26 de janeiro de 2019

Capítulo 30

Mather

UMA PALAVRA IMPULSIONOU Mather de Inverno a Ventralli.
Quando ele e o Degelo chegaram ao rio Feni e viram dezenas de navios cordellianos recém-aportados, soldados desembarcando para tomar Inverno com reforços — .
Ao se esgueirarem para o menor dos navios, o lançaram à água na calada da noite e navegaram para longe do reino recém-escravizado — .
Quando velejaram rio acima, abarrotados naquele barco insanamente pequeno, com nada para fazer durante dias além de caminhar de um lado para outro no deque e encarar a paisagem que passava e planejar, pensar, se preocupar — .
Vá, mexa-se, lute — o corpo inteiro de Mather era uma flecha em um arco tensionada mais e mais, pronta, completamente pronta.
Nenhum dos membros do Degelo tentou falar com ele sobre o que tinha acontecido. Ninguém mencionou a morte de Alysson ou a tomada de Cordell ou o possível destino de Meira. Simplesmente patrulharam o barco, em silêncio, obedecendo as ordens de velejar de Mather — as quais eram rudimentares na melhor das hipóteses, pois ele só estivera em um barco poucas vezes na vida.
Quando Mather começara a aprender a lutar, quando criança, parecera mais uma brincadeira elaborada jogada com armas de madeira e armaduras desajeitadas. Somente quando matou pela primeira vez, quando tinha 11 anos, ele percebeu a seriedade da coisa. Tinha saído no que deveria ter sido uma missão simples de reconhecimento com William e os dois encontraram uma patrulha de Primavera. Apenas três homens, mas enquanto William lidava com os dois que o encurralavam, Mather sacou a espada, o instinto movendo os músculos dele de forma que nem mesmo sentia que era ele lutando. Uma interação despreocupada, nebulosa, que acabou com sangue nas mãos de Mather e um corpo aos pés dele.
O choque ao perceber que as coisas que William vinha ensinando não eram jogos, mas ferramentas para matar pessoas, foi um dos momentos mais assustadores da vida de Mather. Ele sempre soubera em que resultaria lutar, é claro — mas não entendera, não sentira, até aquele momento.
E Mather sabia que era aquilo que tinha acontecido com o Degelo dele.
Tinham armas de verdade agora; tinha visto a razão do treinamento emergir diante dos olhos. Aquele não era algo que estavam jogando para passar o tempo. Essa era a diferença entre um reino livre e a escravidão, a felicidade e a miséria, a vida e a morte. Esse era o futuro do reino deles. Os sete, pouco mais do que crianças, com treinamento apenas o suficiente para derrotar soldados caso tivessem o benefício do elemento surpresa e da quantidade.
Mas Primavera tinha sido derrotada por um número tão pequeno — embora os refugiados no acampamento nômade de Inverno fossem lutadores experientes, não adolescentes.
Não havia espaço para dúvida. Nenhum espaço para a preocupação.
.


Eles chegaram a Rintiero algumas horas antes do pôr do sol, os sete dispararam para fora do barco em um redemoinho de cabelos brancos e desespero. O cais estava praticamente silencioso, barcos oscilavam preguiçosamente à correnteza, marinheiros guardavam os equipamentos para a noite.
— Para onde vamos agora? — perguntou Phil conforme o restante do grupo do Degelo se espreguiçava e olhava boquiaberto para a cidade adiante, os rostos estampando um misto de alívio por estarem em terra firme e assombro por estarem tão longe de casa.
Mas Mather não teve a sensibilidade de parar e deixar que se maravilhassem. Ele assentiu para a pergunta de Phil e saiu batendo os pés pelo cais, segurando a primeira pessoa com quem cruzou — um marinheiro enroscando corda no braço.
— A rainha de Inverno — disparou Mather. — Está aqui? Aconteceu alguma coisa com ela?
O marinheiro gritou ao sentir os dedos de Mather presos em volta do antebraço dele.
— Eu... Hã... O quê? Quem...
Mather o sacudiu.
— A rainha de Inverno está aqui?
— S-sim!
Ela está aqui. Está viva? Não perca o foco. VÁ.
Mather segurou o homem com mais força.
— Ela está no palácio? Onde fica?
O marinheiro assentiu, tremendo quando o olhar dele disparou para além dos ombros de Mather. O Degelo devia estar atrás dele, e Mather percebeu o quanto aquilo devia parecer esquisito, um grupo de invernianos surgindo em um cais e cercando um pobre marinheiro ventralliano que provavelmente não estava pensando em nada além de uma caneca de cerveja e uma cama quente.
Mather soltou o braço do homem, recuou um passo e ergueu as mãos em sinal de rendição. Foi preciso toda a força dele para fazer isso, o instinto para ir, ir, LUTAR em batalha com a convicção de não aterrorizar pessoas inocentes sem necessidade.
— Eu... Eu acho que sim... — O marinheiro gesticulou com a mão na direção noroeste. — O complexo fica daquele lado... Uma floresta, no meio da cidade...
Mather deu um tapinha no ombro do homem em um ato de boa-fé, mas o gesto fez o marinheiro se encolher e proteger a cabeça com os braços.
— Desculpe. Obrigado. — Mather disparou correndo.
Todos seguiram, Phil impulsionando-se à frente para correr ao lado de Mather.
— Ele nos temeu.
Mather lançou um olhar na direção de Phil, parte da tensão se aliviando conforme os músculos, limitados por tanto tempo no barco, se esticavam durante a corrida.
— Sim.
O peito de Phil inflou.
— Nunca pensei que alguém se sentiria intimidado por mim.
Mather cortou por um beco, levando o Degelo para noroeste.
— Poderia ser por que estávamos em número mais do que ele. Poderia ser porque nós o surpreendemos. Ou poderia ser porque ele viu que éramos invernianos e esperava retribuição.
Phil semicerrou os olhos para Mather.
— Retribuição? Pelo quê?
Por algo que Mather não podia suportar dizer em voz alta.
Por permitirem a morte de nossa rainha no solo deles.
— Ele poderia estar mentindo a respeito de Meira.
Phil deu a volta por um barril no meio da rua de paralelepípedo quando a compreensão se estampou na pele pálida dele. Não disse mais nada, apenas seguiu mais rápido, Mather acompanhando.
Eles pararam mais uma vez para pedir direções precisas até o palácio, o que os levou até uma vegetação exuberante de floresta decorativa. Algumas estradas menores serpenteavam pelo verde com uma grande passagem decorada aberta à frente, mas Mather afastou o Degelo da entrada principal, escolhendo uma abordagem sorrateira. Quem sabia o que esperava por eles atrás daquela floresta?
Um caminho à esquerda parecia o mais promissor — estreito, para caminhar apenas, mais provavelmente uma entrada de criados. Mas quando Mather se virou na direção dela, Hollis segurou seu braço.
— Meu senhor — sussurrou Hollis, com um grunhido baixo, indicando a direita, onde um caminho um pouco mais amplo disparava para fora da floresta ainda mais para trás do palácio. Por aquele caminho movia-se um contingente de soldados, dezenas deles, todos vestidos como se para a guerra, com armas e armaduras e cavalos. No grupo cavalgava uma mulher ventralliana solitária, todo o comportamento dela transmitia dinheiro e privilégio.
O grupo cavalgou para fora da floresta e para dentro da cidade com o brilho determinado de um propósito no olhar.
Mather deu um passo adiante, observando-os sumirem nos prédios multicoloridos.
— Meu senhor? — indagou Hollis.
— Por que uma nobre precisaria de um grupo de soldados tão grande? — perguntou-se Mather.
Trace resmungou.
— Para nada bom.
— Exatamente — concordou Mather, e seguiu para a rua, seguindo o grupo. Ninguém questionou por que ele escolheu seguir os soldados em vez de entrar no palácio, e, sinceramente, a única desculpa na qual Mather poderia pensar era que o embrulho no estômago lhe dizia que o fizesse. Tantos homens, liderados por uma mulher que, apesar da máscara ventralliana, emanava um ar de malícia... Nada de bom poderia acontecer.
E ele conhecia Meira bem o bastante para perceber que ela muito provavelmente estaria onde coisas ruins aconteciam.
O Degelo manteve alguns quarteirões de distância entre os soldados conforme se moviam mais profundamente para Rintiero. A noite descia sorrateira, brincando com as sombras para denunciá-los. Mather segurou o Degelo, ficando o mais para trás possível sem perder o contingente.
Então, quando o confronto finalmente aconteceu, Mather e o Degelo apenas chegaram à praça quando o corpo do rei de Verão caiu, o condutor no pulso dele anunciava a posição de rei a todos.
— Droga — xingou Mather, e puxou Phil para as sombras do beco que quase os levara para a confusão. O restante do Degelo se reuniu atrás dos dois na escuridão. A mulher nobre, cujo discurso ameaçador a delatou com a rainha ventralliana, se voltou para uma garota veraniana, imóvel pelo choque, olhos no pescoço entortado do rei. Mather não ouviu o que a rainha disse a ela, o sangue latejava nos ouvidos dele enquanto olhava o corpo no chão de paralelepípedos.
A rainha ventralliana tinha quebrado o pescoço do rei veraniano de alguma forma. Sem remorso, pela forma como exibia aquilo para a garota agora.
Pesar percorreu o corpo de Mather; ele se virou para a pedra com um braço ainda segurando Phil na parede ao lado.
Se a rainha ventralliana tinha matado o rei veraniano...
O que teria feito a Meira?
Os olhos de Mather dispararam pela praça, mas nenhum outro corpo restava ali. E quanto ao palácio? Precisavam voltar. Será que aquilo era algum golpe da rainha ventralliana, ou o rei também estava envolvido? Será que ele estava com Meira... Será que a estava torturando da mesma forma que a rainha dele torturava a garota veraniana?
O pesar no corpo de Mather se incendiou, queimou frio e quente ao mesmo tempo conforme ele se virou para voltar pelo beco. Não conseguia enxergar nada, não conseguia ouvir nada, apenas a batida do coração empurrando imagens na mente dele do corpo de Meira caído naquelas ruas bonitinhas demais...
— Mather! — Phil agarrou o braço de Mather, mas não, não havia mais nada naquela cidade, nada no mundo, apenas Mather e Meira e ele a encontraria...
— Mather! — exclamou Phil. — Olhe!
Phil virou Mather no momento em que um projétil entrou no campo de visão dele, algo chato e circular traçando uma linha desde a rainha ventralliana até um telhado do outro lado da praça. A rainha rugiu com revolta e segurou o ombro, olhando com raiva para o objeto.
Mather avançou.
Era um chakram.
Ele reparou no prédio do qual a arma se originara e cada músculo tenso dele entrou em ação.
— Siga-me — disse Mather, e disparou de volta para o beco, correndo entre prédios, cortando por ruas laterais, formando um caminho irregular em torno da praça na direção do prédio do qual o chakram tinha sido atirado. Adrenalina entorpecia tudo, menos os mais simples e instintivos pensamentos: soldados estavam subindo pelo prédio, juntando-se contra ela, mas apenas cinco, fáceis de derrotar; aquilo eram espadas se chocando? A rainha devia ter se voltado contra o restante dos veranianos...
Uma sombra disparou acima de Mather, chamando a atenção dele para o céu. Mais algumas sombras seguiram, soldados em perseguição, e Mather parou subitamente.
— Trace, vá para o telhado seguinte... Será nosso combatente à distância. O resto suba pelo lado sul do prédio, mas em silêncio. Surpresa é tudo que temos.
Eles dispararam em ação, e assim que Mather saltou para o parapeito de uma janela no prédio, algo caiu do telhado e tilintou na rua.
O chakram de Meira.
Ele desceu de volta para os paralelepípedos, pegou o chakram e subiu pelo prédio com força renovada. Ela estava lá em cima — estava viva.
Pelo gelo frígido acima, Mather não tinha percebido o quanto estava horrorizado até que sentiu o alívio que aquelas palavras traziam: como ar fresco afastando o fedor de um campo de batalha, como a trégua fria de ervas curando um ferimento.
A mão de Mather sobre o chakram tornou desajeitada a subida desesperada dele, mas um segundo depois que o Degelo chegou ao telhado, Mather se impulsionou para cima também.
O elemento surpresa tinha funcionado — os quatro soldados do lado oposto do telhado caíram com alguns gritos de surpresa. Um homem permanecia, urrando furiosamente, de costas para Mather.
O soldado ergueu uma espada acima da cabeça e correu para a frente. Mather sacou a própria espada e disparou, empalando o homem pelas costas e então puxando a espada de volta. O soldado desabou, rolando para o lado, revelando...
Meira.
Ela estava agachada com os braços para cima em pose defensiva. Os olhos dispararam do corpo do soldado para Mather, Meira franziu a testa e Mather soube que se ele tinha dificuldades em entender a situação, Meira devia estar completamente atordoada.
Mather se lembrava da última interação dos dois, a conversa da qual se arrependia mais do que podia expressar. E embora tivesse feito as pazes com o amor por ela, Meira dissera a Mather que não o queria, e passara as últimas semanas com Theron. Nada tinha mudado para ela — então, embora cada nervo no corpo de Mather ansiasse para correr em frente e pegar Meira nos braços, ele ficou para trás, preparado, pronto, dela.
— Você está bem? — perguntou Mather, porque precisava dizer algo, precisava se libertar daquele momento antes que o consumisse por inteiro.
Meira piscou, a confusão fluindo pelo rosto em uma torrente que a deixou sem fôlego, presa em algum lugar entre gritar e chorar. E antes que Mather pudesse explicar ou perguntar mais, Meira se atirou para a frente e abraçou Mather pelo pescoço.
— Você está aqui — disse ela, ofegante. — Como está aqui?
As armas caíram das mãos de Mather quando ele a envolveu, pressionando Meira com mais força junto ao o corpo. Pelo gelo, tinha se esquecido da sensação de tê-la ao lado dele — ela era tão pequena, mas tão forte, quase o sufocava com o toque. Mather se agarrou a Meira, sufocando pela forma como ela abraçava ele, como enterrava o rosto no ombro de Mather, os pulmões se enchiam com fôlegos roucos.
Meira estava viva. Ela estava viva e a salvo, mesmo que Alysson não estivesse.
Mather apoiou a testa na têmpora de Meira, expirando longamente, inspirando ainda mais demoradamente.
— Você está bem — disse ele, ou perguntou, apenas precisando sentir as palavras no ar entre os dois.
Meira assentiu, segurando-se a Mather da mesma forma como ele mantinha a testa nela. Respirando, descansando, usando um ao outro como alimento contra a fome.
— Você está? — Meira recuou, mas não se desvencilhou de Mather, tão perto, tão perto dele. — Como você... Por que está aqui?
A pergunta a deixou séria e Meira se soltou dos braços de Mather com um giro, olhando boquiaberta para o Degelo, que esperara felizmente em silêncio atrás dos dois.
Phil encarou Mather, um sorriso malicioso se abrindo nos lábios. Uma sobrancelha erguida se seguiu ao sorriso de Phil quando Meira pegou a mão de Mather, segurando-a distraidamente como se precisasse de toque para se equilibrar.
Mather não se incomodou em responder à provocação de Phil com nada além de um sorriso. Ele conseguia respirar agora, como não fazia há dias, e a sensação tornou tudo aguçado e lindo por um momento, de forma que Mather soube que seria passageiro demais.
— Quem são vocês? — perguntou Meira ao Degelo, com a voz espantada e confusa.
Mather deu um passo adiante, entrelaçando os dedos com mais firmeza nos de Meira. Ela observou cada membro do Degelo com olhares ágeis e atentos, e, ao fazê-lo, o choque se enrijeceu em algo parecido com determinação. A expressão perigosa do rosto que Meira estampara tantas vezes conforme crescia, mas agora tinha uma mudança resoluta, como se passasse de simplesmente ser teimosa e selvagem para canalizar essa energia em um objetivo.
E conforme Meira olhava para as pessoas adiante, Mather soube que objetivo era esse.
Inverno.
— Esses são os Filhos do Degelo — apresentou ele. — E temos muito a contar, minha rainha.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Para comentar, por favor utilize a opção Nome/URL e preencha seu nome/apelido/nick; o URL pode deixar em branco.

Boa leitura, E SEM SPOILER!