21 de janeiro de 2019

Capítulo 29

NÃO HÁ TEMPO para encontrar equipamento adequado de batalha ou para roubar algo do arsenal de Angra, então dividimos as armas no quarto de Herod entre nós e pegamos roupas do armário. Theron se ocupa em prender facas nas canelas enquanto eu tiro as roupas ensopadas de sangue e visto uma camisa e uma calça, grandes demais, de Herod. Há um colete de couro preto que prendo ao redor da camisa e um cinto largo que segura minha calça. É ridículo para a batalha, solto e largo demais e protege quase tanto quanto correr completamente nua. E pertence a Herod, o que faz meu estômago se revirar com a mesma náusea que sinto do sangue dele secando em minha pele.
Quando o chakram se acomoda no estojo familiar entre minhas escápulas, consigo respirar pela primeira vez em semanas. Como se não fosse realmente completa sem ele.
Junto com a faca e a espada que prendo à cintura, estou tão preparada para a guerra quanto posso estar.
Theron agita a espada com uma das mãos, uma adaga na outra.
— Pronta?
Assinto. Ele se aproxima da porta do quarto de Herod, mexe nas armas e entreabre a porta, verificando o corredor além dela. Dou um passo determinado atrás de Theron, mantendo os olhos nas costas de Theron e as duas facas cruzadas presas sobre a espinha dele. Não no corpo ainda no centro do quarto, na massa imóvel de escuridão e sangue que atrai minha mente como uma âncora puxa um barco.
Theron olha de volta para mim. Ele também é uma âncora. Algo a que me segurar quando todas as outras coisas me arrastam para baixo.
Assinto de novo.
— Vamos.
O corredor está vazio. Nenhum soldado, nenhum criado desesperado correndo. Está silencioso e desolado, como se já tivéssemos vencido e Primavera tivesse fugido.
Theron caminha cuidadosamente à frente, as lâminas a postos, enquanto deslizo o chakram para a mão. Quanto mais nos afastamos do quarto de Herod, mais o caos ressoa. Aglomerados de homens uniformizados correm entre quartos, criados disparam por corredores e ficam o mais longe da vista quanto é possível. Theron e eu nos abaixamos sob pinturas na parede, nos escondemos atrás de estátuas e plantas, conforme abrimos caminho para fora da escuridão.
Depois do que parece ser uma eternidade desse esconde-esconde pelo palácio, chegamos a uma escadaria estreita dos criados, portas abertas revelam a entrada do palácio no fundo. Descemos as escadas e paramos atrás da porta aberta, tentando ouvir movimento no corredor.
Theron passa as armas para uma das mãos e pega minha mão com a outra.
— Deixamos o palácio — sussurra ele. — De onde quer que meu pai se aproxime, corremos para a direção oposta. A muralha de Abril estará menos vigiada lá e poderemos...
— Deixar Abril — termino, com a voz trêmula.
Theron me olha de novo, a expressão dele se fecha como se soubesse o que vou dizer a seguir.
— Vamos libertar seu povo, prometo. Mas você não tem utilidade para eles se estiver morta.
Sacudo a cabeça e tiro a mão da de Theron, meu coração pulsa gelo pelas veias. Começo a protestar, a dizer a ele que preciso ir até os invernianos, preciso ajudá-los porque sou o condutor deles e é meu dever. Começo a dizer de novo. Sou a rainha de Inverno, esse tempo todo. Eu...
Mas Theron volta a atenção por um segundo para o corredor, onde um grupo de soldados marchando passa em disparada, seguindo para a sala do trono. O corredor fica silencioso quando eles se vão, vazio, e Theron se vira para mim, sem parecer se importar com nada além da forma como os olhos dele se fixam nos meus, com uma intensidade carinhosa.
— Jamais quis ser rei. — A voz de Theron é baixa e rápida, me perfura com urgência. — Eu queria me sentar na biblioteca e escrever até que o sol caísse no céu. Mas você, isto, os invernianos, seu reino inteiro, desaparecido em um segundo, isso me fez perceber como eu me sentiria caso Cordell algum dia caísse dessa forma, se eu perdesse algo que é tão parte de mim. Quero ser alguém digno de meu reino. Quero ser alguém digno de você.
Meu corpo todo se alegra com um calafrio maravilhoso que se amplia quando Theron desliza a mão pela minha nuca. Ele aproxima meu rosto do dele e para, parte da determinação se dissipa quando ele percebe o que está fazendo e o quanto estamos perto um do outro. Os dedos de Theron se flexionam contra minha nuca e eu o encaro, esperando, incapaz de me mover ou respirar ou pensar além da forma como os lábios dele se abrem expirando, tão pertos dos meus.
Então Theron desce sobre mim, a boca desaba sobre a minha. Um gemido sai de minha garganta quando me agarro às emoções que percorrem meu corpo como flocos de neve ao vento. Medo que sejamos pegos pelos homens de Angra; êxtase pelo rompante de conforto e de desejo que espirala dos lábios dele; e um lampejo constante de choque por isso não ser nada chocante, por eu estar esperando que isso acontecesse o tempo todo — nossos lábios e línguas e os dedos de Theron puxando meus cabelos, desespero explodindo em nós por alguns segundos breves demais em que precisamos um do outro.
Theron recua, sem fôlego, em meio a um ligeiro conjunto de emoções antes de assentir com firmeza, decididamente.
— Vá até eles, mas não morra. Primoria precisa de pessoas como você — conclui
Theron, e dispara para o corredor vazio, liderando o caminho até as duas grandes portas da entrada, com as lâminas reluzindo em busca de inimigos escondidos. Meu corpo segue, mas minha mente está presa na sensação dos lábios de Theron sobre os meus. Lindos e capazes, carinhosos e determinados, me deixando fria e quente ao mesmo tempo.
Saímos devagar e descemos pelos grandes degraus de obsidiana, não paramos sequer uma vez depois que nossos pés alcançam a ampla extensão do gramado de Angra. Está vazio ali também, todos os soldados estão vigiando Angra do lado de dentro ou estão ocupados no portão da frente, onde os disparos de canhões ecoam de volta até nós.
Theron lança um breve sorriso de conforto para mim, antes de disparar pela grama exuberante, correndo cada vez mais em busca de abrigo na ponta norte do complexo do palácio de Angra. Dali, ele seguirá para o leste, o lado oposto do exército do pai dele, que se aproxima.
Mas meu caminho está a sudoeste.
Meus pés se movem antes que eu perceba que estou correndo, o complexo do palácio dispara por mim em um borrão de preto e verde. Salto por cima do jardim no qual Nessa e os irmãos têm trabalhado há semanas. A área inteira está vazia, sem soldados ou trabalhadores. É o fim da tarde agora, o sol está alto e brilhante, com muita luz restante para forçar mais algumas horas de trabalho. Mas ninguém está aqui, então isso deve querer dizer que estão no campo de trabalhos forçados, uma mudança assustadora na rotina diária, ou...
Não quero pensar em ou.
A ansiedade me impulsiona mais rápido e dou a volta por um único portão lateral e disparo para Abril.
Essa parte da cidade não é tão vazia. A classe alta de Primavera prepara as casas, os criados e mãos firmes pregam tábuas de madeira sobre janelas, sob ordens dos mestres. Eles não se importam quando passo correndo, nem mesmo se movem em minha direção, quando o borrão de branco e preto passa em disparada por eles. Subo a lateral de uma ponte e vou embora, deixando-os com suas preocupações.
A ponte me leva até a parte mais baixa da cidade. Disparo por becos, salto pilhas de lixo. Os residentes desses prédios ficam exatamente onde sempre os vi — amontoados atrás de janelas, olhando por portas entreabertas, permanecendo fora do caminho na esperança de que a vida passe por eles sem que sejam notados. Como se, caso não reconhecessem a batalha que se aproxima, ela não possa feri-los.
Uma última curva me coloca bem diante da entrada do campo de trabalhos forçados de Abril. Reduzo o passo para uma caminhada, prendo a respiração para evitar ficar ofegante. Pode estar vazio no beco, mas não está silencioso — ruídos vindos da área à frente chegam até mim. Soldados gritam ordens uns para os outros e, além dos gritos estrangulados deles, está o murmúrio de pessoas em confusão. Meu povo.
As palavras parecem erradas, como se não pertencessem a mim, como se eu não fosse digna de chamá-los assim. Mas não importa como eu os chame, como me chamem. Tenho a habilidade de libertá-los, então, tenho a responsabilidade de libertá-los.
É tudo que importa agora.
É tudo que sempre importou.
Paro paralelamente à esquina. Mais um passo, Meira. Apenas mais um.
Marcho para a rua, sacando o chakram de modo que oscile como um brinquedo inofensivo de minhas mãos. Cinco prédios adiante, o portão está uma loucura.
Soldados de Primavera do lado de fora atiram facas e punhos contra o metal que se dobra e range, socando de volta a multidão de invernianos que faz força contra o outro lado. Os invernianos choram e gritam, encolhendo-se contra os golpes. Estão confusos, retirados da rotina de trabalho e forçados de volta para a prisão em meio ao caos.
O primeiro soldado cai sem luta. Meu chakram passa zunindo pela nuca dele, separando o topo da coluna do homem do crânio, e volta com um estampido para a palma de minha mão conforme o soldado desaba sobre o que está ao lado dele, chamando atenção para mim. Primeiro, o vizinho do homem morto, então o homem ao lado dele, depois, todos os soldados encarregados de manter a ordem no campo de trabalho. Todos os olhos estão sobre mim, uma garota inverniana solitária contra um regimento inteiro.
Um soldado dá um passo à frente, a espada espessa dele marcada pelo tempo e pelo uso.
— O brinquedo de Herod escapou — diz o homem, com escárnio.
— O brinquedo de Herod o matou — respondo, e um satisfatório lampejo de choque toma conta do rosto dele.
Outra voz irrompe pela rua.
— Meira, corra!
Meus olhos disparam para trás da fileira de soldados, até o portão. Conall está pressionado contra o ferro, o arame deixa manchas de sangue nas bochechas e nos braços dele. Ele entra em pânico ao me ver na rua. Há uma luz nos olhos dele agora, uma luz tão diferente do ódio de sempre que só posso estar imaginando.
Mas não — é esperança. Ele quer que eu viva.
Angra também sente. Ele conhece, de alguma forma, essa esperança que todos têm, e os soldados de Primavera disparam para o portão em uma massa organizada, erguendo todas as armas ao mesmo tempo. Um gemido abafado foge de meus pulmões. A magia negra de Angra. Ele ordenou que os soldados...
Eles começam a golpear para matar agora. Enfiando as lâminas pelo metal, eles esfaqueiam peitos e pescoços, não dão mais meros golpes de aviso. Posso sentir a ordem de Angra pulsando dos corpos comandados deles: Matem-nos.
Meu peito fica dormente e, pela primeira vez, sei o que é. Frio, frio gélido, dispara por meus ombros e percorre meus dedos. O poder do condutor se revira ao meu redor, irrompendo por dentro e para fora de meu corpo como uma nevasca incontrolável, implorando para cobrir o mundo em um branco glorioso.
Inverno tem um condutor agora também. E não seremos mais fracos.
Solto o chakram aos pés e estico as mãos para a frente, os dedos se estendem para os invernianos diante de mim. O frio explode de mim, a erupção de um tremor tão perfeito que imagino se não passo de uma nevasca agora, uma enorme coluna espiralada de flocos. O frio dispara em torno dos soldados de Primavera e mergulha pelo portão, inundando cada corpo frágil, de cabelos brancos, cada par de olhos azuis arregalados, cada alma sangrando e cansada, com força, poder, energia, curando os ferimentos deles e tratando os cortes, tornando-os mais e mais fortes...
A magia escorre até que cada espaço livre em cada corpo esteja cheio de força. Os olhos deles estão mais brilhantes, os corpos estão mais eretos, os punhos se fecham com mais intensidade. Frio e gelo, um poder tão lindo que quando a sensação gélida para, fico sem fôlego depois de tanta maravilha. Adrenalina percorre meu corpo, combatendo com felicidade o peso da exaustão que me faz oscilar para a frente, sob todo o poder que acabei de manifestar.
Os invernianos gritam algo muito além dos gritos de dor e angústia, algo irrompe de dentro deles em um rompante de liberdade. O ataque dos soldados de Primavera para em meio aos gritos de guerra que ecoam dos prisioneiros. E os invernianos, com os olhos ferozes com vida, avançam para a frente, abrindo o portão com uma determinação frenética.
— Ataquem! — grita um soldado de Primavera, e avança contra mim.
Engancho o chakram na bota e o chuto no ar, agarrando-o e lançando em um grandioso giro letal contra a manada de soldados de Primavera que dispara. Alguns caem quando o chakram volta para a palma de minha mão, mas os soldados estão perto demais agora, a alguns segundos de colidirem comigo. Coloco o chakram de volta às costas e puxo a espada e a adaga que roubei de Herod, encolhendo o corpo. Quatro segundos. Três...
Os soldados mais distantes caem como um, as pernas fraquejam sob eles. A fileira seguinte olha para trás, em pânico, e cai tão facilmente, puxada para o chão pelo ódio insano de 16 anos de opressão. Os invernianos se erguem e atropelam o batalhão de Primavera em uma onda mortal de destruição, arrancando armas das mãos deles e virando aquelas armas para os rostos chocados de soldados que jamais acharam que perderiam.
A última fileira de soldados de Primavera me alcança, presos entre o medo atrás deles e o medo adiante. Minha adaga perfura o estômago de um; a espada, o pescoço de outro. Giro o corpo entre os soldados, meu corpo é uma máquina de cortar, esfaquear e se abaixar.
Desvio de um último homem morrendo, as botas chutam poeira ao meu redor e paro diante de Conall. Ele está ensanguentado e selvagem, os cabelos brancos manchados de vermelho, as mãos fechadas sobre um par de facas curtas. Ao lado de Conall, Garrigan está tão indomável quanto ele, uma besta dentro dos dois foi libertada e, atrás deles, há outros invernianos.
Braços envolvem meu pescoço em uma tempestade de branco e de lágrimas.
— Eu sabia que você nos libertaria — sussurra Nessa.
Conall dá um passo adiante, as facas dele reluzem com o sangue de Primavera.
— Ainda não estamos livres. O que vem a seguir, minha rainha?
Minha rainha. Como ele sabe?
Eu me afasto de Nessa e os encaro, todos eles, cada rosto ansioso. Cada alma inocente, paciente, aceitando o poder de mim sem questionar, sem hesitar.
E sinto Hannah dentro de mim. A presença gentil e paciente dela, tão conectada ao poder do condutor quanto eu. Hannah está em todos os invernianos também, nos conectando em um mundo inexplicável e maravilhoso todo nosso.
Ela é minha filha, sussurra Hannah para eles, uma voz tão calma que eles poderiam confundi-la com os próprios pensamentos. Vai ficar tudo bem. Desculpem por ter mentido para vocês, mas sua liberdade está muito próxima.
A esperança nos rostos sujos de terra deles me enche com uma emoção diferente, uma que abafa qualquer medo de quem sou agora. Felicidade.
— Cordell e Outono estão aos portões de Primavera, mas nossa liberdade não depende deles — grito por cima da multidão. As palavras seguintes ficam presas em minha garganta, expandindo-se mais e mais ao lado de toda a ansiedade fervilhante, dos anos de maus-tratos, das cicatrizes e do sangue e do horror. — Somos Inverno!
Conall e Garrigan inclinam as cabeças, os braços deles estão estendidos conforme gritam para o céu. Um grito de batalha que se espalha por todos os invernianos, as vozes deles falhando, os olhos brilhando.
— Somos Inverno! — repete Nessa, e salta por cima dos corpos caídos de primaverianos, correndo pela rua com a espada roubada resplandecente acima da cabeça. Eles a seguem, disparando por cima de corpos, empunhando armas como flâmulas de vitória.
A força deles, fornecida ou não pelo condutor, é revigorante, me preenche com minha magia. Quero me deliciar nela para sempre.
Está tão perto agora, diz Hannah.
Alinho-me em fila com eles, correndo tanto quanto eles, gritando tão alto quanto eles, perdida nas vozes e no poder e nas vidas dos invernianos.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!