21 de janeiro de 2019

Capítulo 24

SEMANAS SE PASSAM. Toda manhã, passo alguns minutos terríveis imaginando se aquele será o dia em que Angra mandará me buscarem, mas ele não manda, e os soldados me agrupam com os trabalhadores destinados à muralha. Trabalho sem água até o pôr do sol, engulo o ensopado frio e desabo na jaula. E todos os dias, em meio ao trabalho, em meio à espera, faço a mesma pergunta a mim mesma, diversas vezes.
O que posso fazer para nos ajudar?
Guardo essa pergunta para mim, bem escondida no fundo da mente, para que ninguém mais possa ser punido por planejar uma fuga. Mas todas as respostas em que penso são frágeis e fracas. Nocautear um dos guardas — com que finalidade?
Empurrar alguns dos soldados das rampas, para que morram — e ser empurrada também? Deve haver alguma coisa.
Meus músculos jamais se acostumam com as subidas e descidas das rampas e minhas pernas fraquejam toda noite, até que eu desmaie em rompantes inquietos de sonhos, lampejos sombrios e esparsos que não fazem sentido. Sir e Noam discutindo nas planícies Rania, grama dourada da pradaria açoitando-os conforme nuvens de tempestade avançam acima. Mather de pé sobre um soldado morto de Primavera, olhos no medalhão, enquanto ele o segura como se quisesse atirar o objeto à terra. E Theron, preso em um palácio tão negro quanto a noite, lutando, com os dedos ensanguentados, contra monstros de sombras.
Será que algum dia saberei o que aconteceu com eles? Será que conseguirei prestar homenagem a Sir, ficar sobre o túmulo dele e dizer um último adeus?
Meus outros sonhos, os que Hannah me mostrou, são aqueles aos quais me atenho.
A história da magia, o verdadeiro motivo pelo qual os Condutores Reais foram feitos. Mesmo o lampejo que vi quando toquei Angra, dele se encontrando com Hannah nos campos de Inverno, os sussurros de um acordo sendo feito. Há algo nisso tudo, alguma solução que Hannah estava tentando me fazer compreender, mas só consigo pensar em mais perguntas sem resposta.
Ela disse que a Ruína usava as pessoas como condutores dela. Magia negra escolhia o hospedeiro. Se magia negra pudesse escolher o hospedeiro — então, e quanto à nossa magia? Para onde foi a magia de Inverno quando Angra quebrou nosso medalhão? Será que escolheu ir para outro lugar? Essas são perguntas que ninguém ousou fazer durante 16 anos, porque dói considerar qualquer alternativa — ou pensar que a magia sumiu. Então simplesmente estampamos sorrisos falsos e nos asseguramos de que ela estava esperando que reuníssemos as metades de nosso condutor, esperando que reconstruíssemos o hospedeiro dela.
Mas e se foi para outro lugar? Encontrou outro hospedeiro?
Ou se sumiu mesmo?
Essas perguntas são definitivas demais para mim. Preciso de algo que me ajude agora — então carrego os sonhos comigo, cutucando-os de todos os ângulos conforme subo e desço as rampas. Tudo precisa se encaixar.
Mas não faço ideia de como.
À noite, Nessa me conta sobre a vida dela. Tem a minha idade, 16 anos. O pai dela era sapateiro e fazia os melhores sapatos de Jannuari, e a mãe dela era uma das costureiras de Hannah. A dedicação dos pais de Nessa a Inverno era tão determinada que, quando Angra atacou, eles ordenaram que Conall, com 17 anos na época, protegesse Garrigan, com 12, e a recém-nascida Nessa, enquanto ajudavam na luta. Os dois morreram naquela noite, e tanto Conall quanto Garrigan passaram os últimos 16 anos lutando para permanecerem vivos por ela.
Nessa fala sobre essas lembranças como se fossem dela, da mesma forma que eu repetiria histórias para mim até que tivesse certeza de que também tinha estado na corte de Hannah e pudesse me lembrar de um reino trancafiado na neve.
— Como sabe tudo isso? — pergunto a Nessa certa noite, quando não aguento mais. Quando encará-la se torna insuportável demais, como olhar em um espelho de como deveria ter sido minha vida. Criada em um campo de trabalhos forçados, obrigada a construir Abril assim que teve idade o suficiente para ficar de pé. Cercada pelos resquícios de uma família e dos pedaços ainda mais esparsos de um reino, cada alma destruída agarrando-se a memórias que não são nem de Nessa, nem minhas.
— Meus irmãos e a caverna das lembranças — diz Nessa, simplesmente. Como se fosse o suficiente ouvir histórias passadas de geração em geração e ler sobre nossa história em linhas escritas às pressas em paredes de rocha. Como se aqueles minúsculos pedaços de informação fossem o bastante para ela, apenas para ter algo.
Nessa mergulha de volta na história, sobre um vestido que a mãe dela fez. Deveria ser um vestido simples, mas a costura era tão detalhada que Hannah optou por usá-lo no casamento dela com Duncan, o pai de Mather. Nessa profere as palavras para mim como uma tapeçaria cuidadosamente tecida de um passado que não pertence a nenhuma de nós. Que um dia pertencerá.
Eu encosto na parede, com os joelhos no peito. Não consigo deixar de pensar que ela está certa — qualquer ínfimo trecho de informação basta. Mas merecemos mais do que isso.
E estou cansada de esperar por algum dia.


Algum dia seremos mais do que palavras na escuridão.
Aquela noite permanece comigo durante os próximos dias, conforme subo e desço as rampas. A caverna das lembranças, as palavras gravadas na pedra, o suspiro de esperança de Nessa.
— Esses túneis oferecem um tipo próprio de fuga.
E percebo, em meio a todos esses lampejos de desejo, a esses pulsos do que poderia ser, que aquilo que os invernianos precisam acima de tudo é exatamente o que a caverna oferece, mas em escala maior: esperança. Esperança para tornar as vidas mais alegres; esperança para ajudá-los a suportar. Preciso acreditar que Mather ainda está lá fora, reunindo apoio e preparando um exército para marchar para Primavera, e que um dia ele derrubará as muralhas de Abril. Mas caso eu viva ou não para ver esse dia, vou morrer em um gesto feroz que fará com que Angra amaldiçoe o momento que ordenou que Herod me colocasse aqui dentro — e que prove para os invernianos que esperança ainda existe.
Animação me preenche, me deixa ansiosa e pronta para colocar um plano, qualquer plano, em ação. Eu me arrependo de ter me deixado ficar tanto tempo deprimida antes de, de fato, tentar fazer alguma coisa.
E, um dia, um plano se forma em minha mente. Um plano para derrubar mais do que um ou dois soldados — um plano para derrubar tantos deles que os invernianos notarão, sentirão o peso se levantar. Não liberdade, mas o primeiro passo em direção a uma jornada mais longa. Um impulso na moral.
A cidade funciona com a eficiência e a ordem de uma máquina cuidadosamente controlada — cada soldado em seu lugar, cada porta bem trancada. Isso significa que programações são a norma, e semanas de repetição gravam as rotinas dos soldados em minha mente também. Quando eles nos buscam todas as manhãs; quando nos dispensam toda noite; quando mudam de turno. A repetição os torna eficientes, sim, mas também dá aos soldados uma enorme fraqueza: ela os torna previsíveis.
Sei, por exemplo, que os soldados posicionados nas rampas mudam de turno todo dia ao meio-dia e que as rampas ficam livres de invernianos, que se reúnem em volta das crianças com as jarras d’água. Pelo mais breve momento, não somente as rampas estão livres de invernianos, mas também estão lotadas com o dobro do número de soldados de Primavera — aqueles que saem e os que ocupam os novos postos.
E embora Herod tenha tomado minhas armas muito antes de chegarmos a Abril, ainda tenho um minúsculo pedaço de metal comigo — a fivela que prende o cinto em minha calça. Então, depois de outro dia interminável trabalhando na muralha, rastejo para a jaula com Nessa, Conall e Garrigan, espero que os soldados nos tranquem e, com cuidado, tiro a fivela da faixa de couro.
Nessa e os irmãos me olham enquanto estou curvada no canto, tirando a fivela e usando um pedaço dela para afiar o outro. Raspo metal em metal, tão concentrada que não sei se Nessa tenta me dizer algo antes de cair no sono e, pela manhã, tenho uma linda e pequena faca na palma da mão. Tão longa quanto meu dedo indicador, um dos gumes afiados até virar uma lâmina. Aperto a faca com tanta força que o fio corta minha pele quando me junto ao restante do grupo destinado à muralha.
A rotina na muralha não mudou. Coldres, rochas às costas, subindo e descendo, subindo e descendo pela madeira rangendo. Antes de subir as rampas, olho para a estrutura, um breve olhar que passa despercebido. A primeira tábua de madeira se inclina para cima do lado direito da estrutura, conectada às rampas acima com vigas de madeira em todos os cantos. Mas se as outras vigas estivessem enfraquecidas e a da base se partisse enquanto os soldados de Primavera trocam de turno no meio do dia...
Se isso trouxer o menor pingo de esperança aos invernianos, valerá a pena.
Viro a lâmina improvisada na mão, mantendo-a apontada entre os dedos, e a cada repetição de ida e volta, ida e volta pelas rampas de madeira, estendo a mão e deslizo a lâmina contra as vigas que nos seguram no ar. As vigas são tão finas quanto meu pulso, a madeira já está arqueada e enfraquecida devido ao sol e não é preciso muito esforço para formar pequenos sulcos. Mas apenas em todas as vigas do lado direito, e apenas o suficiente para, devagar, imperceptivelmente, parti-las ao longo dos próximos dias.
Ida e volta. Corte.
Ida e volta. Corte.
Três dias disso, e estou progredindo. Consigo ver linhas finas se formando nas vigas, discretas o bastante para que todos passem direto, confundindo-as com o desgaste natural da madeira. E enquanto o sol sobe no céu do terceiro dia, aproximando-se do meio-dia, meu coração bate mais e mais forte no peito. Está quase pronto, quase fraco o bastante. Mas e se eu calculei errado, e a coisa toda cair cedo demais? E se eu mandar dezenas de invernianos ao chão, para as mortes deles? Não tenho tempo de responder a minhas preocupações. Não calculei errado. Não vou matar ninguém, a não ser soldados de Primavera, e os invernianos verão que revidar é possível.
Isso vai funcionar.
O meio-dia chega com o ranger do portão. Ele ecoa pelo pátio, um gemido agudo que faz a adrenalina irromper dentro de mim. Respiro fundo e reduzo a velocidade nas rampas, ficando para trás na fila de invernianos que se dirigem para baixo, para o descanso de água do meio-dia.
Suspiro, me demorando, observando o último inverniano se arrastar pela terra.
Agora.
Soldados de Primavera passam por mim em fila, pisoteando a rampa a caminho de seus postos. Eu conto quantos são, adicionando ao número dos que já estão acima de mim. Vinte e quatro.
Passo a faca pela última viga uma última vez, aprofundando o sulco que tenho feito durante os últimos três dias.
AGORA.
Com um esbarrão forte, meu ombro atinge a viga, partindo a frágil estrutura ao meio. Continuo andando, concentrada nas pessoas diante de mim, os invernianos que bebem água em conchas de barro. Não nas rampas, nas outras vigas do lado direito se quebrando, uma após a outra, até o alto.
Pop. Pop. Pop. Pop.
Tudo se segura por um momento, a inspiração antes do grito agoniante de terror.
Então, como se todos tivessem percebido o que está acontecendo ao mesmo tempo, todos os soldados de Primavera gritam, as tábuas se desintegram sob os pés deles em uma imensa rachadura de madeira destruída.
Os invernianos olham boquiabertos para a estrutura que desaba. Outros soldados de Primavera disparam para a frente como se pudessem ajudar, como se pudessem impedir. E eu me viro para observar a estrutura cair, observar tudo desabar, incapaz de me livrar do sorriso malicioso no rosto.
Espero que os sinta morrer, Angra, penso, soltando um grunhido pelo nariz. Espero que você sinta os corpos deles se partindo.
— Você!
Em meio ao caos da estrutura caindo, na nuvem de poeira que explode ao redor da madeira destruída, um soldado me olha. O rosto dele se contrai com ódio puro, uma das mãos aponta para mim.
— Você fez isso! — grita o homem.
Não sei como ele sabe. Talvez tenha me visto esbarrar na viga, talvez tenha me visto sorrir. Como quer que saiba, confirmo com um sorriso e ergo a maravilhosa faca. Não me importo mais. Mostrei aos invernianos que revidar ainda é possível. Não preciso olhar para trás para ver que emoção os envolve — assombro ou alívio ou medo. O que quer que seja, em algum momento vai se tornar esperança. Em algum momento dará início à nevasca deles.
E eu teria conseguido me entorpecer com esse pensamento, deixar que qualquer que fosse o destino recaísse como um dilúvio, não fosse pelo súbito grito que perfura o ar.
— Não a machuque!
O menininho. Aquele que foi repreendido por me oferecer água no primeiro dia, aquele que me observa todos os dias desde então, com os olhos azuis redondos pedindo desculpas, curiosos e determinados ao mesmo tempo. Todos os dias ele me olha, os dedos fechados com força sobre a concha de água. E todos os dias dá meio passo na minha direção, como se quisesse quebrar as regras, quisesse ajudar, mas sempre cede ao medo antes de ir mais longe.
Mas hoje ele afasta o medo, bate com a concha no chão, quebrando o barro. O menino corre pelo pátio na minha direção, disparando pelas dezenas de invernianos boquiabertos que encaram a confusão de madeira, poeira e rochas ainda se ajustando, os escombros misturados aos corpos de soldados de Primavera.
Toda a atenção é voltada para o menino, as perninhas dele disparam pelo chão, e ele grita conforme segue:
— Não a machuque! Quero que ela viva... não a machuque! PAREM DE NOS MACHUCAR!
A voz do menino me perfura, mais afiada do que a faca em minha mão, mais mortal do que a estrutura que acaba de desabar. Seguro o peito, cravo os dedos no espaço acima do coração.
Ele vai ser morto. Por minha causa.
O soldado se vira quando o menino para subitamente diante dele. O rosto redondo do menino está vermelho de ódio, as mãos dele estão fechadas em pequenos punhos, os olhos estão acesos de fúria. O menino rosna para o soldado, como se fosse somente o necessário para impedir um ataque, e fica de pé ali, mantendo a posição.
O soldado pisca, surpreso, antes de reagir. Vejo que tudo acontece em um lampejo de terror e grito, uma única palavra rompe minha confiança, minha satisfação de matar tantos dos homens de Angra de uma vez, rompe qualquer alegria que tive ao pensar naquele plano.
— PARE!
Mas nada para. Não o soldado, não os homens atrás dele, cambaleando para separar os destroços, arrastando para fora alguns dos colegas ainda vivos. Não a compreensão que toma conta de mim, me mostra o que acabei de fazer, o que está acontecendo ao meu redor.
Eu poderia ter matado meu povo. E agora o menino vai sofrer por isso.
— Escória inverniana — sibila o soldado, e puxa um chicote do gancho no cinto, então o estica com um único estalo que faz o menino desabar de joelhos, abrindo a carne sobre os pequenos ossos dele.
— Pare! — grito de novo, e avanço para a frente, mas mãos frias me puxam para trás e a pequena faca dispara de minha mão, caindo na poeira. Eu me debato contra dois invernianos que me seguram, mas eles não cedem, as expressões exibem olhares determinados.
— Você está piorando — geme um deles, e me puxa para trás. Para longe do menino, que grita de novo, e o estalo do chicote é o único outro som que interrompe a dor dele.
— Não posso simplesmente ficar aqui — disparo de volta. — Não posso mais ficar sem fazer nada.
Não me arrependo de fazer as rampas desabarem. Não me arrependo de agir. Mas sempre me arrependerei de permitir que qualquer inverniano sinta dor quando eu poderia tê-lo ajudado, quando poderia tê-lo salvo.
Lágrimas brotam em meus olhos, embaçando tudo. Os homens me soltam quando os empurro e disparo para o menino. As costas dele são uma confusão de sangue agora, linhas espessas marrons escorrem por um borrão de vermelho escarlate. Fico de joelhos diante dele, aninhando a cabecinha branca do menino enquanto ele se abraça, formando uma bola, na terra. Seguro o menino como deveria ter segurado o homem, com a rocha negra e pesada puxando-o para fora da plataforma, rolando pelo ar como um ímã que é arrastado para o polo oposto. Indefeso e sozinho, caindo e caindo, deixado para morrer enquanto uma batalha se desenvolve ao redor dele, enquanto sou atirada pelos ares por um canhão e Mather é arrastado até Bithai...
O chicote estala, mas eu o seguro dessa vez, o couro envolve meu braço e segura firme. Agarro a parte mais espessa e puxo, tirando-o da mão do soldado com um solavanco de rasgar a pele. Os olhos do soldado se arregalam antes que ele grite por ajuda de homens que estão próximos, de outros soldados que não conseguem se decidir entre salvar os colegas e o pânico crescente que envolve o menino e eu.
Eu me viro para o menino, o chicote ainda está em meu antebraço.
— Você vai ficar bem — começo a dizer, mas vejo as costas dele. Sangue escorre pelas laterais do menino, saindo da carne aberta, as costelas dele aparecem como ilhas brancas em um mar vermelho-sangue. Ele não se move, não chora, não faz nada, a não ser se aninhar na terra.
Minhas mãos voltam para a cabeça do menino.
— Desculpe-me — sussurro, com a testa contra os cabelos sujos dele. O menino estremece, como um lampejo de vida em minhas mãos. — Vou consertar isso, de alguma forma, vou salvar você.
Isso é tão errado. E não posso mudar, não pude impedir, eu piorei — eu fiz isso com ele.
Um calafrio transforma meus braços e pernas em gelo, faz meus pulmões congelarem tanto que tenho certeza de que meu hálito sai condensado. Tudo a meu respeito se transforma em um frio de neve, minhas mãos endurecem como uma gaiola ao redor da cabeça do menino. Tão maravilhosamente frio que cada fibra de meu corpo se revira como galhos cobertos de gelo em uma floresta. Será que estou me dissolvendo agora? Será que o horror disso me puxa para a morte?
Foi assim que me senti quando Sir morreu. Esse frio incontrolável, tudo em mim fica dormente.
Soldados irrompem pelo vórtice de neve de meu pânico, os dedos ásperos deles me seguram e me puxam para cima, arrancam o chicote de meu braço e me afastam do menino. Eu me debato contra as mãos deles, chuto os soldados, luto para voltar para a criança.
O menino me olha entre os dedos, os olhos azuis dele estão cheios de lágrimas e de...
Alívio.
Ele está aliviado. Fico boquiaberta, não sei se o que vejo é real ou se é alguma imagem distorcida que quero que seja real com todo o coração. Meus olhos vão além do rosto dele até as costas, as costas que deveriam estar ensanguentadas e dilaceradas, mas... não estão agora. A camisa rasgada do menino exibe uma pele clara e limpa que reluz ao sol quente, não há uma cicatriz ou um arranhão ou sequer um corte. Como se ele jamais tivesse sido açoitado.
Os soldados que me seguram também percebem. Todos sentem este momento ecoando pelos invernianos, como se eles estivessem cheios do mesmo alívio. O menino está curado.
Uma onda de frio percorre meu corpo e quero me deliciar nela para sempre, deixar que flocos gelados cubram meu corpo, me levem para longe, para algum lugar pacífico e seguro. Ninguém mais ao meu redor parece ciente do frio súbito que sinto, e imagino se estou alucinando.
Os soldados despertam do estupor antes de mim. As mãos deles se apertam em meus braços, os dedos escorregam no sangue que cobre minha pele, onde o chicote rasgou meu antebraço. Eles me arrastam para longe, em meio à multidão de invernianos, que encaram boquiabertos quando passo.
Ela derrubou as rampas. Ela curou o menino.
Um homem inverniano dá um passo adiante. Um dos muitos que me olhou com suspeita e ódio, que ecoou a desconfiança de Conall em mim. O rosto dele relaxa em um sorriso tão genuíno e puro que espero que toda a fundação de Abril se parta ao meio, e o homem ergue o braço para o ar, inclina a cabeça para trás e grita. O grito de alegria dele é a onda de choque que incita os demais, os gritos e os urros percorrem os invernianos como se a animação deles estivesse se acumulando desde que a primeira viga se partiu. Soldados de Primavera erguem o rosto dos corpos dos colegas mortos, das rampas caídas deles. Os prisioneiros jamais sentiram tanta alegria. Como a impedir?
Estou tão perdida na euforia que me cerca que não reparo que os guardas me arrastam de volta para Abril, até que o portão se fecha atrás de mim. Mas mesmo quando as pesadas barras de ferro descem no lugar, o frio em meu corpo não se dissipa.
A comemoração dos invernianos não termina.
Angra consegue ouvi-los, tenho certeza. Ele consegue sentir a mudança no ar, a alegria que se espalha como flocos flutuantes de neve pelo campo de trabalhos forçados de Abril. Meu sorriso retorna, se abre no rosto.
Em breve, Angra conhecerá a nevasca que começou comigo.

4 comentários:

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Boa leitura, E SEM SPOILER!