26 de janeiro de 2019

Capítulo 25

Mather

CONFRONTAR OS SOLDADOS cordellianos deve ter sido o golpe final na determinação de William, porque desde então Mather estava entulhado com tarefas.
Tarefas servis e prosaicas das quais, pelas próximas semanas, ele não poderia ser dispensado. William o ordenou trabalhos comunicados por outros canais — Finn dizendo a ele que tábuas de madeira precisavam ser lixadas, Greer recrutando-o para lavar louça. Mather sequer via William, e por não o ver, ficou ainda mais furioso.
Mather merecia que William gritasse pelo ato de rebeldia dele — não que se arrependesse, mas se estivessem no acampamento e Mather tivesse se posicionado contra ele, William o teria feito aprender em primeira mão o significado da palavra obediência. Era assim que os punia; bem, na maior parte das vezes, Meira, para dizer a verdade: ao se certificar de que aprendessem como cada soldado precisa ser perfeito para que uma missão seja bem-sucedida.
Mas nessa nova vida, William não o repreendeu. Não lhe passou um sermão ou repassou o que tinha acontecido — simplesmente seguiu em frente, ignorando o evento sem olhar para trás.
Esse foi o impulso final na determinação de Mather. O pedaço final de prova de que Mather estava exatamente onde Inverno precisava dele: construindo uma defesa. Porque com líderes como William evitando tudo, não seria preciso mais de um punhado de soldados para destruir Inverno.
E Inverno já tinha bem mais do que um punhado de soldados ali.
Mather seguiu abaixado por um beco estreito, por algum instinto permanente de percorrer o caminho de forma aleatória e caótica, para que não pudesse ser seguido. Não que fosse difícil descobrir aonde ia todas as noites depois que terminava as tarefas; havia poucas ruas habitadas. Mas Mather mesmo assim se demorou até aparecer dois prédios depois do chalé do Degelo e se permitiu um pequeno suspiro de alívio.
O suspiro perdeu o efeito quando Mather reparou na figura curvada sobre os degraus, arrastando os pés, metal tilintando. Um soldado cordelliano? Será que alguém finalmente tinha descoberto sobre os treinos secretos?
A prontidão acalmou os nervos de Mather, a calma do ataque. Ele disparou para a frente, agarrou o pescoço da pessoa e atirou quem quer que fosse para a rua cada vez mais escura.
Mas ele sentiu cabelos longos na nuca do oponente. E nada de armadura nos ombros, mas sim linho, e quando o intruso atingiu o chão, emitiu um grito que soou muito... feminino.
Embora o sol tivesse começado a se pôr no horizonte, restava luz suficiente, de modo que quando os olhos de Mather se fixaram no rosto da intrusa, ele saltou para a frente e colocou a mulher de pé.
Pela neve, não era soldado algum... Era Alysson.
Ela piscou, confusa, encarou Mather e semicerrou os olhos com uma pergunta não dita.
Ele fez uma careta.
— Achei que você... — Começou Mather, então segurou o final. — Desculpe.
Alysson levou uma das mãos ao ombro dele como se não estivesse equilibrada até que o tocasse, se certificou de que Mather estava bem.
— Achou que eu fosse um cordelliano?
Mather franziu a testa quando a porta do chalé se escancarou. Phil saiu cambaleante, todos estavam atrás dele, mas não foi muito longe antes que o pé ficasse preso em um montinho encontrado no degrau do alto. O montinho sobre o qual Alysson se agachara.
Phil parou com uma das espadas de treino no punho. Deviam ter ouvido o grito de surpresa de Alysson durante o treino sem instrutor, e quando Mather os olhou, todo o sangue de seu corpo pareceu evaporar. Ela estava ali, encarando Phil e a espada de madeira, e veria o quanto Mather tinha desobedecido William.
Mas Alysson não pareceu nada chocada. Na verdade, pareceu impressionada.
A mão da mulher ficou inerte sobre o ombro de Mather.
— Conseguiu aqueles resultados usando madeira?
A boca de Mather se abriu, então fechou, depois abriu de novo.
— O quê?
— Ei!
Chacoalhar, o ruído surdo de ferro. Phil se agachou no degrau do alto, vasculhando o montinho. Um cobertor espesso se afastou, revelando armas. Espadas, adagas, um arco e um punhado de flechas.
Todos olharam para as armas que se espalhavam como uma cachoeira mortal pelas escadas. Mather principalmente, com os olhos famintos calculando quantas espadas, quantas facas. Sete espadas. Oito adagas — quatro pares.
Ele se voltou para Alysson, que agora estava de braços cruzados enquanto observava o Degelo descer os degraus, movendo-se em torno das armas, como se perturbá-las fosse fazer com que desaparecessem.
— Onde conseguiu essas? — perguntou Mather, com as mãos trêmulas, como se já soubesse a resposta, já sentisse as repercussões deslizando na direção dele. — Como sabia?
Alysson exibiu um meio sorriso para Mather, então o abriu em uma risada quase debochada.
— Passei 16 anos em um acampamento cercada por luta. Acha que não sei reconhecer quando um grupo de crianças, que deveria ser tão magricela quanto o restante dos invernianos malnutridos, tem indícios de definição de músculos? Quando deveriam ser desengonçados e fracos, mas se movem pelas ruas com, ouso dizer, graça? — Alysson emitiu um estalo com a língua. — Sei que jamais peguei em uma espada, mas isso não quer dizer que não prestei atenção.
Mather engasgou.
— Você sabia? Você sabe? Quem mais... E onde conseguiu...
Pelo gelo, termine uma frase.
Mas por mais que tentasse, Mather não conseguia que mais do que meias palavras saíssem da boca dele. Sabia que o Degelo em algum momento mostraria sinais físicos de treinamento, mas presumiu que todos atribuiriam a forma como as crianças-guerreiras tinham começado a preencher as roupas mais do que deveriam aos efeitos de reconstruir chalés. Mas Alysson notara — Alysson, que jamais fizera mais do que olhar para um ringue de espadas.
Quem mais sabia?
Ela pareceu interpretar o horror calculado no rosto de Mather e levou a mão à bochecha dele.
— É claro que William sabe, mas ele não tem visto muitas coisas ultimamente que deveria ver.
Mather sacudiu a cabeça, com medo de ter entendido errado.
— Não concorda com ele?
Mas enquanto fazia a pergunta, compreensão tomou conta dele.
— Não sabe que você trouxe essas armas. — A mente de Mather ecoou a mais suave vibração de arrependimento, e ele percebeu que queria que William soubesse. Queria que William tratasse daquilo, que visse o que Mather tinha feito, queria que os olhos de William se enchessem com o orgulho que os de Alysson demonstravam.
Essa última parte deixou Mather boquiaberto.
— Mas por quê?
Alysson apertou o ombro de Mather.
— Precisa delas. E é meu filho, por mais que lute para aceitar isso. Sempre foi e sempre será meu filho. É assim que funcionam os relacionamentos, quando uma pessoa está cega, a outra deve enxergar por ela. Quando uma pessoa tem dificuldades, a outra deve permanecer forte.
Mather tocou o pulso de Alysson, espanto corria pelas veias dele.
Ali estava Alysson, aquela mulher da qual Mather sempre tirara vantagem como alguém que ajudava a resistência inverniana no acampamento, não na linha de frente. Sinceramente, jamais a vira como uma fonte de orientação e força. Isso sempre recaíra sobre William.
Mas Mather estava errado.
Sobre muitas coisas.
— Não deveria ser você quem une todos nós de novo — sussurrou Mather. O Degelo tomou conta da rua abandonada diante do chalé, testando armas, gargalhando do quanto uma espada era mais pesada em comparação com os finos bastões de madeira. Mather não queria que ouvissem, não queria quebrar aquele momento que desabrochava entre ele e a mãe.
Mãe dele.
Pela neve frígida acima, Mather quase pensou dessa forma sem nem hesitar.
O sorriso de Alysson se dissolveu.
— Precisa mais de mim. William também. É a natureza da posição dele. Aprendi há muito tempo que preciso ser aquela em quem William se apoia enquanto Inverno se apoia nele. E — Alysson hesitou, erguendo a sobrancelha de modo conspirador —, se quiser, algum dia sei que pode fazer o mesmo por Meira.
Mather recuou. Alysson sabia sobre essa área do coração dele também. Será que ela deixava passar alguma coisa?
Alysson se aproximou de Mather.
— Você lutou por Inverno tão espetacularmente. Tenho mais orgulho do que jamais tive de chamar você de meu filho, e farei tudo que puder para ajudar enquanto você ajuda nosso reino. Mas não se esqueça de lutar por si mesmo também... Não há vergonha nenhuma nisso.
Mather fechou os olhos, abaixando a cabeça em uma reverência — de rendição? De concordância? De gratidão? Tudo. O corpo dele estava cheio de remorso, mas, além disso, Mather sentiu o mais breve rompante de alegria: o Degelo tinha armas agora. Armas de verdade, e o apoio de Alysson.
Mas Mather não conseguia tirar a imagem de Meira da cabeça, do rosto dela quando Mather deixara seu quarto na noite da cerimônia. Os olhos arregalados e desesperados de Meira, lágrimas escorrendo como rios violentos pelas bochechas dela. Mather ficara arrasado ao deixá-la... Como não poderia ter sido diferente.
Ele jamais deveria ter saído daquele quarto. Todas as coisas que queria fazer — correr de volta para Meira, lutar por ela — eram coisas que deveria ter feito.
Mather entendia isso agora, entendia por meio da força silenciosa de Alysson.
Pela doce neve, Mather conhecera Alysson a vida inteira, e jamais a vira arrasada. O máximo que podia se lembrar eram de algumas poucas lágrimas escorrendo pelas bochechas quando outros membros do grupo morriam. Mas era só isso, toda a dor que Alysson mostrava, e as outras lembranças de Mather eram de Alysson de pé, com a mão no ombro de William, ou um aceno silencioso e firme de cabeça antes de alguém sair em missão. Silenciosa e determinada, e Mather jamais notara, nenhuma vez.
Fora cego por tempo demais.
Então, quando Mather abriu os olhos, pretendia dizer a ela. Pretendia cair de joelhos e implorar perdão por ter sido um filho tão ingrato.
Mas o tom pacífico da rua geralmente vazia tinha sumido, fora substituído por uma sensação que ele conhecia bem demais: alerta. O Degelo segurava as novas armas com determinação, os corpos formavam um U na direção de um agressor do outro lado da rua do chalé. Tudo virou um borrão quando Mather se virou na direção do inimigo, já levando a mão para a adaga que mantinha sempre na bota.
Alysson viu o movimento. Mather soube que ela percebeu pela forma como os olhos de Alysson seguiram o filho quando ele se virou, de braços estendidos, adaga em punho.
Mas ela não se moveu, apenas franziu a testa, entreabrindo a boca em um gemido baixo.
Mather não conseguiu identificar a expressão de Alysson. Não, ele se recusou, afastou-a da mente mesmo enquanto aquilo martelava em sua cabeça. Vira aquele olhar antes — conhecia aquele olhar...
Os olhos de Mather se abaixaram para a direção do peito de Alysson, a mancha crescente escarlate que manchava o vestido azul de vermelho. A ponta de uma espada reluzia no corpo de Alysson como um penduricalho mórbido em um colar.
O inimigo não estava do outro lado da rua. O inimigo tinha se aproximado deles de fininho, tão perto que Mather deveria ter ouvido ou visto ou impedido...
A lâmina foi arrancada pelas costas de Alysson e ela desabou na direção de Mather, os olhos se virando para trás quando caiu nos braços dele. A adaga de Mather caiu das mãos dele, o coração dele disparou um choque entorpecedor pelo corpo quando os dedos tateavam da cabeça de Alysson até os ombros dela, em busca de um sinal de vida, um sinal de explicação — mas Mather sabia. Soube assim que viu as armas que Alysson tinha levado, mas esperava que ela não tivesse ido até lá, que Alysson percebesse que isso seria uma missão suicida.
— Ela roubou armas — confirmou um soldado cordelliano, de onde estava, atrás de Alysson. Foi o mesmo que ameaçou Feige dias antes, e a lâmina dele, pesada com sangue vermelho, refletia o crepúsculo. — E ladrões não serão tolerados em uma colônia cordelliana.
Um grito. Um ruído rouco, forte, cortante, e Phil disparou da formação do Degelo, com a arma disparando acima. Mather gritou quando soldado cordelliano se virou na direção de Phil, gritou porque não poderia aguentar perder mais alguém, não agora...
A lâmina do soldado se ergueu, a ponta direcionada para o pescoço de Phil. Ele parou um segundo antes de ser cortado, o peito subindo ao puxar um fôlego desesperado.
Mather não teve muito tempo para agradecer, no entanto. O cordelliano riu com escárnio dele quando gritos se elevaram, quando o clangor de armaduras ecoou pela rua e gritos de vitória ressoaram pela cidade. Uma corneta soou, longa e alta, um ruído pulsante que sinalizava...
... uma colônia cordelliana.
Noam. Ele oficialmente tomara Inverno.
Não, a única coisa que aquela corneta sinalizaria seria o fim da ocupação cordelliana em Inverno. Aquilo acabava agora, naquela noite.
Braços puxaram Mather, vozes gritaram em meio à súbita e mortal confusão dele.
— Precisamos fugir!
— Há muitos aqui... Levante!
Mather grunhiu, afastando quem quer que tenha tentado agarrá-lo. Todos eram um inimigo, todos morreriam por aquilo, porque o sangue de Alysson cobria as mãos dele, e o corpo dela jazia, inerte, onde Mather a colocara no chão. Ele tentou, com dificuldade, pegar a adaga de volta, a visão estava maculada por um vermelho assassino enquanto o soldado cordelliano fugia dele, o covarde, para se reagrupar com mais soldados que surgiram na ponta mais afastada da rua. Covardes, cada cordelliano era um covarde, e Mather mataria todos.
Um rosto entrou em foco.
— Há muitos deles — suplicou Hollis. — Você nos ensinou isso. Você nos ensinou a avaliar situações, a recuar se necessário. Precisamos fugir agora.
A consciência tomou conta de Mather. Pelo menos uma dúzia de cordellianos tomava a rua a norte deles, bloqueando qualquer retirada para as partes abandonadas de Jannuari. Os soldados marchavam com passadas firmes e provocadoras na direção do grupo — estavam sendo encurralados no centro da cidade. Pelos gritos e urros de alarme que ecoavam pelo restante de Jannuari, Mather supôs que a mesma coisa agora bloqueava cada rua das áreas não habitadas. Um círculo inquebrável de cordellianos finalmente predando os invernianos.
Mather embainhou a adaga, pegou o corpo da mãe nos braços e correu. O Degelo seguiu atrás dele, todos equipados com armas que não sabiam bem como usar. Mas seguravam as espadas com uma determinação tão letal que Mather sentiu pena dos cordellianos que tentassem impedi-los. Mas impedir de quê? Aonde iriam?
O palácio. William estava lá.
Mas Meira. Noam irrevogavelmente se voltara contra Inverno. Será que abrira o abismo de magia? Será que Meira fracassara de alguma forma? Será que ele estava em Jannuari, ou saíra atrás dela?
Será que Meira ainda estava viva?
Mather conteve pensamentos que ameaçavam fazer com que ele cedesse sob o corpo que levava. Não, não poderia pensar ainda. Meira tinha que estar viva.
E nada em Primoria poderia proteger Noam se ela não estivesse.


Mather voou pelos degraus de entrada do palácio e ele chocou o ombro contra a porta, fazendo com que fosse atirada na parede. A hora avançada da noite significava que os corredores principais estavam vazios, todos os trabalhadores tinham voltado para os chalés do lado de fora ou para quartos no interior do palácio. Sete pares de pés ressoaram pelo salão de baile, subiram a escada de mármore, desceram corredores vazios de marfim e prata que os envolveram nas sombras usurpadoras da noite. O cinza enevoado conferia a tudo uma sensação onírica, encorajando a ideia de que aquilo estava errado, errado, e que Mather podia consertar...
Eles dispararam pelo longo corredor até o escritório de William, o ar frio da varanda soprando ao redor. A porta estava entreaberta e Mather parou aos tropeços a alguns passos dela, os braços doíam devido à força com que segurava o corpo da mãe.
Ela está morta, William. Cordell a matou porque você não me ouviu, porque deixou que ficassem aqui, porque eu não tentei com afinco proteger Inverno.
Ela está morta porque somos ambos fracos, William. Porque sou seu filho em todos os sentidos.
Mas nenhuma dessas palavras saiu quando Mather entrou no escritório de William, porque o homem estava de costas para a porta, olhando para Brennan, que apontava uma espada para ele.
— ... por tempo demais — dizia Brennan. — Mas meu mestre não tem mais utilidade para a liberdade deste reino, e finalmente me instruiu a tomar controle do que é de Cordell por direito. Parabéns, vocês são o primeiro reino Estação a se tornar uma colônia cordelliana, e Outono virá a seguir. Tenho certeza de que vê isso como uma honra.
Um grunhido subiu pela garganta de William.
— Ouvi homens falarem do rei deles como você fala. Meu mestre. Isso não é Cordell. Você não serve Noam, não é?
Brennan emitiu um estalo com a língua.
— Noam tem a utilidade dele, mas todos escolhemos um sol nascente em vez de um poente.
Um sol nascente? Meu mestre? De quem Brennan estava falando? Os únicos homens que Mather jamais ouvira falar daquela forma sobre o rei eram os que serviam Angra.
Mas Brennan dissera: O que é de Cordell por direito...
Não importava — só importava o peso nos braços de Mather, o corpo ainda quente contra o dele.
— William.
A voz do próprio Mather o chocou devido ao quanto soava exausta. Ela arranhou a garganta como ar seco em um dia quente, e quando saiu, William olhou por cima do ombro, por um momento ignorando Brennan e a lâmina em punho.
Os olhos de William mal viram Mather antes de recaírem sobre o corpo de Alysson.
Qualquer emoção que William estivesse sentindo recuou para longe do rosto dele, os músculos relaxaram, as sobrancelhas se abaixaram.
Mather vira William reagir à morte antes, aos soldados deles que caíam no acampamento, apenas para morrer horas depois. Ele fora estoico em relação à morte, mostrando dor por pequenos gestos — levando a mão à testa deles, fazendo uma reverência sobre os corpos.
Mas aquela era a verdadeira sensação da morte, o modo como William olhava para o corpo de Alysson, como se pudesse passar parte da própria força vital para ela. Como se não conseguisse entender a imagem de Alysson, um daqueles sonhos passageiros antes do alvorecer. Como se já tivesse planejado a morte do assassino de Alysson, desde a primeira lâmina sacada até o último gemido do soldado, uma súplica silenciosa, torturada.
Mather se ajoelhou, o corpo de Alysson deslizou dos braços dele quando William se virou para Brennan. Uma faca surgiu, a lâmina estava pressionada entre os dedos de William. Ele se abaixou, agarrou a mão de Brennan onde o cordelliano segurava o cabo da espada, e a torceu até que o inimigo gritasse pela dor de ter os dedos deslocados.
Conforme Brennan se movia para retaliar, conforme Mather sentiu o Degelo atrás de si inspirar coletivamente, William deslizou a mão para o pescoço de Brennan.
Brennan cambaleou para trás, bateu na estante, os olhos estavam fixos no teto. Ele segurou o corte no pescoço e William o observou, de pé sobre o capitão cordelliano conforme o homem deslizava até o chão, o sangue pulsava entre os dedos de Brennan em espasmos que o faziam arquejar.
Quando Brennan caiu na parede, Mather estremeceu com um único pensamento.
Ele morreu rápido demais. Devia ter sofrido — pelo gelo, eu queria que ele sofresse.
William se agachou sobre o corpo de Alysson, o sangue de Brennan pintou de vermelho a mão dele. Mather não conseguia deduzir nada pelo rosto de William, veria mais se encarasse uma parede. Meira dissera isso sobre Mather também, algumas vezes. Ela achava que era uma decisão consciente, mas não era, era apenas ele, assim como era William agora, e Mather queria agarrar os ombros de William e sacudi-lo até que emoções verdadeiras saíssem dali.
— Você vai embora — disse William. Mather piscou para ele, as palavras não foram processadas quando William pegou o corpo de Alysson nos braços e ficou de pé. — A rainha provavelmente estará em Ventralli quando você chegar lá, siga para o rio Feni. Vai viajar mais rápido de navio, embarque no que conseguir. Faça tudo que for preciso, Mather. Tudo.
Mather deu um salto quando William apoiou o corpo de Alysson na mesa. A cabeça dela oscilou para o lado, cabelos brancos caíam em uma cascata sobre as bochechas, algumas mechas estavam unidas em emaranhados de sangue e terra. Os olhos dela estavam abertos, encarando sem ver o escritório cheio dos Filhos do Degelo.
Quanto tempo fazia desde que Mather estivera no mesmo lugar chamando a mãe de covarde? Ela não dissera uma maldita palavra para impedi-lo. Mather fechou os punhos, tentando desesperadamente se lembrar de tudo que Alysson tinha dito a ele. Deveria ter escrito tudo, deveria ter marcado na pele. Deveria, deveria, deveria.
— Sinto muito — gemeu Mather. Aquilo o estilhaçou. Não foi ver a mãe ser assassinada, não foram as cornetas de Cordell que ainda soavam do lado de fora, sinalizando a tomada que viria.
William se afastou e agarrou os braços de Mather, cravando os dedos como se fossem tornos nos músculos do filho.
— Não se dê ao luxo de ser fraco. Vá até nossa rainha se certificar de que ela esteja a salvo. — William o sacudiu quando Mather gemeu, droga, ele ainda era tão fraco. — Entendeu?
Mather afastou as mãos de William. Não, aquele homem não tinha o direito de fingir que era ele o forte. Os dois sabiam quem era a pessoa forte, e ela estava morta.
Ele quis dizer tudo isso a William. Droga, a mãe dele acabara de morrer, e queria que William fosse um pai agora, que o tomasse nos braços e o assegurasse de que enfrentariam aquilo juntos.
Mas não enfrentariam. Eles eram aquilo, sempre foram e sempre seriam.
Então Mather transformou os soluços em grunhidos.
— Você também não tem o direito de ficar arrasado. Se eu sentir fraqueza... — Será que podia fazer aquilo? Podia ameaçar William? — Vou matar você. Eu juro, William... Já deixou essa tomada acontecer. Não terá outra chance. Não vou deixar que Inverno caia de novo.
William se virou sem responder, e Mather disparou do escritório. O ruído de uma lâmina sendo sacada tomou conta do ar atrás dele: William se armando.
O Degelo seguiu Mather silenciosamente, e ele exalou agradecido por não tentarem conversar. Aquilo também os horrorizava, Mather sabia — a liberdade tinha sido tão efêmera. Mas Mather seguiu em frente, entremeando pelas ruas escuras, evitando soldados conforme o caos se instaurava. Aqui, cordellianos precisavam lutar para subjugar invernianos, ali, invernianos erguiam as mãos em rendição. Lá, cordellianos disparavam ameaças, acolá, invernianos caíam de joelhos e gritavam obediência.
Mather se sentia enojado ao ver quantos deles se curvavam sem uma luta. Mas não podia impedir um exército inteiro com apenas sete guerreiros. O pequeno número facilitava sair de fininho de Jannuari, mas era tudo que podiam fazer. Precisavam de Meira.
Ele precisava de Meira.
Você lutou por Inverno tão espetacularmente. Tenho mais orgulho do que jamais tive de chamar você de meu filho. Mas não se esqueça de lutar por si mesmo também... Não há vergonha nenhuma nisso.
Mather podia não ter se lembrado de tudo que Alysson dissera para ele, mas se lembrava da última coisa. Vestiu aquelas palavras como se fossem uma armadura em volta do corpo, junto com a promessa que fizera a William: não deixaria que Inverno caísse de novo.

3 comentários:

  1. NÃOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOO.
    EU SIMPLESMENTE NAO ACEITO ISSO
    MANO QUANDO ACHO QUE AS COISAS VAO SE RESOLVE
    ACONTECE ISSO
    PORQUE.......
    PORQUE ELA TINHA QUE MORRER CARA TÕ INCONFORMADA
    AAAAAAAAAAAAAA
    EU GOSTAVA DELA


    AGORA QUE FU*** TUDO MESMO

    ASS:JANIELLI

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  2. Caraca , o capítulo que mexeu as borboletas no meu estômago 😍

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  3. Triste mesmo . Dei a entender que o Willian vai morrer tbm =/

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Boa leitura, E SEM SPOILER!