21 de janeiro de 2019

Capítulo 25

QUANTO MAIS NOS aproximamos do palácio de Angra, mais meu alívio e minha surpresa somem.
Esse é o momento que temi desde que cheguei, quando Angra me torturará até a submissão. Ele me fará implorar pela morte até que eu diga a ele como derrubei as rampas, como curei o menino e, quando eu não explicar — não consigo explicar, pelo menos não o menino —, vai fazer com que Herod acabe comigo.
Um tremor consome minhas entranhas. Não, não tenho medo de Herod. Não tenho medo de Angra. Não tenho medo.
Mas Angra vai me matar antes que eu fale com Nessa de novo. Antes que eu consiga fazer qualquer outra coisa para ajudá-los, talvez até mesmo salvá-los. E depois de ver o que aconteceu com o menino...
Quero me dissolver em um ataque de gargalhadas incrédulas enquanto os soldados me puxam por Abril. O menino está bem. Mesmo quando penso nisso, o choque afasta minha necessidade de rir, abafando-a como uma vela que é apagada pelo vento. Como eu fiz aquilo?
Nessa, Conall e Garrigan tiram os olhos do trabalho no jardim de Angra quando passamos. A expressão de Nessa passa de torpor para pânico em duas piscadelas, o corpo dela se encolhe com uma percepção indefesa. Nessa avança em minha direção, mas Garrigan a impede, abraça a irmã e sussurra algo breve e baixo ao ouvido dela.
Conall também me vê, o olhar de irritação está perigosamente sombrio. Desvio os olhos dele antes que consiga ver o desapontamento, antes que os olhos dele me digam: Eu sabia que você também morreria.
Não morrerei. Não hoje. Não depois do que aconteceu, do que fiz, do que posso fazer por eles. Mas o que posso fazer por eles? Nem mesmo sei como fiz aquilo, de onde veio — curei o menino.
Eu o curei.


— Deixem-nos.
A voz de Angra ecoa pela sala do trono. Um grupo de conselheiros de alta hierarquia está reunido ao redor do altar dele, as estampas de sol negro e borda dourada nos uniformes reflete a luz que entra pelos buracos acima. Eles se viram ao comando do rei, todos os olhos recaem sobre a garota inverniana arrasada que dois dos soldados arrastam pelo longo caminho até o trono.
Um dos conselheiros é Herod. Ele dá um risinho e olha para o rei, como se pedisse permissão, mas a voz de Angra ecoa de novo.
— Eu disse para nos deixarem.
Os conselheiros reúnem os papéis que tinham espalhado sobre as mesas no altar de Angra e saem em fileira por diversas portas. Sou deixada apoiada entre os dois soldados, na base do altar. Angra se recosta no trono, uma das mãos, como sempre, segurando o cetro. Os olhos verdes dele estão aguçados e mortais e ele me encara como se eu fosse um cão premiado que ele considera comprar.
— Relatem — grunhe Angra.
O soldado à minha direita se concentra.
— Ela derrubou a rampa de trabalho na muralha e matou e feriu muitos de nossos homens. Ela também... — O homem para, os olhos dele se desviam para meu rosto e se afastam, como se eu pudesse matá-lo com apenas um olhar. — Ela curou um escravo.
Meus pulmões se recusam a permitir que mais ar entre, eles se apertam como se soubessem o quanto é inútil continuar respirando. Não sei o que sou, o que posso fazer, mas Angra vai me torturar até que descubra ou que eu morra.
Angra fica de pé.
— Dispensados — diz ele. Os dois soldados vão embora, o som das botas deles no piso de obsidiana se dissipa no silêncio. As portas se fecham atrás deles.
Somos apenas Angra e eu agora. Angra e eu e as batidas ocas, vazias, de minha pulsação ecoando pela pedra preta e pesada da sala do trono. Contenho cada músculo contra o medo em minha mente.
Não importa o que aconteça, não importa o que ele faça, sou parte da corrente maior de Inverno e isso é algo que Angra jamais poderá tirar de mim.
Os dedos de Angra brincam distraidamente com o cetro.
— Derrubou uma rampa, é? E curou um escravo? — A expressão de Angra é impassível, e aquela falta de emoção é, de alguma forma, mais assustadora do que qualquer outra coisa. Eu o surpreendi. E Angra não gosta de ser surpreendido.
Ele dá um passo adiante. Sorri, contido, sob controle, me analisando com palavras provocadoras até que consiga entender o que fiz, como me impedir de surpreendê-lo de novo.
— Obviamente, você não aprendeu o lugar de um inverniano, se acha que pode fazer tais coisas sem consequências. Mas não tema, Herod ficará mais do que feliz em mostrar como um escravo deve agir. Talvez eu devesse pedir que ele a ensinasse etiqueta desde o início.
A menção de Herod é como um raio em um dia limpo, afiado e assustador.
Cambaleio para trás, com os olhos arregalados, e inspiro rapidamente. O sorriso de Angra se abre. Ele vê que encontrou uma fraqueza.
— Matou meus homens — repete Angra, meio que para si. — E curou um escravo. Não vai levar muito tempo para eu descobrir como fez um, mas o outro? Você chegou aqui com nada além daquela pedra, então o que, exatamente, lhe deu o poder de curar alguém? — Angra desce um degrau do altar. — Será que uma rainhazinha morta andou ajudando você? Ela está dando informações na esperança de que você seja bem-sucedida onde até o filho dela falhou?
Eu o encaro boquiaberta. Hannah. Como ele sabia...
Mas Angra termina de descer do altar, para tão perto que consigo ver o ódio que permanece por trás da expressão dele, a ameaça de explosão caso eu pressione o botão errado ou me recuse a entrar no jogo.
— Eu vejo tudo — sussurra Angra. — Controlo tudo. Sei que ela ainda está conectada com a magia de Inverno, mas não achei que seria burra o bastante para usar o poder em meu reino, principalmente por meio de uma garota insignificante. Vai me dizer o que Hannah disse a você, como ela alimenta sua magia, então vou arrancar cada gota dessa magia de seu corpo.
Engulo em seco, com a garganta apertada. Os olhos do menino surgem em minha mente, tão arregalados e assombrados e aliviados, a lombar dele curada.
— Não sei — sussurro. Minhas palavras me chocam. Não tive a intenção de falar. Apenas... fiz alguma coisa. Sou poderosa.
— Acho que sabe — discorda Angra. Ele ergue uma sobrancelha e olha para a órbita no cetro. A escuridão escorre de dentro dela, uma longa cadeia de sombras que se curva pelo ar, enroscando-se pela mão de Angra como uma gavinha que abraça o galho de uma árvore. A fileira de sombra se desenrosca da mão dele e forma uma grande curva, arqueando em um círculo amplo ao redor de minha cabeça. Brincando comigo, me provocando com a proximidade da magia de meu rosto. A escuridão brinca sob os raios de sol que se projetam pelos buracos no teto.
Encaro boquiaberta. Jamais vi magia antes. Isso... isso não é magia.
Isso é a Ruína.
— E tenho certeza de que Hannah colocou algumas informações muito interessantes em sua cabeça — continua ele. — Eu gostaria de ver o que ela tem feito com você.
Estou ofegante agora, a sombra paira diante de meu nariz.
— Todo esse poder e ainda não sabe?
O rosto de Angra se contorce, revelando o verdadeiro ódio fervilhante dele sob a fachada arrogante.
— Você foi colocada em uma jaula com... quem foi? I-3219, I-3218 e I-2072. O que eu sei, R-19, é que minha necessidade de saber o que está em sua mente é maior do que minha necessidade de mantê-los vivos. Será que deveria trazê-los até aqui? Porque acho que você se importa se eles vivem ou morrem.
Mordo a língua para evitar reagir. A testa de Angra relaxa com a satisfação da percepção. A linha da sombra pulsa diante de meu rosto, a manifestação da ameaça dele.
— Ah, você se importa. Foi o que pensei. — Angra se aproxima, demais, a menos da distância de um braço, com apenas a linha de sombras pairando entre nós. — Você provavelmente também se importaria — continua ele, com a voz como um ronronado baixo —, se eu ordenasse que meus soldados não se dessem ao trabalho de os trazer aqui. Se eu os mandasse matar onde estão. Ou, melhor ainda, se mandasse Herod torturá-los. Talvez eu devesse...
— Vou matar você — disparo e avanço um segundo antes de recuar devido à linha oscilante de magia negra, minhas mãos se fecham em punhos. Não consigo impedir o desejo desesperado de arrancar o coração de Angra, mas sei que é inútil; não consigo impedir que ele faça de Nessa ou Conall ou Garrigan o próximo brinquedinho de Herod, não consigo fugir desse fio pulsante de escuridão que se aproxima mais e mais de mim, até que eu tenha medo de respirar muito profundamente, ou acabo inspirando-o para dentro.
— Vai mesmo? Porque acho que não tem escolha. Ninguém tem.
Sangue se acumula em minha boca. Mordi a língua até abrir, a lucidez aguçada que vem com a dor é a única coisa que me impede de saltar contra Angra através da aura de magia negra. Eu me concentro na dor, não na linha enevoada de escuridão, não nas palavras entorpecentes de Angra. A voz gentil e pulsante dele que parece tão calma, tão doce, até que o significado das palavras seja compreendido. Além de nós, a obsidiana negra da sala vazia do trono reflete a luz do sol, nos observando como um público sem corpo.
— É libertador não ter escolha. E depois de um tempo, as pessoas não precisam mais ser forçadas a fazer certas coisas. Como Herod, por exemplo... que passou a gostar muito fervorosamente das escolhas que faço por ele. Vai gostar de destruir você.
Frio. Tudo está frio. O mundo é gelo, coberto em maravilha espessa, sólida, nada além de superfícies reluzentes e nuvens de ar congelado. Estou trancafiada nele, parte dele, braços e pernas enrijecem nos galhos irregulares de uma árvore coberta de gelo, presa em um estado de hibernação suspensa enquanto o mundo congela ao meu redor.
Meus ossos se mexem com uma sensação de trituramento, movendo-se contra o gelo, quebrando-o conforme meu corpo se impulsiona para a frente, os dedos dobrados como garras, a boca se abrindo com um grito sangrento conforme mergulho pela sombra no rosto de Angra.
Assim que a nuvem negra toca minha pele, percebo meu grande erro. Desespero abriu minha mente para ele e minhas defesas ruem conforme a sombra se dissipa na minha cabeça, mergulhando para meu crânio e preenchendo cada cavidade com um mal empoeirado, antigo. Paro, sugada para fora do frio, frio, tanto frio do mundo e para dentro de minha própria tortura de calor. A sombra se agita por meus pensamentos, mergulha em minhas lembranças, se debate em meu cérebro conforme sou jogada para trás e para a frente, descontroladamente.
Um lampejo da arrogância de Angra retorna. O poder dele está em mim agora, abrindo caminho por minha mente, aninhando-se dentro de mim como tinta em livros.
Você vai me contar tudo, sinto Angra dizer. As palavras são meus pensamentos, gananciosos e profundos, e puxo as orelhas como se pudesse puxar Angra da minha cabeça. Ou deixarei que Herod acabe com você primeiro, então com aqueles escravos com quem estava, depois com todos os invernianos que possuo. Vou fazer com que ele mate todos.
Não, ele não fará. Vou impedir Herod; matarei Angra antes que ele sequer faça isso com mais alguém.
Rostos e imagens do meu passado disparam conforme Angra vasculha minha mente — Mather e Sir, as planícies Rania, Theron me segurando enquanto dançávamos em Cordell. Neve caindo, suaves flocos de neve cobrindo as ruas de paralelepípedo de Jannuari...
O frio me percorre, um frio fantástico. Estou de pé em Jannuari, os dedos expostos se enterrando na argamassa entre os paralelepípedos conforme flocos caem em meus cílios, fazendo o mundo brilhar. Por que estou aqui? Está tão frio, cada nervo de meu corpo formiga com o frio maravilhoso.
Sei como destruir você, diz a voz de Angra. Sei como destruir todos vocês, que desejam tanto o que não podem ter. Mostram sua fraqueza no desespero.
Não, estou em Abril, não em Jannuari. Estou no palácio de Angra e os invernianos precisam de mim, e Nessa morrerá se eu não ficar consciente. Não sou mágica; não sou nada especial. Sou apenas Meira.
Não, não apenas Meira. Sou... sou alguma coisa...
Está tão frio. Amo o frio.
Diga o que mais quer na vida, Meira. Usarei suas fraquezas. Deformarei sua mente até que você se destrua em minhas mãos. Controlo você, Inverno, tudo.
Angra estende uma das mãos com uma lentidão agoniante e a apoia de novo em minha testa. Mais neve, caindo e caindo, flocos pacíficos me embalando em Jannuari, onde é silencioso e calmo e jamais me senti tão segura na vida.
O medalhão. Angra ainda usa metade do medalhão no pescoço, o floco de neve branco no coração prateado. Estivemos procurando o condutor por tanto tempo.
Vou destruir você com o que mais quer. Seu mundo perfeito.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!