26 de janeiro de 2019

Capítulo 22

Meira

NESSA E DENDERA ajudam Conall e Garrigan a se sentarem assim que voltamos para meu quarto. Conall está curvado, o mais imóvel possível, com o braço ferido torcido junto à barriga. Diante dele, Garrigan se inclina para a frente, com a cabeça nas mãos, em silêncio, parado.
Sinto um aperto no coração e me aproximo deles antes de recuar com um encolher de corpo, sem confiar em mim mesma.
— Como estão? — Consigo perguntar.
Dor percorre a expressão de Conall, mas ele suaviza as feições e assente para mim.
— Ficaremos bem, minha rainha.
Nessa coloca as mãos nos ombros do irmão.
— O que aconteceu?
— Perdi o controle. De novo — admito, com a voz dura.
Dendera corre até o aposento de banho anexo para buscar água para eles.
É Garrigan quem semicerra os olhos para mim com uma das mãos no cabelo.
— Isso acontece muito com os portadores de condutores?
— Não sei — digo. — Mas vou controlar.
Dendera retorna e pressiona um pano úmido na testa de Garrigan, limpando parte do suor que se acumulou. Ela entrega um pano a Nessa, que faz o mesmo com Conall, e sob os cuidados carinhosos das duas, Conall e Garrigan parecem relaxar um pouco.
— Vocês dois descansem — oriento-os, e sigo para a porta.
Dendera se volta para mim com a expressão subitamente séria.
— Não vai sair sozinha.
— A não ser que Henn esteja disponível.
— Ele está se familiarizando com a propriedade. Deve voltar em uma hora.
— Não tenho uma hora. — Theron já poderia estar procurando a chave. Encontrar a Ordem ou as duas chaves restantes antes dele são minhas últimas esperanças de ajudar Inverno sem a influência de Cordell. Yakim não respondeu. A possibilidade de formar uma aliança com Ventralli ainda existe, e tentarei com tudo que me resta, mas... Theron é meio ventralliano. Não importa o que disser, ficarão do lado dele.
Preciso encontrar a chave ou a Ordem. Agora.
— Ficarei bem... Prometo. Fiquei bem em Verão, e aquele reino era bem mais perigoso. — Bem, eu quase não fiquei bem em Verão, mas isso não vai ajudar na argumentação.
Minhas promessas não fazem nada para suavizar o olhar de Dendera.
— Leve Nessa, pelo menos.
Para que pergunte por que estou chateada? Para que descubra coisas que podem remeter ao passado dela?
— Não. — A resposta é lançada para fora de mim, desfazendo a animação da expressão de Nessa. Logo quando eu achava que não tinha como me odiar mais... — Quero dizer... Preciso que fique e cuide deles.
Nessa se curva para a cadeira de Conall, com a mão no antebraço dele. Não olha para mim, os lábios formam uma linha fina. Eu a magoei.
O que restou de meu coração se despedaça.
A reprovação permanente de Dendera mancha as palavras dela.
— Me diga aonde vai. Assim que Henn voltar, mandarei que vá atrás.
— As bibliotecas de Yakim. Aquelas no palácio, para começar.
Dendera assente, ouvindo minhas palavras como se fosse um pedido inofensivo, mas Nessa franze a testa para mim. As duas sabem sobre o abismo de magia, sobre a verdade de nossa viagem, a de encontrar uma forma de abri-lo. Sabem que é isso que estou fazendo — e fazendo isso sem Theron.
— Vou buscar alguém para mostrar o caminho — diz Dendera, e se levanta. — Não vou deixar que saia perambulando sem rumo. E aqui. — Dendera puxa uma pequena arma da bainha de Garrigan.
Ergo uma sobrancelha. Para alguém tão terminantemente contra o uso de armas, ela me deu muitas nas últimas semanas.
— Esconda no seu corpete — orienta Dendera. Os olhos dela se semicerram e acrescenta: — Não faça com que eu me arrependa de lhe dar uma de novo.
Pego a arma.
— Não farei — respondo, com mais sinceridade do que Dendera devia ter esperado, porque a tensão dela evapora e se torna algo como surpresa.
Dendera sai e volta momentos depois com um criado que me guia pelo Castelo Langlais.


— As bibliotecas no palácio abrigam os livros mais antigos e mais valiosos — explica o criado conforme nos apressamos pelas escadas. — A Universidade de Putnam abriga os volumes mais funcionais, destinados a estudo e uso. Mas, para os propósitos de um reino Estação, imagino que os livros aqui servirão.
Propósitos de um Estação? Eu só disse que queria ver as bibliotecas de Yakim. Franzo a testa para a nuca do homem, tentando entender o significado das palavras dele, e reviro os olhos quando percebo.
Não acha que estou interessada nos livros para estudo e uso. O que acredito ser uma forma arrogante yakimiana de me chamar de burra.
— Ah, claro — respondo. — Simplesmente adoro olhar livros. Às vezes até consigo entender uma palavra ou duas.
O criado volta o olhar rapidamente para mim, encarando meu olhar excessivamente sereno. Depois de bufar, ele olha para a frente e nossa jornada pelo palácio segue em silêncio.
Dois corredores depois, entramos em um salão gigantesco. Com três andares, prateleiras de livros se estendem por varandas que envolvem o salão, cobrindo o espaço iluminado e aconchegante de couro e pergaminho. Não há lareira ou chama de qualquer tipo no local, a luz vem de mais daquelas inabaláveis esferas. Poltronas de couro estão reunidas em círculos sobre tapetes vermelhos, em fileiras ao longo das varandas, como soldados montando guarda. Da ponta de cada prateleira pende uma placa ovalada de metal espelhado com número gravados, identificando os livros ali.
O criado para no centro de um círculo de poltronas e se vira para me olhar, com as mãos às costas.
— Esta é a biblioteca de Evangeline Segunda, que foi rainha de Yakim há 632 anos.
Seiscentos e trinta e dois anos?
Adrenalina me percorre. Talvez essas sejam as bibliotecas certas por onde começar, no fim das contas.
Será que Theron terá descoberto o mesmo?
O criado volta o olhar para mim. Ele volta a caminhar e percebo que esperava que eu respondesse de alguma forma — com exclamações e assombro adequados, ou alguma demonstração de reconhecimento, em vez de encarar distraída e silenciosamente.
— Se precisar de assistência, o bibliotecário residente virá — diz o criado, lentamente, como se estivesse dando instruções a uma criança. — Tente tratar este espaço com o respeito que merece.
E ele parte, disparando para além de mim. Rudeza parece ser uma característica yakimiana.
Começo a me dirigir para a primeira estante de livros e vejo que não sou a única ali, mas sou a única não yakimiana. Algumas pessoas me olham conforme passo, olhares breves de relance que se transformam em choque, o qual indiscretamente se metamorfoseia em curiosidade descarada. Como se eu não fosse um ser vivo, mas uma estátua, e estivessem tentando descobrir como fui esculpida.
Quatro estantes com números irritantemente inúteis depois, paro. O restante da estante está sem yakimianos por enquanto, e aproveito a solidão de não ser encarada com tanta curiosidade. Além de tudo, não tenho ideia do que estou buscando. De novo.
Esses livros todos têm títulos como Lei e justiça e Civilidades em aldeias comunitárias e Declarações do Oeste de Ardith. Nada sobre magia, ou mesmo sobre as montanhas Klaryn.
Encosto em uma prateleira, exaustão confunde meus pensamentos. Talvez se conseguir convencer Theron a me deixar ver a chave que encontrei em Verão... Talvez haja algo que deixei passar, uma pista para a seguinte. Mas isso significaria precisar tocar a chave de novo, e não quero arriscar ver... memórias.
— Encontrou mais poços ocultos?
Dou um salto, desencostando da prateleira. Ceridwen cruza os braços à entrada da estante, os lábios erguidos em um sorriso malicioso. Ao lado dela, posicionado de forma que consiga ver as estantes atrás de nós, está o escravo que seguiu Ceridwen para fora na festa do reino. Deve ser dela. Embora não possa imaginar que Ceridwen tivesse escravos voluntariamente, não com a opinião dela sobre as práticas de Verão. Talvez seja apenas amigo dela.
Trinco o maxilar. Se o homem é amigo dela, provavelmente é de confiança — mas mantenho o tom de voz baixo mesmo assim.
— Já disse. Não quero envolver você nisso... Não precisa se envolver nisso. Isso não é...
— Acabei de viajar para cá com você e Cordell — lembra Ceridwen. — Estou envolvida nisso. Ou qualquer que seja seu disfarce, então posso muito bem estar envolvida na verdade dele. E ajudei da última vez, não ajudei? Além do mais — Ceridwen ri de novo — gosto bastante que você esteja em dívida comigo.
Não consigo impedir minha boca de imediatamente se curvar para baixo. Mas a faísca nos olhos de Ceridwen tende mais para a camaradagem. Aceno para o amigo dela, que me olha com um interesse cauteloso.
— Presumo que seja de confiança?
O homem sorri, dentes brancos interrompendo o bronzeado da pele dele com o brilho, a marca do “V” se enruga sob o olho. Mas Ceridwen o apresenta antes que o homem consiga.
— Lekan. — Ceridwen dá um tapinha no peito dele. — Tem ajudado com os saques há mais tempo do que eu, além disso, o marido dele gerencia o acampamento para onde enviamos nossos escravos libertados. É de confiança.
Lekan faz uma reverência.
— Minha princesa confia em você, então eu também.
Um dos cantos de minha boca começa a se erguer, mas para quando percebo algo.
— Mas você é veraniano — afirmo. — Não é afetado pela magia de Simon?
Direciono a pergunta para Ceridwen também, porque em meio a todo o caos desde que a conheci, jamais pensei em perguntar como ela consegue pensar com clareza quando o irmão bombeia alegria alienante para todos os outros no reino deles. Minha pergunta faz o sorriso de Lekan sumir, mas Ceridwen gargalha.
— Levou todo esse tempo para me perguntar isso? — Ela emite um estalo com a língua. — Não é a chama mais inteligente da fogueira, não?
— Não me obrigue a bater em você dentro de uma biblioteca.
Ceridwen ri de novo.
— Anos de prática, aprendendo como distinguir nossos sentimentos daqueles induzidos por magia. Também ajuda que a magia de Verão seja, digamos, fraca, com o tanto que meus ancestrais a usaram para felicidade. Mas a maioria das pessoas está tão acostumada que não precisa mais de tanta ajuda para permanecer feliz.
Ela explica tudo isso sem mais pompa do que se tivesse acabado de dizer que faz calor em Verão. Lekan se move desconfortavelmente, a reação dele interrompe a aparente falta de preocupação de Ceridwen.
É difícil, o que fazem, resistir à magia do rei. Mais difícil do que Ceridwen deixa transparecer.
Verão certamente se beneficiaria da ausência de magia também, se o governante fosse obrigado a governar apenas pela força e pela vontade.
Um pigarro soa atrás de mim e olho de volta, levando a mão à adaga em meu corpete.
O criado que nos levou até Giselle, que guiou nossa carruagem por Putnam. Aqueles olhos pretos se fixam em mim de novo, aquele jeito estudioso do qual estou mais que cheia.
— Posso ajudá-la a encontrar algo, Vossa Alteza? — pergunta o criado, depois de um segundo. Ele passa os olhos por Ceridwen e Lekan, decide que não são nem de longe tão fascinantes quanto eu e se concentra de volta em mim.
Semicerro os olhos para o homem.
— Quem é você?
O homem se curva em uma reverência complexa.
— Rares, o bibliotecário residente. Você parece perdida, coração... Posso ajudar?
— Você é o bibliotecário residente.
— Sim.
— E o condutor da carruagem?
O sorriso de Rares nem mesmo hesita.
— Ofereci acompanhar você na visita à rainha... É um espécime e tanto aqui em Putnam. Uma adolescente que, sozinha, libertou o reino dela! Não pude resistir à oportunidade de vê-la com os próprios olhos.
— Fico feliz por ter fornecido entretenimento a você.
— E eu posso fornecer ajuda a você — diz Rares. — O que a traz à grande Biblioteca de Evangeline Segunda?
Ceridwen se inclina para frente ao ouvir isso, tão ansiosa para escutar, quando Lekan volta a parecer desinteressado, observando a biblioteca como um guarda.
Eu queria ajuda, não queria? E agora tenho de duas fontes. Nenhuma delas poderia fazer mal, a não ser que eu diga imediatamente que a entrada para o abismo de magia foi descoberta — ou que eles saibam sobre a Ordem dos Ilustres, o que é algo que terei que arriscar; nenhum deles vai se chocar com qualquer informação que descobrirmos sobre Angra ou a Ruína.
O que tenho a perder?
Eu me viro para Rares.
— Que informação tem sobre algo chamado Ordem dos Ilustres?
Ceridwen franze a testa.
— A o quê? Ilustres?
— É deles que preciso de ajuda. Só não faço ideia de onde procurar. — Paro, observando tanto Ceridwen quanto Rares em busca de alguma reação. Se algum dos dois souber o que é a Ordem, saberá o que estou procurando.
O rosto de Ceridwen não muda, os olhos dela se movem enquanto pensa. Mas Rares precisa de tempo para absorver minha pergunta — o sorriso dele se abre com uma curiosidade prazerosa e o homem segue até o fim da prateleira, indicando para que sigamos.
— Nada em Evangeline Segunda me vem à mente, mas esta biblioteca é bastante tediosa, e algo como a “Ordem dos Ilustres” parece bastante místico. A Biblioteca de Clarisse fica aqui no final, e pode ser mais adequada à pesquisa.
Nenhum dos dois sabe o que é a Ordem.
Corro atrás de Rares e inclino a cabeça quando ele olha de volta para mim.
— Que livros há nesta biblioteca?
— Livros de direito e decretos.
Reviro os olhos. O criado me levou para a biblioteca de leis? O que a meu respeito diz que quero passar o tempo folheando livros sobre regras?
Rares percebe a irritação em meu rosto e gargalha.
— Peço desculpas, coração. Não era o que esperava?
— Não. — Mantenho o ritmo ao lado dele quando nos abaixamos por outra estante de livros, virando na direção da parede dos fundos. — Você também não é o que eu esperava. É yakimiano?
— Não, coração. De fora de Yakim, na verdade.
— Ventralli? — pergunta Ceridwen, observando as feições dele com atenção. — Não parece ventralliano.
Rares assente com algo parecido com uma afirmação.
— Está familiarizada com os ventrallianos, sim? É estranho que eu esteja aqui, mas alguém precisa cuidar destes livros. Porque, sinceramente, isso é vergonhoso. Então estou consertando o que posso, fornecendo alimento a um reino que certamente idolatra estudar povos incomuns. — Ele pisca um olho para mim. — Não têm modos, os yakimianos. Creio que tenha adquirido uma diversidade de comportamentos inadequados deles. Ah, aqui estamos, a Biblioteca de Clarisse, lar de livros de história e registros.
Rares abre uma porta nos fundos da biblioteca de direito, revelando outro salão tão amplo quanto atrás dela. Com uma disposição idêntica também, com varandas e poltronas e esferas de luz, as mesmas placas marcando cada estante com números. Essa biblioteca é muito menos cheia; a única outra pessoa nela é um criado varrendo um tapete à esquerda.
Rares entra determinado, como se soubesse exatamente aonde vai, para apenas tirar um livro de uma prateleira e o colocar em meus braços.
— Um registro de censo, mas apenas de Yakim, e apenas da última primavera verdadeira. O restante está nesta estante e em volta. Listam pessoas, negócios, até mesmo um ou outro cavalo, se alguma coisa chamada “Ordem dos Ilustres” existe em Yakim, vai aparecer aqui. — Rares se volta para uma estante atrás dele. — E nesta estante começam os registros de censo de Ventralli, naquela, de Cordell. Tentaram fazer censos nos reinos Estação, mas sabe como é a relação deles com seu povo. Aqui estão alguns de Paisly, antigos, e em grande parte imprecisos. Aventurar-se por lá é um pesadelo, pelo que soube; montanhas ainda mais imponentes do que suas Klaryn.
Rares dispara até a estante seguinte, me puxando junto. Lanço um olhar inquisidor para Ceridwen, que contém uma gargalhada e gesticula com os ombros como se dissesse: Você perguntou.
— Agora, isso é bom: Análise das sociedades secretas, de Bisset. — Rares tira um livro de uma prateleira e o empilha em meus braços. — Vai gelar seu sangue! Embora imagine que o gelo não seja tão desconfortável para você quanto é para o restante de nós. Ah, agora este deve ajudar: Um estudo do desconhecido. Ah, e você precisa de Mundos esquecidos, Richelieu obviamente adorava o som da caneta dele riscando pergaminho, mas a cada dúzia de páginas fornece informações boas. Ah, e...
Quando Rares termina, Ceridwen, Lekan e eu todos estamos com pilhas de livros nos braços e mais recomendações à espera nas prateleiras. Olho, boquiaberta, para Rares, com os braços ameaçando cederem. Mas se deixar cair os livros, vou passar mais tempo juntando as páginas soltas do que lendo tudo isso.
Buscar informações sobre a Ordem dos Ilustres pode não ter sido uma de minhas melhores ideias. Esqueci muito rapidamente o sofrimento de tentar ler Magia de Primoria, mas meu cérebro logo se recorda, já está latejando de dor conforme olho para a capa de O reinado de Evangeline Primeira e culturas societárias à época.
Misericordiosa neve no céu.
Rares une as mãos.
— Quando terminar, coração, sinta-se livre para deixar os livros na mesa, o mais desordenadamente que puder. — Ele indica uma mesa atrás de mim, situada em um vão nas estantes de livros. — O bibliotecário residente encarregado da Biblioteca de Clarisse é um homem ofensivamente mal-humorado, e eu gostaria muito de dar trabalho desnecessário para ele. Avise se algum desses livros ajudar, ou se precisar de mais!
— Espere. — Ceridwen solta a carga dela sobre a mesa ao lado de Lekan e para, mordendo a parte interna da bochecha. — Ilustre parece uma palavra que ventrallianos usariam.
O eterno sorriso de Rares se abre ainda mais, como se ele pudesse ver aonde ela quer chegar, mas eu estou perdida.
— Por quê? — pergunto.
Ceridwen leva a mão logo abaixo da clavícula, com os olhos distantes, e não consigo deixar de pensar que ela olha para longe mais para evitar revelar algo do que para pensar.
— Por causa da origem, vem de lustrar, que é purificar por sacrifício. A cultura ventralliana é cheia de ações obscuras, de palavras sombrias para ações exuberantes. Significados artísticos e extravagantes. — Ela se volta para Rares. — Onde estão seus livros sobre Ventralli? E não os censos.
O nariz de Ceridwen se enruga e dou um sorriso. Pelo menos não sou a única que estremece ao pensar em ler tudo aquilo. Se Theron estivesse aqui, mergulharia sem hesitar.
Meu estômago se revira, mas fujo dos pensamentos sobre ele.
Livros sobre Ventralli podem ser um bom lugar para procurar, na verdade — a última pista na entrada do abismo era uma máscara, indicando a cultura ventralliana de usar máscaras elaboradas. Talvez Ceridwen esteja no caminho certo.
Rares leva o dedo ao lábio dando batidinhas.
— Bastante dedutivo de sua parte, princesa. Ainda a faremos yakimiana.
Os lábios de Ceridwen se contraem com a reclamação.
— Não me insulte.
Lekan resmunga e dá um tapinha no ombro dela. Ceridwen olha para ele e Lekan devolve o olhar sem hesitar, uma troca que faz pouco sentido para mim. Mas depois de um meio suspiro, Ceridwen cede.
— Desculpe — murmura ela, mas embora pareça que a desculpa devesse ser direcionada a Rares, é Lekan quem assente e a aceita.
Rares ignora essa interação e aponta para o canto esquerdo nos fundos da biblioteca.
— Último corredor, prateleiras com rótulos de 273 até 492. Sem dúvida notou os marcadores nas pontas das estantes? Lindos, não são? Muito úteis, vai perceber. Mais alguma coisa?
— Não se a vida for bondosa — murmuro, então percebo o quanto isso pareceu ingrato e estico o corpo. — Quero dizer, obrigada.
Rares pisca um olho para mim.
— Aproveite Yakim, Vossa Alteza.
Ele sai, voltando pela biblioteca na direção oposta que Ceridwen e Lekan tomam, na direção dos livros ventrallianos. Como minhas únicas opções são ficar e vasculhar as escolhas de Rares ou seguir os dois, solto os livros que seguro e disparo pelas prateleiras sem hesitar.
As esferas de luz se refletem nas placas espelhadas, os números dançam nas superfícies reflexivas até que Ceridwen pare diante de uma estante rotulada com uma placa oval que indica “273-492”.
— Ordem dos Ilustres, você disse? — pergunta ela, quando começa a verificar as lombadas dos livros.
— Sim...
Minha atenção se fixa na placa na ponta dessa estante.
Ela... mudou?
Dou um passo para mais perto dela, inclinando a cabeça. A luz da esfera mais próxima se reflete na placa e...
Surpresa, exclamo e subo na poltrona que monta guarda à estante, fornecendo um degrau fácil para que eu me aproxime da placa. Ceridwen se vira para mim enquanto Lekan dá de ombros e volta a observar os corredores vazios.
— O que foi? — pergunta ela, com a voz baixa na quietude da biblioteca.
Apoio as mãos na prateleira e inclino a cabeça para o lado. Normal, apenas a forma oval com os números gravados, nada importante. Mas conforme me inclino para o outro lado, a luz muda, uma figura luminosa se revela. Um raio de luz atingindo uma montanha.
O selo da Ordem dos Ilustres, escondido na superfície reflexiva do metal ovalado.
— Está aqui — digo, embora ainda não saiba o que seja. Algo está aqui, no entanto, nessa prateleira, ou em um livro guardado nela.
Minha pulsação acelera quando percorro a mão sobre a placa. Meus dedos deslizam pela borda e dou uma gargalhada inesperada.
A placa se moveu.
Faço de novo, a placa espelhada gira, uma manivela após a outra, sob meus dedos.
A atenção de Ceridwen retorna à prateleira e ela dá um salto para longe, surpresa.
— Pela chama e pelo calor! Continue fazendo isso, um compartimento está se abrindo atrás de uma dessas prateleiras.
Inclino o corpo para o lado, observando o chão da biblioteca ao lado da prateleira.
— Cuidado com...
Mas Ceridwen está bem à frente, testando o piso com os pés e se segurando nas prateleiras caso um poço surpresa se abra ali também. Ela dispara uma sobrancelha erguida na minha direção.
— Apenas continue girando.
Livros caem no chão conforme Ceridwen os puxa da prateleira. Continuo girando a placa, um dispositivo após o outro, até que ela trave com os números no sentido certo de novo. Com a saia esvoaçando ao redor do corpo, salto da poltrona e me aproximo da estante, com o cuidado de evitar a confusão de livros que Ceridwen retirou para abrir espaço.
A parte de trás de uma das prateleiras se abre, revelando um compartimento oculto.
Ceridwen, com um monte de livros junto ao peito, se vira para mim. O choque dela se transforma em interesse, e a princesa inclina a cabeça, os cachos oscilando.
— Está vendo? — diz Ceridwen, triunfante. — Precisa de mim, rainha de Inverno.
Minha surpresa evapora com um ínfimo formigamento de desconforto quando fecho os dedos na porta e abro mais, a madeira range devido à idade e algumas lufadas de poeira são sopradas em meu rosto. Tusso, mas abro mais a porta, permitindo que uma esfera de luz próxima brilhe no compartimento estreito. Meus dedos estão doidos para entrar, mas lembranças de meu último encontro com a chave dos Ilustres me faz hesitar. Esta também é um condutor?
No canto, ao fundo, está um pano amassado. Fecho a mão com cuidado em volta dele, esperando que o toque duro do metal me indique que é uma chave, mas a trama espessa do tecido envolve algo bojudo.
Puxo o tecido e o abro nas mãos, com o estômago revirado com duas emoções diferentes. Esperança de que seja a chave — e pesar de que seja a chave.
O tecido se abre e revela uma chave, idêntica àquela encontrada em Verão — de ferro, antiga, com o selo dos Ilustres na ponta.
Tão fácil.
De novo.
Um alerta murmura em minha garganta, a cautela instintiva de perigo se aproximando. Mas eu deveria me sentir aliviada. Estou muito perto de encontrar a Ordem, ou no mínimo de ter uma vantagem sobre Noam. Isso é bom. Não é ameaçador — é bom. Talvez a Ordem quisesse que as chaves fossem encontradas. Talvez as tenham separado apenas para que não fossem de fácil acesso.
Mas só tenho duas chaves — nenhuma resposta. Nenhuma informação sobre a própria Ordem, ou qualquer coisa que me ajude com a magia. Sim, estou um passo mais perto de conseguir manter o abismo fechado, mas preciso de mais do que isso. E foi apenas por sorte que encontrei essas duas primeiras — poderia ter sido Theron, com tão pouco esforço quanto eu. Não faz sentido que a Ordem se incomodasse em esconder essas chaves com tão pouca proteção, a não ser que quisessem que elas fossem encontradas. Mas por quê? E mais do que isso — por que Yakim? Verão, Yakim, Ventralli... O que esses três reinos têm em comum?
Não... Calma, Meira.
Por enquanto são apenas duas chaves, nada perigoso. Não vou me permitir me preocupar até que uma ameaça palpável se materialize. Certamente tenho coisas o bastante com que me preocupar.
O tecido em volta da chave mostra uma cena muito parecida com a tapeçaria que a rainha ventralliana enviou por Finn e Greer. Montanhas circundando um vale cheio de raios de luz e, no centro, uma bola compacta de luz ainda mais brilhante, com lã amarela e branca e fios azuis, tudo isso rodopiando em volta.
Magia.
Expiro, as mãos trêmulas. A colocação da chave em uma tapeçaria retratando as montanhas Klaryn e magia, escondida em uma estante de livros sobre Ventralli — é proposital. A última chave está definitivamente lá.
Ergo o olhar para Ceridwen.
— Agora nós...
Ela encolhe o corpo antes mesmo de eu falar. Olho para Lekan, que observa a princesa com uma empatia constante.
Ceridwen agita a cabeça.
— Ventralli a seguir. Era o plano mesmo.
— Sim — digo, devagar. — Mas... não precisa ir conosco.
Ceridwen apoia no chão os livros que segurava.
— Obrigada, mas conheço alguém em Ventralli que pode ajudar com isso. — Ela indica a tapeçaria, com a expressão sem qualquer emoção. — Vai levar você a algo, não é? Admita... É inútil sem mim.
Começo a sorrir, lutando contra insistir a respeito do desconforto de Ceridwen com Ventralli. Mas encolho o corpo quando percebo que a quietude da biblioteca é quebrada pelo som repentino de música.

Um comentário:

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Boa leitura, E SEM SPOILER!