21 de janeiro de 2019

Capítulo 28

VÊ-LO ALI ME destrói. Ele voltou cedo demais. Rápido demais, ainda não, preciso de mais tempo...
Herod pisa forte na minha direção, os olhos dele estão vermelhos, os cabelos se arrepiam em volta do rosto assustado, descontrolado. Recuo contra os fundos da jaula. Ele está louco, a perversão de Angra alimenta a necessidade dele de matar.
E Nessa, Conall e Garrigan não estão com ele.
— Onde eles estão? — grito. — O que fez com eles?
Herod solta uma gargalhada e para logo acima da jaula, imponente sobre mim.
— Apenas continue lutando — cantarola ele. — Continue fingindo que pode vencer. Não sabe o que meu mestre é. Você não sabe o quanto é inútil contestá-lo.
— Não toque nela! — A voz de Theron ecoa da parede e ele estica as correntes, uma distância segura de onde Herod está, inclinando-se devagar até a fechadura da jaula.
— Seu príncipe trouxe um exército com ele, ele contou isso? — Herod coloca a chave na fechadura, mas não a gira, esperando minha reação. — Ele trouxe os exércitos do mundo para salvá-la. Doce amargura, não acha? Tudo isso e ainda vai vê-la morrer.
Um exército? Era isso que Theron estava dizendo?
Noam. Ele obrigou Noam a atacar Primavera. E se Cordell atacar Primavera... Outono atacará com ela.
Herod destranca a porta. Theron dá um puxão contra as correntes, estica-se até Herod, puxa de novo. Eu recuo o máximo possível na jaula, desejando ser tão pequena e invisível quanto for possível. Sou o condutor de Inverno. Deveria conseguir sair dessa, matá-lo, fazer algo para sobreviver. Inverno precisa que eu sobreviva.
Herod abre a porta e estende o braço até mim com um movimento ágil. Os dedos dele agarram meu colarinho e me arrastam para fora, as barras da jaula passam em disparada, antes que eu encontre apoio e pare. Então estou acima da jaula, disparando pelo ar até me chocar contra algo macio, algo coberto com uma colcha de quadrados de seda em um colchão de penas velhas.
A cama de Herod.
Recuo e pressiono o corpo contra a parede, tentando me colocar de pé. Herod caminha até mim, o rosto ensandecido, como um cão selvagem que encurrala a presa que vem caçando há muito tempo. Os olhos dele lampejam com poder que foi forçado para dentro de Herod por outra pessoa. Angra está aqui, fazendo isso ainda mais do que Herod. Será que Herod sequer existe além das coisas que Angra o obriga a querer?
— Lembra de quando eu a vi pela primeira vez? — sussurra Herod. Ele para na beira da cama, os dedos percorrem o mastro que segura o dossel acima de minha cabeça. — Há anos. Você ainda era uma criança, pequena e destemida.
Fico de pé, seguro o mastro oposto e começo a me balançar, a me impulsionar para fora da cama, mas Herod avança, as mãos dele pegam minhas coxas e me jogam de costas na colcha de seda. Quando o horror percorre meu corpo, Theron grita da parede, ainda puxando, inutilmente, as correntes. Sangue escorre dos pulsos dele agora, fios irregulares de vermelho escorrem no chão conforme o príncipe puxa e me olha com uma expressão tão impotente que meu coração se parte.
Eu me viro para Herod, agarrando-me a qualquer resquício de força.
— Não teve tempo de buscá-los, não foi? O exército de Theron interrompeu a diversão de seu mestre?
— Meu mestre não tem nada a ver com isso. Ele apenas me torna — Herod para e ri — irrefreável.
Herod me gira para que eu caia de costas com ele sobre mim, o peso do general me pressiona contra o colchão. Quero acreditar que é mentira. Quero acreditar que ele ainda é humano ali, em algum lugar, um pequeno lampejo de alguém que não quer ter feito as coisas que ele fez. Mas quando encaro Herod, não há nada. Um amplo e terrível nada acompanhado de necessidade e obediência e força.
Ele não existe fora dos comandos de Angra. Talvez jamais tenha existido.
— Eu lamento, porque isso será mais rápido do que sempre imaginei — sussurra Herod, o hálito quente dele corta minha pele como uma faca. — Mas seu príncipe me obrigou.
Eu me agito contra ele, as mãos escorregam na colcha. Herod se revira contra meus movimentos, me prendendo mais e mais, até que segura um de meus pulsos e prende meu braço acima da cabeça. Meu outro braço está torcido às costas, inútil sem um plano.
Herod para, os olhos dele percorrem meu rosto. Ele quer que eu revide. Quer que eu lute. E tudo em mim, cada parte de quem sou, quer lutar contra ele também.
É aqui que vai acontecer meu pesadelo mais insuportável. Momentos antes que o exército de Cordell e Outono possa me salvar, com Theron tão perto, mas há mundos de distância. Um nó de terror trava minha garganta, me fazendo chiar conforme luto contra o choro desesperado.
Herod se move, o corpo dele pesa mais sobre mim. Algo espeta meu quadril, algo afiado...
Uma medalha na jaqueta dele. Algum distintivo de honra militar que pende lateralmente do tecido.
Uma descarga de esperança fria e doce transforma meu choro em arquejos em busca de fôlego, e quase liberto o braço. Herod interpreta meu movimento como mais luta e gargalha, pressionando meu braço direito, preso com mais firmeza contra a cama. A outra mão dele se entrelaça em meus cabelos, inclinando minha cabeça e o pescoço em um arco doloroso.
Mas a medalha está livre agora, pendurada sobre meu quadril.
— Parece que eu estava certa — sussurro. — Vou matar você antes de isso terminar.
Herod hesita e viro o braço para arrancar a medalha do casaco dele. O tecido rasga, o que me dá um alfinete dourado afiado que reluz ao sol da tarde pelas janelas abertas.
Dou um puxão para cima, fecho a medalha na palma da mão quando enfio o alfinete no olho esquerdo de Herod.
Ele grita, sai de cima de mim e leva as mãos em concha sobre o olho no momento em que saio de baixo dele e rolo para fora da cama, usando o mastro do dossel para me impulsionar para o lado.
— Meira! — Theron dá um puxão contra as correntes, o corpo inteiro se inclina na direção da mesa, onde minha linda arma está apoiada.
Herod urra e arranca o alfinete do olho, sangue jorra em uma lágrima mórbida que escorre pelo rosto dele. Herod se contorce de dor e ódio, o olho bom se fixa em mim.
Não consigo chegar à mesa sem passar por entre Theron e Herod. Não há mais armas perto de mim, nenhuma cadeira que eu possa quebrar ou vasos que possa atirar.
Herod tira uma adaga da bota e avança para a frente, em uma onda de ódio. Dou um impulso na cama, acumulando velocidade, e caio de joelhos, deslizando entre a parede e Theron, me abaixando sob as correntes ensanguentadas dele. Minha calça de algodão surrada desliza pelo piso de madeira até que eu vire o pé, enganche na borda da mesa e me impulsione para ficar de pé.
Um nó se acumula em minha garganta. Meu chakram. Aquele que Herod roubou meses antes, a grande alça curva parece gasta e lisa contra a palma de minha mão. Tiro a arma da mesa de Herod e giro, com o corpo encolhido pelo movimento simples do fôlego antes do lançamento. Quando me viro, toda a extensão do mundo ao nosso redor congela, para, se detém entre mim, com o chakram pronto, e Herod, com a faca apontada para a garganta de Theron. A pausa antes de uma luta...
Uma luta corpo a corpo. Engasgo com um soluço diante da lembrança súbita de Mather lutando comigo, de Sir se recusando a me deixar sair em missões até que eu melhorasse, e agora, aqui estou — minha vida e a de Theron dependem de eu matar Herod corpo a corpo.
— Solte — sussurra Herod. A pupila esquerda dele está caída cegamente em uma confusão de roxo e vermelho, o olho direito está determinado e fervilhando de ódio.
Theron não hesita, apenas mantém os olhos castanhos fixos em mim. O lábio dele se curva e os olhos brilham com pânico, a boca se move formando cinco breves palavras.
Não dê atenção a ele.
Mantenho o chakram erguido, o corpo preparado para o ataque. Os dedos de minha outra mão tateiam o tampo da mesa de Herod. Outra coisa, por favor, outra coisa para distraí-lo de forma que eu consiga a mira livre...
Naquele exato e perfeito momento, uma sirene ecoa sobre Abril, um grito de pânico chama todos os soldados às estações deles e todos os generais aos postos. O rosto de Herod se contorce ao ouvir o barulho, mas ele não se move. A sirene berra de novo e Herod resmunga, um balbucio baixo me diz que a concentração de Herod não está totalmente ali. Está no rei dele, que provavelmente usa a magia negra para dizer ao general de maior patente que assuma seu posto, que deixe o brinquedo para depois e obedeça ao governante.
Meus dedos se fecham sobre algo. Um frasco de nanquim. Perfeito.
Estendo o braço quando a atenção de Herod se volta para a porta por um segundo perfeito de distração, o frasco gira pelo ar como uma estrela cadente negra. Nanquim escorre atrás do objeto, pintando o ar entre nós até que ele se choque contra o maxilar de Herod. O general recua o suficiente para que Theron possa desviar em direção à parede e puxar a adaga da mão de Herod. O general tenta agarrar o ar, mas Theron se abaixa, desvia do caminho, me dando a mira livre do pescoço de Herod.
O chakram deixa minha mão. Conforme ele voa, eu o acompanho, diminuindo o espaço entre Herod e eu até que a arma passe superficialmente pelo pescoço dele, a força do meu lançamento faz com que o chakram volte para minhas mãos quando salto do chão. O golpe do chakram faz com que Herod recue e eu já disparo em direção a ele, a arma se ergue acima de minha cabeça. O olho bom de Herod pisca para mim, o nanquim pinga pela bochecha dele.
Nós dois caímos no chão, meus joelhos se chocam contra o estômago dele. A alça desgastada do chakram se aninha na palma de minha mão como se jamais tivesse saído dali, enquanto deslizo a lâmina contra o crânio de Herod, a vibração percorrendo meu braço. Ergo o chakram, sangue escorre do metal. E desço a arma de novo, o osso cede.
Você é fraco, Herod. Não existe, além das coisas que permite que Angra o obrigue a fazer.
Eu deveria matar Angra, não Herod. Herod é apenas um peão. Mas ele não merece viver.
Você é fraco.
Meira, pare!
Hannah. O frio me tira o fôlego quando as mãos de alguém agarram meu braço.
— Meira! — Theron me puxa para trás e caímos em um emaranhado de braços e pernas e lágrimas e sangue. Ele partiu as correntes com a adaga de Herod e me puxa para os braços agora, me aninhando e acariciando meus cabelos e sussurrando meu nome diversas vezes, o embalo da voz de Theron me embala para longe daquele horror. Como a descarga de luz matinal que inunda um quarto depois de uma noite de terror interminável e insano, irradiando lembretes de que o mundo não é um lugar totalmente ruim. Que até mesmo crianças gritando acordam de pesadelos.
Theron me segura mais forte e percebo que estou gritando, com a voz aguda, em um choro sufocado. Solto o chakram no chão e enterro o rosto na camisa de Theron, querendo me desfazer em pedaços e me desintegrar dentro dele. Não acho que seja possível para Theron me segurar mais forte, mas ele segura, os braços me envolvem, paredes impenetráveis abraçando meu corpo conforme o cheiro de sangue me cobre.
Matei Herod.
— Meira — diz Theron de novo, apenas meu nome, como se fosse tudo o que ele soubesse dizer. — Meira.
Theron beija minha testa, meus cabelos, mantendo meu rosto pressionado contra o peito e longe do cadáver destruído de Herod aos nossos pés. Ele está morto. Ele se foi.
Algo no fundo de minha mente, algo distante e dormente, me impulsiona a me afastar de Theron. Olho para ele até que Theron entre em foco, os olhos escuros, os hematomas no rosto, o sangue seco na testa. A pequena sombra de um sorriso nos lábios, ainda tentando oferecer conforto em um lugar tão horrível.
— Ficaremos bem — diz Theron. Nós. Juntos, ficaremos bem.
Theron me coloca de pé, mantendo minhas costas voltadas para o corpo de Herod. Observo os olhos dele desviarem para o cadáver ensanguentado atrás de mim. Nem sei o que fiz com Herod. Não me lembro de nada, além da sensação do chakram escorregadio com sangue.
Estou coberta de sangue — minha camisa de algodão patética, a calça rasgada que usei sob a armadura para a batalha de Bithai. Está espalhado por meu rosto, meus cabelos, mas não consigo tocar para limpar.
— E agora? — fecho os olhos e inspiro para me acalmar, concentrando-me em como o ar entra em meus pulmões, me preenche. Viva. Estou viva.
E Angra jamais conseguirá usar Herod para ferir alguém de novo.
Não acho que o que vi em Sir, quando ele matava pessoas, era alívio. O que eu via era o que sinto agora — cansaço e tristeza e ainda mais conectada ao interminável tecido da vida. Mas não arrependimento. Não me arrependo de ter matado Herod.
Queria poder dizer tudo isso a Sir. Queria poder falar com ele sobre tudo.
Theron recua um passo e, quando abro os olhos, ele está verificando o quarto de Herod. Um armário no canto chama a atenção de Theron e ele marcha na direção do móvel. As portas se abrem, luz se projeta das janelas sobre uma variedade de roupas e sapatos e armas.
— E agora — diz Theron —, nos juntamos ao exército de meu pai e libertamos seu povo.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!