21 de janeiro de 2019

Capítulo 23

TRABALHAMOS ATÉ A noite cair.
Conforme o sol cai sobre as muralhas de Abril, um sino toca, chamando os invernianos rampa abaixo. Deixamos os coldres em uma pilha e as rochas não utilizadas para o trabalho do dia seguinte. A parede está um pouco mais alta agora, mas me sentir realizada pela construção desse prédio é tão provável quanto me sentir em dívida pelo ensopado ralo que recebemos após retornar ao campo de trabalhos.
Entorno o ensopado com uma caneca de água e saio correndo antes que alguém possa me punir por me alimentar agora também. Quando foi minha última refeição? O café da manhã em Bithai antes da batalha? Quando quer que tenha sido, faz muito tempo, e meu estômago não está satisfeito com a abundância de nutrientes.
— Você ainda está aqui! — grita Nessa, quando um soldado me empurra para dentro da jaula. Ela se inclina para a frente de onde está sentada, entre Conall e Garrigan, os irmãos dela estão ocupados demais com as próprias tigelas para se importarem se eu sobrevivi ao dia.
— Conseguiu comida? Precisa de mais? — Nessa ergue a tigela de ensopado pela metade para mim.
Um rompante de gargalhada fica preso em minha garganta. Ela está sacrificando a comida por mim, quando eu provavelmente comi mais em Bithai do que Nessa comeu a vida inteira.
Deslizo até o chão, minhas costas são arranhadas pela parede.
— Fique com ela. Estou bem.
O rosto de Conall lampeja com uma breve exibição de surpresa. Ele esperava que eu tomasse a comida dela, alguém que está muito pior do que eu jamais estive? Encaro Conall de volta. Será que pareci egoísta ou ele apenas supôs que eu seria assim?
Eu me mexo na terra, meu estômago se revira ainda mais desconfortavelmente perto do ensopado. Provavelmente pareci egoísta. É isso que fui o tempo inteiro, não é? Não queria ser um peão em um casamento, mesmo que Inverno precisasse do aliado. Queria sair em missões, mesmo que alguém mais forte, mais rápido e mais habilidoso do que eu pudesse ter executado melhor a tarefa.
Antes que eu consiga responder a qualquer pergunta que Nessa acaba de fazer, minhas pálpebras se fecham, puxadas pelo peso de todas as rochas que arrastei rampa acima hoje. Em algum lugar distante, Nessa sussurra para os irmãos e outros invernianos murmuram conversas cautelosas mascaradas pela noite.
Ela está aqui, outra refugiada. E sobreviveu ao primeiro dia.
Sobrevivi ao dia. Outros não sobreviveram.


Dias se passam. Dias subindo e descendo as rampas, comendo ensopado às pressas, caindo no sono enquanto Nessa e os irmãos me observam, cautelosos, do outro lado da jaula. Em algumas noites, Nessa fala comigo, faz perguntas sobre minha vida. Conto a ela o que consigo, até que o olhar irritado de Conall se torne fisicamente doloroso; então paro, me enrosco em um canto e tento dormir. Tento, porque as vozes deles sempre me mantêm acordada.
— Você não deveria se apegar — diz Conall tantas vezes que as palavras ficam marcadas em minha mente.
— Não me importo. Você deveria ver se ainda é capaz de se apegar a alguém — dispara Nessa de volta.
Não tenho certeza de com quem concordo. Com Conall, sobre ninguém dever se apegar a mim, pois quem sabe quanto tempo viverei; ou com Nessa, sobre isso não importar. A repetição do trabalho e da tristeza torna impossível fazer mais do que considerar fragilmente essas ideias.
Até minha nona noite aqui.
Um nó de terror se instaura em minha garganta, com gosto de sangue. Acordo sobressaltada de um pesadelo sombrio como a morte, o qual persegue cada gota de sono de meu corpo. Há algo aqui, conosco, nessa cela. Algo sombrio e terrível e...
Nessa se assusta de onde está agachada, diante de mim, poeira sobe das botas dela.
— Você está sonhando!
Recuo às pressas, chocando o corpo contra a parede da jaula. Nessa se vira de joelhos, enquanto os irmãos dela permanecem para trás, me olhando como se eu tivesse entoado um cântico durante o sono.
— Somos Inverno — afirma Conall.
Franzo a testa.
— O quê?
Ele sorri. É um sorriso fraco, arrasado por uma vida de tortura.
Nessa fica de pé, me oferece a mão. Eu aceito, com medo de colocar peso demais nos ossos frágeis dela.
Conall e Garrigan se movem para o fundo de nossa jaula, a parte coberta pelas sombras mais escuras da noite. O campo está silencioso devido à exaustão de um dia de trabalho, o soldado mais próximo é aquele que caminha ao longo de uma cerca de arame farpado.
Eu me movo para a porta da jaula, meus dedos envolvem as barras de ferro. A tranca que nos prende do lado de dentro é tão grande quanto a palma de minha mão, espessa e antiga, e toco a parte de trás de minha trança distraidamente. Não tenho nada para abrir a fechadura ali. Será que eu a abriria, no entanto, se pudesse? Não fiz nada para escapar nos dias em que estive aqui. Não consigo decidir se vale o risco — para mim e para todos ao meu redor.
Está tão silencioso agora, tão calmo que quase consigo esquecer todo o resto.
Nenhum chicote ou grito de dor ou rosto vazio contraído devido à morte iminente.
Apenas céu negro e estrelas e...
Algo range atrás de mim e me viro.
Uma porta.
Garrigan a puxa para cima, do chão, poeira e rochas caem das velhas tábuas de madeira. Abaixo, descendo para dentro da terra, um túnel oco cai na escuridão.
— O que é isso? — sussurro.
Nessa me olha por cima do ombro.
— Eles querem conhecer você.
Conall entra no buraco primeiro e mergulha para a escuridão. Um estampido me diz que ele não caiu muito longe e, efetivamente, duas mãos sobem de volta para Nessa. Ela se joga para a frente e some na escuridão, e apenas Garrigan permanece comigo.
— Aonde leva?
Ele indica o buraco e oferece um fraco gesto de ombros.
— Você vai ficar bem — promete ele. Nos olhos de Garrigan há uma mistura perfeita da esperança de Nessa e da rigidez de Conall. Garrigan é a cola que evita que eles se despedacem.
Escorrego pelo chão. Minhas botas empurram terra para o túnel, uma escuridão tão completa que só consigo sentir Conall me encarando, não consigo encontrar os olhos ou a silhueta dele.
Duas mãos me alcançam.
— Venha.
Exalo e caio para a frente, deixando que as grandes mãos dele me segurem e me coloquem no chão de terra. A porta bate, fechando-se acima de nós, e ouço Garrigan alisar a terra sobre ela, o roçar baixo de pedrinhas sobre a madeira é o único barulho.
Dedos encontram os meus, mas não são os de Conall. Essa mão é delicada, fria, como uma boneca de porcelana que ganhou vida. Nessa me leva para a lateral do túnel e pressiona minha mão contra a rocha, projeções irregulares de terra e pedras espessas despontam em calombos esquisitos. Será que eu deveria...
Paro. Há algo na parede, sulcos irregulares que preenchem quase todos os espaços lisos.
— O que é isto? — Coloco as duas mãos na rocha e sigo os entalhes. Estão por toda parte, revirando-se para baixo e para cima, subindo pelo teto baixo e disparando pelo chão.
Nessa mexe em algo ao meu lado e um ruído rápido, de arranhões, dá vida a uma faísca. Ela ergue a vela, o rosto pálido brilha amarelo à luz.
Conall nos observa do perímetro da luz da vela, o olhar de reprovação dele é pesado.
— Não temos tempo.
— Shh — diz Nessa ao irmão. — Ela precisa ver. E é bom que nós também vejamos.
Isso o deixa calado e os olhos de Conall se movem para as paredes ao nosso redor, a expressão relaxa levemente. Exalo, meus músculos tensos se suavizam.
— São lembranças — continua Nessa, com os olhos no teto. — Lembranças de Inverno.
Milhares de palavras se enroscam por aquele estreito corredor, enchendo as pedras com frases irregulares, estendendo-se até uma porta no final.
Um parágrafo foi gravado na pedra negra, as palavras estão gastas pelo tempo.

O nome de minha filha era Jemmia. Ela queria ir a Yakim para estudar na Universidade Lord Aldred. Tinha 19 anos.

Outro está entalhado na própria rocha.

No primeiro dia do verdadeiro inverno, todo inverniano se reunia para um festival no mercado da cidade dele. Comíamos morangos congelados e gelo com sabor de vinho para comemorar o nascimento do inverno pelo mundo todo.

Mais e mais:

Havena Green trabalhava na mina Tadil, nas montanhas Klaryn.

Meu pai morreu soldado, lutando na linha de frente, quando Primavera atacou. O nome dele era Trevor Longsfield e a esposa era Georgina Longsfield.

Todos os invernianos são aninhados em caldeirões de neve no quinto dia após o nascimento deles. Jamais vi um bebê inverniano chorar durante esse ritual — na verdade, eles parecem gostar.

Cerimônias de casamento invernianas são feitas durante a primeira neve da manhã. A noiva e o noivo bebem de um cálice de água, e a água que resta é congelada em um círculo perfeito para representar união. O círculo é enterrado sob o local da cerimônia.

Uma duquesa de Ventralli visitou certa vez e reclamou que o ar frígido de Jannuari tornou nosso reino insuportável. O mordomo dela prontamente respondeu: “Minha senhora, Primavera está tentando mudar o frio de Inverno há séculos. Duvido que consiga fazê-lo mais rápido do que eles.”

Meus olhos se enchem com as palavras entalhadas na parede, palavras curvas ao redor de rochas impenetráveis e desbotadas pelo tempo. Todas elas são absorvidas por mim, espiralando pela luz de velas tremeluzente. Ouvi algumas dessas tradições antes, nas aulas de Sir — frutas congeladas e a celebração do primeiro dia do verdadeiro inverno. Mas o restante, bebês em caldeirões de neve, cada história individual...
Queria ter sabido disso. Queria ter levado essas palavras comigo em todos os momentos da vida.
— Quando Angra atacou, ele queimou tudo, arquivos e histórias e livros. Então decidimos gravar nossa história nos túneis. — Nessa segura a vela na palma da mão, a luz projeta um brilho etéreo ao redor do corpo dela.
— Túneis? — Olho para ela, minha testa se franze.
— Quando fizeram o campo de trabalhos forçados de Abril — diz Nessa —, o fizeram sobre um gueto existente no centro da cidade. Os invernianos que o construíram, no entanto – soldados primaverianos apenas supervisionaram. Muitos dos prédios originais tinham porões, adegas que foram deixadas intactas. Elas se tornaram túneis para nós, um mundo secreto sobre o qual os soldados de Primavera não sabiam. Todos os túneis davam...
— Para fora?
Assim que pergunto, ouço meu erro. Se os túneis dessem para fora, ninguém estaria ali. Afasto o olhar de Nessa e Conall antes que qualquer um possa responder.
Nessa passa para meu lado, os dedos dela vão até um entalhe no qual traça a primeira letra.
— Esses túneis oferecem um tipo próprio de fuga. Conall e Garrigan me ensinaram a ler com esses entalhes. É importante lembrar deles — diz Nessa para mim e Conall, que parece um pouco menos irritado. — Só para o caso.
— Só para o caso de quê? — pergunto, mas já sei.
Quando Nessa fala de novo, a voz dela é triste.
— Para o caso de ninguém que se lembra sobreviver.
Eu me viro para que Nessa não veja as lágrimas que enchem meus olhos. Porque quando um garoto de 16 anos se tornar rei de Inverno, e não houver registros que mostrem a ele a história de Inverno, precisaremos depender das memórias desbotadas de nosso povo para nos mostrar o que fazer.
Esses parecem problemas triviais, no entanto. Problemas que seríamos gratos por ter, questões normais sobre a competência de governantes e a sucessão de tradições.
Não são como a questão de se nosso povo sequer sobreviverá para ter tradições. Passo a mão por uma frase, desejando saber que pessoa a escreveu, e que eu pudesse memorizar essas palavras para poder contar a Mather. Será que ele e eu fomos colocados em caldeirões de neve quando tínhamos cinco dias?
Um último entalhe me chama a atenção, as letras estão cobertas de poeira.

Um dia, seremos mais do que palavras no escuro.

É difícil caminhar sob tudo isso, mas Nessa pega minha mão e me puxa para a frente. Obviamente, esse não é nosso destino. Como algo pode ser mais importante do que isso? Quero ficar ali embaixo, memorizar cada palavra até que não consiga pensar ou sentir ou respirar qualquer outra coisa...
Mas chegamos à porta, que consiste em alguns pedaços frágeis de madeira velha pregadas, e Conall abre, me mostrando algo que é infinitamente mais importante do que palavras no escuro.
Pessoas na luz.
Nessa sopra a vela e semicerro os olhos devido à iluminação repentina, ergo uma das mãos para proteger a vista. Nessa me puxa para dentro e Conall empurra a porta na direção do túnel, nos fechando do lado de dentro de uma grande sala circular escavada na terra, rochas despontam das paredes, do chão e do teto, grandes ou inconvenientes demais para serem movidas durante a construção. Velas estão amontoadas em cera há muito derretida, montanhas de um branco leitoso que tremeluz com pontas laranja.
Estão por toda parte, preenchem cada reentrância, dão à sala um brilho delicado. Mais portas levam para fora, por todas as paredes, como se a sala fosse o centro de uma roda e os túneis fossem os raios. Daquelas portas, entrando e enchendo a sala cavernosa, vêm mais invernianos.
— Ai! — Nessa puxa minha mão. Meus dedos se enterraram no braço frágil dela em busca de apoio.
— Desculpe. — Eu me afasto. — O que é este lugar?
— Nós escavamos esta sala para nos conectarmos a todos os porões e as adegas restantes — responde Conall, em vez da irmã, com a voz grave estoica. — Estamos no meio de Abril, longe demais para fazer um túnel e sair da própria cidade, então esta pareceu a melhor alternativa. Precisávamos nos manter ocupados durante 16 anos de aprisionamento, de alguma forma.
Engulo em seco.
— Por que estamos aqui?
Conall me lança um olhar curto.
— Você sobreviveu aos primeiros dias; eles querem conhecê-la. Por mais que seja estúpido ter tantas pessoas aqui embaixo de uma vez. — Conall para enquanto reavalia minha pergunta. — Mas a melhor pergunta é, por que você está aqui?
Eu o encaro, com os olhos ríspidos, e digo a única coisa que posso.
— Eu deveria estar aqui desde o início.
Conall recua, erguendo as sobrancelhas.
— Essa é ela?
A voz ecoa pela sala, silenciando os murmúrios ao nosso redor. Todos os olhos estão sobre mim, e imagino há quanto tempo estão encarando. Provavelmente desde que chegaram. Sem soldados dos quais se esconder, nenhuma punição a temer, estão livres para encarar boquiabertos e imaginar e esperar, contanto que estejam confinados a esse refúgio que construíram.
A dona da voz abre caminho em meio à multidão. É uma mulher, o corpo idoso curvado sob 16 anos de trabalho árduo. Mas assim que os olhos azul-claros dela se fixam nos meus, a mulher endireita o corpo, afastando qualquer exaustão.
— Você — sussurra ela. Os dedos retorcidos da mulher se estendem quando ela me toca, então coloca uma das mãos de cada lado de meu rosto. A mulher me encara, vê além de mim, algo profundamente atrás de meus olhos que relaxa o rosto dela com satisfação. — Sim — diz ela. — Você é Meira.
Eu me desvencilho das mãos dela.
— Como sabe disso?
A mulher sorri.
— Conheço todos que escaparam de Angra naquela noite. Os últimos que vieram para cá nos contaram sobre todos vocês.
Crystalla e Gregg. Recuo como se pudesse fugir da dor da memória. O rosto da mulher é sereno, calmo. Ela ainda espera ser resgatada também.
Os invernianos ao redor dela não têm tanta certeza. A maioria tem a aparência de Conall, sombrio e revoltado, curioso a respeito da nova visitante, mas sem querer gastar energia com esperanças de fugir.
A mulher avança.
— Havia originalmente 25 de vocês, não? Da última vez que tivemos notícias, o número era dez.
Ela espera, e sei que quer notícias do mundo exterior, dos sobreviventes e de quantos restaram para liderar o ataque contra Primavera. Oito, quase digo. Mas, não, são sete agora. E quem sabe quantos outros morreram na batalha por Bithai? Dendera, talvez. Finn. Greer ou Henn. Talvez Primavera tenha alcançado a cidade e até mesmo Alysson esteja...
Meu queixo cai.
— Sete. Talvez menos.
Murmúrios baixos irrompem pela multidão. O número faz com que as pessoas franzam ainda mais a testa e posso sentir a censura se incendiar. Como nós os desapontamos.
A mulher ergue meu queixo, sorrindo, como se nada tivesse mudado.
— O rei?
Um rompante de agonia me atinge. Mather. Consegui não pensar muito nele desde que cheguei. O último grito dele, de despedida, ecoa pela minha mente, desesperado e petrificado, conforme era levado de volta para Bithai enquanto Herod estava sobre mim...
— Vivo — sussurro. — Em fuga pela vida, mas vivo.
A mulher assente. Ela me dá o braço e me vira para a multidão, de costas para Nessa e para um Conall resmungando.
— Sou Deborah — diz a mulher, me levando ao centro da sala. Estamos cercadas por invernianos de todos os lados, um mar de cabelos brancos, olhos azuis e cautela misturados com alguns rompantes de esperança. — Eu era a mestra da cidade de Jannuari. Dos invernianos que restam em Abril, sou a de maior hierarquia. — Deborah pausa, como se esperasse que eu respondesse.
Ajusto o braço, ainda entrelaçado ao dela, esticando os dedos no ar. Está quente ali embaixo, quente demais, e consigo sentir todos os olhos me observando. Então faço a única pergunta que posso fazer.
— O que espera que eu faça?
Digam-me como salvá-los. Não sei o que fazer.
Deborah fica em silêncio por um momento, o rosto dela distante como se estivesse formando um plano na mente. Ela desvia o olhar de mim, para a multidão, e aperta minha mão.
— Esta é Meira — anuncia Deborah. — É uma dos 25 que escaparam de Angra na noite em que Inverno caiu. Prova viva de que o mal dele não é tão absoluto quanto queria que acreditássemos.
Contenho um lamento. É exatamente o que Sir nos contou. Que nossas vidas importam simplesmente porque existimos — provas vivas, respirando, de que Inverno sobreviveu. Sir adoraria ver essa caverna que construíram e como criaram uma pequena liberdade na prisão de Angra. Ele encontraria uma forma de transformar o ódio em adoração e, ainda melhor, encontraria uma forma de tirá-los dali.
Sir deveria estar com eles. Ele ou Mather. Não eu.
— Ela veio até nós como um farol, como os demais que passaram por Abril...
Gregg e Crystalla provavelmente ficaram nesse mesmo lugar, provavelmente recostados à parede. E morreram. Ninguém aqui sabe mais do que o fato de que partiram, Angra os tirou do acampamento e eles jamais voltaram.
— ... uma luz para projetar esperança em nossa tristeza — continua Deborah. — A presença dela significa um despertar, um lembrete que tão desesperadamente precisamos de que somos mais do que os escravos de Angra!
A multidão murmura consigo mesma. Aqueles que me olham com esperança começam a sorrir, começam a assentir, mas o restante simplesmente ignora o discurso de Deborah como se já tivessem ouvido tudo antes. Como se as palavras dela fossem aquela sala, uma coisa vazia e esquecida. Só mais uma espada trêmula erguida contra a mente mais grandiosa de Primavera.
Deborah ergue minha mão ao ar, o rosto idoso dela parece dez anos mais jovem com a alegria. Posso sentir as palavras de Deborah vindo, fervilhando com esperança, a esperança de Nessa, todos aqueles rostos frágeis esperando pelo grito dela.
— Somos Inverno! — grita Deborah.
A mesma frase que Conall disse momentos antes. O significado leva os mais esperançosos a comemorar, um punhado de vozes contra o desdém desconfiado dos demais. Deborah deve vê-los, aqueles com expressões irritadas, que sussurram enquanto os conterrâneos comemoram. Ela deve conhecer os perigos de falsas esperanças a essa altura. É cruel que dê isso a eles; é cruel me dizer que terei qualquer destino que não a própria morte ali.
Puxo a mão e Deborah me encara.
— Não. — Minha resposta é imediata, impensada, impulsionada por algo que se acovarda no fundo de minha alma. — Não. Sou apenas... sou apenas uma garota. O que acha que eu posso fazer? Não é justo que deixe que eles...
Deborah ergue uma sobrancelha.
— Justo seria se nada disso tivesse acontecido desde o início. Justo teria sido viver uma existência despreocupada em Jannuari, com uma cama quente e uma família carinhosa. Nada é justo, Meira.
Dou um passo para trás. Tudo isso me lembra tanto de Sir que meu peito dói. Não quero essa vida tanto quanto deveria. Eu quero...
Mas nada vem. Nada da minha habitual certeza sobre o que quero, quem quero ser, e a única coisa que penso, sinto, sequer sei, é o seguinte: Não importa o que eu queroMeus desejos não importam aqui. Jamais importaram. Enquanto eu tirava vantagem impiedosa do fato de que jamais precisei lidar com crescer em escravidão, eles estavam aqui. Aqui.
Sou apenas eu agora, como Hannah disse. Sir deveria estar aqui, é verdade. Mather deveria estar aqui. Mas eles não estão. E já que sou apenas eu, devo a eles fazer tudo que posso para libertar nosso povo. Mesmo que eu morra aqui, morrerei com importância, é isso que eu sempre quis, não é? E importarei, mas não dentro dos meus parâmetros — importarei de formas além de minha compreensão dessa palavra, porque importarei da forma que meu reino mais precisar. Isso, acho, é uma marca mais verdadeira do pertencimento a algum lugar — estar disposta a fazer qualquer coisa, tudo, que precisa ser feito, independentemente do que quero.
Assim que esses pensamentos enchem minha mente, uma represa estoura e a necessidade me inunda, esfriando minhas bochechas, fazendo braços e pernas formigarem. Lutei por tanto tempo e tão intensamente para ser eu, para ser Meira em meio a tudo isso, para ajudar Inverno de minha própria forma única. Mas a questão não é o que eu quero, é o que Inverno precisa. Sempre foi sobre o que Inverno precisa.
Enquanto Deborah me encara, enquanto os invernianos comemoram em grupos silenciosos, baixinho, de novo, percebo que eles me tornam mais eu, mais presente do que jamais me senti na vida. Como se estivesse esperando todo o tempo para entender o quanto maior, melhor, mais revigorante, mais do que qualquer coisa que eu poderia ser sozinha.
Deborah coloca a mão em meu braço, dá um apertão carinhoso.
— Sua presença é prova de que há vida fora das paredes de Angra. — Ela sorri para a multidão. — Mesmo a nevasca mais forte começa com um único floco de neve.


Por fim, a conversa animada se dissipa em silêncio ansioso. Não podemos ficar lá embaixo por muito tempo — essa caverna foi feita para que poucas pessoas pudessem se encontrar de vez em quando, não para que todos estivessem ali ao mesmo tempo. O único motivo pelo qual arriscaram hoje sou eu. Esse pensamento faz com que pânico percorra meu corpo, e saio atrás de Nessa imediatamente.
Ela e Conall me levam de volta pelo túnel. Duas batidas em uma porta de madeira acima de nós e Garrigan abre, estendendo a mão para baixo para ajudar Nessa primeiro, então eu. Conall sobe sozinho, então fecha a porta, arrastando terra e pedras de volta sobre a porta antes de se acomodar perto das barras da entrada, com Garrigan do outro lado. Um olhar para eles, para o modo como verificam o caminho além de nossa prisão, me diz que os dois mantém guarda sobre nós. Não que pudessem fazer muito para nos proteger de soldados, mas é um pequeno conforto saber que estão aqui.
Nessa se senta ao meu lado e abraça os joelhos. Está apenas um pouco mais iluminado na cela do que no túnel, o céu ainda está naqueles momentos finais em que o sol paira por trás do horizonte, apenas esperando o momento de nascer entre as sombras e inundar o mundo com brilho.
Nessa me olha, os olhos dela brilham.
— Conall vai aceitar. Todo mundo também. Eles simplesmente não confiam em si mesmos para ter esperanças.
Mantenho os olhos fixos em Nessa, na escuridão.
— Por que você confia?
Ela afasta o olhar, remexendo no tecido. O vestido está grande demais, dois tamanhos acima do dela, uma prova manchada e gasta de seu tempo no campo de trabalhos forçados.
— Quando eu vi você no palácio — começa ela, as palavras são como um murmúrio contra o silêncio do campo. Todas as outras jaulas estão silenciosas, forçadas a uma mudez apavorada pela ameaça de monstros no escuro. — Senti você quando o soldado me chicoteou até que eu caísse. Nunca consegui enfrentar aquilo sem gritar, mas quando vi você nos observando... não sei. Tive a força de não gritar.
Abraço meu corpo e encaro minhas botas.
— Você é tão mais corajosa do que eu jamais conseguiria ser, vivendo aqui todos esses anos. Não acredito que eu tenha feito alguma coisa para ajudar.
Nessa se aproxima de mim, a cabeça dela se abaixa sobre meu ombro e ela boceja.
— Eu acredito. E em breve todos acreditarão também.
— E quanto a Gregg e Crystalla — sussurro —, você acreditava no mesmo a respeito deles? — Porque eles fracassaram. Mas algo me impede de acrescentar isso, algo que não quer lembrar Nessa do quanto estamos indefesos.
Ela dá de ombros.
— Eu queria.
Espero que Nessa explique, mas o ressonar baixo dela é tudo que ouço. É quase manhã. Quem sabe que horrores o dia de hoje trará? Preciso de cada gota de força que conseguir.
Quando me apoio contra a parede, com o cuidado de não perturbar Nessa, meus olhos seguem para Conall. Agachado ao lado das barras, ele me observa, olhos azul-escuros brilhando na noite. Conall olha para Nessa, então de volta para mim, algo na expressão dele se suaviza.
Mather tem os mesmo olhos. Os mesmos olhos indecifráveis e infinitos de safira.
Meu coração tem um espasmo, mas antes que eu consiga me afogar em lembranças do passado, tranco a porta dos pensamentos em Mather.
Assinto para Conall e prendo o fôlego. Depois de um segundo, dois, ele assente de volta.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!