21 de janeiro de 2019

Capítulo 30

SEGUIMOS OS SONS da batalha até a praça, no portão de entrada de Abril, e encontramos soldados de Primavera correndo em grupos perfeitamente enfileirados, canhões disparam com precisão letal, manivelas erguem armas por cima das muralhas. O condutor de Angra os impulsiona com uma ameaça que torna cada movimento deliberado, alinhado, perfeito.
Uma buzina grita conforme descemos as ruas que dão no portão. Os soldados impecavelmente alinhados de Angra giram em nossa direção, despertando do estupor do condutor. Angra os avisou que estávamos chegando, mas saber não torna um exército preparado.
Erguemos as armas, levantamos as vozes, aumentamos a velocidade. Somos um corpo agora. Uma onda devoradora de brancura e imundície e 16 anos de morte. Os homens de Angra se realinham para nos encarar, de costas para o portão, mais da metade da concentração deles é desviada do exército agressor de Noam para nós. A única coisa para a qual Abril, apesar de toda a mentalidade bélica, não se preparou: uma brecha dentro da muralha.
Colidimos com os homens de Angra, varrendo-os como uma praga. Eles revidam com a mesma força, empurrando com a força retirada da Ruína no condutor de Angra.
Há apenas algumas centenas de nós e a maioria não é de mais guerreiros do que de crianças e idosos que ficaram para trás. Nossa vantagem do elemento surpresa não durará muito tempo.
Empalo um soldado de Primavera e caio no chão, puxando o corpo dele para meu lado para servir como escudo. A praça antes do portão tem quase o tamanho dos limites do palácio de Angra, ampla e aberta para facilitar movimentos. Duas escadarias emolduram o portão e levam para a passarela acima, e há uma pequena construção adjacente à muralha, à esquerda. A guarita do portão.
Um grupo de homens invernianos derruba um aglomerado de soldados primaverianos que avança, e aproveito o caos para me proteger de outros inimigos. Eles ficam para trás e eu me levanto e corro, disparando por cima de corpos, armas largadas, caixas empilhadas. O odor pungente e férreo de sangue e de armas velhas paira em bolsões de ar quentes e pesados, repugnantes, chocando-se contra mim conforme disparo para a fina porta de madeira da guarita.
Embainho minhas armas e saco o chakram antes de dar um chute forte, o qual faz a porta se chocar contra a parede. Dentro da guarita, dois soldados se viram e, tão rápido quanto, duas lâminas disparam pelo ar, pequenas facas que giram com determinação desesperada contra mim. Eu desvio e uma das facas passa por cima de meu ombro, enquanto a outra arranha meu pulso.
Mas é minha vez agora, então ignoro a dor. Solto o chakram, a lâmina corta os pescoços dos soldados com golpes mortais antes de disparar de volta até mim.
Conforme os corpos deles caem, salto até os homens, olhando para a alavanca no centro da sala. Uma barra espessa de metal se ergue, angulada, quase tão alta quanto eu, de uma profusão de engrenagens. A barra se estende mais para a esquerda do que para a direita, então, talvez, se eu a mover para a direita...
Guardo o chakram e jogo todo meu peso na barra. Ela range contra meus movimentos, o ferro antigo estala com resistência irritadiça contra ser aberta. Apoio o pé na parede da guarita, puxo e empurro, imploro para que a coisa idiota simplesmente ceda e se solte.
A mão de alguém desliza na alavanca sobre a minha. Eu me encolho, já pegando a faca, quando Garrigan me impede. Conall entra aos tropeços atrás dele, uma espada ensanguentada em uma das mãos, e passa por mim para pegar a barra também.
Nós empurramos juntos, e a manivela cede sob nosso peso coletivo, desistindo como se pudesse sentir o colapso iminente do seu reino. O objeto se encaixa no lugar e, além da guarita, além da luta, a imensa muralha de ferro começa a se levantar, rangendo e gemendo.
Conall, Garrigan e eu corremos para fora da guarita. Invernianos e soldados de Primavera param, olhando para o portão que se ergue, analisando o que aquilo significa para Abril.
Assim que o portão sobe o suficiente, uma onda de homens entra como uma enxurrada, acrescendo o verde e dourado de Cordell às armaduras de sol negro de Primavera e aos cabelos brancos de Inverno. Misturados com os soldados cordellianos estão homens de pele acobreada trajando marrom e laranja, os quais disparam entre grupos de inimigos com uma graciosidade exótica, cortando carne com lâminas finas como fios de cabelo e atirando esferas que liberam fumaça tóxica. A herdeira deles pode ser jovem demais para usar o condutor, mas os soldados de Outono ainda conseguem fazer com que uma boa luta de espadas pareça uma dança coreografada e empunhar armas, ao mesmo tempo, funcionais e cruéis — como o chakram. Quando vejo discos metálicos giratórios disparando pelo ar, sorrio. Sir originalmente conseguiu meu chakram em Outono e ver dezenas deles atirando ao meu redor me faz sentir ainda mais unida nessa investida. Uma inverniana empunhando uma arma outoniana, usando a aliança cordelliana para acabar com Primavera.
Os invernianos entram em um frenesi, acrescentando o puro ódio deles aos ataques organizados de Cordell e aos guerreiros habilidosos de Outono. Mas Angra tem números. Isso leva a uma luta aterrorizante e hipnotizante, negro, laranja, verde e branco.
Uma flecha passa zunindo por minha orelha, de algum lugar do outro lado da praça. Meus olhos encontram a fonte da flecha e um homem de cabelos brancos, com armadura de Cordell, dilacera o arqueiro de Primavera antes que ele seja engolido por um grupo de soldados vestidos de preto. Mather? Ou talvez Greer ou Henn...
Disparo em meio a inimigos que se esquivam, me abaixo sob lâminas em disparada.
Os homens de Angra desviam os canhões da muralha para que se concentrem na praça dentro do portão. As explosões lançam punhados de terra pelo ar ao meu redor, fazendo com que chovam rochas e destroços. Com as lâminas em punho, corto soldados primaverianos às cegas, onde consigo acertar, conforme sigo para aquele lampejo de cabelos brancos usando armadura cordelliana. Uma dupla concentrada no combate passa por mim e me encolho, evitando por pouco uma lâmina na cabeça, deslizando os joelhos em um pequeno trecho de grama do outro lado da praça, onde os guetos de Abril se erguem em direção ao céu.
Por um segundo, paro, avaliando a área, com os músculos contraídos e à espera, até que uma lâmina dispara contra mim. Eu me viro e a pego instintivamente conforme vejo para além da lâmina, para o soldado que a segura.
Não apenas um soldado — Angra.
E não é apenas uma lâmina. Uma das mãos dele segura uma espada fina e forte, a outra segura o cetro, uma arma por si própria.
Angra usa a própria versão da armadura de Primavera, mas a dele é requintada e reluzente. O rei recua, levando a espada e o cetro consigo, e me olha com ódio enquanto nossos homens se matam ao nosso redor.
— Esse tempo todo — grunhe Angra. — Eu devia ter sentido a magia em você muito antes que conseguisse usá-la.
Meus dedos ficam esbranquiçados sobre as armas.
— Você não deveria ter se deixado corromper.
Angra rosna e recua. Salto contra ele, falando o mais rápido possível, espremendo palavras no espaço entre nós.
— Há uma forma de derrotá-la, Angra — sussurro. — A Ruína. Se permitir que os outros monarcas saibam, podemos destruí-la como quase fizeram há milhares de anos!
Angra para, com lâmina e cetro erguidos, os olhos se semicerrando em algo que parece choque. Prendo o fôlego em meio ao rugido de adrenalina ao meu redor, agarrando-me ao lampejo de esperança no rosto de Angra...
Mas alguém grita meu nome, um aviso distante no fundo do meu subconsciente. Encolho o corpo e Angra golpeia, balançando a espada, o cetro logo atrás. Ele golpeia minha faca quando caio, ao mesmo tempo em que deslizo para longe do metal descendente. Angra é muito mais experiente do que eu e usa meu próprio movimento para puxar a espada e me acertar no meio do caminho, a lâmina faz um corte limpo em meu ombro.
Gemo e caio sobre o braço, a dor irradia por minha pele. Posso me curar? Angra não me dá tempo para tentar. Ele desce ao chão sobre mim, um joelho me prende à grama entre um dos prédios em ruínas do gueto de Angra e a batalha caótica. Angra abaixa o rosto, cachos loiros sujos de suor e poeira.
— Não preciso ser salvo — dispara ele, e recua, preparando-se para outro golpe.
Angra me ataca de novo e solto a espada do braço direito ferido para recuar, observando a lâmina dele se enterrar na grama onde minha cabeça estava um segundo antes. Angra corre e golpeia, sem me dar chance de retaliar, me perseguindo conforme cambaleio, de quatro, pelo gramado até a praça. Pernas saem do meu caminho, aliados cortados pelas armas agitadas e afiadas de Angra, forjando um caminho perigoso em meio ao caos que me permite sair rastejando.
— Meira! — grita alguém, mas não tenho tempo de procurar quem é.
Um soldado de Primavera corre até nós, determinado a ajudar o rei dele. Mas Angra o cerca com um rompante de ódio incandescente.
— Ela é minha!
Uso essa oportunidade para atirar minha última arma. O chakram dispara pelo ar carregado de escombros, apenas para ricochetear inutilmente contra a armadura de Angra. Ele derruba a arma ainda em movimento, lançando-a para o chão, e se vira para mim, com um sorriso insano estampado no rosto.
— É tudo o que tem? Centenas de anos de guerra e esse é o grande final de seu reino?
— Não.
A voz ecoa pelo gramado, por cima do mundo. Ela me inunda, vindo das profundezas do pesadelo cruel de Angra, quando eu me ajoelhei no chão de um chalé em Jannuari e Sir me segurou, me embalando para trás e para a frente.
Mas isso não é um pesadelo. Isso é real, melhor do que qualquer coisa que eu ousei sonhar sozinha e, quando meus olhos se fixam nele, não sei como conseguirei respirar de novo.
Sir está vivo.
Angra se vira e Sir salta pelo ar, com duas facas curvas cortando o ar em fragmentos e disparando diretamente para o coração de Angra. Apenas um segundo se passa antes que Angra reaja, agitando o cetro para impedir uma das facas e a espada para pegar a outra.
— Meira! — Mather escorrega até o chão, para meu lado, e coloca os braços sob meus ombros para me levantar. Pisco para ele, presa em outro sonho cruel. Mather está aqui. E Sir...
Encaro, tentando fazer com que a última imagem que tenho de Sir faça sentido em relação ao que vejo agora. Ensanguentado e partido no chão do lado de fora de Bithai; dançando pelo ar com rosnados e golpes, fazendo Angra recuar tão cruelmente quanto revidar os golpes. O corpo dele está inteiro e forte, disparando conforme os músculos fazem aquilo para que foram feitos. Sir e Angra estão páreo a páreo, lâmina contra lâmina, movendo-se diante de nós, em meio ao massacre sangrento da guerra.
Meus dedos se enterram no braço de Mather, meu coração congela.
— Sir? — sussurro.
A tensão em meu peito se alivia. Não importa quem sou agora, rainha ou não, porque Sir está aqui. Sir está vivo. E ele poderá me ajudar com isso.
Quando olho para Mather, ele assente.
— Você o curou, Meira. Todos acharam que ele estava morto, mas quando acordou, depois da batalha, nos contou que você o curou. Um acaso da magia do condutor que de alguma forma você assimilou — sussurra Mather.
Eu me atenho às palavras dele e tento encaixá-las com o quebra-cabeça incompleto ao meu redor. O que mais me lembro da morte de Sir é meu desespero, minha necessidade inconsequente, pura e forte, de que ele vivesse. Talvez esse fosse um tipo de rendição — me abrir a qualquer coisa, a tudo que pudesse salvar Sir. Uma decisão inconsciente, como quando salvei o menino.
Mather compreende a distância em meu olhar, meu crescente entusiasmo. Ele faz uma reverência com a cabeça.
— Minha rainha.
Isso me puxa de volta ao presente, barulhento e terrível. De volta a Mather, que estampa um olhar mudado.
— Você sabe? — Engasgo com as palavras e sinto tudo mais desabar sobre mim. Todas as preocupações de Mather e as amarras dele, como queria tanto ser o que era necessário em uma posição que jamais ocuparia. E agora... nada disso importa, pois não é mais ele.
Mather acena com a cabeça de novo. Ao nosso redor, a batalha continua feroz, mas naquele momento em que nos olhamos, não sei dizer se Mather está aliviado ou assustado. Só consigo sentir a força dele, o modo determinado com que me olha, um soldado para seu governante. Mather suportará por quanto tempo eu precisar que ele o faça.
A metade do medalhão ainda está no pescoço dele, um lembrete físico da mentira que é a vida de Mather. Meus olhos se fixam no objeto antes de desviarem, uma descarga de adrenalina me percorre quando olho para trás, para Angra e Sir presos em um borrão de espadas. O condutor de Angra dança pelo ar e a concentração de Sir o segue, o olhar dele parece faminto e desesperado.
Um peso em meu estômago. Sir precisa saber o que realmente é, contra o que está realmente lutando. O modo como ele olha para o cetro de Angra, como se quisesse destruí-lo em milhões de pedaços — isso não pode acontecer. O condutor de Angra não pode ser quebrado, a magia poderia se unir a ele, alimentando infinitamente a Ruína.
Uma lâmina surge do nada, os destroços do canhão tornam o ar escuro e perigoso. Grito e empurro Mather para baixo, agachando-me sob a espada enquanto o soldado de Primavera continua o golpe pelo ar. Mather se vira, me joga a espada dele e eu a pego no ar antes de me chocar, de cabeça, contra o estômago do soldado. Caímos, rolando para baixo por uma leve encosta, em uma confusão de escuridão e terra, conforme minha espada desliza para o alvo: as entranhas do soldado.
Uma série de gritos. Nomes são gritados em ordem rápida, berros agudos de pânico que me fazer girar na terra.
— Mather, pegue!
— William...
— MATHER!
Fico de pé com dificuldade, meus olhos disparam pelo espaço que agora está entre eu, Mather e Sir. Uma onda de horror pulsa dentro de mim e congelo, observando acontecer.
Sir derruba o cetro de Angra das mãos dele. O objeto dispara pelo ar, girando até cair aos pés de Mather. Sir dispara para longe de Angra enquanto estende a mão para Mather, algo horrível e aterrorizado explode dele como nada que já vi. Pânico sobe em minha garganta, como o gosto pungente de ferro do sangue.
Mather pega o cetro.
— Quebre-o! — A voz de Sir soa engasgada. Ele golpeia Angra, atirando-o ao chão. — Destrua-o!
— Vou matar você! — grita Angra, rastejando na terra. Ele fica de pé e Sir o derruba ao lado dos pés de Mather. Uma das facas curvas de Sir se enterra no ombro de Angra, prendendo-o à terra, com Sir pairando a um centímetro dele.
Mather me olha. Lá está aquela seriedade determinada de novo, influenciada pelo desespero. Ele vai me proteger. Vai me manter segura. Ainda pode fazer isso, mesmo que não seja quem sempre achou que foi.
Mather ergue o cetro acima da cabeça. O condutor de Angra. A Ruína que tomou conta da terra, o mal terrível e irrefreável que foi até Angra, que se juntou a ele e tem ganhado força devido ao uso corrompido da magia que ele faz. Os braços de Mather se contraem, preparando-se para o impacto iminente, quando ele levanta o cetro no ar, um movimento lento e doloroso.
Sou tomada por desapontamento, tão palpável que escorre como rios de lava por meu corpo, conforme as últimas peças se encaixam e eu avanço, trôpega, em direção a Mather.
— Mather, não! — grito. — Pare!
Mas ele não me ouve. Não sabe, nem mesmo pensa a respeito. Ninguém pensou.
Ninguém teria pensado que a resposta é tão simples, o poder está tão próximo.
O cetro se parte contra a terra com uma explosão de vidros quebrados. Escuridão explode para fora dele, uma tempestade é liberada, um funil de fumaça que irrompe em um fio negro. Em meio ao caos, a batalha cessa, o vento açoita gritos, fragmentos desesperados de som que mergulham pela multidão de soldados que observam. A coluna de preto avança para o céu, onde nuvens espessas se reuniram, girando incessantemente, em um vórtice que destruirá todos nós.
Abraço Mather e o afasto do cetro quebrado, a personificação de tudo que nos manteve cativos por tanto tempo. Desabamos no chão, meus braços ao redor dos ombros dele, os olhos de Mather estampam confusão. À nossa volta, todos pararam.
Primavera, cordellianos, outonianos, invernianos — todos esquecem a luta e olham boquiabertos, com assombro inabalável.
Todos exceto Angra. Os olhos dele encaram os meus, a praticamente dois passos de onde abraço Mather. O cabo da faca desponta do espaço entre o protetor peitoral e o de braço de Angra; sangue escorre de uma laceração pela bochecha dele. Mas os olhos de Angra brilham, as profundezas verde-pálidas refletem o tufão. A expansão de magia nos Condutores Reais sobre a qual nem mesmo Angra sabia até me ver, até compreender meu uso de magia sem o medalhão e perceber o que sou agora. A magia e a Ruína que estão unidas pelo condutor de Angra se unirão a ele, o alimentarão, se tornarão um.
Angra poderá usar a magia para o mal a uma proporção irrefreável — sem um cetro ou um objeto condutor, porque ele se tornará o condutor da magia, e a Ruína ficará mais poderosa do que qualquer um pode controlar.
A coluna negra se contrai em uma linha fina e para, esperando, contando o tempo. Com uma forte lufada de vento, ela explode, chocando-se contra o chão e irradiando sobre nós com um rompante poderoso de ar e escombros. Mather se joga sobre mim e enterramos nossos rostos um no outro quando a força lança rochas pelo ar.
Acabou. Simples assim. Sem explosão final, sem grito de despedida. Apenas nada, como se jamais tivesse sido mais do que a bola de vidro e metal destruída aos pés de Mather.
Eu me afasto de Mather, mas sei o que verei antes que meus olhos encontrem. A magia dentro de mim sussurra nas partes mais profundas e receptivas de minha mente, um toque silencioso de compreensão.
Sir se senta sobre os calcanhares, encarando com os olhos arregalados o trecho vazio de terra sob ele. A faca de Sir ainda está presa na terra, posicionada verticalmente contra a suave corrente de vento.
Mas Angra se foi.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!