasgo. — Fingi que era você.
Minha confissão paira no ar, um filamento sussurrado de palavras que flutuam com os flocos de neve que caem. Mather sorri para mim apesar dela, parte da tensão se suaviza antes que ele faça uma pequena reverência com a cabeça.
— Minha rainha — diz Mather, em resposta. Ele coloca o cavalo para galopar e ambos disparam para a horda que corre, outro corpo correndo para a muralha de Jannuari.
Observo Mather ir, meu peito parece mais leve. Estamos todos aqui. Jannuari. Uma cidade que só vi em lembranças e sonhos, as ruas de paralelepípedos, os chalés. O modo como a neve cai constantemente, uma chuva onipresente de flocos perfeitos, únicos. É preciso nevar. É preciso que sempre neve.
Algo molhado faz cócegas em meu nariz. Ergo o rosto e minha boca se abre com um sorriso sincero e puro. Flocos de neve caem agora, firmes e fortes, descendo até Jannuari. Cobrindo-nos como deveríamos ser cobertos — com inverno. Inverno de tirar o fôlego, congelado, perfeito.
Incito meu cavalo a galopar, a batida constante de seus cascos seguem os demais até Jannuari, um lugar de neve e luz.
Sua cidade.
A voz de Hannah toma conta de meus sentidos, emerge da magia do condutor que reside em mim. Ela podia falar comigo esse tempo todo, ao que parece, mas não queria arriscar revelar o que sou para Angra e, por isso, ela nunca nos impediu de procurar as metades do medalhão. Foi tudo uma farsa para proteger a linhagem de Inverno, e os sonhos e as visões deveriam me introduzir aos poucos aos condutores e à magia, ligada a Hannah de uma forma que jamais achei possível. Minha mãe. Ainda tenho dificuldades em me acostumar com o fato de sequer ter mãe. Não tenho certeza de onde isso se encaixa no novo mundo.
Nossa cidade, corrijo. Nem mesmo estaríamos vivos se não fosse por você.
Um nó de tristeza se forma em minha mente, o arrependimento e a dor de Hannah.
Mas você vai ser bem-sucedida onde fracassei. Ela para e consigo sentir uma onda do remorso de Hannah no silêncio. Eu quis contar. Tantas vezes eu quis falar com você. Não podia arriscar que percebesse quem era antes que tivesse idade o suficiente para usar sua magia e, se Angra descobrisse o que você era quando ainda estava jovem demais... Ela para, arqueja. Nosso reino teria se perdido para sempre.
Eu sei, digo. É tudo o que consigo dizer. Esse não é um dia para pedidos de desculpas chorosos. É um dia para inspirar o ar frio e nevado, observar os invernianos conforme cavalgo em meio a eles, vendo os rostos sorridentes e radiantes deles.
Vejo Nessa adiante, rindo e atirando bolas de neve em Conall. Vejo Dendera sobre o próprio cavalo, apostando corrida com Henn até a muralha. Felizes e livres, como eles sempre deveriam ter sido. Pessoas à luz, não apenas palavras na escuridão.
Não parece real. Tentei por tanto tempo e com tanto afinco ser apenas Meira, mas quem sou não é tão simples quanto apenas qualquer coisa. É como essa nevasca sobre Jannuari — um floco cai, rodopiando do céu vazio. Uma partícula congelada de neve. Então outra, e outra e antes que eu perceba, as estradas estão cobertas com dezenas de flocos diferentes. Todos esses pedacinhos se combinam e criam uma tempestade de neve gigantesca e volátil, algo lindo e perigoso e épico.
Sou a filha de Hannah. Sou o condutor de Inverno. Sou uma guerreira, uma soldada, uma dama, uma rainha e, acima de tudo, conforme mergulho pelo campo de neve em direção à ruína silenciosa de Jannuari, sou Meira.
E não importa o que Angra possa tentar fazer, ele não me impedirá de lavar as cinzas do passado desse reino e encher nossas vidas com a gloriosa paz gelada da neve.

8 comentários:

  1. Legal , mas previsivel

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  2. Que livro maravilhoso, tem continuação?

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  3. Que lindo meu Deus♥

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  4. Eu pensei em ler um pouquinho antes de dormir... Acabei por ler o livro todo.

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  5. Bonzinho. Não é uma grande saga, mas é consistente. Continuarei a ler.
    Obrigada por disponibilizar ❤️

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  6. A maior parte do livro é chata mas o final é legal. Só achei que a Meira é muito bobinha e que tem que melhorar nas lutas.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!