26 de janeiro de 2019

Capítulo 2

Meira

DENDERA NOS LEVA até uma praça que se estende a poucos passos da mina Tadil. As construções ali estão inteiras e limpas, escombros foram retirados de trilhas, chalés foram reparados. As famílias dos mineradores que já estão nas profundezas da Tadil lotam a praça, junto com soldados cordellianos, a maioria deles quicando de um pé para outro, esforçando-se para se manterem aquecidos. Uma tenda cobre a entrada da praça, nossa primeira parada quando entramos em fila, ao lado de mesas cheias de mapas e cálculos.
Sir e Alysson fazem reverências em meio a uma discussão silenciosa dentro da tenda. A atenção deles se volta para mim; um sorriso sincero estampa o rosto de Alysson, um lampejo de escrutínio percorre o de Sir. Estão tão elegantes quanto Nessa e Dendera, ambas de vestido — enquanto roupas tradicionais invernianas para mulheres consistem em vestidos longos plissados da cor marfim, a maioria dos homens usa túnicas azuis e calça por baixo de camadas de tecido branco, que os envolve formando um “X” na altura do tronco. Para mim, ainda é estranho ver Sir vestido em qualquer coisa que não seja o traje de batalha, mas ele nem ao menos tem uma adaga ao quadril. A ameaça se foi, nosso inimigo está morto.
— Minha rainha. — Sir faz uma reverência com a cabeça. Eu me arrepio ao ouvir o título sair dos lábios dele, mais uma coisa com a qual preciso me acostumar. Sir me chamando de “minha rainha”. Sir, meu general. Sir, pai de Mather.
Pensar em Mather me arrebata.
Não conversei com ele de verdade desde que subimos nos cavalos, lado a lado, fora de Jannuari, antes de eu assumir totalmente as responsabilidades de ser rainha, e de Mather abrir mão completamente de tudo que um dia achou que fosse.
Eu esperava que ele apenas precisasse de tempo para se ajustar, mas faz três meses desde que Mather disse algo mais do que “Sim, minha rainha” para mim. Não tenho ideia de como diminuir a distância entre nós — apenas continuo dizendo a mim mesma, talvez tolamente, que quando ele estiver pronto, vai falar comigo de novo.
Ou talvez tenha menos a ver com Mather não ser mais rei e mais a ver com Theron, que ainda é uma peça central na minha vida, embora nosso noivado tenha sido dissolvido. Por enquanto, é mais fácil não pensar em Mather. Usar a máscara, forçar o sorriso e encobrir as coisas terríveis por baixo.
Eu gostaria que não fosse necessário me obrigar a afastar tudo isso — queria que nenhum de nós precisasse, e que todos fôssemos fortes o bastante para lidar com aquilo que aconteceu conosco.
Uma dormência fria floresce em meu peito. Acendendo-se, selvagem, gélida e viva, e contenho um suspiro diante do que aquilo significa.
Quando Angra conquistou meu reino, há 16 anos, ele fez isso depois de quebrar nosso Condutor Real. E quando um condutor é quebrado em defesa de um reino, o governante daquele reino então se torna o condutor. O corpo dele, a força vital — tudo isso se une à magia. Ninguém sabe disso exceto eu, Angra, e a mulher cuja morte me transformou no condutor de Inverno: minha mãe.
Você pode ajudá-los a lidar com o que aconteceu, intromete-se Hannah. Como eu sou a magia, como ela é ilimitada dentro de meu corpo, Hannah consegue falar comigo, mesmo depois da morte.
Não vou forçar a cura para dentro deles, digo, me desanimando ao pensar nisso. Sei que a magia poderia curar os ferimentos físicos deles, mas e os emocionais? Não posso...
Não quis dizer isso, fala Hannah. Pode mostrar a eles que têm um futuro. Que Inverno é capaz de sobreviver.
Minha tensão relaxa. Tudo bem, consigo responder.
A multidão fica imóvel quando Sir me leva para fora da tenda. Vinte trabalhadores já estão nas profundezas da mina, pois toda inauguração acontece da mesma forma: eles entram; eu fico no alto e uso a magia para preenchê-los com agilidade e resistência sobre-humanas. A magia só funciona a distâncias curtas; não poderia usá-la nos mineradores se estivessem em Jannuari. Mas eles estão ali nos túneis logo adiante.
— Quando estiver pronta, minha rainha — diz Sir.
Se ele sente o quanto odeio aquelas inaugurações de minas, não diz nada, apenas se afasta com os braços às costas.
Trinco os dentes e tento ignorar todo o resto — Hannah, Sir, todos os olhos sobre mim, o silêncio pesado que se segue.
Minha magia era gloriosa. Quando estávamos presos em Primavera e ela irrompeu e nos salvou; quando voltamos para Inverno e não tive certeza de como ajudar a todos, e a magia fluiu para fora de mim para trazer a neve e encher meu povo com vitalidade. Quando eu não tinha ideia do que queria ou de como fazer qualquer coisa, fiquei grata pela forma como a magia sempre sabia.
Mas agora percebo que se eu quisesse impedir que ela vazasse de mim, que irrompesse pela terra, e preenchesse os mineiros com força e resistência, não conseguiria. É isso que mais me assusta nesses momentos — a magia se acende e sobe em redemoinhos, e eu sei, bem no fundo do poço pulsante que é meu coração, que meu corpo pereceria muito antes de a magia ao menos considerar parar.
Puxadas por algum sinal não dito, correntes de gelo espiralam por meu peito e transformam cada veia em neve cristalizada. Meu instinto reage com um rompante sufocante de necessidade de impedir aquilo, de dominá-lo, mas a razão suprime minha determinação, pois sei que o povo precisa daquela magia que estou tentando conter, e antes que eu consiga respirar, a magia se despeja sobre os mineradores. Permaneço de pé conforme ela sai, trêmula; abro os olhos para ver as expressões esperançosas da multidão. Não conseguem ver ou sentir, a não ser que eu canalize a magia para eles.
Ninguém sabe o quanto eu me sinto vazia, como uma aljava de flechas, existo apenas para conter uma arma maior.
Tentei contar a Sir a respeito, mas imediatamente me contive quando Noam entrou na sala. Se Noam descobrir que só precisa que um inimigo quebre o Condutor Real para que ele se torne o próprio condutor, não precisará encontrar o abismo. Será todo-poderoso, cheio de magia.
E não precisaria mais fingir se importar com Inverno.
Eu me viro, sedenta por alguma distração. A multidão interpreta isso como minha dispensa e aplaude baixinho.
— Fale com eles — insiste Sir, quando sigo para a tenda.
Envolvo o corpo com os braços.
— Dei o mesmo discurso todas as vezes que inaugurei uma mina. Eles ouviram tudo isso antes: renascimento, progresso, esperança.
— Estão esperando. — Sir não cede, e quando dou mais um passo na direção da tenda, ele segura meu braço. — Minha rainha. Está esquecendo qual é sua posição.
Se ao menos fosse isso, penso, então imediatamente me arrependo. Não quero esquecer quem eu sou agora.
Só queria ser tanto aquilo quanto eu mesma.
Alysson e Dendera estão silenciosas atrás de Sir; Conall e Garrigan esperam alguns passos ao lado; Theron chegou e conversa com alguns dos homens dele. Essa normalidade torna mais fácil ver o quanto Nessa subitamente parece deslocada ao lado dos irmãos. Os ombros dela se inclinam para a frente, mas a atenção está fixa em um beco à minha direita.
Eu me desvencilho da mão de Sir e aceno com a cabeça na direção de Nessa quando caminho para a frente.
— Eles voltaram — sussurra ela quando a alcanço. Os olhos de Nessa vão para o beco, e posso ver daquele ângulo que Finn e Greer estão no limite da luz, imóveis, até que minha atenção se fixe neles.
Finn agita a cabeça e os dois seguem para a tenda principal como se estivessem em Gaos esse tempo todo. Deixaram Jannuari conosco, mas se separaram logo depois, saindo de fininho antes que qualquer cordelliano percebesse que o conselho inverniano da rainha tinha passado de cinco membros para três.
Sir me guia até a tenda como se temesse que eu me recusasse a fazer isso também. Mas sigo à frente dele, juntando-me ao redor da mesa do centro a Alysson e Dendera. Todos tentamos manter um clima relaxado, nada fora do comum, nada que chame atenção. Mas minha ansiedade se desfaz em fios que parecem dar um nó em volta de meus pulmões a cada segundo que passa.
— O que encontraram? — Sir é o primeiro a falar, com o tom de voz grave.
Finn e Greer se afastam da mesa, suor escorre em borrões de terra nos rostos deles.
Cruzo os braços. Uma coisa tão rotineira — os conselheiros da rainha voltando de uma missão. Mas não consigo fazer com que a inquietude em minha mente concorde.
Eu deveria ter saído nessa viagem para reunir informações para a monarca — eu não deveria ser a monarca.
Finn abre a sacola e tira de dentro um amontoado, enquanto Greer puxa outro da cintura.
— Paramos em Primavera primeiro — diz Finn, concentrado na mesa. Apenas Conall, Garrigan e Nessa olham para fora da tenda, observando os cordellianos em busca de sinais de movimento em nossa direção. — Os relatórios iniciais que os cordellianos receberam estavam certos: nenhum sinal de Angra. Primavera se tornou um estado militar, governado por um punhado dos generais restantes dele. Nenhuma magia, no entanto, e sem hostilidade.
Alívio se esforça em percorrer meu corpo inteiro, mas eu o contenho. Só porque Primavera está silenciosa não quer dizer que as coisas estão bem — se Angra sobreviveu à batalha em Abril e quis manter a sua sobrevivência em segredo, seria um tolo caso permanecesse em Primavera.
E como não tivemos notícias dele desde a batalha, se estiver vivo... definitivamente não quer que alguém saiba.
— Passamos por Outono a caminho de Verão, ambos estão intocados — continua Finn. — Outono foi cortês, e Verão nem mesmo se deu conta de que estávamos lá, o que facilitou a busca por rumores sobre Angra. Yakim e Ventralli, por outro lado...
Eu me sobressalto em direção à mesa.
— Encontraram vocês?
Greer assente.
— Os boatos se espalharam sobre dois invernianos no reino. Por sorte, quando dissemos que estávamos lá em nome de nossa rainha, ficaram mais confortáveis conosco, mas não tiraram os olhos da gente até deixarmos as fronteiras. Tanto Yakim quanto Ventralli mandaram presentes para você.
Greer empurra os amontoados na minha direção. Pego o primeiro e abro o tecido desbotado e revelo um livro, um volume espesso encapado em couro e com letras pretas gravadas na capa.
— A implementação eficiente de leis fiscais no reinado da rainha Giselle? — leio em voz alta. A rainha yakimiana me mandou um livro sobre leis fiscais que ela implementou?
Finn dá de ombros.
— Ela queria nos dar mais, mas dissemos que não tínhamos recursos para carregar tudo. E convidou você para o reino dela. As duas convidaram, na verdade.
Isso me faz pegar o outro pacote. Esse se desenrola, espalhando-se sobre a mesa para revelar uma tapeçaria, fios multicoloridos que se entrelaçam e formam uma paisagem dos campos nevados de Inverno tomando conta da floresta verde e floral de Primavera.
— A rainha ventralliana mandou criarem isso — observa Finn — para parabenizar você pela vitória.
Passo um dedo pelo redemoinho formado por um fio de prata que separa Inverno de Primavera.
— Estivemos em Ventralli e Yakim antes de Angra cair, reunindo mantimentos e outras coisas do tipo, e as pessoas nos viram, e nenhuma vez as famílias reais se importaram. Por que agora?
Greer parece ainda mais velho com suas rugas fundas, seu corpo curvado.
— Cordell tem as mãos em dois reinos Estação agora, Outono e Inverno. Com uma presença tão forte aqui, seria capaz de tomar Primavera facilmente também, se Noam escolhesse fazê-lo. Verão tem acordos de comércio com Yakim, mas nenhuma aliança formal. Os outros reinos Ritmo sabem que Noam está procurando o abismo de magia e temem as ambições dele. Estão testando a lealdade de Inverno a Cordell para ver se podem destronar Noam.
— Ambas insistiram bastante para que você as visitasse — acrescenta Finn. — A rainha Giselle nos disse que você é sempre bem-vinda. A rainha Raelyn disse o mesmo de Ventralli; parece ser ela quem fala pelo rei, embora ele também estivesse bastante ansioso para conhecer você.
Sacudo a cabeça.
— Algum desses reinos mostrou sinais de... Dele?
Não consigo dizer o nome dele. Não consigo me obrigar a pronunciá-lo.
— Não, minha rainha — responde Greer. — Não havia sinal de Angra. Não fomos a Paisly. A viagem pelas montanhas deles é traiçoeira, e depois das atitudes que observamos em Ventralli e Yakim, não achamos necessário.
— Por quê?
— Porque Paisly também é um reino Ritmo, não abrigariam o rei destronado de um reino Estação. Yakim e Ventralli mal estavam dispostos a nos abrigar. Não acho... — Greer para. — Minha rainha, não acho que Angra esteja em Primoria.
O modo como ele fala me faz fechar os olhos. Quando sugeri pela primeira vez que alguém vasculhasse o mundo em busca de Angra, todos acharam que eu estava sendo excessivamente cautelosa. Ele desapareceu depois da batalha em Abril, mas a maioria acredita que a magia o desintegrou, não que ele tenha escapado.
— Ele está morto — diz Sir. — Não é mais uma ameaça com a qual devamos nos preocupar.
Eu o encaro, exausta. Ele — e o restante de meu conselho inverniano — ainda acredita que Angra foi derrotado, mesmo depois de eu ter dito a eles que o Condutor Real de Angra tinha sido tomado por uma magia sombria criada há milhares de anos, antes de os Condutores Reais serem feitos. Na época, todos tinham pequenos condutores, mas quando, aos poucos, passaram a usar a magia para o mal, esse uso negativo deu vida à Ruína, uma magia poderosa que infectou a todos com a força e a necessidade de realizar os desejos mais terríveis. Com a criação dos Condutores Reais, e o expurgo de todos os condutores menores, a Ruína se enfraqueceu, mas não morreu. Ela se alimentou do poder de Angra até que Mather quebrou o cetro de Primavera.
Se Angra estiver vivo, pode ser como eu, um condutor em pessoa, sem o fardo das limitações de um condutor-objeto. E a Ruína pode ser... infinita.
Mas se Angra estivesse vivo, por que estaria se escondendo? Por que não teria percorrido o mundo, escravizado todos nós? Talvez seja isso que faça Sir ter tanta certeza de que Angra está morto.
Todos me observam, até mesmo Conall, Garrigan e Nessa. Meus olhos passam por eles e então se arregalam. Um segundo, ninguém observou os cordellianos por um segundo...
— Problemas?
Um soldado cordelliano se abaixa para entrar na tenda, seguido por mais três. Assim que as silhuetas vestidas em armaduras ocupam o espaço, meu conselho entra em alerta, afastando qualquer pretensão de tranquilidade.
Solto um murmúrio grave quando Theron entra na tenda também.
— Tenho certeza de que estão discutindo como melhor proceder em relação aos espólios de Tadil — sugere Theron, passando para meu lado. Ele inclina a cabeça para os homens. — Nenhum problema aqui.
Os soldados hesitam, obviamente não convencidos, mas Theron é o príncipe deles.
Os homens recuam e saem da tenda quando Theron passa a mão por minha cintura. O calafrio da magia pulsa por mim, mas agora maculado — eu não deveria precisar que alguém de outro território viesse ao meu resgate. Principalmente para afastar os mesmos homens que deveriam estar nos protegendo.
— Obrigado por interceder, príncipe Theron — diz Sir.
Theron inclina a cabeça.
— Não precisa me agradecer. Deveriam poder se reunir no próprio reino sem interferência cordelliana.
Ergo uma sobrancelha para ele.
— Não deixe que seu pai ouça isso.
A frase faz com que Theron me segure com mais força, me puxando para perto.
— Meu pai ouve o que quer — diz ele. — Mas o que estavam discutindo?
Sir se aproxima. Meus olhos se voltam para o lado, reparando em Finn e Greer descendo a rua, provavelmente seguindo para se lavarem do cansaço da viagem.
— Só estávamos discutindo...
Mas qualquer que fosse a mentira que Sir estivesse prestes a contar se comprova desnecessária. Theron se afasta de mim e pega a tapeçaria da mesa.
— Ventralli? — pergunta ele. — Por que tem isto?
É claro que saberia de onde vem a tapeçaria. A mãe dele era tia do atual rei de Ventralli; o quarto de Theron em Bithai está cheio de pinturas, máscaras e outros tesouros do lado ventralliano da família.
Olho para Sir, que me encara de volta. A mesma emoção toma conta de todos. Dendera me observa, Alysson se agarra à beira da mesa. Todos esperam minha resposta.
Todos esperam que eu minta.
A viagem de Finn e de Greer deveria ser um segredo, um ato frágil de Inverno diante da ocupação de Cordell. Prova de que nós podemos fazer algo, ser algo, sozinhos.
Mas mentir para Theron...
O maxilar de Sir se contrai quando permaneço em silêncio por um segundo a mais.
— Nas ruínas de Gaos — diz ele. — Encontramos nos prédios.
Não percebo até que as palavras deixem os lábios de Sir que Theron pode descobrir a verdade de qualquer forma; se Giselle e Raelyn receberam Finn e Greer, a notícia vai se espalhar. Noam vai, em algum momento, saber que seus pares dos reinos Ritmo receberam visitantes invernianos.
Engasgo, mas a mentira foi contada. Recuar agora só pareceria pior — não? Não posso simplesmente pedir a opinião de Sir a respeito disso. Além do mais, foi ele quem mentiu. Talvez... não tenha problema.
Não. Tem problema. Mas não sei como uma rainha consertaria isso.
— É lindo. — Theron passa os dedos pelos fios. — Uma batalha entre Inverno e Primavera?
Ele me olha, ansioso. Consigo até dar um risinho.
— Está perguntando para mim? É você quem tem sangue ventralliano.
Theron dá um meio sorriso.
— Ah, mas eu esperava que parte de mim tivesse passado para você a esta altura.
Minhas bochechas ficam quentes, inflamadas pelo grupo de conselheiros que ainda nos observa, pela forma como Theron estica o corpo, inclinando a cabeça para mim. Não sei se ele sabe que Sir mentiu — só consigo ver aquele olhar que surge sempre que algo artístico está por perto, as feições suavizadas. Ver Theron assim é tão bom, tão diferente de seu estado recente de constante tensão, alternando entre temor e memórias, que quase não consigo lembrar quando vi aquele olhar antes.
Sinto um sobressalto ao me dar conta. É exatamente como ele me olhou nos campos do lado de fora de Gaos, e sempre que quer me beijar, como se eu fosse uma obra de arte que está tentando interpretar.
Meu coração bate tão alto que tenho certeza de que ele ouve. Se estivéssemos no quarto de Theron, ele, o príncipe de Cordell, eu, uma soldada inverniana, teria flutuado até ele sem pensar duas vezes.
Mas olho em volta da tenda, para Sir, Dendera, Alysson. Até mesmo Conall, Garrigan e Nessa. Todos me olham de forma semelhante: como se apenas tivessem me conhecido como a rainha de Inverno, uma figura a quem devem reverência e adoração.
Mas não sou nenhuma dessas coisas. Sou alguém que acabou de ajudar a mentir para um dos amigos mais próximos.
É disso que Inverno precisa. É isso que Inverno precisa que eu seja.
Odeio quem sou agora.
Um estrondo grave estremece a terra. A vibração me pega desprevenida, a dormência me percorre enquanto o mundo chacoalha com uma cacofonia violenta de tremores e estampidos como gases sendo expelidos. Alguns segundos de agitação e tudo fica quieto e silencioso, como se nada tivesse acontecido.
Mas algo aconteceu. Algo que faz as famílias dos mineradores, ainda na praça, gritarem de terror:
Um desabamento.
A percepção tensiona cada nervo meu, e disparo para longe da mesa. Minha saia se enrosca nas minhas pernas até que eu a puxe em um emaranhado e siga mais rápido, mas assim que me viro para a praça, alguém me agarra.
— Minha rainha! — A voz de Sir tem o tom familiar de comando dele. — Não pode...
— Há mineradores lá embaixo — grito de volta. As pessoas ao meu redor disparam na direção da entrada da mina, agrupando-se contra soldados cordellianos que lutam para mantê-las na praça até que decisões possam ser tomadas. — Meu povo. Sou a única que pode curá-los, e não deixarei que fiquem lá embaixo!
Eu sabia que não deveríamos ter aberto aquela mina. E agora, parte de meu povo morreu por causa da insistência de Noam em procurar algo que jamais encontraremos. Vou matá-lo.
Sir me segura com mais força.
— Você é a rainha, você não corre até minas desabadas!
Quase grito com Sir, mas nenhum som sai. Porque no cume da montanha corre um dos soldados cordellianos encarregados de vigiar a entrada da mina.
— Um minerador! — anuncia ele para a praça, recebido por gritos pedindo detalhes. — Subindo pela abertura!
Alívio percorre meu estômago. A magia, foi ela que deu a eles resistência e força. Talvez tenha deixado que um escapasse para correr desesperada e rapidamente para cima da entrada da mina.
Sir abre caminho pela multidão, me deixando seguir um pouco atrás.
Quando chegamos ao topo, a montanha do outro lado se curva para baixo antes de se dividir em uma trilha demarcada por pedregulhos. A trilha dá para uma caverna que parece qualquer outra — escura e interminável. Sir e eu corremos para a caverna, e uma fila de pessoas — Conall e Garrigan, Theron, alguns soldados cordellianos — se reúne atrás de nós. Quando me concentro na entrada, imploro à escuridão que deixe em paz o minerador, imploro por notícias de que o desabamento não foi um desabamento, mas outra coisa...
Assim que chegamos à entrada, o minerador sai aos tropeços e cai de joelhos. Está tão coberto de terra que a pele marfim e os cabelos estão cinza, e o homem forma um redemoinho de poeira contra a luz do sol. Eu me abaixo diante dele, com as mãos nos ombros do minerador. Sem pensar, sem chance de reconsiderar — a magia se acumula em meu peito, um rompante de gelo que percorre meus braços e se choca ao corpo do minerador, limpando os pulmões dele, curando os ferimentos nos braços e nas pernas.
Todo o ar é drenado de mim, me deixando ofegante devido ao uso inesperado de magia quando a tensão no rosto do homem se alivia. Será que percebeu que usei magia nele?
— Uma parede desabou, minha rainha — conta o minerador, em meio à tosse. — Não estávamos esperando, não ali, mas...
Theron se abaixa ao meu lado, a atenção fixa no minerador, assustado, temeroso, tenso.
— Nós... encontramos — diz o minerador, como se não pudesse acreditar na própria notícia. Ele pisca para mim, e tento, com tudo que me resta, respirar, apenas respirar, continue respirando.
— Encontramos, minha rainha. O abismo de magia.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!