17 de janeiro de 2019

Capítulo 3

Magnus corria tão rápido quanto no dia em que perseguiu o cavalo que se afastara dele durante uma caçada – um cavalo que ele precisou recuperar para não parecer ainda mais patético e indigno diante dos amigos de seu pai. Mas não foi rápido o suficiente.
Ele olhou por cima do ombro para descobrir que o menino, Maddox, estava poucos passos atrás.
— Você precisa parar! — Maddox gritou.
— E ainda assim escolho continuar correndo.
— Livius vai te matar por roubar dele!
— Não se ele não puder me pegar.
Mas que se danasse se ele não conseguisse achar a taverna novamente. Ele precisava desacelerar e se orientar, descobrir qual direção tinha tomado através da cidade que parecia tão grande quanto Pico do Corvo, a capital de Limeros.
Parou cambaleante, examinando as ruas, as carroças carregadas de passageiros ou de carga puxadas por cavalos e as fileiras de lojas – desde fabricantes de velas a padarias, passando por pousadas ao longo da estrada de paralelepípedos.
Ele chegou à repentina e horrível compreensão de que havia esquecido o nome da taverna. Ele se esforçou para lembrar, sabendo que tinha visto oa placa acima da entrada.
Como podia ter esquecido algo tão importante?
Maddox parou, seu rosto vermelho, e Magnus deu a ele um olhar sombrio.
— Não chegue mais perto — ele avisou.
Maddox olhou para ele.
— Você precisa me dar essa bolsa.
— Sei que você não vai acreditar em mim, mas eu preciso desse dinheiro mais do que você ou seu guardião desagradável. — Ele lançou um olhar cauteloso para o sol, sua única maneira de julgar quanto tempo tinha para voltar para a villa de lorde Gillis.
— Você não sabe nada sobre quem somos e do que podemos precisar — disse Maddox.
O garoto tinha razão, mas Magnus não teve tempo de debater.
— Você está certo. Só sei que seu guardião bate em você sem hesitação ou remorso.
Maddox não tinha uma resposta imediata para isso, mas ele teve a graça de se ruborizar.
— Minha mãe... Eu mando minha parte do nosso pagamento. Ela precisa do dinheiro para sobreviver. Sem isso, não sei o que vai acontecer com ela.
— É mesmo? E que taxa ela conseguiu por deixar aquele homem assumir o controle de sua vida?
A expressão de Maddox se apertou.
— Claramente você não tem ideia de quão perigoso Livius é.
— Claramente — Magnus pesou a bolsa de moedas em sua mão enquanto lutava para lembrar o nome da taverna onde ele encontrou Kalum e Emil. — Há uma taverna próxima com o nome de... algo com galinha?
Era algo assim, ele estava certo disso.
Maddox deu de ombros.
— Eu não sei. Eu não sou daqui.
Magnus soltou um suspiro de frustração.
— Então suponho que você também não conheça uma mulher chamada... — Mais uma vez ele lutou pela informação que sabia que tinha, mas desta vez veio a ele rapidamente. — Samara Balto.
Maddox estendeu a mão.
— Dê-me a bolsa e ficarei feliz em ajudá-lo a encontrá-la.
Ele olhou para a mão do menino com profundo ceticismo.
— Eu não confio em você.
— Diz o ladrão.
Mais abaixo na rua, além de uma mulher com dois garotos que acabavam de entrar em uma padaria, Magnus viu Livius se aproximando rapidamente deles.
Maddox era uma peste, mas Livius era uma ameaça.
— Não importa —, Magnus disse, sem desviar sua atenção do guardião de Maddox. — Eu a encontrarei sozinho.
Ele se virou e começou a fugir do par. Precisava encontrar a taverna, precisava encontrar os homens com quem falara e trocar essa bolsa de moedas roubadas por informações. Assim teria uma chance de escapar desse pesadelo em cores.
Talvez ele não devesse ter dispensado Bella tão prontamente. Por toda a sua ignorância, ela estava extremamente disposta a agradar.
Verificando por cima do ombro, seu estômago se revirou ao ver que Livius não desistira da perseguição. Ainda assim, ele deveria ter o dobro da idade de Magnus, senão mais. No entanto, Magnus não estava acostumado a correr com muita frequência, especialmente não enquanto era perseguido. Ele não conseguia se lembrar da última vez, antes de hoje, em que havia se movido mais rápido do que uma passada vagarosa.
Felizmente, suas pernas não falharam com ele hoje.
Magnus ziguezagueou pelas ruas sinuosas da cidade, esquivando-se por pouco de outros civis, que o encararam quando passou por eles. Ele não pediria ajuda a ninguém por aqui. Isso só iria atrasá-lo. Além disso, o que diria? Que ele roubou uma bolsa de moedas do homem que estava atrás dele?
Uma admissão como essa certamente o enviaria diretamente para a masmorra mais próxima.
Enquanto tudo dentro dele queria continuar a negar o que aconteceu, ele sabia que não podia. De alguma forma, aquela bruxa o mandara de volta no tempo. E ele sabia, sem qualquer dúvida, que se falhasse em retornar àquela estátua da deusa ao pôr do sol, ficaria preso aqui para sempre.
Um ninguém sem título, sem lar, sem família... e sem futuro.
Ele virou à esquerda em uma encruzilhada e correu na frente de vários homens descarregando sacos pesados ​​da parte de trás de uma carroça.
— Parem esse menino! — Livius gritou de uma distância desconfortavelmente perto atrás dele, mas Magnus não se atreveu a olhar.
Os homens com os sacos olhavam para ele com curiosidade, mas não fizeram nenhum movimento para detê-lo.
Correndo como um ladrão comum em uma cidade desconhecida. A experiência era totalmente estranha a Magnus e ele desprezava cada momento desse dia odioso.
Aquela bruxa pagaria com sua vida por isso.
Por mais que Magnus também detestasse sua vida no palácio, exceto pelo tempo com Lucia, seus dias eram confiáveis ​​e previsíveis. Ele gostava de saber onde estava, quem o rodeava e o que poderia estar esperando na próxima esquina. E gostava de saber que seu futuro como o próximo rei estava definido. Um dia ele governaria, e o poder que seu pai tinha seria dele.
Aqui não havia tais garantias.
Magnus alcançou uma bifurcação na estrada. Ele hesitou por apenas um segundo – mas foi o bastante. Livius agarrou as costas da camisa e puxou-o para trás. Magnus tentou se soltar, mas Livius pegou um punhado de cabelo – constantemente atrasado para um corte, como sua irmã gostava de lembrá-lo – e arrastou-o da rua para um beco, longe de qualquer testemunha. Magnus deixou cair a capa enquanto tentava e não conseguia revidar.
— Pegue a bolsa, Maddox — Livius rosnou. — Seja rápido; eles estão logo atrás de nós.
Magnus piscou. Quem estava logo atrás deles?
Maddox estava ao lado de seu guardião em um instante. Mas pouco antes de ele se mover para tirar as moedas de Magnus, alguém gritou da direção da rua.
— Livius ! Tentando fugir de nós, não é?
— Maldição — Livius murmurou.
Ao som da voz, ele congelou no lugar enquanto ainda mantinha um aperto doloroso no cabelo de Magnus.
Três homens enormes assomaram à entrada do beco, cada um aparentemente maior que o anterior.
— Fugir de vocês, Benito? — Livius levantou a voz, compartilhando um rápido – e, Magnus pensou, preocupado – olhar com Maddox. — De modo nenhum. Nem percebi que estavam me seguindo.
— É bom saber. — Benito, com os braços grossos dobrados sobre o peito grosso, sorriu com a boca cheia de dentes afiados. — Achei que você estava tentando nos evitar. Novamente.
— Não, não. Claro que não.
— Onde está o nosso dinheiro?
Livius finalmente soltou-o, sua atenção nos homens, e Magnus rapidamente enfiou a bolsa de moedas na frente de sua camisa.
Livius então lançou um olhar para Magnus.
— Me dê a bolsa.
Magnus espalhou suas mãos vazias.
— Que bolsa?
O rosto de Livius se avermelhou e seus olhos brilharam.
— A bolsa de moedas, seu imbecil.
Magnus começou a recuar.
— Eu não acho que posso ajudar. Talvez você possa encontrar algum outro civil inocente para roubar hoje, senhor. Mas eu não tenho dinheiro comigo.
— Tentando roubar de crianças, Livius? — Benito perguntou secamente. — Por que não estou surpreso?
— O menino é um mentiroso. Ele roubou o meu dinheiro. O seu dinheiro.
— Ele roubou. — A atenção de Benito não se moveu de Livius. — Mesmo se isso for verdade, cem moedas de prata são apenas uma fração de suas dívidas de jogo. Duas vezes agora, viemos coletar, avisando o que aconteceria se você não nos desse exatamente o que precisamos. A paciência de Cena com você está acabando.
O rosto de Livius tinha se tornado um tom desagradável de bordô.
— Eu vou conseguir o dinheiro. Vou devolver todas as moedas que ele me emprestou, eu vou! Mas preciso de mais tempo.
— Quanto mais?
— Eu... — Livius lançou um olhar tingido de pânico para Maddox. — Eu... eu ... não sei exatamente. Não muito tempo.
— Eu... eu... eu... — Benito disse ironicamente, e seu sorriso se alargou. — Esta é uma excelente sugestão, Livius. Talvez possa ser um lembrete adequado de sua dívida pendente com o meu empregador. Um... um... um olho. — Ele levantou uma sobrancelha grossa. — E eu deixarei que escolha: o esquerdo ou o direito?
Um brilho de metal atraiu os olhos de Magnus para o punhal que Benito puxou da bainha em seu cinto.
— Maddox — Livius sussurrou. — Faça alguma coisa!
— E-u não acho que consiga — disse Maddox, com a voz tensa.
— Verme inútil. Faça alguma coisa!
— Estou tentando, de verdade, mas nada está acontecendo.
Benito sacudiu a cabeça.
— Que patético, Livius, pedindo a um mero garoto para te salvar de seus próprios erros. — O homem acenou para Maddox. — Vá embora, criança. Encontre seu pai mais tarde. Eu não acredito que crianças devam ser testemunhas da violência. — Ele lançou um olhar para Magnus. — Você também.
— Ele está com o dinheiro! — Livius gritou quando os capangas de Benito o seguraram.
— E ele pode ficar com ele. — Benito fez um gesto de despensa para Magnus. — Vá e aproveite seus lucros, pequeno ladrão. Talvez eu lide com você outro dia.
Pequeno? Magnus tinha quase na altura do homem – na verdade, ele havia crescido vários centímetros só este ano, tornando-o quase tão alto quanto seu pai. Que profundamente ofensivo.
No entanto, ele escolheu não dizer isso em voz alta.
— Muito obrigado — Magnus disse em vez disso, assentindo.
Ele saiu do beco e deixou Livius com seu destino.
Não demorou muito para que ele percebesse que Maddox continuava seguindo atrás dele. Ele olhou por cima do ombro.
— Não me culpe por isso.
— Livius vai me matar. — Maddox não disse isso com medo, era mais com aceitação cansada. — Ele sempre me jurou que o faria se eu o decepcionasse o suficiente.
— Sim, bem, então essa é uma excelente razão para você fugir, agora que tem a chance.
— Fugir? — Maddox olhou para ele como se não entendesse a palavra.
Magnus manteve o passo rápido enquanto se afastava do beco, examinando a rua em busca da taverna que ele de alguma forma conseguiu perder.
— Sim, fugir. Sair apressadamente e sem explicação. Ir para outro lugar, longe da pessoa que te atormenta.
Maddox revirou os olhos.
— Eu sei o que significa fugir. Você acha que nunca passou pela minha cabeça fazer exatamente isso?
— Eu sinceramente não me importo quais são seus problemas ou como você escolhe lidar com eles. Estou em um cronograma extremamente apertado hoje — outro olhar rápido para o sol confirmou que ele havia baixado uma fração desde sua última conferida — e, francamente, você é apenas um incômodo indesejado agora. Assim... — Magnus sacudiu a mão para o garoto. — Vá embora.
Um grito de dor veio do beco atrás deles.
Magnus se encolheu.
Será que eles escolheram o olho direito ou esquerdo?, ele refletiu.
Maddox continuou a andar ao lado dele, os braços cruzados sobre o peito, o rosto pálido.
— Você não entende o que fez — Maddox disse, balançando a cabeça. — Sua interferência hoje vai estragar tudo.
— Como? — Magnus franziu a testa. Ele não sabia muito sobre como viajar no tempo graças a bruxas enrugadas e estátuas encantadas, mas interferir com a história poderia ter consequências terríveis quando se trata do futuro.
— Livius sabe onde minha mãe mora — disse Maddox. — Ele vai matá-la.
— Então vá lá e a proteja.
— Você faz parecer tão simples. Posso dizer que você nunca teve tais dificuldades em sua vida.
— Você pode dizer isso, é? — Magnus distraidamente tocou a bochecha marcada. — E se eu te disser que meu pai, o rei, fez isso?
Maddox olhou para a bochecha dele como se visse a cicatriz pela primeira vez.
— Seu pai fez isso com você?
Magnus rangeu os dentes.
— Esqueça.
— Você disse que seu pai é um rei?
— Disse.
— Então isso faz de você, o quê? Um príncipe?
— Dedução brilhante. — Magnus então praguejou sob sua respiração quando algo lhe ocorreu. — Deixei meu manto naquele beco.
— Bem — Maddox disse grandiosamente — um príncipe como você deveria ser capaz de substituí-lo facilmente por dez mantos igualmente finos, não acha?
— Esqueça — Magnus disse, ainda procurando pela maldita taverna e atualmente sua única pista para encontrar Samara Balto e pegar a adaga de volta. — Claramente você não acredita em mim.
— Sinto muito se nunca estive cara a cara com tal realeza que rouba bolsas de moedas de ninguéns. Príncipe de quê, posso perguntar?
Magnus olhou para o menino desafiadoramente.
— De um reino de gelo e neve que governarei um dia.
— Mm hmm. —  Maddox assentiu. — Com certeza é.
— Esta terra é governada por uma deusa viva, pelo que ouvi. Estou surpreso que você não acredite que nada é impossível.
Maddox franziu a testa.
— Por que você se refere a ela como uma deusa viva?
— Porque Valoria é nada além de uma página virada da história para mim, e no meu tempo, ela está morta há muito tempo.
— Morta? A deusa é imortal. Você não faz sentido algum. — Maddox apenas olhou para ele. — Talvez você não seja ninguém além de um idiota que só fala em fantasias.
— É por isso que Livius gosta de bater em você? — Magnus murmurou. — Por sua personalidade estelar e envolvente?
Uma sombra cruzou a expressão de Maddox.
— Uma surra é o mínimo que ele fará comigo depois disso.
— Claramente, ele precisa de você. O que quer que você tenha feito naquela estalagem, parece valioso para ele. — Ele sondou sua memória. — O que exatamente você faz?
Maddox não falou por um momento, depois lançou um olhar desafiador a Magnus.
— Bem, príncipe da neve e do gelo, eu tenho um segredo fantástico, tenho certeza de que você não vai acreditar: sou capaz de lidar com espíritos.
Magnus olhou para ele por um momento, sem palavras.
— Espíritos, como... fantasmas?
— Sim, isso mesmo. — Maddox levantou o queixo e olhou para Magnus com um desafio em seus olhos escuros. — Eu posso prender um espírito em um objeto de prata para que ele não assedie mais pessoas inocentes. Espíritos são atraídos por mim. Você não acredita em mim?
— Claro, é claro que eu acredito em você — disse Magnus secamente. — Por que eu não acreditaria?
Os olhos de Maddox se estreitaram.
— É verdade.
Magnus suspirou com impaciência, mas então algo importante ocorreu a ele.
— O menino bruxo que Bella mencionou para mim.
Os olhos de Maddox se arregalaram.
Magnus piscou.
— É você? Você é o bruxo?
— E se eu for?
— Se for, você pode me ajudar.
— Como? Há uma assombração no seu reino gelado? — Maddox estreitou os olhos. — Eu quero aquela bolsa de moedas de volta.
A frustração com esta cidade, com este menino, com esta busca, fez Magnus querer começar a gritar e fazer exigências. Exigências que ele sabia que não seriam atendidas.
— Roube sua própria bolsa de moedas. Esta é minha. — Magnus olhou para a placa acima de sua cabeça, lendo-a várias vezes. O galo de bronze. Sim, era isso!
— Finalmente — ele disse com um suspiro enorme de alívio antes de ficar tenso novamente. — Bem. Se você não vai me ajudar, então me deixe em paz. Vá perseguir alguns de seus espíritos longe de mim.
Magnus empurrou a porta, examinando o interior escuro em busca dos homens com quem falara. Eles se mudaram para uma mesa perto da parte de trás da taverna, duas mulheres agora com eles.
Magnus foi até eles e bateu a bolsa de moedas na mesa.
— Cem moedas de prata. Agora me devolva a adaga obsidiana.
Emil olhou para ele com surpresa.
— Bem, olhe quem está de volta.
— E com o dinheiro. — Os olhos de Kalum estavam totalmente fixos na bolsa. Ele abriu as cordas para olhar para dentro e seus olhos se arregalaram. — Muito bem.
O homem colocou o fragmento de rocha negra na mesa e guardou a bolsa.
Emil não tirou o olhar da lâmina.
— O que isso vale, afinal? Eu poderia estar interessado em comprá-la. Talvez eu possa fazer um negócio melhor do que a Samara.
— Não tem preço — respondeu Magnus. Nenhum preço era alto o suficiente para tirar esse tesouro dele novamente. Sem isso, ele estava verdadeiramente perdido. Ele ignorou o olhar do homem à sua resposta superficial. — Agora, onde posso encontrar Samara?
— Ai, ai, quanta insistência. — Kalum riu. — Sua pequena aventura no roubo ajudou-o a criar tutano, garoto?
— Sim, de fato ajudou. — Magnus pegou a lâmina e a fincou na mesa de madeira ao lado da mão de Kalum. Ele deu um pulo. — Onde posso encontrar Samara? — ele perguntou novamente. — Responda-me, ou juro que não errarei da próxima vez.
Os olhos de Emil e Kalum estavam arregalados e a cor havia sumido de seus rostos.
— Muito bem — disse Kalum. — Ela está no prédio no final da rua, pouco antes de chegar ao beco sem saída – o mais alto da cidade. Vá para o terceiro andar e bata na porta dela. Não há como errar. Ela pintou de vermelho.
— Viu? Não foi tão difícil, foi?
Magnus guardou a lâmina sob a camisa e saiu da taverna.
A maneira como ele causou medo inconfundível naqueles dois homens deu a Magnus uma onda de confiança. Não era de se admirar que seu pai fosse sempre tão seguro de si. Todos encaravam o rei com medo.
O medo, disse o rei Gaius mais de uma vez, leva à obediência. E a obediência é o que dá poder aos líderes.
Magnus gemeu de aborrecimento quando viu que Maddox o seguia ao dobrar a esquina.
— Você é surdo? — ele perguntou bruscamente. — Eu te disse para ir embora, menino bruxo.
— Eu ouvi o que você falou lá — disse Maddox, com as mãos nos quadris. — Você acabou de dar o meu dinheiro por um pedaço de rocha preto e brilhante.
— Meu dinheiro — retrucou Magnus. — Afinal, eu o roubei.
— Dinheiro que você roubou de mim.
— De Livius.
— De mim — Maddox insistiu. — Eu deveria obter metade do lucro dessa coisa.
Magnus balançou a cabeça.
— Confie em mim, você não quer metade deste tesouro.
— Eu descobrirei por mim mesmo.
Magnus decidiu ignorá-lo e seguir as instruções de Kalum para encontrar Samara, mas depois de ter dado vários passos, ele fez uma pausa.
— Como eu não consigo me lembrar do que ele acabou de me dizer? — ele refletiu em voz baixa.
— O quê?
— Cale a boca, eu estou pensando. — Ele revirou sua mente. Tinha sido claramente explicado para ele não há alguns instantes, mas agora estava completamente perdido.
A bruxa – o que ela dissera antes de forçá-lo a tocar a estátua? Quando tudo isso acabar, você não se lembrará do que aconteceu aqui.
Essa memória era tão clara quanto o céu sem nuvens que se estendia acima desta cidade.
Magnus olhou para a bandagem ensanguentada em volta da mão direita. A marca que ela lhe dera. Sua memória oscilante desde que chegou aqui.
Tinham que estar conectados.
— E se eu esquecer quem sou e por que estou aqui? — Ele permitiu que um momento de pânico se agitasse em seu peito e apertasse seu coração. — Se eu esqueci onde encontrar Samara tão facilmente, o que vem a seguir?
Maddox franziu a testa.
— Aquele homem disse que ela está no final da rua. A porta vermelha. — Ao olhar confuso de Magnus, ele perguntou: — Lembra?
— Claramente não! — Magnus rangeu os dentes. — Você vai me levar lá.
As sobrancelhas de Maddox se elevaram.
— Então eu vou agora?
Magnus agarrou o braço dele.
— Sim, vai. E, se o fizer, prometo recompensar cada moeda que roubei.
— Eu não acredito em você.
As palavras começaram a borbulhar na garganta de Magnus antes que ele tivesse a chance de pensar.
— Por favor.
Maddox piscou para ele.
— Por favor — Magnus sibilou, odiando as palavras e odiando que ele precisasse usá-las aqui e agora. — Preciso da sua ajuda. Não tenho muito tempo antes que seja tarde demais.
— Tarde demais para quê?
Um olhar para o céu mostrou que o sol certamente se moveu e o tempo estava passando muito mais rápido do que Magnus queria.
— Se eu não fizer isso, não posso ir para casa — ele falou por fim.
Maddox não disse nada por vários momentos. Em vez disso, ele simplesmente observou Magnus com cuidado.
— Para o seu reino de gelo e neve.
Tudo o que Magnus pôde fazer foi acenar com a cabeça trêmula, mordendo a língua para não começar a implorar como um dos cães de seu pai em busca de um regalo de seu mestre.
Finalmente, Maddox deu de ombros.
— Tudo bem. Me siga.
Soltando um grande suspiro de alívio, Magnus seguiu o rapaz pela rua em direção ao edifício mais alto do quarteirão – seis andares de altura – e subiu uma escada sinuosa que levava a uma porta vermelha no terceiro andar que tinha um símbolo esculpido.
Maddox tocou o símbolo, incrustado com um material dourado.
— Este é o símbolo da magia do ar, não é? — ele perguntou.
Os ombros de Magnus ficaram tensos.
— Você é o menino bruxo, não deveria saber?
Maddox ignorou isso.
— Quem será essa mulher Samara?
— Essa é uma excelente pergunta. Acho que estamos prestes a descobrir.
Magnus respirou fundo e considerou a porta, que de fato levava o símbolo da magia do ar sobre ela. Magnus tinha notado este símbolo em uma estátua da deusa auraniana, Cleiona, que ele tinha visto quando os Damoras fizeram uma visita real ao palácio auraniano quando ele era apenas um menino. Ele estava acompanhado do triângulo do fogo, cada símbolo estampado em uma palma da mão, assim como Valoria tinha água e terra nas dela.
— Ela é linda, não é? — A filha mais nova do rei auraniano, a princesa Cleiona – nomeada por causa da própria deusa – havia dito a ele quando notou Magnus admirando a estátua.
Ele olhara para a garotinha, o cabelo dourado caindo solto sobre os ombros. Todas as garotas limerianas prendiam os cabelos em ocasiões formais e ele se via fascinado pelas longas madeixas douradas da jovem princesa. A palavra sim estivera na ponta da língua, mas ele a segurou.
— Suponho que sim — ele disse em vez disso. — Se ela não tivesse um nome tão estúpido.
Ele conseguira fazer as bochechas da jovem princesa ficarem vermelhas.
— Eu não gosto de você  ela disse a ele.
— Bom  ele respondera antes de virar as costas para ela e procurar outras distrações mais dignas.
Ele balançou a cabeça, saindo da memória vívida. Algo totalmente irrelevante para se pensar agora, ele repreendeu-se.
Magnus levantou o punho para bater na porta, mas esta abriu-se um momento antes de sua mão fazer contato.
Uma mulher bonita olhou para ele. Ela tinha cabelos loiros escuros que pendiam sobre os ombros em ondas longas e soltas. O carvão negro em torno de seus olhos tornava a cor azul pálida mais viva, e uma pitada de vermelho destacava seus lábios cheios.
Ela levantou uma sobrancelha.
— Quem é você?
— Eu sou... — Ele limpou a garganta, forçando o nervosismo. — Meu nome é Prín... uh, Magnus. Apenas Magnus.
— Eu sou Maddox Corso — disse Maddox, olhando por trás de Magnus.
— Bem, Apenas Magnus e Maddox Corso — disse ela com um sorriso. — A que devo a honra de uma visita de dois jovens tão bonitos hoje?
— Você é Samara Balto? — Magnus perguntou.
Ela assentiu.
— Sou, de fato. Normalmente vocês precisariam de horário marcado, mas encontro-me livre no momento para visitantes inesperados. Por três moedas de ouro cada, prometo levá-los à masculinidade da maneira mais inesquecível que possam imaginar.
Magnus fitou-a por um momento, confuso, depois passou o olhar pelo vestido diáfano cor-de-rosa, que mostrava todas as suas curvas femininas.
— Você é uma cortesã — ele conseguiu dizer.
— Eu prefiro muito mais pensar em mim como uma mulher de negócios com habilidades muito especiais e procuradas.
Magnus balançou a cabeça, atordoado.
— Eu estava certo de que você seria uma bruxa.
O sorriso dela desapareceu em uma linha fina.
— Quem o mandou aqui?
— Eu não sei o nome dela. Mas ela me deu isso. — Magnus tirou a adaga obsidiana de sua camisa.
Os olhos de Samara se arregalaram ao vê-la.
Então, sem outra palavra, ela pegou as frentes das camisas de Magnus e Maddox e os puxou moldura a dentro.

Um comentário:

  1. É muito bom saber que ele gostava dela desde criança o amor deles dois foi muito difícil de concretiza .. Mais o melhor 😍❤

    ResponderExcluir

Para comentar, por favor utilize a opção Nome/URL e preencha seu nome/apelido/nick; o URL pode deixar em branco.

Boa leitura, E SEM SPOILER!