21 de janeiro de 2019

Capítulo 27

O PISO DA sala do trono de Angra reflete a luz do alto, permitindo que meu reflexo me encare conforme eu me encolho, de quatro, ao pés dele.
Sou a filha de Hannah.
Meus olhos se voltam de um lado para outro, meus pulmões inspiram e expiram pânico. Não posso ser a filha de Hannah, porque Mather... Mas Hannah pediu que Alysson e Sir dissessem que Mather era o príncipe. Angra sabia que o herdeiro de Hannah tinha escapado naquela noite, então não podiam simplesmente dizer que a criança tinha morrido — ele jamais teria acreditado nisso. Disseram que era Mather para que Angra não se importasse que o herdeiro de Inverno fosse apenas um menino, não uma menina, não uma ameaça, mesmo que conseguíssemos recompor o condutor e a magia retornasse para ele.
Mas o medalhão não tem poder agora, não tem poder desde que Angra o quebrou, há 16 anos, porque todo aquele poder procurou um novo hospedeiro. Ele entrou em mim.
Sou o condutor de Inverno.
Ninguém sabia que era possível, exceto por Hannah, porque ela deixou que o condutor dissesse o que precisava ser feito para salvar Inverno. O medalhão dela precisava ser quebrado em defesa de Inverno, um sacrifício, para que o poder não pudesse ser levado, não pudesse ser destruído ou afugentado, não estivesse limitado a um objeto. Esse poder sou eu, é Inverno, está livre, porque está conectado à minha vida agora...
Sou a rainha de Inverno.
Inspiro, obrigando o ar a entrar em meu corpo e me manter viva por baixo de tudo isso, um peso maior do que qualquer coisa que eu já tenha sentido.
Dezesseis anos em que todos mantiveram esse segredo. Em que Sir me treinou, me tratou como se eu fosse uma órfã sem nome que deveria agradecer por ser livre. E Mather... não. Todo esse tempo, os pais verdadeiros dele estiveram bem ali, até que Sir...
Essa é minha doce menina.
O chalé. Sir me abraçando. Aquilo não foi real. Foi um truque cruel de Angra, uma brincadeira terrível com meus sonhos. Tudo que quero da vida, tudo que jamais terei — uma família simples e feliz em algum chalezinho abarrotado. Mas Hannah — aquilo foi real. Foi uma tentativa de me salvar de Angra, uma onda desesperada de proteção, impulsionada pela conexão dela com a magia do condutor, com a linhagem. Minha linhagem.
Caio para a frente, minha testa toca a obsidiana fria, a boca se abre com o início de um choro. Lágrimas escorrem por meu rosto quando me lembro dos braços de Sir ao meu redor, da forma como ele me segurou no sonho cruel de Angra, completamente sem medo de me amar.
Mas ele não é meu pai. É pai de Mather. Meu pai é o rei morto de Inverno, e minha mãe é a rainha morta de Inverno. Ela esteve usando a conexão com o condutor de Inverno para falar comigo. Porque eu...
Sou o condutor de Inverno. Não importa quantas vezes enfie essas palavras na cabeça, elas não fazem sentido.
— Herod!
O grito de Angra, cheio de ameaça descontrolada, estremece o palácio. Ele vai me matar, me destruir bem aqui, transformar cada pedaço meu em partes inofensivas e espalhá-las pelas terras desoladas de Inverno. Ele vencerá.
Pulo de pé, cambaleio para trás, não tenho certeza de aonde ir e onde me esconder. Não posso simplesmente morrer — não tão fácil assim. Não pode terminar agora, simplesmente assim...
Angra escancara uma porta.
— Herod! Traga-o, AGORA!
Paro, com as mãos estendidas, a respiração difícil. Ele. Será que Mather foi capturado?
Angra se volta para mim quando passos se aproximam do corredor.
— Invernianos, sempre no caminho de coisas maiores — diz ele, inquieto, em um desespero fantástico. — Você pode conseguir resistir a mim, mas há outra forma de fazer com que fale.
Resistir.
Ele não ouviu nada. Não sabe. Para ele, a imagem de Jannuari deve ter se dissolvido depois que deixei o chalé. Hannah usou a magia do condutor para nos manter escondidas porque precisava me preparar; ela assumiu o risco de me dar uma chance de lutar para salvar nosso reino.
Meu peito fica frio de novo, um leve tremor dispara até minhas mãos.
Passos soam na sala do trono, sombras recaem sobre duas figuras. Uma é Herod, os ombros largos dele reconhecíveis em qualquer lugar. A outra é menor. Ainda forte, ainda grande, mas...
Herod atira o outro homem contra o raio de luz diante de mim. Ele desaba, as roupas estão rasgadas e manchadas de sangue, o corpo está ferido e cheio de cortes e lacerações. Quando ele ergue o rosto para mim, todo o resto some.
É Theron.
— Conte tudo — ordena Angra, pisando forte até mim, a escuridão do cetro cria uma nuvem de sombra ao redor da mão. — Ou vou quebrar todo os ossos do corpo do seu príncipe.
Theron se senta sobre os calcanhares. Theron está aqui. Em Primavera.
Sangue escorre para o olho de Theron de um corte na testa e metade da boca se inclina para um lado, em uma tentativa patética de parecer feliz em me ver, mesmo aqui.
Desabo no chão, diante dele, passo as mãos pelo rosto de Theron, pelos braços, hesitando sobre os ferimentos.
— Como chegou aqui?
O sorriso de Theron se desfaz.
— Eu poderia perguntar o mesmo.
O cetro de Angra acerta a cabeça de Theron e o atira, estatelado, no chão. Theron se apoia sobre os cotovelos, inspira para se acalmar e olha de novo para mim.
— Não quer dizer a ela que se entregou a mim? Galantemente tentou entrar escondido em Primavera para salvá-la, mas acabou na mesma situação? — Angra ri com escárnio para Theron, mas a arrogância habitual dele falha agora, o controle de Angra fraqueja diante de minha resistência à magia. — Devo mostrar a seu príncipe como os visitantes são tratados em Abril?
Avanço quando Herod dispara até mim, nós dois colidimos à distância de um braço de Theron.
— Não! — grito, a palavra ecoa ao meu redor. Não tenho tempo para náusea ou nojo ou para o olhar malicioso e lento de Herod, enquanto ele envolve meu corpo com os braços e resmunga quando o chuto.
— Sabe o que aconteceu com os últimos refugiados que pegamos? — A respiração de Herod roça meus cabelos, meu pescoço, flui por meu corpo enquanto ele me puxa para si.
Angra passa por cima de Theron e abaixa a órbita do cetro, pressionando-a contra a coluna de Theron. Mas Theron não se encolhe, o olhar dele está em mim, a respiração é difícil e rápida, e o príncipe reúne determinação para o que possa vir. Ele não sabe sobre a Ruína de Angra — não sabe que a magia de Angra pode afetá-lo...
A primeira costela se parte e Theron grita, surpresa destrói qualquer chance que ele possa ter tido de permanecer estoico. Medo verdadeiro e irredutível tira a cor do rosto dele Theron arqueja no silêncio depois da quebra, os olhos dele encontram os meus em um rompante de perguntas não respondidas. Mas não posso explicar nada, não enquanto Herod pressiona o rosto contra minha orelha, não quando a segunda costela se parte no peito de Theron, um estalo sonoro de osso roçando contra osso que faz o meu corpo doer com a lembrança.
— Você sabe, não é? — continua Herod. — Por que deixamos que um deles fugisse, para que pudesse contar a vocês qual seria seu destino. Aquela que morreu, R-16? Era uma lutadora, exatamente como você. Determinada a resistir. Mas eles sempre cedem no final.
A terceira costela se parte e Theron solta um grito abafado contra o chão que faz meu coração dar um salto. Os olhos de Angra se voltam para os meus. Ele sorri com a alegria de uma criança, a mão se contorce sobre o cetro conforme continua a quebrar as costelas de Theron, uma a uma. Posso impedir. Posso impedir se apenas disser a ele quem sou...
— Farei seu príncipe assistir — sussurra Herod.
Ele fez Gregg assistir. Ele o manteve acorrentado no quarto enquanto Crystalla era mantida em uma gaiola, uma boneca com a qual Angra fez Herod brincar quando tinha vontade. Angra mostrou a ela o lugar de um inverniano em Primavera ao fazer com que Herod a torturasse até a morte de formas que o corpo não pode suportar.
Theron geme no chão enquanto Angra termina de curar as costelas que quebrou.
Herod finalmente me solta e caio sobre Theron, como se meu corpo pudesse protegê-lo da magia de Angra.
— Pare — murmuro, contra o ombro de Theron. — Pare. Ele não faz parte disso. Isso é entre nós, Estação com Estação. Essa guerra não é de Cordell!
Angra ri. O som me levanta, meu erro ecoando em meus ouvidos.
— Não, você está certa. — Ele se vira para Herod. — Vá buscar I-2072, I-3218 e I-3219. Prometi a R-19 que você poderia acabar com eles depois de terminar com...
— Não! — Meu grito dispara pela sala do trono, tão alto e tão desesperado que consigo sentir as rochas tremerem. Ao meu redor, a escuridão da obsidiana penetra minha visão, pintando tudo que vejo e sinto de um preto assustador. Posso usar a magia do condutor para impedi-los, impedir isso, tudo? O que minha magia pode fazer? Só posso afetar invernianos, dar a eles força ou resistência ou saúde...
Acho que Theron me abraça. Acho que ele sussurra algo em meu ouvido, mas estou gritando agora, me debatendo enquanto soldados entram e nos levantam. Não consigo ouvir nada além do rugido do sangue em minha cabeça, a imagem horrível de Herod rindo para mim quando ele se vira, para, sorri de novo. Herod caminha pela sala do trono e sai pelas duas portas pesadas com uma graciosidade controlada. Ele vai buscar Nessa e os irmãos. Vai matá-los...
— Levem-nos para os aposentos de Herod — ordena Angra. — Se ela tiver com vontade de falar, tragam-na para mim imediatamente. Não importa em que estado esteja.
Grito de novo, meus dedos se enterram nos soldados que nos arrastam para longe. Não vou deixar que Nessa ou Conall ou Garrigan ou eu mesma ou qualquer um morra dessa forma.
Os soldados não se importam. Eles prendem meus braços para trás e me carregam escada acima, por corredores, entremeando o palácio de obsidiana de Angra. Tudo está decorado com o mesmo tema poético, de partir o coração, de primavera na escuridão, entalhes coloridos de gavinhas e flores penetram a rocha negra. As gavinhas nos cercam como as palavras na caverna de lembranças de Nessa.
Algum dia seremos mais do que palavras na escuridão.
Bithai tinha um poema. Um lindo poema, como aquele que Theron escreveu. Mas Inverno não tem poema, apenas aquelas palavras escritas no escuro e aquela frase, aquela súplica desesperada que sacode meu corpo com uma necessidade frenética.
Os soldados escancaram uma porta no corredor do segundo andar. Um quarto se estende diante de mim, uma cama com dossel contra o fundo, janelas transparentes e amplas na parede sul, assoalho reluzente de madeira sobre o qual os soldados me arrastam até que paramos ao lado de...
Uma jaula. Mal é grande o suficiente para que eu me sente. Eles abrem uma porta e me atiram dentro, então a trancam antes que eu sequer consiga respirar.
Um dos soldados coloca a chave na mesa de Herod. Sigo os movimentos dele e minha atenção se detém no objeto que jamais esperava ver de novo: meu chakram. O chakram original, o qual Herod roubou há tento tempo, está em destaque sobre a mesa dele, como um troféu estimado. Exatamente como um troféu estimado, da mesma forma que eu sou um troféu, também.
Tão perto. Minha arma, tão perto, e tão inútil.
Avanço contra a jaula, as barras rangem onde estão presas ao chão. Nada cede e os soldados riem enquanto saem do cômodo.
Diante de mim, os outros soldados acorrentam Theron à parede. Eles socam o estômago do príncipe, o corpo dele se choca contra a parede com um estalo nauseante. Então nos deixam, fecham a porta como se pudessem esquecer o que vai acontecer.
Eu me agarro às barras, piscando para afastar um véu embaçado de lágrimas, conforme mantenho o foco em Theron, concentrando-me nos profundos olhos castanhos dele e na faísca por trás deles, na luz da qual sequer percebi que sentia falta.
Theron me encara de volta, a tensão no rosto dele se transforma em exaustão, ódio, ao me ver em uma jaula no aposento de Herod, esperando que aquele monstro retorne e, devagar, me torture. E por saber que, apesar de todo o treinamento e o poder em Cordell, Theron não tem poder aqui. Ele está tão próximo e é tão inútil quanto meu chakram.
— Como Angra... — começa Theron, com uma das mãos pressionadas gentilmente contra a costela curada. Ele sacode a cabeça, fecha os olhos com um breve lampejo de repulsa. — Não importa. Acho que não quero saber.
Tomo um fôlego entrecortado, pronta para explicar, mas as palavras parecem vazias e sem vida em minha garganta.
— O que aconteceu? — É tudo o que consigo dizer.
Theron cai no chão, as correntes que se estendem dos pulsos dele tilintam contra a madeira. Sangue escorre pelo rosto dele, fresco e escarlate, pingando no colarinho do uniforme militar surrado, o verde e o dourado de Cordell estão cobertos de sangue.
— Bithai sobreviveu — diz Theron.
Abro a boca. Não, eu quis dizer o que aconteceu que nos trouxe até aqui. O que aconteceu para nos fazer desviar tanto, desviar tanto de...
— Logo depois de você cair, Cordell derrotou a infantaria de Primavera. Foram obrigados a recuar. Não puderam competir com nosso condutor; foi a única coisa que nos salvou. Mas meu pai se recusou a retaliar. — Theron encolhe o corpo, acostumando-se à dor no ombro.
Não consigo entender o que ele está dizendo. Sacudo a cabeça, abaixo o rosto nas mãos. As cores do corredor espiralam em minha memória, o preto e o verde pastel e o rosa de Angra misturados ao marrom e ao vermelho do quarto de Herod. Gavinhas verdes rastejam ao meu redor como palavras no escuro. Memórias. As memórias de Nessa.
Herod a está trazendo para cá. Ela o verá me matar.
— Meu pai se recusou a ir atrás deles — continua Theron. — Ele se recusou a ir atrás de você. Disse que não arriscaria mais tanto por um reino Estação sem valor.
Começo a me balançar para trás e para a frente. Herod vai matar Nessa também. Será que farão com que Theron veja isso? Quanto tempo o manterão aqui antes que Theron também morra?
Ele passa a mão pelo rosto.
— Mather quase o matou. Sacou uma espada e tudo. Mas meu pai ainda se recusava... Ele é tão orgulhoso. Tão egoísta. Eu o odeio.
Não posso usar minha magia do condutor para sair da jaula. Não posso usá-la para libertar Theron. Nem mesmo sei para que pode ser usada além das funções básicas da vida do reino. Como pode me ajudar nessa situação? O que eu posso fazer?
— Odeio o preconceito. Estou cansado de ver meu pai acumular nosso poder, quando poderíamos trabalhar juntos, Ritmo e Estação, contra o verdadeiro mal neste mundo. Eu sabia que isso o faria agir. Se Primavera me tivesse, meu pai finalmente faria algo a respeito de Angra. — Theron dá uma risada vazia, os olhos dele percorrem o quarto. — Estou começando a repensar meu plano agora.
Isso me faz parar. Faz com que meus pensamentos acelerados tropecem em um rompante súbito de clareza, e ouço tudo que ele disse, devagar, as palavras chegando a mim em meio à minha névoa.
Ele se entregou para Angra. Deixou que Primavera o pegasse.
Encaro o espaço entre nós, boquiaberta.
— Queria que Angra capturasse você?
Os olhos de Theron disparam até os meus. Eles nos conectam. Somos apenas nós agora. Juntos.
— Sim.
Um sorriso se abre em meu rosto. Parece tão errado, mas tão maravilhoso, o quanto preciso sorrir para ele.
Algo soa no corredor, algo como... passadas. Aproximando-se.
Eu me agarro às barras da jaula.
— Sou filha de Hannah. Sou a rainha de Inverno. — Ouço-me dizer.
Theron franze a testa e se inclina para a frente, as correntes chacoalham.
— Eu...
A porta do quarto se escancara e a imensidão sombria de Herod entra. Ele avança para a mesa, vasculhando papéis e livros, até pegar a chave e segurá-la, triunfantemente, com o punho fechado.
— Vou destruir você — sussurra Herod, com olhos incandescentes para os meus.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Para comentar, por favor utilize a opção Nome/URL e preencha seu nome/apelido/nick; o URL pode deixar em branco.

Boa leitura, E SEM SPOILER!