26 de janeiro de 2019

Capítulo 29


Meira

LEKAN FAZ UMA reverência de agradecimento com a cabeça e começa a dizer algo mais quando um lampejo de movimento me faz girar. Conall saca uma adaga com a mão boa quando Ceridwen vem correndo pela rua atrás de nós, o rosto enérgico com um ódio tóxico.
— O que estão fazendo aqui? — dispara ela, embora eu não consiga evitar sentir que o ódio não está direcionado a nós. É apenas parte dela, faminta e selvagem.
Lekan dá um passo adiante.
— Viemos impedir você de fazer alguma burrice.
Puxo um fôlego irregular.
Concentração, concentração. Não pense em mais nada. Sou uma soldada; Sir me treinou para manter as emoções contidas. Posso fazer isso.
Não quero morrer...
— Lekan disse que você tinha sumido — começo a dizer, com as mãos fechadas em punhos que ficam mais apertados para balancear o tremor na voz. — Imaginei que tivesse saído para fazer algo inconsequente, como impedir seu irmão de coletar mais escravos.
O lábio de Ceridwen se contrai e ela desvia dos olhos de Lekan para mim.
— Não vou impedir uma coleta — diz ela. — Vou impedir as coletas.
Lekan percebe o que Ceridwen quer dizer antes de mim. Ele olha na direção da estrada depois do nosso beco e resmunga para ela quando vê que o caminho ainda está livre.
— Não pode derrotá-lo, Cerie.
— Eu definitivamente não poderia derrotá-lo em Verão, mas ele só tem uma fração dos soldados aqui. É agora ou perco a oportunidade. Sabe melhor do que eu que isso precisa parar.
Lekan passa a mão pelos cabelos, as mechas vermelhas oscilam selvagemente em volta dos dedos dele.
— Como isso vai impedir as coletas? — Mas assim que pergunto, sei a resposta.
A princesa vai matar o irmão.
— Ceridwen. — Digo o nome dela com um arquejo, como se alguém tivesse me socado o estômago.
Ela me olha com raiva.
— Não. Não ouse me julgar. Ele é o último herdeiro do sexo masculino vivo de Verão; se morrer, estaremos livres da magia. Verão terá a chance de ser mais do que inebriada pela felicidade, e se algum dia eu tiver um filho, me certificarei de que seja muito, muito melhor do que meu irmão. Você não tem ideia de como tem sido, do que ele está fazendo agora, e não posso...
— Por que agora? — pergunta Lekan, para que eu não precise, com o tom de voz sombrio. — Se a questão é Jesse...
— Não tem nada a ver com ele! — A voz de Ceridwen ameaça um grito, mas ela se reprime, transformando-o em um sussurro alto. — Simon... Ele... Você já viu, Lekan. — Ceridwen semicerra os olhos. — Não viu?
Lekan sacode a cabeça.
— Com os escravos não veranianos — começa ela. — Pode controlá-los. Pode controlá-los, como controla os próprios súditos. Não sei como, mas não podemos permitir que continue assim, principalmente se a influência está se estendendo para mais reinos. É demais.
— Espere... Os outros em Juli agiam exatamente como os escravos veranianos porque Simon os controlava? — esclareço. Ela assente.
Achei que o motivo era mais a forma dos escravos de lidarem com as vidas, mas... Simon controla não veranianos.
Apenas uma pessoa jamais conseguiu influenciar pessoas que não fossem do reino dele: Angra.
— Não, Cerie. Ele apenas os droga — diz Lekan, incerto. — Não é?
Mas Ceridwen mergulha entre Lekan e eu, disparando na direção da estrada e, além dela, da caravana à espera. Lekan agarra o braço de Ceridwen e a impede, mas a princesa se desvencilha, apontando um dedo firme para ele.
— Preciso de você no chão — diz Ceridwen, e se vira para mim. — E você... Você me deve, rainha de Inverno. Seu chakram seria melhor em um telhado. Seu guarda, no entanto, deveria vir comigo.
— Não estou aqui para lutar com você — afirma Conall. — Estou aqui para proteger minha rainha.
O lábio de Ceridwen se contrai, o ódio dela revigorado, mas seguro o braço bom de Conall, meu corpo se move independentemente da mente rodopiante e caótica.
— Tomarei o telhado — digo a ele. — Pode fica no chão abaixo de mim. Lute lá embaixo.
Angra. Simon controla pessoas que não são súditos dele? Não, não, ela deve estar errada...
Conall não parece nada tranquilo, mas ouve o tom de ordem em minha voz e dá um aceno breve.
Ceridwen grunhe em aprovação e dá mais um passo para trás.
Lekan se move atrás dela.
— Espere...
O olhar de raiva que Ceridwen dá a ele poderia incinerar uma parede de tijolos.
— Ele vem ferindo nosso reino há tempo demais, e se está usando magia em não veranianos...
Quero gritar com ela, uma onda de medo toma conta de mim. Não, não pode ser a Ruína... Não pode ser magia. Não houve sinal de Angra ou da escuridão dele em meses.
Mas a Ruína precisa de um anfitrião, como qualquer magia. Precisa emanar de alguém...
Lekan trinca o maxilar e a forma como ele salta para a frente me faz pensar que Ceridwen foi longe demais com ele. Mas o homem apenas fica parado ali, músculos rígidos, encarando a princesa com olhos que dizem mais do que qualquer palavra poderia. Por fim, ele assente, um movimento firme da cabeça, e Ceridwen lança um sorriso mortal antes de sair andando pela esquina. Lekan vai atrás dela, já segurando um par de facas que sacou do manto.
Observo até que não consiga mais ver as sombras deles na rua, a cidade ao redor está silenciosa, exceto pelos murmúrios distantes de pessoas cuidando dos afazeres do dia e, mais perto, as vozes grossas dos soldados. Olho para Conall, mas ele apenas espera. Não leu a ameaça nas palavras de Ceridwen. Não chegou à mesma conclusão que me arrasa.
A magia de Angra não se dissipou.
Ele pode estar vivo.
Forço um aceno de cabeça para Conall e ele vai para a quina do prédio, misturando-se às sombras que o colocam entre essa rua e aquela logo adiante, aquela para a qual Ceridwen e Lekan correm.
Não me dou tempo para fazer mais nada. Nada de pensar, nenhuma chance de refletir sobre tudo que ameaça me destruir de dentro para fora. Por enquanto, durante esse breve momento, sou apenas uma garota ajudando a impedir um ato terrível. Não sou nada além da tensão em meus braços conforme me impulsiono para cima da lateral do prédio, de janela a janela, parapeito a parapeito. Não sou nada além do calafrio que se espalha por meu braço conforme fico de pé no telhado, ao vento ininterrupto.
Angra está vivo.
Ele está vivo.
Ele...
Essas palavras martelam minha mente, junto com minha pulsação, e dou passos lentos e cautelosos por cima das telhas de argila inclinadas do telhado, me agacho e olho para a praça, três andares abaixo.
Apenas concentre-se nesta tarefa. Ajude Ceridwen. Talvez eu veja algo que explicará o que Simon está fazendo — talvez tudo faça sentido.
E isso, sinceramente, me aterroriza mais do que qualquer outra coisa.
Prédios formam uma gaiola ao redor de uma pequena praça aberta de paralelepípedos amarelo-pálido. As cores vibrantes de Rintiero reluzem à luz forte do dia, os prédios magenta e pêssego fornecem um fundo enérgico para as pessoas na praça.
A carruagem manchada de Verão está no centro de 15 soldados conversando alegremente, apenas em parte cientes do fato de que deveriam estar de guarda. Uma garrafa de vinho passa entre alguns deles conforme gargalhadas sobem aos ares. Mais gargalhadas irradiam da carruagem, junto com outros ruídos que fazem meu estômago se revirar.
Uma das portas da carruagem se abre. Simon dá um passo arrogante para fora, inconfundível com o brilho escarlate fraco que emana do condutor no pulso dele. Meus olhos se fixam no objeto, o nojo em meu estômago se transforma em pesar. Talvez Ceridwen estivesse errada. Talvez ele tenha drogado os não veranianos, como Lekan pensava.
Ou talvez Angra tenha se aliado a Verão, seja aliado deles esse tempo todo. Ou talvez a Ruína tenha matado Angra e procurado um novo hospedeiro, e seja tarde demais para que eu impeça qualquer coisa.
Simon dispara algo para um dos guardas antes de mergulhar de volta para a carruagem.
Um gemido aquoso emana do outro lado da praça. Meus olhos se voltam a tempo de ver um soldado veraniano desabar, imóvel, conforme um borrão vermelho sai das sombras. Ela não hesita antes de seguir para o seguinte, e a esta altura outros soldados repararam nela, gritando que estão sob ataque. Ninguém vê Conall na estrada abaixo de mim, oculto em sombras, ou me vê no telhado.
Troco o peso do corpo entre as pernas e arranco o chakram do coldre, nenhum pensamento além de calcular que soldado dará o melhor alvo, qual homem me dará o tiro mais desimpedido. O chakram dispara de minha mão, um rompante de movimento sem dificuldade e familiar, e nesse momento não parece que faz meses desde que eu o atirei. Parece que fiz isso todos os dias da vida, e a arma corta a perna de um soldado veraniano antes de retornar para a palma de minha mão.
— Irmã!
A voz de Simon ecoa nos prédios ao redor dele, o tom arrogante ressoa. Recuo, percorrendo a cena com os olhos conforme Simon sai da carruagem, os homens dele batem em retirada. Não vão atacar?
Ceridwen e Lekan percebem a estranheza também. Ficam de costas um para o outro, logo diante de mim, com as armas reluzentes e ensanguentadas, ambos ofegantes, mas prontos para um ataque. Mas Simon não diz aos homens dele que revidem, não permite que os soldados ataquem os dois intrusos.
Ele dá um passo na direção de Ceridwen, a voz enchendo a praça com determinação.
— O que a traz para as partes mais sinistras de Rintiero? Não pode ser você a responsável por todos os ataques às minhas carruagens. Sei que minha irmã jamais se voltaria contra mim de tal forma.
As palavras de Simon mal chegam aos meus ouvidos quando Ceridwen grita. Ela desaba de joelhos, as armas ressoam na pedra quando caem das mãos dela. Lekan dispara na direção da princesa, mas soldados o seguram e Ceridwen grita de novo, contorcendo-se no chão. Ninguém está sequer perto dela, não a toca, nem mesmo...
É Simon. Está usando o condutor para machucar a irmã.
E qualquer magia usada para o mal alimenta a Ruína.
Eu me recosto até que veja Conall abaixo. Ele vê o que está acontecendo do ponto oculto entre os prédios, e quando me mexo, ele dispara o olhar na minha direção.
Aponto para Conall, então de volta para o palácio.
Avise-os, imploro. A magia negra de Angra.
Se fosse qualquer outra ameaça, não consideraria usar minha magia — mas não posso ter medo do que pode me acontecer agora.
O rosto de Conall fica pálido com choque quando minha ordem o atinge, direcionando ação para o corpo dele da mesma forma que outros possuidores de condutor usam a magia para direcionar soldados em um campo de batalha. Ele sacode a cabeça firmemente, mas a resignação no rosto dele cancela o protesto.
, eu obrigo.
Conall faz cara de ódio e parte, correndo pelas ruas, para longe dos veranianos. Depois que ele some de vista, eu me impulsiono de volta para cima do telhado, cravando os dedos nas telhas. Ceridwen parou de gritar, os olhos dela estão em Simon, que anda entre os soldados, dando passos lentos e provocadores na direção da irmã. Ele inclina a cabeça para ela no chão, para e olha por cima do ombro.
Nesse momento, vejo a confusão no rosto de Simon. Ele olha para o condutor, girando o bracelete no pulso, e olha adiante, à minha direita.
Meus olhos se viram para seguir os dele e meu coração fica pesado.
— Princesa Ceridwen — cantarola Raelyn. Soldados ventrallianos lotam a praça, entrando em fila conforme a rainha dá passos lentos e controlados adiante. — Que bom que pôde se juntar a nós.
Simon se move na direção de Raelyn.
— Esse não é o plano. Ela é minha prisioneira.
O cabelo de Raelyn está selvagemente cacheado ao redor de uma máscara de seda que combina com o vestido, uma tempestade rodopiante de esmeralda e obsidiana que ondula conforme a rainha se aproxima de Simon. Os soldados dela assumem posições em volta da praça, formando uma barricada para que ninguém saia. Mesmo as pessoas na carruagem, algumas veranianas, outras yakimianas, todas marcadas, são arrastadas para fora e encurraladas em um grupo acovardado no limite da praça.
Mas Raelyn só tem olhos para Ceridwen, alegria misturada com fúria misturada com satisfação, e não percebo por que a rainha está tão hipnotizada até que ela inclina a cabeça e Ceridwen grita.
Simon não é o único que usa a Ruína. Sempre que Raelyn se contorce, Ceridwen grita, o corpo dela se curva em ângulos nada naturais. Minha mão se fecha, apertada, sobre o chakram, mas estou congelada no telhado.
Uma pessoa que não empunha um condutor está usando a Ruína.
Então outra pessoa é hospedeira dela? Com base na confusão de Simon, não é ele.
Quando a Ruína foi criada, ela se alimentou no combustível de milhares de pessoas que usaram os pequenos condutores para o mal. Ela fez com que os pensamentos mais sombrios e sinistros de todos fossem a única coisa em que pensassem — e aqueles que tinham condutores também receberam força e poder a mais. A Ruína sempre pôde afetar pessoas, independentemente da linhagem delas — Theron e eu vimos em primeira mão em Abril. Condutores normais não podem afetar alguém que não seja do reino deles; a Ruína é a exceção a essa regra. É a ponte entre linhagens, criada durante uma época em que todos tinham condutores, independentemente de linhagem ou reino.
Quando Mather quebrou o cajado de Angra, talvez Angra tenha se tornado o condutor de Primavera, e a Ruína tenha se tornado forte o bastante para impregnar de desejos malignos e magia todas as pessoas. A Ruína, Angra e o condutor de Primavera poderiam ser um agora, uma entidade unida e deturpada de mal infinito que supera tudo que costumávamos saber sobre magia.
O que forma a pergunta apavorante...
Se Angra está vivo, onde está?
Ou depois de séculos alimentando-se de Angra, a Ruína simplesmente se tornou forte o bastante para infectar quem quer que deseje?
Um peso desaba sobre mim. Não posso salvar Ceridwen e Lekan, não agora, não aqui, porque só posso usar minha magia para afetar invernianos. Então apenas observo, com horror impotente, conforme Raelyn para sobre Ceridwen, inclinando a cabeça para trás e para a frente conforme avalia a princesa de Verão a seus pés.
— Isso é melhor do que o prometido — diz Raelyn, erguendo a voz para que todos ouçam. Ela gosta da plateia, dos veranianos chocados, dos soldados ventrallianos maliciosos.
Simon se adianta com passadas fortes, alguns soldados de Verão seguem com armas em punho.
— O que está fazendo? Isso não é...
Raelyn acena, indicando para alguns dos homens que prendam os soldados veranianos. Quando estão tão impotentes quanto Lekan, ela olha para Simon.
Ele cai de joelhos diante de Raelyn, arquejando como se a mão invisível de alguém se fechasse devagar sobre o pescoço dele. O rosto de Simon escurece até um tom violento de roxo e Raelyn passa os dedos longos pelos cabelos emaranhados dele.
— Caro rei veraniano — diz Raelyn. — Sinto muito, mas nada acontecerá de acordo com seu plano.
— Angra... me prometeu — diz Simon, arquejando, a força que faz é clara nos braços tensos, o rosto fica mais e mais escuro.
Eu me agacho mais atrás do telhado, estremecendo tanto que o prédio também deve estar tremendo. As palavras de Simon ecoam, infinitas, em minha mente.
Angra me prometeu.
— Aliar Verão a Primavera. — Raelyn o repreende como se Simon não passasse de uma criança malcriada. — Sim, eu sei. Mas achou mesmo que alguém tão poderoso se aliaria a Verão? Angra só lhe deu magia verdadeira para mantê-lo ocupado enquanto os reais governantes decidiam o fim de suas terras. — Ela para, ainda acariciando os cabelos de Simon enquanto ele tosse e engasga. — E decidimos que Verão servirá melhor nosso novo mundo sem a linhagem do condutor do reino. Então, veja bem, Primavera não se aliará a você. Não temos qualquer necessidade de você.
Com Raelyn concentrada em Simon, a dor de Ceridwen para, o corpo dela relaxa. Ceridwen se apoia nos cotovelos, os dedos dela se cravam nos paralelepípedos conforme olha para Raelyn como se a rainha ventralliana fosse mais uma besta raivosa do que uma pessoa.
— Magia verdadeira? — Ceridwen ousa perguntar.
— Primavera. — Raelyn se volta para Ceridwen, Simon ainda arqueja. — Descobriram a verdadeira fonte de poder, e não são penduricalhos inúteis contendo magia de séculos. Primavera tem um poder maior do que qualquer condutor.
Ceridwen faz que não com a cabeça.
— A magia negra de Angra? Depois do que ele fez com Inverno, depois do controle que exerceu sobre o próprio povo? Você é louca. Isso é apenas outra forma de escravidão. Jesse jamais permitirá que isso aconteça!
Ceridwen para, o olhar dela se fixa em Raelyn. Aquele nome ecoa entre as duas.
Jesse.
— Está certa — grunhe Raelyn, e chuta a barriga de Ceridwen. Lekan grita, mas ninguém lhe dá atenção, todos estão hipnotizados pela tempestade crescente entre a rainha ventralliana e a princesa veraniana. — Jesse é fraco demais. Ele temerá esse poder, e condenará este reino como fez quando levou você para a cama. Mas não precisamos mais dele... Eu não preciso mais dele.
— Não... — Ceridwen engasga, inspirando o ar irregularmente.
Raelyn ergue a saia e pisa no pescoço de Ceridwen, pressionando conforme grita palavras contra a princesa.
— Vou matá-lo, doce menina. Vou matar Jesse e aqueles pirralhos e qualquer resquício da linhagem do condutor ventralliana, porque não preciso deles. O tempo dos Condutores Reais acabou. O tempo do verdadeiro poder chegou.
— Pare... Raelyn... — Simon dispara uma última súplica engasgada. — Deixe-a em paz!
Em um redemoinho de verde e preto, Raelyn se afasta girando de Ceridwen. Como se pudesse sentir o que vai acontecer, como se cada momento conduzisse para aquele inevitável fim, Ceridwen se atrapalha ao se colocar de quatro.
— Não!
Raelyn movimenta o pulso e Simon emite um único fôlego trêmulo antes que o pescoço dele se parta, o osso arranha com o estalo perturbador de uma morte rápida e fácil.
O grito de Ceridwen se dissolve em silêncio conforme ela fica ali, observando o corpo do irmão cair, sem vida, nas pedras. Os outros soldados veranianos se colocam em ação, mas os soldados ventrallianos são mais rápidos e a praça é logo coberta com tanto sangue veraniano que é difícil imaginar que as pedras algum dia tiveram outra cor que não aquele vermelho terrível. Os escravos veranianos e yakimianos marcados caem de joelhos, acovardados, poupados na rendição frágil — até mesmo Lekan é deixado com vida, pendendo, inerte, dos ventrallianos que o seguram, de olhos em Ceridwen, com uma expressão de pura tristeza.
Ceridwen não reage quando Raelyn segura os cabelos dela e puxa sua cabeça para trás, para encarar a princesa.
— Não foi por isso que veio aqui? Para matar seu irmão? Poupei o trabalho de precisar assassinar a própria família. Deveria ser grata. — Raelyn puxa o pescoço de Ceridwen para trás e a princesa grita de dor. — Você agradecerá, princesa. Vai me implorar pela morte, e antes de eu conceder o desejo, sua última palavra para mim será obrigada.
O chakram deixa minha mão, minha lâmina grande e giratória rodopia pelo ar, mas, quando deixa minha palma, sei que a mira está torta, meu horror lança tremores pelo braço que fazem o chakram oscilar e se curvar.
Ele roça o ombro de Raelyn, à distância de um palmo do alvo pretendido. Ela grita em um misto mortal de dor e fúria. Todos os olhos na praça seguem o caminho do chakram de volta para mim, e quando salto para pegar a arma, flechas disparam.
Caio de costas, oculta por um ponto do telhado, o chakram junto ao meu estômago. Flechas cruzam o telhado atrás de mim com firmes ruídos e algumas passam logo acima de minha cabeça, lançando pedaços de telha sobre meu corpo.
— Alto! — grita Raelyn, e as flechas cessam.
Permaneço abaixada, um pé alojado em algumas telhas de argila para evitar que eu deslize para fora do telhado.
— Rainha de Inverno? — grita Raelyn, a voz provocadora, e me amaldiçoo por permitir errar a mira. — Não matarei você, rainha de Inverno. Essa honra está reservada a outro reino Ritmo. Mas vou entregá-la a ele, então seja uma boa criança e se entregue agora. Não há como escapar dessa revolução.
Meu lábio se contrai e reúno a força que consigo da vingança, do modo como Raelyn tratou Ceridwen. Do horror, do assassinato do rei veraniano. Da percepção dura e inevitável de que tudo isso, cada momento dessa viagem, foi uma armadilha. Uma armadilha na qual não apenas caí, mas ajudei a montar. Quem mais foi corrompido pelo poder de Angra?
Raelyn disse outro reino Ritmo.
Noam. Cordell.
Eu me viro ao ficar de pé e atiro o chakram, sabendo dessa vez que não errarei. Raelyn morrerá, o sorriso arrogante será a última expressão que o rosto dela formará.
Mas quando me levanto acima do cume do telhado, meu corpo tropeça para trás, o instinto percebe a ameaça antes que minha mente tenha tempo de fazer isso.
Soldados ventrallianos. Cinco deles, subindo pelo telhado. Raelyn me distraiu por tempo o suficiente para que eles escalassem o prédio e ganhassem vantagem sobre mim.
Disparo pelo telhado e deslizo o chakram para o coldre. Flechas passam zunindo conforme impulsiono o corpo para o telhado íngreme do prédio seguinte. Minhas botas giram de forma esquisita e me choco sobre os cotovelos, rolando para baixo da inclinação. Uma flecha corta meu braço, uma laceração profunda que me faz encolher o corpo, mas não tenho tempo de sentir dor antes de ser atirada para fora do telhado, agitando os braços pelo ar.
Outro prédio, um andar mais baixo, para minha queda, algumas telhas se quebram quando o atinjo. Mas esse é infinitamente mais plano e disparo correndo de novo, ignorando a forma como meu braço grita de dor. Um olhar breve me diz que os soldados ventrallianos estão logo atrás de mim, a um telhado de distância, e se aproximando. Salto pelo ar e seguro a beirada do prédio seguinte. Depois que subo nele, vejo o palácio a nordeste, a profusão de cores despontando na amplidão do parque verde e denso. Viro na direção dele e me impulsiono em uma corrida, mirando o prédio seguinte, um andar mais alto do que esse, mas de fácil alcance...
Até que um soldado ventralliano salta diante de mim, gira ao ficar de pé e saca uma lâmina com um movimento ágil. Puxo o chakram e deixo que cante pelo ar, mas o soldado vê a arma se aproximando, agora sabe que é minha arma preferida, e desvia com a espada. O chakram cai com um clanc nas telhas curvas de argila, e o soldado o chuta para trás, lançando o chakram para a rua abaixo ruidosamente.
Eu me viro para correr de volta pelo outro caminho, mas paro subitamente. Os outros quatro soldados ventrallianos estão na beira do telhado, espadas em punho. Estou cercada, sem arma, um de meus aliados aprisionado — ou pior — pelas pessoas que me cercam agora...
E por isso, quando os soldados diante de mim começam a cair, um a um, tenho dificuldades para entender o que está acontecendo.
Mãos se erguem pela beirada, agarram os tornozelos dos soldados e puxam dois deles para baixo, enquanto uma faca gira do nada e se aloja no estômago de um dos homens. Outro soldado cai quando uma garota salta nas costas dele, corta a garganta dele com uma lâmina e gira o corpo inteiro sobre o dele, as pernas dela rodopiam conforme a garota gira, e lança o soldado voando pela beirada.
Mal tenho tempo de registrar quem são essas pessoas quando o soldado atrás de mim grita. O telhado treme sob os pés agitados dele e me viro, agachada, com os braços erguidos como se fosse capaz de combater a espada dele com os punhos.
Mas o soldado para, com o corpo rígido, a boca se abrindo com um gorgolejo. Ele segura um ponto no peito, um buraco que lentamente enche o uniforme do homem de sangue, antes que ele desabe nas telhas de argila, revelando outro logo atrás. Um homem que segura uma espada ensanguentada em uma das mãos, meu chakram na outra, os olhos safira estão fixos em mim.
— Você está bem? — pergunta Mather.

Um comentário:

  1. Aii, que ela ame ela tão intensamente que não sobre espaço para mais nada kkk

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Boa leitura, E SEM SPOILER!