26 de janeiro de 2019

Capítulo 28

Meira

JESSE ESPERA POR nós em um escritório tão abarrotado e caótico que não consigo deixar de me sentir mais curiosa a respeito dessa reunião. Não é uma sala feita para receber dignitários estrangeiros e impressioná-los com demonstrações de poder e extravagância — é um escritório de verdade, lotado de pergaminhos e prateleiras cheias de livros de contabilidade.
Se havia alguma dúvida a respeito do parentesco de Jesse com Theron, esse quarto a extinguiria. A bagunça salpicada de peças de arte — pilhas de máscaras num canto, uma tapeçaria enrolada no outro, uma pintura encostada na parede — me lembra tanto do quarto de Theron em Bithai que meio que espero que ele também esteja ali. Mas apenas Jesse espera do lado de dentro, e somente quando a porta se fecha atrás de nós ele dá um salto e se vira.
— Rainha Meira! — cantarola Jesse, e solta um livro de contas, deixando que caia no tapete de veludo verde. Parece intencional quando o rei segue para uma pilha de papéis na mesa sem se incomodar em reparar no livro que soltou.
— Não esperava que o rei de Ventralli tratasse livros com tanto desdém — observo, e Dendera dispara um chiado baixo em minha direção.
Mas Jesse não parece me ouvir.
— Ah, não, isso é inútil.
Ele solta a pilha de papéis e se move para pegar um pergaminho da mesa, murmurando de forma ininteligível.
— Rei Jesse? — Começo.
Ele se vira para mim, piscando por trás da máscara de seda vermelha. Os olhos de Jesse se voltam para a porta, fechada atrás de Dendera, Nessa, meus guardas e eu, e ele nos observa a seguir, com os lábios se abrindo e puxando fôlego curtos e irregulares.
— São de confiança? — pergunta Jesse, e bate com o pergaminho na mesa. — É claro que são, são seu povo. Você os salvou.
— Não entendo...
— Rainha Meira, preciso de sua ajuda. — Jesse sai de detrás da mesa e atravessa a sala até mim. Ele cruza os braços às costas e se estica na pose mais majestosa que já o vi fazer, a coroa no quadril reluz prateada. — Percebo que é pouco ortodoxo, mas quero formar uma aliança com você.
Meus olhos se arregalam tanto que a máscara de floco de neve se move.
— Você quer uma aliança comigo?
Dendera emite um breve arquejo de alegria surpresa quando Jesse assente.
— Você se libertou. Libertou seu povo — explica ele, curvando levemente os ombros. — Derrotou um grande mal. Preciso fazer isso. Preciso... de ajuda.
Tão rapidamente, meu choque se transforma em cautela.
— Do que, exatamente, precisa?
Jesse gesticula para se corrigir, entendendo errado minha preocupação.
— Não, não, pretendo pagar a dívida... O que precisar. Qualquer coisa. Eu só... — Os olhos dele se movem e param em um canto do chão. — Isso foi longe demais. Minha mulher. Ela precisa ser detida.
Não consigo controlar o arquejo agudo.
— Quer ajuda para destronar sua mulher?
Jesse me encara e assente.
Minha mente retorna ao breve momento que tive com Raelyn. Ela não pareceu particularmente terrível, mas só ficamos no mesmo salão por alguns minutos. Na verdade, ela pareceu... severa. Não amigável. Mas isso é Ventralli, afinal de contas... Construíram a cultura deles sobre segredos.
— Você é o rei — afirmo, apenas porque preciso me lembrar de que Jesse é, de fato, o homem mais poderoso desse país. — Porque suplica que um reino Estação ajude com isso? Não pode apenas ordenar o próprio divórcio?
Jesse faz que não com a cabeça com uma réplica curta e determinada.
— Acha que não tentei acabar com as coisas de forma pacífica? Ela tem apoio. Muito apoio. Incluindo minha própria mãe, e era isso que eu estava fazendo quando você entrou, tentando avaliar minhas conexões e entender que aliados ainda tenho. Mas é de você que preciso. Você derrubou Angra. Sabe dessas coisas.
— Eu o derrubei em uma guerra sangrenta e custosa, não por meio de política. Por que não vai a Cordell?
Meu estômago se revira. Aqui está um rei de um reino Ritmo, de joelhos, me entregando uma aliança, e eu recuso. Mas não tenho recursos sobressalentes para ajudar, e qualquer coisa que ele tomasse de Inverno viria indiretamente de Cordell mesmo.
— Perguntei a Cordell. — Jesse recua e se volta para a mesa, vasculhando inutilmente os papéis sobre ela. Os olhos se erguem até os meus, agora mais suaves, parte do desespero retrocedendo. — Mas temo que minha esposa já tenha influência sobre eles também. Ela faz isso sempre... Corta tudo o que tenho, infecta potenciais aliados até que só me reste ela.
Dou um passo à frente.
— Como assim ela tem influência em Cordell?
— É por isso que precisei ver você tão subitamente. — Jesse me encara de novo. — Ela está falando com Theron neste momento. Precisava me encontrar com você antes...
Meu sangue para subitamente, embora Jesse continue falando.
Raelyn... e Theron? Foi ela quem ele foi ver em Ventralli, não o primo? Mas Finn e Greer disseram que Raelyn era basicamente a governante do reino.
Mas em quem confio nisso? Não sei o bastante sobre Raelyn ou sobre Jesse para escolher entre os dois. Apoiar aquele que empunha o condutor parece o curso natural... A linhagem dele sempre estará no poder.
A não ser que Jesse morra e a coroa passe para o filho deles. Raelyn sem dúvida seria a regente até que o menino atingisse a maioridade, e a essa altura ela poderia ser ainda mais determinadamente poderosa.
É esse tipo de pessoa? Jesse parece pensar que sim.
Pisco, surpresa comigo mesma. Parece que estou melhor em pensar politicamente. Não sei se isso é algo de que eu deveria sentir orgulho.
Jesse se curva sobre papéis no chão, ainda falando.
— ... soldados posicionados a oeste, que são leais a mim, acho.
Tudo isso rodopia ao meu redor, o caos de uma política tão calorosa emergindo do que parecia um reino lindo e pitoresco. Eu me viro para Dendera e, para minha surpresa, ela assente.
Aceitá-lo?, digo, sem emitir som.
Ela assente de novo.
Mas algo a respeito daquilo não aprece certo. Inquietude parece ser minha companheira constante.
— Por que agora? — Eu me viro para Jesse, que para de procurar os papéis e me olha. — Porque eu também preciso de aliados, rei Jesse, e se concordar com isso, precisarei de apoio rapidamente. Por que é tão imperativo que você encontre aliados para combater sua mulher agora?
O rosto dele perde a cor.
— Porque ela... — A voz do rei se dissipa, o maxilar dele treme.
Cada nervo de meu corpo se incendeia em alerta, uma sensação que se choca com a lembrança.
Eu tinha quatro ou cinco anos, jovem o bastante para que minha lembrança seja uma névoa de lampejos que podem ou não ser reais. Um dossel de folhas pesadas e molhadas na floresta Eldridge; os braços de Alysson em volta de mim enquanto nos sentamos perto de uma fogueira; e um som, um ruído violento de estilhaços — um galho se partindo.
Por si só, aquilo não seria nada incomum; galhos se partem o tempo todo em Eldridge. Mas algo a respeito daquilo pareceu mais pesado, mais alto do que qualquer barulho que eu já tivesse ouvido. Porque logo depois, Alysson me empurrou para longe do colo dela e se atirou sobre o corpo inerte de Sir, deitado, imóvel, na vegetação rasteira da floresta. Ele não se moveu por tanto tempo, segundos que pareceram dias, até que finalmente, finalmente, Sir se virou e murmurou que o parceiro dele tinha sido morto pelos homens de Angra.
Enquanto eu o observava, e a sua mulher sobre ele, e as pessoas correndo em frenesi ao meu redor, só conseguia ouvir aquele galho se partindo de novo e de novo, o galho no qual Sir tinha pisado quando desabou ao lado da fogueira. Durante anos depois disso, sempre que eu ouvia um galho se partindo, meu coração ficava pesado e meus olhos se enchiam de lágrimas e eu esperava que a morte viesse rugindo até mim.
Agora, de pé no centro do escritório do rei ventralliano, sinto o barulho antes que aconteça. Não um galho se partindo, mas algo tão familiar quanto — um ruído para sempre associado com sinalização de que algo está por vir, algo que não posso controlar.
Duas batidas fortes à porta.
Eu me viro bruscamente, o tule do vestido farfalhando devido ao movimento. Jesse se coloca de pé com um salto, o rosto está cinzento como se estivesse doente, e o rei dispara adiante e abre a porta.
Lekan está lá, com o punho erguido para bater de novo, suor reluzindo no rosto exposto. Ele vê Jesse e recua — fisicamente, violentamente recua, lábios se contraindo, corpo se curvando.
— Preciso da rainha de Inverno — dispara Lekan.
Jesse se recosta à porta.
— Onde está Ceridwen? Você a viu? Pode...
— Preciso da rainha de inverno — repete Lekan, grunhindo, e empurra Jesse para o lado.
Empurra o rei ventralliano.
Olho para Lekan, boquiaberta. Sei que Jesse e Ceridwen... o que quer que seja, e Lekan é amigo dela, mas isso foi ousado. E vindo de alguém que uma vez se trancou no escritório do rei de Cordell.
A expressão de raiva de Lekan se suaviza quando ele me encara.
— Preciso de sua ajuda.
— Estou popular hoje — digo, quando Jesse dispara um “Onde ela está?”
Semicerro os olhos para Jesse. Assim que ele viu Lekan, perguntou onde estava Ceridwen. Mas eles estão envolvidos, não estão? Não saberia onde ela está? Ou será que aconteceu alguma coisa?
É por isso que Jesse está em pânico para encontrar aliados?
Ela faz isso sempre... Corta tudo o que tenho, infecta potenciais aliados até que só me reste...
Pela neve. Será que Raelyn fez algo contra Ceridwen? Ela a deixou em paz por tantos anos, mas talvez... Talvez finalmente tenha agido contra a amante do marido.
Assinto para Lekan.
— É claro.
Jesse contém um gemido, dividido entre querer que eu ajude Ceridwen e querer que eu o ajude. Mas ele cede, quase imediatamente, os olhos se fixam nos meus.
— Por favor, rainha Meira — arqueja Jesse. — Considere minha proposta. Podemos discutir depois que...
Lekan se vira para Jesse quando o rei leva a mão a uma espada que está pendurada na parede. A estampa na bainha e as joias no cabo gritam “apenas decoração”, e a falta de armas em Jesse dizem que ele não é um guerreiro.
— Isso não diz respeito a você — grunhe Lekan. — Fique aqui. Não faça nada. Você é bom nisso.
O peito de Jesse esvazia e ele desaba contra o portal.
A velha Meira agradece pela imprudência de Lekan, mas a rainha Meira engasga.
— Ele é o rei de Ventralli — digo, meio engasgando e meio rindo.
Mas Lekan apenas segura meu braço.
— Ele vai superar.
E saio correndo, deixando Jesse com as mãos no rosto, o condutor dele pende, inútil, do quadril.


Os corredores do Palácio Donati são insanamente longos.
Já estou quase fora do vestido quando entro correndo em meu quarto. Conall e Garrigan fecham a porta e Dendera está mergulhada no baú ao canto, pegando roupas mais apropriadas para procurar por alguém. Nessa tira tudo das mãos de Dendera e me enfia atrás de um biombo.
— Ela o ama — começa Lekan. Meu coração se parte. — Ama há quatro anos. Bem, mais do que isso, na verdade, antes de ele se casar com Raelyn. Mas isso não é importante, ela foi até Jesse logo depois de todos os conhecerem no salão do trono. Ela disse que tinha acabado, que queria terminar tudo. Tentou no passado, mas algo a respeito dessa vez pareceu diferente.
— O quê? — pergunta Dendera. — Por que dessa vez seria diferente?
— Porque Ventralli começou a vender pessoas para o irmão dela.
Eu me inclino para a frente, uma das mãos apoiada no biombo.
O homem ventralliano que foi assassinado na adega.
A morte dele não foi irritante apenas por motivos humanos, mas também politicamente. A presença do homem em Verão deveria ter parecido esquisita para mim, eu sabia que apenas Yakim e Primavera vendiam para Verão, mas estava envolvida demais com meus problemas para ver qualquer coisa exceto eu mesma.
Ceridwen deveria ter me contado o que estava acontecendo em Verão. O que a impediu? Orgulho? Meu tagarelar constante sobre meus problemas?
Dendera suspira.
— Ele a traiu.
As palavras de Dendera soam afiadas, e fecho os olhos como se isso fosse impedi-las de acertarem o alvo. Não preciso da observação de Dendera para entender o quanto Ceridwen e eu somos semelhantes — ambas em nossos relacionamentos condenados com monarcas de reinos Ritmo.
Mas Lekan grunhe.
— Acho que não. Acho que foi a mulher dele. Ela é manipuladora, para dizer o mínimo, e está sempre atrás de formas de acelerar a economia de Ventralli. E Jesse não é insensível. Ele pode ser fraco, mas nunca insensível. — Ele para, expirando devagar. — Mas Ceridwen não quis me ouvir. Ela foi falar com Jesse, e foi a última vez que a vi. Mas os criados disseram que ela correu de volta logo depois, e trocou de vestido para... roupas de combate.
Por isso Jesse estava tão agitado. Ceridwen terminou as coisas com ele, provavelmente contou do arranjo da mulher para vender ventrallianos para Verão e foi embora.
Nessa dobra meu vestido depois que eu o tiro e estou com as roupas normais, as calças pretas e a camisa branca que usei em Verão. A chave, ainda enrolada em tecido, vai para meu bolso enquanto o chakram está as minhas costas, e quando saio de trás do biombo, aperto as faixas do coldre.
— Sei aonde ela foi — digo.
Lekan avança.
— O quê? Como?
— Porque sei aonde eu iria se meu coração tivesse se partido e estou começando a achar que Ceridwen e eu somos semelhantes de muitas formas — digo a ele.
Eu sei aonde iria se tivesse terminado tudo com um homem que amava, se meu reino estivesse constantemente ameaçado por um mal muito mais forte do que eu. Com a arma reluzindo, marcharia para a guerra. É o que meu corpo tem gritado para que eu faça desde que finalmente aceitei quem sou por completo, uma guerreira e uma rainha. Enfrentar tudo sem hesitação, buscar a luta em vez de me acovardar diante dela.
Sei que precisamos buscar a Ordem, buscar respostas. Mas eu deixei alguém com quem me importo escapar em meio ao caos, perdi, não importa o que eu faça. Faria o mesmo por Nessa ou Mather ou Sir — deixaria tudo para correr para ajudá-los. Minha parte impulsiva, aquela da garota-soldada órfã —, é tudo que ela é. Alguém que age impetuosamente, mas sempre com boa intenção.
Eu serei essa garota e a rainha, todas as partes de mim. Ajudarei Ceridwen e meu reino — posso salvar todos.
Posso salvar a todos.
É isso.
Pisco para Lekan, o choque me esfria. Sei que pergunta fazer ao condutor de magia.
Mas mal preciso de esforço para afastar isso para o fundo da mente, a maior parte de minha concentração vai para Ceridwen.
— Mas para onde ela foi? — pergunta Lekan.
Meu rosto fica tenso.
— Ela foi impedir o irmão.


Conall e Garrigan protestam quando ordeno que se separem. Garrigan deve ficar com Dendera e Nessa caso algo aconteça enquanto estou fora, e Conall deve vir com Lekan e eu. Conall argumenta que Garrigan deveria me acompanhar, pois o seu braço, embora não esteja quebrado, está torcido. Esse é o motivo pelo qual quero que Garrigan fique, no entanto — ele está mais apto a proteger Dendera e Nessa.
Além do mais, tenho meu chakram agora. É todo o apoio de que preciso.
Nessa nos dá um breve aceno quando saímos de meu quarto, o couro macio e gasto de minhas botas não emite som no piso de mármore. Lekan sabe onde a caravana veraniana montou acampamento, então, assim que saímos do palácio, ele corre à nossa frente e dispara pelas sinuosas ruas de paralelepípedo de Rintiero. Lekan usa calça larga laranja e pouco mais sob o casaco marrom áspero, mas não faz menção de pegar roupas diferentes ou mais armas. Espero que esteja tão preparado quanto precisa estar. Mesmo Conall só precisou retirar a máscara para estar pronto.
Sigo Lekan conforme ele se esgueira por um beco, sobe um muro, desce em outra rua. Talvez devêssemos ter conseguido que mais dos aliados de Ceridwen nos ajudassem, ela não tinha pelo menos uma dúzia de saqueadores quando a conheci fora de Juli? Certamente trouxe mais do que apenas Lekan consigo. Mas se não planejou atacar o irmão, talvez não tenha toda a comitiva.
As chances de nós quatro contra uma dúzia, duas dúzias, um número infinito de soldados, me lembra do outro problema: a pergunta que quero fazer à magia do condutor.
Como Lekan, Conall e eu corremos pela infinidade de edifícios e parques coloridos de Rintiero conforme passamos por ventrallianos perambulando por mercados ou varrendo pátio ou tirando água de poços sob o sol da tarde, a pergunta toma conta de mim, tensa e irrefreável, até que só consiga pensar nela, e não acredito que não perguntei antes.
Com cautela, mas desesperada, repasso as palavras pela mente e as empurro, uma a uma, para dentro da bola de gelo e magia e assombro que aguarda.
Como salvo a todos?
Porque quero salvar o mundo, não apenas Inverno. Quero que todos em Primoria estejam livres de Angra e da magia e do mal — para pelo menos terem uma chance contra tantas ameaças.
Talvez fazer essa pergunta me dê uma forma de salvar Ceridwen dos homens do irmão dela. Talvez me mostre como ajudar Inverno sem precisar encontrar a Ordem. Talvez conserte tudo, consertará tudo, porque é a pergunta certa. Sei disso com cada fibra de meu corpo, mesmo aquelas que ainda estremecem e recuam de medo da magia. É certo, exatamente como o que estou fazendo agora. É assim que sempre deveria ter sido.
A magia ouve minha pergunta. Sinto que reage a mim, ao modo como relaxo depois das palavras, uma rendição suave que passa por meu corpo estremecendo. A resposta é empurrada para minha mente como se eu sempre a soubesse, um reconhecimento imediato que consume qualquer outro pensamento que já tive.
Paro de correr, incapaz de me mover diante da resposta. A resposta que salvará a todos. A resposta que eu queria...
Não. Não, não quero.
Não quero, e caio de joelhos, segurando a cabeça como se pudesse escavá-la para retirar o conhecimento.
Hannah perguntou como salvar o povo dela, e a magia lhe disse como salvar Inverno. Ela deixou que Angra quebrasse o medalhão e a matasse porque queria compartilhar a magia com todos em nosso reino. Ela se sacrificou sem perceber que havia outra pergunta a fazer, um sacrifício maior que poderia ser feito.
Sacrifício.
A palavra me arrasa, e acho que sinto a mão de Conall em meus braços, a voz de Lekan me diz que estamos a apenas algumas ruas de distância. Meu corpo se move enquanto minha mente se acelera, e estou correndo de novo, disparando por Rintiero.
Magia é escolha. Escolher usá-la, escolher se render a ela, escolher tomá-la do abismo... Escolher que ela se desfaça em defesa de um reino. A magia mais poderosa de todas é escolha, e desse poder, a escolha mais forte que alguém pode fazer é um ato de sacrifício.
As pessoas tomaram magia do abismo. Exatamente como jamais ocorreu a ninguém, exceto Hannah, entregar o condutor, jamais ocorreu a ninguém colocar a magia de volta.
Essa é a escolha mais poderosa que alguém pode fazer: entregar um condutor de volta ao abismo. Dizer que eu preferiria ser fraca e humana a ser mais forte do que os demais. Eu preferiria que o mundo fosse seguro e livre de magia do que mortal e poderoso.
Essa escolha máxima, um ato de sacrifício altruísta, devolver um condutor para o abismo de magia, obrigará o abismo a se desintegrar e toda a magia junto com ele. E como a Ruína é magia, ela também será destruída.
Deveria ser fácil, para quem empunha um condutor que quer salvar ao mundo. Simplesmente encontrar o abismo, atirar o condutor dentro e sair para uma nova existência.
Mas eu sou o condutor de Inverno.
E para destruir toda a magia eu precisaria voluntariamente me atirar no abismo infinito de energia e poder. A fonte de magia que, quando as pessoas fizeram condutores pela primeira vez, matava pessoas se elas chegassem perto demais.
Eu precisaria morrer.
Lekan para ao lado de uma parede e não faço ideia de onde estamos. Algum lugar no interior de Rintiero, o sol pulsa acima de nós, e não consigo ver nada além da luz ofuscante do fim da tarde projetando raios dourados. Está mais quente agora, não o calor escaldante de Verão, mas o suficiente para que suor escorra por meu corpo — embora eu não consiga dizer se é do sol ou de meu pânico.
Os olhos de Lekan percorrem meu rosto.
— Você está bem?
Não consigo formular uma resposta. Não consigo sentir nada quando penso naquilo, no quanto o odeio, e no quanto odeio Hannah agora também. Quero desabar na estrada e tirar a palavra morrer da lembrança, porque é tudo que consigo ver agora.
Hannah pretendia que eu morresse para salvar Inverno; a única forma de eu salvar todos em Primoria é morrendo.
Se Hannah jamais tivesse feito ao condutor a pergunta errada, se jamais tivesse deixado que Angra quebrasse o medalhão e a matasse e me transformasse no condutor de Inverno, eu conseguiria. Conseguiria salvar a todos e a mim mesma, e nenhuma dor seria tão ruim quanto a que sinto no peito agora.
Desabo na parede ao meu lado, a pedra áspera puxa a manga do vestido enquanto cubro meu rosto com as mãos. Quero viver. Quero encontrar uma forma de salvar a todos e VIVER. É tão horrível eu também querer me salvar? É um pedido tão terrível?
Lekan puxa minhas mãos para baixo. O olhar dele é suave, a sobrancelha está erguida.
— A caravana está logo na esquina. Sei que não é sua luta, rainha de Inverno, mas preciso de sua ajuda.
A caravana. Ceridwen. Devo ajudá-la. Ela tem a tapeçaria — a Ordem ainda está lá fora. Talvez tenham uma forma; talvez saibam algo que possa me ajudar. Talvez, talvez, talvez. É tudo que sou ultimamente, um grande redemoinho de possibilidades, nunca nada definitivo ou certo. Não vou mais desperdiçar tempo ou possibilidades. Estou farta, estou farta.
A única coisa definitiva que sei agora é que Ceridwen precisa de mim, e é tudo que consigo ver. Não o novo peso da resposta que crava as unhas em meu crânio. Não a magia presa e confusa querendo se libertar agora que me rendi a ela e fiz uma pergunta e recebi a resposta. Mas não, não vou mais me render a ela. Talvez eu tenha que, por um breve segundo, mas não vou ceder. Não aceitarei isso.
Lágrimas fazem meus olhos brilharem.
— Tudo bem — digo a Lekan.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!