26 de janeiro de 2019

Capítulo 27

Meira

O PODER DAS coisas ocultas.
Na manhã seguinte, a inscrição em negrito e manuscrita acima das portas para o salão do trono do Palácio Donati me encara de volta. Encosto na parede diretamente diante das duas portas brancas ornamentadas, as molduras reluzentes de prata e os pequenos detalhes em safira acrescentam beleza à confusão, e toco a máscara em meu rosto.
— Tem certeza de que isso é necessário? — pergunto.
— Não gosta? — Dendera toca a própria máscara, branca, de meio rosto, com pequenos flocos de neve de cristal aglomerados ao redor dos olhos dela.
Criados ventrallianos forneceram uma variedade de máscaras adequadas a todos os reinos, um estoque que sempre têm às mãos para convidados estrangeiros. Os criados pareceram totalmente animados por alguém enfim poder usar as máscaras invernianas — fazia décadas, aparentemente, desde que não passavam de decorações bonitinhas nas prateleiras. Conall e Garrigan não reclamaram nem um pouco quando foram forçados a usar máscaras também, e os dois estão de pé, estoicos, ao meu lado usando máscaras simples de meio rosto de seda que se misturam à pele e ao cabelo marfim.
— Não é isso — digo. — Só não vejo por que é necessário para nós. Não somos ventrallianos.
Dendera sorri, mas não consigo ver mais do que isso na expressão dela.
— É respeitoso à cultura deles. Além do mais, se não participássemos dos rituais de Ventralli, eles teriam a vantagem, usando máscaras como fazem.
Vejo meu reflexo em um dos espelhos emoldurados que ladeiam o corredor. A máscara que ela escolheu para mim é metade de um floco de neve, as linhas retas formam buracos naturais para os olhos antes de se projetarem para fora de meu rosto em leque. Dendera cacheou meus longos cabelos brancos e os deixou soltos, e quando um dos criados nos ofereceu uma coleção de vestidos e sapatos em vez de minhas roupas gastas ou um dos trajes inacabados de Dendera, ela se encheu de lágrimas de um modo perfeito.
A moda ventralliana é única, para dizer o mínimo. Camadas sobrepostas de tule rosa e pêssego compõem meu vestido, com a camada exterior enfeitada com fileiras entrecruzadas de contas de cristal. As mangas são apenas uma camada do tule, mostrando meus braços pálidos através de uma névoa pêssego. Vi alguns dos outros vestidos que os criados reuniram para nós — coisas esguias, justas ao corpo, totalmente feitas de joias posicionadas lado a lado em tecido cor de pele; saias que se estendiam apenas até os joelhos; decotes que se abriam em leque em cones gigantes de tecido plano. Cada vestido passava a mesma sensação deliberada que os prédios da cidade, como se cada um deles fosse bem cuidado.
Pelo menos esse vestido vem com um bolso, e a chave que encontrei em Putnam está dentro dele, envolta em um quadrado de tecido. Ajusto as camadas de tule em volta das pernas, sentindo o peso da chave se mover junto à minha coxa. Mais uma apresentação nos espera, e quanto antes acabarmos com ela, mais cedo poderei começar a vasculhar os museus de Rintiero em busca da última chave.
Dendera endireita o corpo e se vira, ouvindo passadas ao mesmo tempo que eu. E certamente, o restante de nossa caravana segue em nossa direção pelo longo corredor espelhado que se estende diante das duas portas ornamentadas. Theron com os soldados, todos eles vestindo os uniformes de Cordell, agora acompanhados de máscaras verdes e douradas decoradas com folhas de bordo douradas e talos de lavanda.
A máscara torna impossível que eu entenda o rosto de Theron, mas ele me encara ao se aproximar, abrindo os lábios como se quisesse dizer algo.
Eu me viro para longe de Theron, com as costas eretas, e busco Ceridwen no grupo. Simon e os guardas dele têm máscaras adequadas ao reino, chamas crepitantes que ondulam em volta do rosto, misturando-se impecavelmente aos cabelos vermelhos. Simon usa a mesma roupa que usava em Putnam — mas o vestido que Ceridwen escolheu combina perfeitamente os estilos de Ventralli e de Verão. Tule vermelho se espalha a partir de uma borda dourada ao redor do peito dela, envolvendo-se no corpo de Ceridwen até se dividir e cair em duas partes sobre a perna esquerda. Quando Ceridwen anda, seda vermelho-sangue desponta sob o tecido dividido, mostrando um desenho complexo de fogo costurado até o quadril. Mais tiras douradas entrecruzam o tronco de Ceridwen, uma linda mistura de dourado e vermelho e laranja, chamas e beleza e arte.
Ceridwen não me olha, encara as portas como se fossem um inimigo, e não sei dizer se ela está se preparando para fugir ou lutar.
— Princesa? — Começo a dizer, quando todos param diante de nós. — Você...
— Minha irmãzinha não está linda? — Simon cambaleia até Ceridwen e dá um tapinha na bochecha dela, apoiando o condutor que leva ao pulso sobre o ombro exposto dela. — Está só nervosa, é isso.
Ceridwen encolhe o corpo.
— Não vou lidar com você agora...
As portas se abrem e lançam uma onda de quietude por todos, mas para Ceridwen, o silêncio é mais difícil, mais pesado, e ela se retrai, cabeça baixa, ombros curvos.
— O rei os receberá agora — anuncia um camareiro cuja máscara é feita de seda simples roxa e prateada. Ele se vira e sai andando para dentro do salão, então seguimos, um rio lento de dignitários agarrando-se ao silêncio desconfortável como se fosse um bote salva-vidas.
Eu vou em direção a ela quando percebo que Ceridwen está se demorando, os olhos dela fixos no salão à frente, suspiros lentos e irregulares saem de sua boca. Todos passam por nós. Até mesmo Dendera segue em frente para nos dar espaço. Apenas Conall e Garrigan se detêm, e nos fundos, à parede, um homem se destaca do grupo veraniano para ficar atrás de Ceridwen. Lekan.
Ele me encara com os olhos emoldurados por uma máscara vermelha de seda. Se oferece um aviso com o olhar, não consigo ver, e me viro para Ceridwen.
— Você desafia seu irmão quase diariamente, mas é de Ventralli que tem medo?
Ela sacode a cabeça, despertando da confusão. Quando me olha, reconheço o mesmo vazio inescapável que sentia sempre que Sir se recusava a me deixar ajudar com qualquer coisa. As brasas sombrias e incandescentes de não ser bom o bastante.
— O que foi? — sussurro.
Ceridwen umedece os lábios, as mãos dela se contorcem apertando o estômago.
— O rei de Ventralli me deu este vestido — diz ela, quase como se não estivesse ciente de que está falando.
— É lindo.
— Eu não deveria ter usado. — Ceridwen levanta a saia e dá uns passos rápidos de volta para o corredor, mas para quando Lekan e eu a seguimos, e todos apenas ficamos ali, eu com uma das mãos estendida, ela com uma das mãos na saia, Lekan encolhido para correr até a princesa.
— Ceridwen, diga o que está acontecendo — tento de novo.
Ela olha para trás, os olhos injetados. O olhar de Ceridwen me percorre antes que ela fungue e estique o corpo.
— Nada — dispara a princesa. — Depois do fim dessa apresentação, me siga. Levarei você até alguém que pode ajudar com... — Ceridwen toca o corpete, sei que deve ter o tecido enfiado ali.
Assinto, ainda confusa.
— Tudo bem, mas...
Ceridwen passa por mim, avançando para o salão do trono antes que eu consiga terminar. Lekan corre atrás da princesa, fazendo uma reverência para mim quando passa, e acho que ouço um pedido de desculpas murmurado.
Minhas sobrancelhas se erguem tanto que tenho certeza de que estão acima da máscara. Conall e Garrigan parecem tão confusos quanto eu, e Garrigan faz um gesto de ombros, me oferecendo um sorriso encorajador. Eu aceito e sorrio de volta para ele, mantendo o sorriso estampado no rosto quando entro no salão do trono.
Seguro a saia com os dois punhos fechados, mantendo-me alerta caso o que quer que Ceridwen tema aconteça. O salão do trono se estende, um piso de mármore verde e branco rodopia em uma dança colorida sob duas fileiras de colunas vermelhas. Painéis azuis como o céu cobrem o teto, interrompidos apenas por um círculo dourado no centro, curvo, formando uma tigela côncava que brilha à luz dos candelabros pelo salão. Mosaicos nas paredes depois dos pilares criam um caleidoscópio de verde e marrom que forma arbustos, grama, árvores de bordo, carvalhos, e mais. O domo dourado reluzente acima de nós brilha como um sol, nos projetando na versão de um artista de uma floresta, perfeita e intocada.
Paro ao lado de Dendera, tentando não olhar tão obviamente admirada para a maravilha ao meu redor. Quanto mais olho, mais detalhes vejo. Gosto do cervo de azulejos escondido atrás de uma árvore em um dos mosaicos, ou das rotações do sol entalhado no domo acima de nós, ou do rei e da rainha de Ventralli sentados em tronos feitos de... espelhos? Espelhos do tamanho da palma da mão cobrem os dois tronos, dando a ilusão de que foram transformados em diamantes. O altar sob os tronos também abriga uma variedade de cortesãos, um punhado de homens e mulheres, mas uma está mais próxima do trono do rei do que os demais. A máscara amarela vibrante dela não ajuda a esconder o óbvio desdém, e a mulher contrai os lábios enrugados quando chegamos, inclinando-se para sussurrar algo ao ouvido do rei. Sentado ali, com a cortesã de um lado e a rainha no trono do outro, o rei parece... encurralado.
Meu assombro se desfaz e um rompante de ansiedade me faz seguir em frente, meu corpo murmura com a necessidade de falar com Jesse e Raelyn antes que alguém interceda em nome de Inverno. De novo. Dendera segura meu braço — todo o motivo pelo qual ela foi comigo dessa vez foi para me ajudar a balancear o momento de ser impetuosa e o de ser calma. Pelo olhar que me dá, percebo que quer que eu deixe a realeza ventralliana falar primeiro.
Como se sentindo a deixa de Dendera, a rainha se levanta. A cortesã mais velha recua para longe do rei, olhando para a rainha com um sinal não dito que não consigo interpretar.
O vestido de Raelyn Donati farfalha ao voltar para o lugar, como se ela controlasse cada pedaço do tecido. Um corpete preto se conecta a cascatas de seda preta na altura da cintura, o conjunto desce pelas costas das pernas de Raelyn em uma explosão de escuridão reluzente. A frente da saia é uma revolução de cores — camadas de amarelo girassol e tule vermelho como blush. A máscara de Raelyn combina as cores e os tecidos do vestido dela, presa discretamente nos cachos espessos e escuros. Olhos avelã atentos observam cada um de nós como se Raelyn avaliasse cada um dos diferentes tecidos para escolher aquele do qual gosta mais.
Ela para sobre Ceridwen. Mesmo com a máscara, todo o comportamento de Raelyn muda, ela passa de levemente entediada para irritada, com algumas contrações dos lábios. Arrisco um olhar para Ceridwen, que mantém os olhos no piso de mármore, o corpo tão rígido que poderia muito bem ser uma das pilastras.
Raelyn dá um único passo adiante e se vira para mim, parando à beira do baixo altar no qual estão os tronos.
— Rainha Meira — diz ela, unindo as mãos às costas.
Eu me preparo. Espero o desprazer de Ventralli agora que sei o que significa trazer Cordell nessa viagem, mas ainda não sei como retaliarão. Giselle apenas nos dispensou — o que Ventralli fará? Apoiará Cordell?
Mas, para minha surpresa, a boca de Raelyn se abre em um suspiro.
— Sinto muito pelo sofrimento de seu reino, mas fico feliz em saber que por fim atingiu um estado de paz.
As palavras são gentis, mas o tom de voz é aquele de alguém recitando a sentença de uma execução. Dendera me cutuca e eu pisco.
— Hã, obrigada. — Pigarreio. — Obrigada, rainha Raelyn. Inverno aprecia seu... — Apoio? Não. Empatia? Eh. — ... seus votos de prosperidade.
Raelyn assente em aceitação e se vira para o marido.
— Meu senhor, nossos convidados viajaram até aqui, e ainda não oferecemos a eles boas-vindas ventrallianas adequadas. — Ela coloca a mão no braço de Jesse. — Temos uma comemoração planejada em honra deles esta noite, não?
Toda a atenção em Jesse agora. Mas embora olhemos para o rei, ele olha apenas para Ceridwen, de olhos arregalados, os músculos do pescoço tensos, o maxilar trincado.
Sinto como se todos tivéssemos surpreendido esses dois e devêssemos sair de fininho para lhes dar privacidade.
Ar fica preso em minha garganta e faço de tudo para evitar tossir no silêncio. É exatamente o que estou observando, o que Simon quis dizer, o que Raelyn sabe muito bem, pela forma como toca Jesse e dá risadinhas para Ceridwen.
O rei ventralliano ama Ceridwen.
E pela forma como Ceridwen olha para Jesse...
Ela sente o mesmo.
Esse é o segredo da princesa. Por isso pareceu tão enojada por meu relacionamento com Theron — somos iguais. E o relacionamento dela está tão partido quanto o meu.
A mulher mais velha se inclina para a frente para colocar a mão no outro braço de Jesse, como se ajudasse Raelyn a segurar o rei no trono. O toque dela o deixa chocado e ele se coloca de pé, afastando-se das mãos delas de uma forma que faz com que as duas mulheres pisquem como em um rompante abrupto de surpresa que máscara nenhuma conseguiria esconder.
Jesse olha para o restante de nós como se acabasse de perceber que estamos ali. Como se não conseguisse ver nada além da chama que é a princesa de Verão.
— É claro, minha senhora. — Com os cabelos pretos soltos sobre os ombros e a máscara de seda vermelha simples sobre os olhos, ele complementa a esposa de todas as formas. Todas as formas, exceto aquela como continua voltando o olhar para Ceridwen, alheio ao fato de que Raelyn se move para pegar o braço do marido de novo, os dedos magros se curvando em torno dele.
Os olhos avelã de Jesse nos percorrem mais uma vez e param sobre Theron.
— Príncipe Theron — diz ele. — É claro. Nós... esperávamos você. Sim. Uma comemoração, esta noite.
Jesse se volta para Raelyn, fazendo uma reverência com a cabeça de novo.
— Sim. Uma comemoração — concorda Jesse, antes de se virar e mergulhar entre os tronos espelhados. A cortesã mais velha o segue, sibilando algo inaudível, e só consigo entender como resposta dele um grosseiro “Agora não, mãe.”
Mãe dele?
Uma explosão prateada toma conta do ambiente — a coroa de Ventralli pendurada em um coldre no quadril de Jesse. Espirais prateadas finas contêm uma variedade de joias, desde rubis até esmeraldas e diamantes, tudo isso emitindo o mais leve brilho prateado, a mesma aura nebulosa de magia que emana de todos os condutores-objetos.
Como não reparei antes? E por que a coroa está pendurada no cinto, não sobre a cabeça de Jesse?
Ele avança para uma porta atrás do altar, sumindo, quase como se estivesse fugindo da mãe, que segue em uma perseguição agitada.
Jesse não se comporta como alguém que tem o poder de mudar o país dele.
Assim que o rei se vai, Raelyn se vira de volta para nós.
— Veremos vocês esta noite. — Ela gesticula com a mão para nos dispensar e passa entre os tronos espelhados também, pegando a velha cortesã pelo braço antes de as duas desaparecerem além da porta pela qual Jesse saiu.
Começo a avançar quando a mão de alguém segura meu braço.
— Não tive a chance de...
Mas não é Dendera... É Theron.
Ele passa o braço em volta do meu conforme todos saem do salão do trono, me puxando consigo como se estivéssemos fazendo o que é esperado de nós, como se estivéssemos normais de novo. Dendera fala com Conall e Garrigan, mas vê Theron me segurando, e ergue a sobrancelha, indagando se quero ou não que interceda.
Eu me volto para Theron, tornando o gesto minha resposta.
— Nós dois teremos chances de falar com eles — diz Theron, a voz destacando a forma como nos divide. — Dê tempo a eles.
Mas conforme fala, a concentração de Theron passa para a líder de nosso grupo. Ceridwen levanta o vestido e dispara pelo salão, seguida de perto por Lekan. Ela chega às portas e sai em um rompante, o estalar dos sapatos ecoa atrás, o irmão de Ceridwen e os homens dele riem atrás da princesa. Seguro o braço de Theron com mais força, um espasmo involuntário conforme conecto mais peças.
— Você sabia sobre eles? — sussurro.
Theron abaixa o olhar para mim, a outra mão dele se ergue e segura meus dedos em concha. Não, não tinha a intenção de segurá-lo daquela forma, mas Theron me encara, e não consigo interpretar a expressão dele por trás das drogas das máscaras.
— Dizem os rumores que começou depois que Ceridwen se tornou embaixadora em Ventralli — diz Theron. — Ninguém fala a respeito. É o escândalo da família Donati há anos, e Raelyn costumava se importar, até pouco menos de um ano atrás.
Meu maxilar relaxa enquanto penso.
— Ela deu à luz o filho de Jesse. Assegurou a continuação da linhagem do condutor dos Donati, e ninguém mais seria capaz de ameaçar a posição dela. — Meus pulmões esvaziam, meus olhos se concentram na porta da qual nos aproximamos. — E mesmo assim Ceridwen ainda o ama.
Consigo sentir os olhos de Theron sobre mim, âncoras que costumavam me fixar, agora parecem mais amarras.
— Ele ainda a ama também — sussurra Theron. — Não importa quantas pessoas digam que é errado. Não importa quantos membros da corte o odeiem por isso. Jesse sempre a amará.
Parece uma afirmação ousada — como ele poderia saber disso? Então Theron passa o polegar pelo dorso de minha mão.
Theron não está mais falando de Jesse.
Graças a tudo que é frio, Nessa entra correndo no salão do trono e nos encontra conforme saímos.
— Meira — diz ela, pegando meu outro braço. — Preciso mostrar algo a você.
Nessa não estremece nem se corrige por usar meu nome, e só isso me faz querer beijá-la, mas a saída que oferece faz com que eu me atire a ela voluntariamente.
— Vejo você em breve — digo a Theron, me desvencilhando dele. Dendera, Conall e Garrigan seguem, e deixo que Nessa me puxe para fora do salão, fingindo que a máscara é o bastante para esconder a dor que se espalha no rosto de Theron.
Talvez as máscaras não sejam tão ruins, na verdade. Elas nos permitem viver em mundos tão intocados quanto a floresta do salão do trono: controlados e brilhantes, imaculados e perfeitos. Um mundo no qual eu posso me concentrar nas coisas de que preciso, não nas emoções frágeis de relacionamentos em cacos.
— Preciso ir atrás de Ceridwen — digo a Nessa, com a voz baixa, assim que deixamos o salão de baile. O corredor já está vazio, exceto pelos dignitários veranianos que vão embora, viram à esquerda e seguem para a frente do palácio.
— Eu sei, mas isso vai ajudar! — O toque de Nessa sobre meu braço fica mais apertado e ela me puxa para a esquerda, mergulhando em um corredor que se origina do principal. — Eu ia simplesmente desfazer as malas e esperar notícias, então perguntei a um dos criados que tapeçarias há no palácio.
Ela sorri para mim, nos virando para a esquerda, então direita de novo.
— Tapeçarias? — pergunto.
— Como aquela que encontrou em Putnam. Achei que talvez fosse um bom lugar para começar também! O criado disse que há uma guilda inteira dedicada à arte da tapeçaria, mas fica no interior da cidade. No palácio, no entanto, têm centenas, o que não foi surpresa. Mas ele me mostrou as...
— Ele? — interrompe Conall, inclinando o corpo para a frente conforme nós praticamente corremos pelo corredor.
Nessa cora, mas tenta combater com um revirar de olhos.
— Sim, ele era um alegre mordomo de setenta anos. Sinceramente, não precisa se preocupar tanto comigo.
Conall recua, resmungando consigo mesmo.
Nessa continua.
— De toda forma, ele me mostrou algumas daquelas das quais têm mais orgulho, e veja só!
Nessa abre a porta para uma galeria coberta de tapeçarias: pequenas, retratando paisagens; grandes, retratando batalhas; longas, retratando multidões inteiras. Mas nenhuma delas atrai a atenção de Nessa, e ela me arrasta pelo salão vazio até a parede mais afastada, onde oito tapeçarias pendem, idênticas em tamanho e formato.
As quatro à direita eu entendo imediatamente.
Uma mostra um povo de cabelo escarlate adornado de laranja e vermelho, chamas nos uniformes, com o tecido das roupas torcido e escasso sob tiras de couro e sandálias. O fundo mostra um deserto rachado, o sol ofuscante bate com um fio dourado espantoso, vinhas se enroscam em uma moldura em volta de toda a paisagem.
Aquela ao lado dessa mostra homens em túnicas de cetim azuis, vermelhas e marrons, e mulheres usando faixas do mesmo cetim brilhante, os cabelos pretos e as peles escuras os fazem se misturar ao fundo de árvores vermelhas, amarelas e marrons sombreadas.
A seguinte mostra mulheres usando vestidos marfim plissados, homens com faixas de tecido formando um “X” sobre o torso. Campos de neve se estendem por toda volta, o céu cinza e enevoado ameaça nevar mais sobre a cena.
E na última — campos de flores oscilam atrás de pessoas com vestidos frescos de cores pálidas, rosa, casca de ovo e lavanda.
Os reinos Estação. As partes de Primavera que vi estavam envoltas em guerra e na Ruína, mas essa tapeçaria mostra o que Primavera deveria ser. A característica envelhecida dos fios, a textura gasta nas bordas, me faz pensar que essas tapearias devem ter séculos.
Perco o fôlego.
As quatro tapeçarias à esquerda mostram os reinos restantes. Cordell, com o verde e o dourado e campos de lavanda; Yakim, com os dispositivos marrons e de cobre; Ventralli, com os estilos ecléticos e os prédios coloridos; e Paisly, com as...
Montanhas.
Nessa saltita até a tapeçaria que retrata Paisly e aponta para cima, quicando.
— Você nos mostrou a tapeçaria que encontrou antes de partirmos para Ventralli. Sei que Ceridwen ainda está com ela, mas acho que lembro o suficiente. Isso é semelhante, não é?
Paro diante da tapeçaria, minha boca se abre.
— Não apenas semelhante — digo. — Essas são as montanhas.
E são mesmo. Exatamente o mesmo círculo de montanhas que vi na tapeçaria que encontramos em Putnam olha para mim do alto — um anel de pedras cinza despontando, afiadas. Mas em vez de uma bola de magia costurada no centro, pessoas estão de pé dentro do círculo, vestidas em túnicas longas e pesadas, vermelhas e pretas, com espirais de linha dourada formando padrões complexos que sobem pelas mangas em formato de sino. Os colarinhos altos sobrem por cima dos cabelos ébano, as mechas estão torcidas em coques junto às cabeças escuras.
— Paisly? — pergunto. A tapeçaria mostrava as montanhas Paisel?
Ou foi apenas uma pista para nos levar à chave?
Disparo para a tapeçaria paisliana e percorro a mão sobre os fios. O tecido grosso pende de uma presilha no alto da parede, e não alcanço a maior parte da tapeçaria. Mas analiso as bordas, buscando por onde consigo, erguendo a base da tapeçaria. Nada está na parede de trás dela, nenhum bolso se projeta do material.
Até onde sei, não há nada especificamente relacionado à Ordem nessa tapeçaria.
— Não pode ser uma coincidência. — Eu me viro para Nessa. — Pode?
Ela faz um gesto de ombros, o rosto fica levemente desapontado.
— Talvez essa esteja errada? Talvez aquelas não sejam as montanhas.
Recuo, encarando a tapeçaria de novo. Mas são as mesmas montanhas.
— Devemos ir para Paisly? — pergunto em voz alta.
Dendera ri com escárnio.
— Pela neve, espero que não.
Mas é tudo que consigo deduzir daquilo. A tapeçaria de Putnam nos trouxe aqui. Não foi? Talvez encontremos outra coisa se buscarmos os museus ou as guildas de Ventralli. Talvez essa seja apenas uma coincidência estranha.
Minha divagação para subitamente quando alguém pigarreia à porta do salão. É o camareiro de antes, com as mãos às costas, o queixo erguido.
— O rei requer sua presença — anuncia o homem, e sai pela porta, afastando-se a um ritmo acelerado, de modo que está no meio do corredor quando eu consigo processar o que disse.
Fecho as mãos em punhos e saio atrás dele.
Dendera segura meu braço.
— Deveríamos conversar sobre isso? Precisamos...
— Não — digo a ela, com o tom de voz inexpressivo. — A chave não está aqui. Preciso de tempo para pensar no que fazer a seguir, e ficar por aqui não vai ajudar. Além do mais, preciso me encontrar com Jesse também. Ele certamente não pode piorar mais as coisas.
Mas não sei o que o rei ventralliano pode querer. Talvez ele encontre uma forma de piorar as coisas.
Todos seguimos o camareiro, deixando para trás a tapeçaria paisliana.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!