21 de janeiro de 2019

Capítulo 26


A SALA DO trono de Angra se dissipa, a escuridão se desintegra e vira uma cidade. Não, não apenas uma cidade — a Jannuari de minhas lembranças remendadas.
E ESTÁ NEVANDO.
Eu me viro, os paralelepípedos estão escorregadios com gelo, e o frio que dispara por meus pés descalços me enche de euforia. O aroma terroso do carvão e dos minerais de refino preenche o ar, transformando tudo em um cinza enevoado. Eu pertenço aqui, a Jannuari. Como pude estar em qualquer outro lugar?
A saia do vestido cinza-claro está surrada, manchada pelo uso e pela pobreza. O algodão fino deixa que mais frio envolva meu corpo enquanto estou de pé na rua, sorrindo para uma figura que corre na minha direção pela neve. Nessa.
— Meira, o jantar está pronto! Sua mãe me mandou buscá-la.
Minha mãe. Assimilo algo em minha mente... acho que não tenho mãe.
Não, é claro que tenho. Sempre tive mãe.
— Meira, venha! — Nessa pega minha mão e me puxa pela rua. Ela está tão feliz, tão saudável, cheia de uma vida de amor e segurança, os olhos brilham quando flocos de neve se agarram ao cabelo dela.
Puxo a saia com uma das mãos e, juntas, nós corremos pela rua, passando por invernianos que arrumam vitrines de lojas ou martelam ferraduras em uma ferraria. Trabalhos que deveriam estar fazendo, em vez de...
Eles também estão errados. Errados como minha mãe. Nessa também está um pouco errada, e essa cidade está errada embora eu saiba que exista.
— Ele vem jantar esta noite — sussurra Nessa, com o tom de voz salpicado de alegria e fofoca.
— Quem?
Nessa ri, o som faz o ar brilhar ainda mais. Ela me puxa para cima de uma trilha até um pequeno chalé de dois andares e escancara a porta, e a luz quente da lareira sai pelo caminho cheio de neve. Amarelo misturado ao cinza de Jannuari, calor derretendo neve. Não é um calor ruim, no entanto, é perfeito.
— Aí está ela! — grita uma voz quando entro. Sobre a lareira, à esquerda, está uma tigela de carvão laranja que aquece um caldeirão de ensopado. Conall está sentado a uma mesa de madeira com um pequeno emaranhado de cobertores revoltos no colo, uma mulher atrás de Conall apoia as mãos nos ombros dele. A esposa? Deve ser. Garrigan está agachado diante da esposa dele também, com dois menininhos que encaram, assombrados, enquanto Garrigan narra alguma história que envolve fingir que esfaqueia um inimigo.
Atrás da mesa, uma mulher pequena, graciosa, surge de um quarto nos fundos, cachos de cabelos brancos se enroscam ao redor de um rosto sujo de farinha.
— Meira, venha! Ele está quase aqui — diz ela. Alysson.
Nessa ocupa uma cadeira à mesa.
— Sua mãe cozinhou o dia todo.
Minha mãe. Alysson é minha...
— Rápido, todos! A carruagem dele está se aproximando.
Uma voz estrondosa ecoa atrás de mim. Eu me viro quando um homem entra com passadas fortes, limpando neve do cabelo. Os flocos soltos se derretem em minha pele, causando arrepios que formigam pelos braços. Eu o conheço. Os olhos azul-escuros e a barba salpicada de cinza e os cabelos brancos presos em um coque apertado...
Alysson é minha mãe... o que significa que Sir é meu pai.
Alegria me faz engasgar, lágrimas quentes escorrem de meus olhos. Ele é meu pai. É claro que é — sempre quis que fosse meu pai.
Uma enxurrada de dor destrói minha alegria e caio para a frente, os joelhos estalam sobre o piso de madeira enquanto pensamentos latejam contra minha mente, determinados e altos.
Eu o chamei de pai certa vez; e disse sim, Sir, não, Sir. Você não é meu pai e não sou sua filha e tudo o que eu sempre quis foi que você me olhasse...
Isso não está certo. Ele existe, eu sei que existe, mas não assim.
— Meira. — Sir se ajoelha também, as mãos seguram minha cabeça em concha e me puxam para que eu o encare. A expressão de Sir é carinhosa e preocupada, a testa dele se enruga. — Você está bem?
Ele está errado. Não deveria estar aqui... algo aconteceu com ele, algo terrível.
— Sonhei que você morreu — sussurro.
A preocupação de Sir se derrete em um sorriso e ele me puxa para si, me envolvendo com os braços grandes e me deixando apoiar a cabeça contra o peito dele.
— Pronto, minha doce menina. Foi apenas um sonho.
Ele está frio do ar externo e tem cheiro de neve, limpa e fresca. Os botões da camisa de Sir beliscam minha bochecha quando pressiono o rosto contra o peito dele, absorvendo a sensação próxima de Sir. Assim é o amor. Ele me ama. É meu pai e eu sou filha dele e ele é tudo que tenho, tudo de que precisarei.
— Ele está vindo! — grita Alysson. — O príncipe está aqui!
Sir me coloca delicadamente em uma cadeira diante da porta. A escuridão da tempestade de neve além da porta aberta parece um sonho do qual qualquer coisa pudesse se materializar, e Nessa pega minha mão, da cadeira dela ao meu lado, quando um homem aparece. Um uniforme militar azul intenso cobre o corpo dele, as botas pretas polidas reluzem à luz da lareira. A tempestade de neve o impulsiona até nós como se o tivesse criado, como se o tivesse moldado dos mais profundos esconderijos de minha mente.
— Obrigado por me receber — diz ele, e inclina a cabeça, cada parte do rapaz é o príncipe legítimo que ele sempre foi. Rosto forte, confiante, olhos vibrantes e alerta, memorizando cada pessoa na sala como se quisesse nos conhecer de cor.
Ele para diante de mim. A mão de Nessa aperta a minha, cortando a circulação para meus dedos.
— Meira — diz Mather. Meu nome, apenas uma vez, apenas aquelas duas sílabas ecoando até mim como se nenhuma outra palavra existisse. Apenas nós. Como deveria ter sido.
Explosões. Mather apavorado, gritando meu nome. Gritando e gritando...
Eu não o amo. Não posso amá-lo, então não amo, não mais. É difícil demais amá-lo.
Mather se senta diante de mim, os olhos não deixam os meus. Alysson vai até a lareira, afastando Garrigan, a mulher e os filhos. Eles se juntam à mesa, Conall, Garrigan e as esposas, e Nessa com a família feliz e eu com minha família feliz.
A porta da frente ainda está aberta. Além dos flocos de neve, um clarão de cabelos brancos me faz saltar da cadeira e soltar a mão de Nessa.
Alysson coloca ensopado com a concha em tigelas.
— Meira, sente, por favor. O jantar está servido.
Mas não posso sentar. Não consigo tirar os olhos da porta, da neve, do cabelo branco levado pelo vento e se embaraçando em volta de um rosto... quem é?
Sir toca meu braço.
— O que está vendo, minha doce menina?
Ele gritou comigo quando eu era pequena e Mather e eu fomos encontrados, rindo, na tenda de reuniões, cobertos de tinta...
Não... por que eu estaria com o príncipe quando criança? Dou a volta na mesa, o cabelo loiro além da porta me atrai como se eu estivesse presa a ele e ela me puxasse.
— Meira. — Mather se recosta na cadeira, os dedos percorrem meu braço. — O que aconteceu?
Está tão seguro aqui dentro. Tudo que eu poderia querer. Como algo de ruim poderia acontecer? Isso é perfeito, é certo, e preciso contar tudo a Mather, porque ele é perfeito.
— Curei um menino. — Eu me ouço falar. Acho que o cabelo branco do lado de fora pertence à mãe de Mather, a rainha. Ouvi falar que ela é linda. — Eu sou importante.
— Você é, Meira. — Mather fica de pé, a cadeira dele desliza pela madeira. — É claro que é importante. Por quê?
Ele pega minha mão, mas sentir, sentir Mather é uma interrupção repentina, súbita na cena perfeita ao meu redor.
— Não, sou errada para você. — Eu me ouço dizer a Mather. — Não sou boa o bastante.
Sir cruza os braços na mesa e ergue o rosto para nós.
— Só falei isso para que não colocasse em risco nosso futuro. Mentiras são mais fortes do que a verdade, às vezes.
— Verdade?
A dor familiar pulsa contra minha têmpora, ameaçando me despedaçar se eu não... o quê?
Preciso me sentar e jantar e conversar com Mather, dizer a ele por que eu importo, porque isso é tudo o que sempre quis. Estar aqui.
— Meira — chama uma voz do lado de fora. — A rainha está aqui. Por que ninguém a convida para entrar?
Dou um passo em direção à porta, meus dedos mal roçam a soleira da porta quando Mather segura meu braço.
— De onde vem sua magia? — arqueja ele. Mather parece assustado, desesperado, os olhos dele refletem minha trepidação de volta para mim. Mather se parece tanto com Sir. O mesmo maxilar forte, os mesmo olhos de safira, o mesmo véu sem emoção. Jamais reparei antes.
— A magia vem... — Por que estou respondendo? Ele não deveria me perguntar sobre isso. Recuo um passo, na direção da porta e da nevasca. — A magia vem dos Condutores Reais.
As sobrancelhas de Mather se franzem.
— Condutores? Não, Meira. — Ele umedece os lábios, tentando de novo. — Como você tem magia? Como Hannah alimenta sua magia? Precisa me dizer.
— Eu disse — respondo. — Apenas condutores têm magia. Hannah não me dá nada.
— Meira — chama Hannah. Dou as costas para a sala, para a lareira quente, para as risadas de Nessa e para Sir me chamando de doce menina e para Mather gritando por mim, tentando me segurar. Para tudo que eu sempre quis, porque Hannah precisa de mim, e preciso ir até ela.
Assim que deixo o chalé, calor pulsa atrás de mim, um rompante de calor forte demais para ter vindo da lareira. Viro quando o chalé se desintegra, dobrando-se sobre si mesmo como se não conseguisse sustentar o peso da noite ao redor dele. Mas não, não está se desintegrando — está queimando, pedaço por pedaço, em uma pequena pilha de cinzas incandescentes. Minha boca fica entreaberta quando sombras da noite se erguem sobre as cinzas, engolindo-as para dentro de um vazio preto surpreendentemente puro. A cidade ao meu redor o segue, tudo se dobra sobre si mesmo e desaparece, até que Jannuari suma e eu fique de pé em um raio de luz.
— Meira, estou no controle agora. Não Angra — diz Hannah, a voz dela está ansiosa como se estivesse lutando para nos manter seguras.
Sacudo a cabeça. Angra estava no controle? Do quê? Não, estou segura agora, não estou mais na magia negra de Angra. Hannah está me protegendo, pois ele arrancou coisas de minha mente. Tentou me fazer desabar, mas estou segura agora, segura, segura...


Hannah espera atrás de mim, o espaço ao nosso redor ainda está cheio de flocos de neve dançantes. Como se estivéssemos protegidas, envoltas em braços invisíveis que evitarão que a escuridão nos toque. Angra não pode nos tocar aqui. Ele não quis que eu saísse do chalé. Queria que eu ficasse do lado de dentro, onde era confortável e eu teria contado todos os meus segredos a ele. Mas saí, e Hannah está usando a conexão dela com o condutor de Inverno para falar comigo, como tem feito o tempo todo.
A conexão de Hannah com o condutor de Inverno, não com a pedra azul. Jamais houve magia na pedra azul. Apenas os Condutores Reais têm magia.
Eu me viro, a neve estala sob meus pés. Hannah está de pé com as costas para mim, os cabelos dela se agitando à tempestade. Explicações percorrem minha mente, mas não vindas de Hannah — de mim.
Minha mente está relaxada aqui, nesse espaço entre o sono e o despertar, e quando isso acontece, informação é despejada na luz, rompantes súbitos de claridade que eu jamais teria visto sozinha.
— Angra quebrou nosso condutor, mas magia é mais poderosa do que ele mesmo sabe. — As palavras saem aos tropeços de mim, de alguma área delicada de rendição, um espaço misterioso no coração que conecta Hannah e eu. A magia. Ela sempre soube a verdade.
— Você estava desesperada quando Inverno estava caindo, então se entregou ao condutor. Deixou que ele contasse tudo. A verdade por trás da magia, e que se um Condutor Real for quebrado, em defesa do reino, o rei ou rainha daquele reino se torna o condutor.
Esse conhecimento salta em minha mente, a magia me dá essa última informação que me permite montar o restante do quebra-cabeça. Os Condutores Reais estão conectados às linhagens dos reinos. Magia sempre precisa de um hospedeiro e, com um hospedeiro humano, magia não tem os limites que vêm com os objetos hospedeiros. Vida e magia pura teriam sido uma linda combinação, como uma fogueira alimentada por combustível infinito. Então, se os governantes tivessem permitido que os condutores deles fossem quebrados quando encararam a Ruína, teriam se tornado os condutores dos reinos. A Ruína teria sido destruída com todo aquele poder e o mundo teria brilhado em prosperidade.
Mas magia de condutores só funciona se o portador reconhecer a magia e escolher usá-la, e condutores somente dão respostas quando pessoas deixam de lado a vontade egoísta e ousam se render, pelo bem do reino delas. É uma magia concentrada em escolha e ninguém escolhera se render até Hannah.
Hannah se mexe na neve, inclinando a cabeça para trás.
— Onde está a magia de Inverno agora?
— Você não sabia que estava grávida. Então, Angra matou você — sussurro. Está tão frio. O frio me percorre até eu ter certeza de que não passo de gelo de uma ponta a outra, apenas uma escultura oca e vítrea. — Angra quebrou o condutor e matou você, então a magia foi para o herdeiro. Para...
Minha boca congela e o frio me controla, me empurra para a cena que Hannah tentou me mostrar. A noite antes de Jannuari cair, o escritório no palácio, o aroma pesado de carvão queimando que paira por todo lado. Aqueles que escapariam da ira de Angra estão reunidos, Hannah está ajoelhada diante de Alysson, que aninha o bebê Mather...
Ao fundo. Há algo no canto, algo que não vi antes.
— Sinto muito mesmo — diz Hannah a Alysson. — Não precisa me obedecer. Ainda pode escolher não fazer isso.
Passo por Hannah e Alysson. Passo por Dendera, Finn, Greer e Henn. Passo por Sir, cujo corpo imponente se curva protetoramente sobre a esposa e o bebê.
No canto da sala, esquecido, está um berço. O de Mather?
Não. Não está vazio.
Uma minúscula mão se ergue, agarrando o ar. Dedos pequenos e gorduchos se dobram contra uma pequena e rechonchuda palma, dois olhos azuis brilhantes encaram com uma profunda curiosidade as silhuetas ao redor dela. Dela. Um cobertor rosa-claro está enroscado no pequeno corpo dela, a bainha está dobrada e costurada com fio de seda rosa. A costura forma flocos de neve por toda a bainha, até que esses flocos de neve formem um nome, a seda rosa se dobra e se vira em cinco pequenas letras.
— Não, minha rainha — diz Alysson. — Nós faremos isso; é claro que faremos. Inverno precisa de nós. Criaremos nosso filho como se fosse seu.
O nome. Aquelas cinco letras bordadas tão perfeitamente.
MEIRA.

2 comentários:

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Boa leitura, E SEM SPOILER!