26 de janeiro de 2019

Capítulo 23

Meira

UM PIANO PERTURBA o silêncio; o pianista ali perto libera a melodia, notas constantes que tilintam como gotas de chuva batendo em uma janela.
Sei quem é sem precisar vê-lo, algum elo profundo ficando ainda mais forte. Assim que o instinto dispara, sou tomada por familiaridade — encontrar uma chave com Ceridwen, apenas para ser distraída da descoberta por Theron.
Em Verão, ignorei como se fosse uma coincidência o fato de Theron estar na adega. Ele foi atrás de mim — provavelmente perguntou a um criado, que o indicou o caminho.
Mas para Theron estar aqui, de novo, logo depois de termos encontrado a chave... Será que me seguiu? Por que teria me seguido sem se revelar mais cedo, para se envolver na busca?
Meu corpo estremece de novo com inquietude. Não... Não vou desconfiar tanto dele. Theron ainda é meu amigo, ainda é ele, e não faria nada assim.
Mas já fez, sussurram meus instintos. Duas vezes agora — em Inverno, quando contou a Noam sobre o abismo, e aqui, quando deu as mercadorias das Klaryn para Giselle.
Fecho os dedos sobre a tapeçaria. Essa chave também é um condutor? Provavelmente — minhas reações tanto à barreira no abismo de magia quanto à primeira chave pairam, ainda frescas, em minha mente. Mas só tive visões quando toquei a chave e Theron — então, se não tocar a chave, devo ficar em segurança.
Abro um dos bolsos do vestido e deslizo a chave para dentro usando o tecido. O ferro bate na minha coxa, mas o tecido do vestido evita que toque minha pele.
— Guarde isso — digo a Ceridwen, e empurro o tecido para ela. — Por favor.
Ceridwen hesita, semicerra os olhos.
— Apenas se explicar o que está acontecendo. Tudo — exige ela.
Paro. Ceridwen espera.
— Vou contar — cedo, e nem mesmo eu sei se estou mentindo. — Em breve. Prometo.
Ceridwen considera, um segundo, dois. Por fim ela revira os olhos, pega o tecido e fecha o compartimento oculto.
— Tudo bem. Lide com seu príncipe do reino Ritmo.
Fico assustada ao ver que Ceridwen sabe quem é o pianista, mas ela não diz mais nada. A princesa deixa os livros espalhados ao sair da estante com Lekan, seguindo de volta para a porta principal.
Distraidamente, seguro o medalhão no pescoço, o condutor vazio me dá um tipo de alívio. O que é completamente absurdo — estou abarrotada com magia, mas um pequeno pedaço de metal inútil me conforta?
Deixo o corredor, permitindo que a música me atraia entre as prateleiras. Uma última volta, e uma pequena abertura revela algumas poltronas com um piano junto à parede. Theron se curva sobre ele, pressionando as teclas com os dedos para fazer com que a música se eleve abruptamente, se interrompa e mergulhe novamente. Cada nota... dói. Devagar e palpitando, preenchendo o ar vazio com melancolia, então, mesmo antes de Theron dizer alguma coisa, me sinto partida.
Ele não olha para cima enquanto toca, a cabeça mergulha de um lado para outro, os lábios estão contraídos com concentração. Mas sei que me vê entrar no aposento — os ombros se movem subitamente, uma nota se perde sob as mãos agitadas.
Theron para de tocar, a música termina com uma queda das notas.
— Fui até seu quarto para me certificar de que tinha voltado bem, mas Dendera disse que saiu. — Ele volta os olhos para mim tão rápido que quase deixo de ver. — Você tinha sumido. De novo.
— Precisava ficar sozinha um tempo. Não vou pedir desculpas por isso — digo, e apenas me encolho um pouco diante da rispidez da voz. — É você quem deveria pedir desculpas para mim. Não tinha o direito de dar a Giselle as mercadorias das montanhas Klaryn.
— Foi para isso que trouxemos aquelas mercadorias. — Theron se levanta do banco. — Tínhamos que dar a ela parte de nossas minas, é de um reino Ritmo. Jamais teria...
— Pare. — Meu peito lateja com frio, e dessa vez eu o recebo, abrindo o corpo para a forma como cada nervo se preenche com flocos de neve e estilhaços de gelo. Sei que minha voz reflete a sensação. — São as minas de Inverno. Não existe esse nossas.
Theron se adianta, me interrompendo. Com as mãos em meus ombros, me puxando para si; com os lábios nos meus, mas não é um beijo carinhoso, com amor — é um beijo bruto, desesperado, com os dedos rígidos, a boca determinada, o corpo é uma montanha imensa comigo presa ao cume, desesperadamente perdida nas nuvens e no vento e na luz.
— Ainda há um nós — diz ele, para mim. — Sempre haverá um nós.
Eu me desvencilho de Theron.
— Não — afirmo, com a voz áspera. — Sempre haverá uma separação.
Os braços de Theron ficam estendidos, abertos, diante do corpo, e ele está ofegante ao erguer as mãos para percorrer pelos cabelos.
— Precisa parar de fazer isso — rosna Theron.
— Fazer o quê? — Porque não faço ideia de que parte ele está falando. As mentiras? Preferir Inverno às metas dele?
Uma dessas coisas me recuso a continuar fazendo.
Theron resmunga para o teto.
— De me afastar. Como espera...
Ergo a mão.
— Espere... Está chateado por que não me abro com você?
Ele assente, e um ódio renovado se acumula à miríade de emoções que se revira em meu estômago.
— Eu não me abro para você? Tentei, Theron. Falei como me sinto em relação ao abismo de magia; contei como me sinto em relação a seu pai. Mas você afasta todas as coisas ruins e ignora tudo a não ser sua esperança. Não tem o direito de ficar com raiva de mim. Preciso me segurar porque ninguém mais é capaz de lidar com a verdade.
— Precisa se abrir com alguém — continua Theron. — Entendo por que não pode diante de seu povo, mas precisa de alguém. E achei... — As palavras dele se dissipam conforme a tensão se suaviza, abrindo espaço para o que virá a seguir. — Achei que você...
Algo muda nos olhos de Theron. Como se uma ideia surgisse, uma ideia chocante e terrível que o faz esticar o corpo, bruscamente ele diz:
— Mather. É ele, não é?
— Mather? — gaguejo. O nome dele é uma lufada de vento que dispara um calafrio por meu corpo.
— Esse tempo todo — grunhe Theron — eu sabia que você o amava, mas achei que tivesse superado...
— Eu amo... Quero dizer, amei ele um dia, mas...
— ... e achei que as coisas seriam melhores agora. Tudo está melhor agora! Temos o abismo de magia e seu reino está livre e podemos ser nós...
— Não posso mais fazer isso!
Paro. Theron para. Nós nos olhamos boquiabertos no silêncio agonizante.
Theron expira.
— Fazer o quê? — Mas Theron não me deixa responder. — É isso que estou tentando dizer a você... Não precisa se segurar. Estou aqui por você, e eu...
Ele fala tão rápido, apesar do conforto que as palavras tentam passar, os ombros estão curvados, e tudo a respeito de Theron diz que está falando apenas para me impedir de retrucar.
— Não, Theron — sussurro, e o maxilar dele se abre hesitante, as palavras se calam. — Não posso... estar com você. Não dessa forma. Acho que poderia um dia, se Noam precisar de nosso casamento; se for do interesse de Inverno. Mas não posso estar com você agora. Não quando estamos divididos por tanta coisa. — Pressiono os olhos com as palmas das mãos quando uma onda morna de lágrimas se acumula nas pálpebras. — Acho que sei há um tempo, mas você estava ferido, e não podia acrescentar mais isso. Já causei dor o suficiente. Mas agora só causei mais.
Abaixo as mãos, com a visão embaçada de forma que só enxergo a silhueta enevoada de um garoto diante de mim.
— Não sei como consertar você. Nem mesmo sei como me consertar. Pode achar que tudo está melhor, mas não está, Theron. Não posso concordar com o que você quer. Não quero que o abismo de magia seja aberto, e farei de tudo para mantê-lo fechado. Não estamos unidos nesta jornada. — Meu coração parece estar na garganta, me sufocando, mas não é uma dor de arrependimento, é o engasgar de palavras que precisavam ser ditas há muito tempo. — Sinto muito. Não deveria ter mentido para você, mas não queria...
Esfrego os olhos com os dedos até que ele entre em foco, e quando Theron surge, parte de mim se encolhe. Ele me observa, com mágoa no rosto, distante e ríspido, e a combinação parece cravar as unhas em meu estômago.
— Não queria ferir você — concluo.
— É o único motivo pelo qual me amaria? — dispara Theron. — Se meu pai ordenasse?
— Foi isso que entendeu de tudo que falei? — digo, em tom agudo, mas assim que falo a expressão de Theron se desfaz. A coisa errada a dizer, e ele se inclina para a frente, encolhido.
— Achei que estivesse me usando. Achei que você de todas as pessoas entendesse como é ser tão violentamente usado que fica apenas se perguntando se restou algum pedaço seu. Mas é exatamente como meu pai. — Ele arqueja. — É exatamente como...
— Não sou nada como Noam — disparo. — Porque sinto muito, Theron. Sinto muito por ter mentido para você. Por tudo, mas não sei de mais nada, e tudo o que faço é minha reação instintiva ao que acho que manterá Inverno a salvo. Seu pai algum dia pediu desculpas pelas coisas que fez? Não. Então não ouse me comparar a ele. Não sou Noam.
Pouco a pouco, o ódio de Theron se desfaz, revelando o menino por baixo. As sombras trêmulas que todos abrigamos dentro das frágeis cascas, temendo que alguém um dia veja.
Depois de outro longo segundo em que nenhum de nós soube o que fazer ou dizer para melhorar as coisas, Theron recua um passo.
— O tratado — sussurra ele. — Se Giselle concordar em assinar, você assinará? É o melhor para seu reino.
— Sim — respondo, antes que Theron possa continuar. O tratado não importa, sinceramente, se isso o tranquilizar, assino. Mas aguardo, espero que pergunte como procederei sobre a questão seguinte, a maior, a meta que o faz tocar o bolso distraidamente.
Theron ainda tem a chave que encontrei em Verão. Ele ainda não sabe que encontrei outra aqui.
Luto para evitar tocar o bolso, mas posso sentir o peso da chave na coxa. O que acontecerá quando procurar sozinho e não a encontrar? Será que ainda seguiremos para Ventralli?
— Podemos ao menos concordar em compartilhar a informação que encontrarmos? — acrescenta Theron, com a voz baixa.
— Informação?
Ele inclina a cabeça.
— Informação com relação às buscas que podem ter trazido você a esta biblioteca.
Engulo em seco. Ele jamais usou esse tom comigo, um timbre vazio, formal, que planta expectativas claras entre duas pessoas, política e propriedade, nada mais.
Meu corpo murmura com a magia que ainda rodopia dentro dele. Não é alimentada por ódio agora — é nutrida pelo luto, brilhante e quente e esperado, como se agora que admiti abertamente o que Theron e eu somos, meu corpo se liberte em resignação.
Chega de mentir. Ele sabe o que posso querer com relação à magia; sei o que ele quer.
Então não conto a Theron que tenho a chave. Pelo menos não diretamente.
— Deveríamos prosseguir para Ventralli — consigo falar. — Assim que o tratado for assinado.
As sobrancelhas de Theron se erguem, compreensão se estampa com rugas de espanto sobre o rosto dele. Quando não explico, Theron dá um riso debochado, incrédulo, e passa a mão pelo cabelo, parando, com os olhos no chão, os ombros rígidos.
— Verá — começa a ele — quando o abismo for aberto que tudo o que fiz foi para manter você segura.
Não achei que fosse possível me sentir mais magoada do que sinto, mas uma dor me percorre, latejando onde meu coração deveria estar.
— Eu não preciso estar segura. Preciso que Inverno esteja seguro.
Theron abaixa a mão e me olha.
— Você é mais do que aquele reino.
Está tentando com tanto afinco ser carinhoso, ser o Theron por quem me apaixonei em Bithai. Mas o carinho não é mais tudo o que quero. Eu quero... Inverno. Quero alguém que pense em proteger Inverno primeiro e eu em segundo lugar. Não o contrário.
— Não — digo. — Não sou mesmo.
Theron me olha boquiaberto, mas contém o choque com um aceno curto de cabeça. Ele se vira e sai na direção da porta sem dizer mais uma palavra.
Observo Theron ir embora, esperando que meu luto dispare tão alto que me paralise, esperando me despedaçar e desabar. E em um ponto da vida, acho que teria desabado. Mas por saber o que Theron quer com o abismo de magia, estou mais resoluta do que jamais estive.
Há muito pouco que eu escolheria em vez de manter Inverno seguro.
E Theron não é uma dessas coisas.
Levo a mão ao bolso quando a porta se fecha atrás dele. Meus dedos se fecham em torno da chave, um toque determinado, firme. Tenho uma das chaves. Tenho uma forma de...
O metal antigo roça na minha pele, e, assim que a toco, sei que estava errada.
Qualquer que seja a magia dessas chaves, não é simples; não a desvendei.
Torpor dispara por meu braço, se espalha em meu peito, me faz desabar no chão. Não posso fazer mais do que cambalear conforme caio, irritada demais comigo mesma por ter tocado a chave para sentir medo.
— Minha rainha! — O rosto de Henn surge em meu campo visual. Os lábios dele se movem, dizendo algo para mim, mas a magia é ágil, uma torrente enlouquecedora de um nada fervilhante que faz desabar uma sombra sobre meus olhos.

Um comentário:

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Boa leitura, E SEM SPOILER!