26 de janeiro de 2019

Capítulo 24


Meira

A MAGIA ME envolve em gelo em meio a um emaranhado de confusão que se amplifica quando uma voz me acorda, como um sol nascendo sobre uma paisagem banhada em noite.
— A magia não deve ser alcançada por alguém de coração corrupto. Não, o coração deve ser puro; não, bom... Não, não, nada disso. A magia deve ser alcançada por alguém com o coração preparado. Eles devem estar preparados. E esses testes... Esses testes os prepararão.
— Que testes? Preparar para quê? — pergunto. Mas para quem estou perguntando? Ninguém está falando, ninguém além de mim está aqui. Isso é só em minha mente, conhecimento vem de minha voz a partir... da chave?
Acho que estou segurando a chave. Dormindo, em algum lugar, estou segurando-a, e ela usa minha voz, tagarelando.
— E esses testes... Esses testes os deixarão...
O nada se eleva, ondula para longe como cortinas sendo puxadas em uma janela até que tudo em volta de mim esteja branco: paredes com painéis marfim emolduradas em prata. Inverno. Estou em um escritório no Palácio de Jannuari.
— Preciso fazer isso!
Hannah está de pé no centro da sala, o corpo dela está virado para longe de mim conforme fala com um homem cuja testa está encostada à parede.
— Você não entende — grunhe Hannah. — Essa é a única forma de salvá-los.
Vê-la agora me faz perceber o quanto senti sua falta. Hannah não reage a mim, no entanto — não quando o digo o nome dela; não quando fico de pé bem diante dela, boquiaberta.
— Eles precisam disso, Duncan — diz Hannah, e a voz dela falha com um soluço.
Eu me viro, mas o homem permanece com o rosto para longe de nós, os cabelos brancos longos tocam as costas dele enquanto o rosto permanece enterrado nas mãos. Duncan. Meu pai.
— Perguntei à magia — continua Hannah. — Implorei que me dissesse o que fazer. Não quero simplesmente salvá-los de Angra, quero salvá-los de todos os perigos do mundo. — Os soluços de Hannah se acalmam e ela estica os ombros, enrijecendo o corpo. — Perguntei como salvar Inverno.
Já sei disso. A magia disse a ela que quando um condutor se quebra em defesa de um reino, o governante se torna o hospedeiro da magia. Ele se torna o próprio condutor, uma fonte ilimitada de magia para o povo. Foi por isso que Hannah fez com que Angra quebrasse o medalhão dela, queria salvar nosso povo dele.
— Preciso deixar que nos mate — afirma ela, tentando se convencer tanto quanto convencer Duncan.
Nos mate?
Enquanto a observo, o restante da história se revela em minha mente. Uma parte em especial se destaca com um palpitar desconfortável que me arranca o fôlego.
Como não vi isso antes?
Hannah fez com que Angra quebrasse o medalhão — mas também fez com que a matasse. Isso era parte do acordo com ele — prometeu a Angra um fim à linhagem Dynam, sem saber que estava grávida e que isso também significava matar a criança.
— Quando um condutor se quebra em defesa de um reino, o governante desse reino se torna o condutor. E se o condutor se quebrasse de novo... Se esse governante morresse em defesa do reino como o último daquela linhagem, a magia buscaria o próximo hospedeiro ligado a ele, os cidadãos daquele reino. — Hannah para, ofegante. — Eles... Você jamais vai precisar de nada. Preciso fazer isso, Duncan. Ele precisa nos matar para que Inverno seja salvo.
Nós.
Não — isso está errado. Isso é um truque...
Eles devem estar prontos. E esses testes... Esses testes os deixarão prontos.
Minha voz de novo, me provocando. Enrosco os dedos nos cabelos, sacudindo a cabeça para evitar que a informação se fixe em minha mente. Mas ela se fixa, e tudo se revela.
Se o que Hannah disse é verdade, se eu não tivesse nascido... Se Hannah tivesse deixado Angra nos matar, às duas, tantos anos atrás...
Nosso reino destruído estaria inteiro agora. Sir teria criado Mather como filho dele. Nessa e Garrigan e Conall estariam cheios de poder, e Primavera teria caído, e a Ruína seria uma memória distante sob toda a magia do condutor de Inverno.
É isso que a chave quer que eu veja? Como minha mera existência evitou que meu povo estivesse em segurança?
— Um coração preparado — diz a magia, com minha voz. — Esses testes a prepararão.
Inclino o corpo para a frente e grito, frustrada, exausta, com tudo que me resta. Nem mesmo grito palavras, apenas barulho, pois estou cansada de travar uma guerra quando mal consigo ver um passo adiante, pois estou cansada de ser a única que sequer vê a guerra, de ser a única que quer viver sem magia.
E agora... O quê? Eu deveria simplesmente deixar que tudo me matasse para que meu povo se tornasse o próprio condutor? Não pode ser assim. Isso nem mesmo tem algo a ver com o abismo de magia... E esses testes devem me ajudar a alcançar o abismo de magia, não é?
Mas as visões que tive quando toquei Theron não tinham nada a ver com o abismo de magia também. Ele não viu nada, no entanto, e tocou a chave — se tivesse visto algo, eu teria notado a reação. Então por que apenas eu? Por causa de minha magia? Por que a Ordem teria preparado as chaves para serem condutores que apenas reagem a um utilizador de condutor? Ninguém sem magia pode abrir a porta? Nada disso faz sentido.
— O que está acontecendo? — grito. — Por que preciso disso? O QUE FAÇO?


Nunca me esquecerei da primeira nevasca em Inverno. Dias depois de voltarmos, o tempo mudou, como se comemorasse nossa volta. Flocos de neve cruzavam o ar, nuvens escureciam o céu, a temperatura desabou ainda mais. Cada inverniano em Jannuari correu para fora para cumprimentar a ventania, absorvendo o frio com um êxtase entorpecido.
De pé no pátio do palácio, com os braços erguidos para o céu, o frio adormecendo os outros sentidos e o vento abafando todo os outros sons, fechei os olhos. Nunca, na vida inteira, tinha me sentido tão incrivelmente sozinha. Mas era o tipo perfeito de solidão, uma paz delicada e onírica.
Essa sensação de agora, conforme eu acordava, quase sufocando meu medo, com a pulsação rugindo na cabeça — esse é o perfeito oposto daquilo. Sozinha, mas desolada, e caindo cada vez mais no esquecimento.
Sobressaltada, fico de pé; o dossel em volta de minha cama no palácio yakimiano se agita com a força.
— Minha rainha?
Nessa segura minha mão na dela, a chave está na colcha ao meu lado, meus dedos doloridos por terem sido abertos à força por ela. Inspiro, meus pulmões gritam como se eu tivesse prendido a respiração durante o sonho inteiro. Ou pesadelo, mais provavelmente, mas me desvencilho de Nessa e saio da cama atrapalhada, de olho na chave, com o corpo trêmulo da cabeça aos pés.
— O que aconteceu... — Começo a perguntar, mas sei. Sinto por toda parte, cada músculo dolorido e coberto pelo conhecimento conforme ando, o vestido amassado oscila ao redor das pernas.
Nessa fica de pé.
— Henn disse que você desabou na biblioteca. Dendera buscou um médico, mas ele não conseguiu descobrir nada de errado com você. Estava tão imóvel, no entanto, e não consegui acreditar que não fosse nada... Nada natural, de toda forma. Então eles foram embora, e eu disse que cuidaria de você, e vi seu punho todo fechado. Era a chave... Ela fez algo com você. O que é? Só pode ter a ver com abismo de magia...
— Nessa. — Eu a interrompo rispidamente.
Hannah planejou para que morrêssemos — mas não pôde ir em frente por minha causa, ou qualquer que fosse o motivo.
Não faço ideia de como encontrar a Ordem dos Ilustres. Não além dessas chaves. Há algo mais a respeito delas, algo que não entendo, e isso me apavora.
E se eu contar isso a Nessa, vai dar a ela ainda mais combustível para os pesadelos. Theron já está em pedaços, não suporto que Nessa se magoe mais também...
— Não posso contar a você...
— Por quê? — Nessa dá a volta na cama, se aproxima de mim, com expressão de raiva, as bochechas vermelhas.
— Porque essa luta não é sua.
A expressão se intensifica.
— Mentirosa.
Isso me assusta. Nessa, minha Nessa, está com raiva de mim.
— Sei que está escondendo algo — continua ela. — Sei desde que voltamos a Inverno. Todo mundo estava feliz e você estava arrasada... Vencemos a guerra, mas você tinha a mesma aparência que exibia no campo de trabalhos forçados, com medo e esperando que algo se quebrasse. É o abismo de magia, não é? Algo a respeito dele a preocupa. Noam? Angra? O que é?
Sacudo a cabeça em resposta, ou porque não posso, não quero admitir para ela.
— Pare de esconder de mim! Eu cresci na miséria. Não sei por que todos acham que sou tão frágil. Posso lidar com a verdade!
A porta que conecta meu quarto àquele ao nosso lado se abre. Dendera, Henn, Conall e Garrigan entram correndo e congelam ao ver Nessa gritando comigo.
— Você não deveria precisar — digo a ela. — Esta não deveria ser sua vida. Vou consertar tudo.
— Essa responsabilidade não é sua!
— Sou a rainha... É claro que é!
— Não, não é. — Nessa agita o dedo em minha direção, cada músculo do rosto está tenso. — É seu trabalho se certificar de que tenhamos comida e casa; não é seu trabalho fazer com que cada um de nós seja feliz. Mereço saber o que está acontecendo. Você não é a única que ama Inverno e quer proteger o reino.
— Mas sou o condutor de Inverno, Nessa. — Minha voz falha. — Sou a única que pode...
— Pare! — Nessa agita o braço na direção do quarto, de todos que estão reunidos ali. — Não é a única. Este é meu reino tanto quanto é seu. Essa é minha guerra também!
Essa é minha guerra também, Sir! Precisa me deixar lutar. Posso ajudar, sei que posso!
Minha voz ecoa de volta para mim, vinda de Nessa, e não consigo fazer mais do que piscar para ela. Todas as dezenas de vezes que gritei com Sir, as mesmas palavras. Levo as mãos à boca, o choque me congela no lugar. Dendera e Henn percebem ao mesmo tempo que eu, e a preocupação se dissolve na expressão triste e ríspida da verdade.
Fiz com Nessa exatamente o que Sir fez comigo durante anos. O que ele fez com todos. Tentou, sozinho, realizar as tarefas mais insanas — saques para conseguir a metade do medalhão, reconhecimento de novos acampamentos, encontrar-se com potenciais aliados. Estava sempre sozinho, estoico, severo e longe de nossas vidas até que, desesperadamente, inevitavelmente precisasse de nós. Tentou manter o peso de nossos fracassos sobre os próprios ombros para que não precisássemos lidar com a verdade dolorosa e avassaladora do que eram nossas vidas.
Eu o odiava por isso. Todos odiávamos. Via Dendera trocar olhares com Alysson, ou Finn grunhir pelas costas de Sir, e sabia que todos sentiam, em algum nível, a mesma vontade enlouquecedora de sacudir Sir até que ele percebesse que já conhecíamos os perigos de nossas vidas. Na verdade, essa hesitação de nos permitir ajudar levou ao pior.
E eu fiz exatamente o mesmo. Tentei forçar uma vida específica a Nessa.
Um ruído gutural e rouco preenche o quarto e as sobrancelhas de Dendera se erguem para mim. Sou eu — estou gargalhando. Levo as mãos à boca, mas não consigo impedir, risadas insanas sobem pela minha garganta e irrompem pelas palmas de minhas mãos até que eu esteja curvada, incapaz de respirar em meio à reviravolta absurda de que virei Sir.
Desabo no chão, meu estômago dói. Todos no quarto apenas encaram, o que só me faz rir mais alto.
Nessa se ajoelha ao meu lado, o ódio se dissipa em um leve rubor no pescoço.
— Meira?
Abaixo as mãos, a gargalhada se dissipa sob o tremor repentino de minha pulsação.
— Você me chamou de Meira.
Dendera suspira, mas o sorriso dela me ofusca de novo, do tipo que lança calafrios por minha alma.
— Você sempre foi Meira — diz ela, como se fosse a coisa mais simples do mundo.
Sacudo a cabeça quando Dendera se junta a nós, ajoelhando-se ao meu lado no chão.
— Tentei não ser — digo, as palavras saindo antes que eu consiga considerar uma resposta.
Dendera pega minha mão, com o rosto inexpressivo, esperando.
— Por quê?
A pergunta dela, ou talvez o sonho, ou talvez apenas meses sendo consumida pelo medo, me arrasa, e tudo sai em uma enxurrada, cada motivo pelo qual me agarro com tanta força à rainha Meira.
— Quando peguei a metade do medalhão e levei os homens de Angra direto para o acampamento. Quando lutei contra me casar para entrar em Cordell, embora pudesse ter resolvido tanta coisa. Quando invadi o escritório de Noam e arrisquei destruir nossa única aliança. Mesmo no campo de Abril, quando fiz desabarem as rampas, poderia ter matado meu próprio povo. Tudo que fiz, cada ato egoísta, foi impetuoso e arriscado e feriu a todos. — Lágrimas escorrem por minhas bochechas, lágrimas quentes, que me marcam. — Eu era rainha esse tempo todo, a cada momento de minha vida, e podia ter ajudado a todos... mas não ajudei. Fui tão egoísta. Podia ter feito mais, eu podia...
Ter salvado a todos. Podia ter salvado todos em Inverno, se Hannah tivesse permitido que Angra matasse nós duas. Mas ela não permitiu — me mandou para longe. Não conseguiu seguir em frente. Foi fraca, ou talvez forte — não sei qual, mas ela não o fez, e sou exatamente como ela. Sou fraca e assustada e tento com tanto afinco, mas nunca é o suficiente.
Nenhum pedaço de quem sou é o suficiente, então tentei ser outra pessoa.
Dendera me cala com a mão em minha bochecha.
— Ouça aqui, Meira Dynam. Sim, você cometeu erros, mas eu a observei sucumbir a esse papel durante os últimos meses, e isso, acredito, seja o maior erro que cometeu. O maior erro que todos cometemos. Todos já sofremos com medo, Meira, olhe para mim. Você nos salvou. Você, essa linda e selvagem garota diante de mim, você nos salvou. Então seja você de novo, e quem quer que seja, será exatamente de quem precisamos.
Você nos salvou.
As palavras de Dendera oscilam diante de mim, tentadoras, atraentes. Não pensei nisso... Jamais. Nunca me permiti pensar no bem que fiz, apenas no bem que poderia ter feito.
Mas... Eu nos salvei. Eu nos salvei.
Inspiro, e dessa vez sinto. Dessa vez, passa correndo por mim, me dá vida, é refrescante, gelado, me preenche com a certeza de Dendera e de Nessa.
Dendera fica de pé e se move até o baú na parede. Rolos intermináveis de tecido estão guardados nele, algumas peças de roupa semiacabadas, e Dendera vasculha ali dentro. Quando tira a mão, o ar que tinha conseguido inspirar deixa meu corpo em uma lufada que me lança de pé em disparada.
Meu chakram, na bainha, a linda lâmina circular reluz, afiada e polida, o cabo gasto até ficar liso no meio.
— Minha rainha — diz Dendera, quando me entrega a arma, fazendo uma reverência sobre ela.
Envolvo devagar o chakram com os dedos, minha mão se curva no cabo naturalmente, cada músculo desperta com uma onda de paz. Jamais deveria ter ficado sem ela. Esta sou eu, quem quer que eu seja quando seguro o chakram. Tanto a rainha racional e cautelosa que me obriguei a ser quanto a garota selvagem e apaixonada que levou o reino a vacilar quando estava à beira da derrota — mas que também o puxou de volta dessa borda.
Uma rainha guerreira.
Posso ser as duas coisas. Serei as duas coisas. Estou cansada de lutar contra mim mesma — tenho inimigos demais, obstáculos demais, para gastar tanta energia lutando contra mim mesma para que me submeta. Tenho poucos amigos para alienar aqueles mais próximos. Preciso começar a confiar neles. E se eles se partirem...
Bem, teremos que juntar os cacos.
Abaixo o chakram para a lateral do corpo e me viro para Nessa.
— Tudo bem, explicarei tudo. Mas primeiro... — expiro. — Tem outra pessoa que também precisa ouvir a verdade.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!