21 de janeiro de 2019

Capítulo 2

MATHER PASSA POR mim, disparado pela grama.
— Eles chegaram!
Do acampamento, a esposa de Sir, Alysson, prende a saia em um nó e segue às pressas para longe da comida que estava preparando, e Finn sai correndo de uma tenda, com uma bolsa médica.
Solto a espada e sigo Mather, concentrada nas silhuetas diante de nós. Aquele é Sir? Ele está inclinado demais para a frente na sela? Será que se feriu? É claro que sim. Dois deles foram para os limites de Abril, a capital de Primavera, e os outros dois se infiltraram em um dos portos litorâneos de Primavera, Lynia. Nenhum dos lugares fica muito para dentro das fronteiras de Primavera, mas ainda estão sob o domínio de Angra, e qualquer missão ali termina com pelo menos algum derramamento de sangue.
Mather e eu chegamos primeiro ao grupo. A bolsa de Finn não o impede de chegar antes de Alysson e ele para, aos tropeços, segundos atrás de nós, puxando ataduras e cremes da bolsa.
Dendera desaba do cavalo, ofegante no chão. Ela está no fim dos quarenta anos, a idade de Alysson, e os cabelos brancos de inverniana oscilam sobre o rosto marcado por leves rugas ao redor dos olhos e da boca.
Dendera passa um dos braços em volta da própria cintura e se vira para Greer quando ele sai do cavalo.
— A perna dele — murmura Dendera, indicando para Finn a laceração na coxa de Greer.
Greer direciona Finn de volta para Dendera.
— Ela está pior — diz ele, apoiando a testa na sela enquanto respira profunda e regularmente. Os cabelos curtos cor de marfim de Greer estão grudados na cabeça, sujos de suor e sangue. Na maior parte do tempo, é fácil esquecer que Greer é o mais velho do grupo, escondendo a idade por trás da determinação irredutível de aceitar qualquer tarefa, qualquer missão.
Henn desce do cavalo ao lado de Dendera, apoiando um dos braços da mulher sobre o ombro dele para mantê-la de pé. A forma como Henn a conforta me faz querer virar o rosto, como se eu estivesse vendo algo íntimo. Não deveria parecer diferente da forma como tratamos um ao outro — um exército aleatório com Sir como comandante, e não uma família. Mas não consigo deixar de imaginar se, caso nossa situação fosse melhor, Dendera e Henn gostariam de ser uma família de verdade.
Todos os quatro sangram em lugares diversos do corpo, com camisas rasgadas e ataduras improvisadas manchadas de marrom-avermelhado com uma mistura de sangue seco e fresco. Sir é o único que desce do cavalo sem esforço e fica de pé, alto e imóvel, nos observando distraidamente. Com todo o tempo que passo com Mather, eu deveria ser melhor em decodificar olhares sem emoção. Mas eu simplesmente fico parada ali, o corpo congelado com ansiedade, incapaz de me mover para ajudar Finn e Mather a distribuírem ataduras.
Meus olhos percorrem cada cavalo de cima a baixo, cada bolsa. Será que conseguiram a metade do medalhão?
— William! — O grito de Alysson a precede por alguns segundos conforme a mulher se atira ao marido, mandando os ferimentos aos diabos. Ver Sir abraçá-la, erguer o corpo minúsculo da mulher do chão, é como ver um urso agarrar uma boneca de pano; poder e força ao lado de fragilidade e docilidade. Eles se abraçam em um raro momento de vulnerabilidade.
Sir coloca a mulher no chão.
— Está em Lynia. Chegou lá no dia em que partimos.
Finn abaixa o punhado de ataduras que pressionava contra a perna de Greer. Mather ergue o rosto ao mesmo tempo em que segura um pequeno cantil de água para Dendera beber. Inspiro ar quente e pesado, com a mente acelerada.
Estamos em busca do medalhão por toda Primoria desde que Inverno sucumbiu, mas apenas um punhado de vezes recebemos pistas de onde uma das metades poderia estar. Angra mantém metade dele em movimento, saltando entre cidades de Primavera e assentamentos remotos nas áreas não reivindicadas de Primoria — os sopés das montanhas Paisel, portos no mar — para tornar mais difícil para nós conseguirmos as duas metades de volta.
Agora estamos perto. Meu peito infla com a mesma animação que sei que todos estão sentindo, ou sentiram, antes de acabarem aqui, quebrados e ensanguentados. Sir enviará alguém atrás dele. Pessoas renovadas e descansadas dão os melhores soldados, então não enviará ninguém que acabou de voltar. O que significa...
Corro até Sir enquanto ele olha Mather de cima a baixo, então faz o mesmo com Finn.
— Vocês dois, saiam agora — diz ele. — Moverão o medalhão de novo em breve, pois sabem que escapamos.
Paro. Digo:
— Eles precisarão de todos. Vou também.
Sir me olha como se tivesse esquecido que eu estava ali. Ele franze a testa, faz que não com a cabeça.
— Agora não. Mather, Finn, quero que estejam prontos para partir em 15 minutos. Vão.
Finn sai correndo, a bolsa oscilando em volta do corpo conforme se apressa de volta para o acampamento. Obediente, sem pensar duas vezes, como todos sempre são.
Encaro Sir com o maxilar trincado.
— Posso fazer isso. Eu vou.
Sir segura as rédeas do cavalo dele e começa a puxar o animal na direção do acampamento. Todos o seguem, exceto Mather, que se demora atrás, nos observando, com os olhos tranquilos.
— Não tenho tempo para discutir isso — dispara Sir. — É perigoso demais.
— Perigoso demais para mim, mas não para seu futuro rei?
Sir me olha conforme caminho ao lado dele.
— Venceu Mather no treino de luta?
Faço uma careta. Sir entende isso como minha resposta.
— Por isso é perigoso demais para você. Estamos perto demais para correr riscos.
A grama da pradaria sopra contra meu quadril, minhas botas afundam na terra a cada passo.
— Está errado — resmungo. — Posso ajudar. Eu posso ser...
— Você ajuda.
— Ah, sim, aquela sacola de arroz que comprei em Outono no mês passado salvou nosso reino.
— Você é muito mais útil onde está — corrige Sir.
Seguro o braço dele para fazê-lo parar. Sir se volta para mim, o rosto sujo de terra e sangue sobre a barba branca, mechas arrepiadas de cabelos marfim despontam em volta do rosto dele. Sir parece cansado, hesitando entre dar mais um passo e desabar.
— Posso fazer mais do que isso — sussurro. — Estou pronta, William.
Eu o chamei de pai certa vez. Ao ouvir as histórias dele sobre meus verdadeiros pais terem morrido nas ruas da capital de Inverno, Jannuari, quando Primavera a tomou, e sobre como Sir me pegou, bebê, e me resgatou, pareceu lógico para uma menina de oito anos que o homem que a criava deveria ser chamado de pai. Mas ele adquiriu um tom de vermelho tão forte que tive medo que começasse a cuspir sangue, e Sir grunhiu para mim como jamais tinha feito. Ele não era meu pai e eu nunca, jamais, deveria chamá-lo dessa forma novamente. Eu só deveria chamá-lo pelo nome dele, ou por um título, ou algo que mostrasse respeito. Mas não pai. Jamais pai.
Então, dali em diante, eu o chamei de Sir. Sim, Sir. Não, Sir. Você não é meu pai e jamais serei sua filha e odeio o fato de você ser tudo o que tenho, Sir.
Agora ele me ignora, puxando o cavalo adiante. As decisões de Sir são definitivas, e nenhuma discussão o fará mudar de ideia.
Como se isso tivesse me impedido alguma vez.
— Isto não basta! E embora não possa culpá-lo por tentar fazer as coisas da forma mais eficiente para salvar nosso reino, sei que eu também posso fazer coisas por Inverno.
Alguns passos atrás de mim, Dendera geme, ainda apoiada no pescoço de Henn.
— Meira — diz ela, com a voz exausta. — Por favor, querida, deveria estar feliz por não ser necessária.
Eu me viro para ela.
— Só porque você preferiria estar remendando vestidos não quer dizer que todas as mulheres deveriam querer isso.
A boca de Dendera se escancara e eu fecho os olhos com força.
— Não era para sair dessa forma — suspiro, me obrigando a encará-la. Dendera se apoia com mais força sobre Henn agora, os olhos cheios de lágrimas. — Só quis dizer que você não deveria ser forçada a lutar quando não quer e eu não deveria ser forçada a não lutar quando eu quero. Se Sir me deixasse ir, talvez você não precisasse sair em missões. Todos venceriam.
Dendera não parece menos magoada, mas ela olha para Sir, uma pontada de esperança escondida por trás da dor. Ela costumava ser como Alysson, cuidava do acampamento, até que Sir ficou desesperado — ele começou a precisar de Dendera para missões, assim como começou a me deixar ajudar com a busca por comida. Ela jamais discute com Sir, nem quando ele a obriga a treinar ou quando a manda em missões como essa. Mas ao ver os olhos de Dendera, entendo o quanto essa vida a apavora, o quanto ela preferiria estar no acampamento. Dendera se sente tão desconfortável com armas quanto eu me sentiria em um vestido.
Mather caminha até mim pela grama e acho que tentará dizer palavras para quebrar a tensão. Mas depois de alguns passos, Mather desaba no chão como se a terra o tivesse puxado para baixo e se recusasse a soltá-lo. Franzo a testa quando Mather segura o tornozelo.
— Aaaaiii — urra ele.
Sir se abaixa com uma rápida descarga de pânico.
— O que aconteceu?
Mather chacoalha de um lado para o outro e se encolhe quando todos se aproximam.
— Meira me venceu na última luta, ela não contou? Me jogou no chão. Acho que não consigo ir para Lynia.
As rugas no rosto de Sir relaxam.
— Não vi você correr para nos receber?
Mather não hesita um segundo, ainda se balançando e se encolhendo.
— Eu corri apesar da dor.
Prendo a respiração até que Sir erga o olhar para mim e Mather pisca um olho discretamente por cima de um sorriso largo.
— Você o derrotou? — pergunta Sir, incrédulo.
Dou de ombros. Sou uma péssima mentirosa, então apenas deixo como está. Mather está me ajudando. Minhas bochechas queimam.
Sir sabe que estamos mentindo, mas não arriscará enviar Mather caso esteja realmente ferido. Sir confia em Mather, mais do que em todos ali. Um momento passa até que Sir esfregue as têmporas e dispare um suspiro alto pelo nariz.
— Ajude Mather a chegar ao acampamento, então pegue o chakram.
Tento conter um gritinho de triunfo, mas ele sai mesmo assim, um ruído esquisito e balbuciado que fica preso em minha garganta e então dispara pela boca ainda contraída. Sir fica de pé, pega o cavalo e marcha até o acampamento com determinação renovada, como se não quisesse me encarar agora que cedeu. Todos o seguem, me deixando para ajudar Mather, o inválido.
Quando os outros estão fora do alcance da voz, desabo no chão e o abraço.
— Você é meu monarca preferido da história dos monarcas — balbucio ao ombro de Mather.
Os braços dele me envolvem, apertam uma vez, disparando calafrios pelo meu corpo quando percebo... que estamos nos abraçando.
Fico de pé às pressas e estendo a mão para Mather, certa de que meu rosto ficará manchado de vermelho para sempre.
— Precisamos voltar.
Mather pega minha mão, mas puxa para baixo quando eu puxo para cima, evitando que eu saia.
— Espere.
Ele se vira e tira algo do bolso, então me ajoelho ao lado de Mather, com as sobrancelhas levemente erguidas. Quando ele se vira de volta, está com o rosto sério e o nó de nervosismo em meu estômago se expande. No centro da palma de Mather está um pedaço redondo de lápis-lazúli, uma das pedras mais raras que Inverno costumava minerar das montanhas Klaryn há muito tempo.
— Encontrei quando estávamos em Outono, há alguns anos — começa Mather, com o olhar suave. — Depois da lição que William nos deu sobre a economia de Inverno. Sobre nossas minas nas montanhas Klaryn, sobre escavar carvão e minerais e pedras preciosas. — Ele para e posso ver a criança que era Mather então. Nós mudamos para Outono há oito anos, um menino-príncipe fingindo ser um soldado e uma menina-órfã que só queria fingir ao lado dele.
— Eu gostava de pensar que era mágica — continua Mather, com o rosto sério. — Depois de nossa lição sobre os reinos Estação estarem sobre um abismo de magia, e nossas terras serem diretamente afetadas pelo poder, e sobre Angra partir o condutor de Inverno e levar nosso poder com um ágil golpe do punho, eu queria... precisava... acreditar que podíamos conseguir magia em outro lugar. Nosso mundo pode parecer equilibrado, quatro reinos de estações eternas, quatro reinos que percorrem o ciclo de todas as estações; quatro reinos com condutores de sangue feminino, quatro com sangue masculino. Mas não é equilibrado, sempre se inclinará a favor dos monarcas que têm magia em detrimento das pessoas que não têm, como seus súditos e... outros monarcas cujos condutores quebram. E eu odiava ser tão... — a voz de Mather falha — indefeso — conclui ele.
Minha testa se franze.
— Você está longe de ser indefeso, Mather.
O meio sorriso dele retorna e Mather dá de ombros.
— Ao menos este lápis-lazúli era uma conexão com Inverno. E tê-lo me ajudou a me sentir mais forte, acho.
Mordo o lábio, sem deixar de notar como Mather ignorou o que eu disse.
Ele pega minha mão e coloca a pedra na palma.
— Quero que fique com ela.
Uma tontura invade meus sentidos quando Mather não solta minha mão, não desvia o olhar do meu. E a luz que percorre os olhos dele — isso é importante para Mather. Ele me entrega uma parte da infância.
Aproximo o lápis-lazúli para examinar a pedra na luz fraca do sol poente. É impossivelmente azul, não é maior que uma moeda, com riscos mais escuros de azul percorrendo a superfície.
Do lado de fora do abismo perdido, a magia só existiu nos Condutores Reais dos oito reinos de Primoria, reservada aos governantes, para que usassem conforme necessário. Não em objetos como aquela pequena pedra azul, apoiada tão discretamente em minha palma. Mas sei por que Mather queria acreditar que a pedra tem magia: às vezes, colocar nossas crenças em algo maior do que nós mesmos nos ajuda a chegar a um estado em que podemos ser completos sozinhos, com ou sem magia.
— Não que eu não ache que você ficará bem — acrescenta ele. — Só me ajudou, algumas vezes, ter um pedaço de Inverno comigo.
Aperto a pedra na mão, o frio se acumula em meu peito, sob as batidas lentas e constantes do coração.
— Obrigada. — Assinto na direção do tornozelo de Mather. — Por tudo. Você não...
Ele faz que não com a cabeça.
— Sim. Você merece lutar por seu lar tanto quanto o resto de nós.
Engulo em seco. Ainda estamos sozinhos fora do acampamento, com apenas a leve brisa soprando a grama e algumas árvores sem folhas por perto.
— Preciso fazer as malas.
Mather assente, o rosto inexpressivo de novo, com aquele vazio enlouquecedor e impenetrável. Ele finge mancar até o acampamento, com meu ombro sob um dos braços para ajudar com a farsa. Mantenho a mão em torno da cintura de Mather, a outra segurando o lápis-lazúli. Mal consigo respirar profundamente, estou tão ciente do corpo de Mather contra o meu, de como, quando olho para ele, vejo a vida pela qual Sir diz que estamos lutando. Algo simples e feliz, apenas Mather e eu em um chalé aconchegante em Inverno.
Mas ele não é apenas Mather — ele é Inverno. Sempre será Inverno primeiro, antes de tudo, e há um palácio no futuro dele, não um chalé.
Então ajudo Mather a se aproximar da fogueira e corro para empacotar o que precisarei para a viagem, me movendo e trabalhando em silêncio, porque ficar em silêncio é infinitamente mais fácil do que falar. E agora, finalmente, estou saindo do lugar e fazendo o que sempre quis — ajudando meu reino.

Um comentário:

  1. Se Mather não estiver afim dela também, então tenho que ler de novo porque estou lendo errado.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!