21 de janeiro de 2019

Capítulo 22

NAQUELA NOITE, SONHOS inquietos e breves tomam conta de mim como uma onda faminta. Tontos e desorientadores, com olhos e rostos sem alma do meu passado, e escuridão, sempre escuridão. Dessa escuridão vêm monstros, dedos em garras e dentes ensanguentados disparando contra minha garganta...
Acordo sobressaltada, cada nervo se tensiona. Mas não há monstros aqui. Pelo menos não nesta jaula.
Meu pânico diminui um pouco quando vejo aquelas três pessoas me encarando. Os dois homens, ambos pelo menos dez anos mais velhos do que eu, e a garota. Os olhos azuis dela brilham, destacando-se em um rosto magro e pálido, e a garota me observa como se fosse capaz de ver toda a história de minha vida estampada na minha testa.
— Sou Nessa — diz ela, e aponta por cima dos ombros. — Conall e Garrigan, meus irmãos.
Garrigan assente, mas Conall mantém os olhos fixos nos meus. A expressão dele mostra um contraste profundo com a de Nessa — ela é aberta e prestativa, Conall é fechado e decidido. Decidiu, ao que parece, que sou uma ameaça tão grande quanto os soldados de Primavera que se movem ao redor de nossa jaula.
É manhã.
Dou um salto para trás, roçando na parede áspera. Será que Angra vai mandar me buscarem? Será que deixará que Herod me torture até a submissão, até que tudo sobre os últimos 16 anos saia em cascata de minha boca? Meu peito se enche com uma pressão incandescente, expulsando o ar.
— Sou Meira — consigo dizer, apesar da língua que parece mais areia do que qualquer outra coisa, meus olhos disparam entre Nessa e a porta, esperando que soldados irrompam na jaula e me arrastem para fora.
— Se fossem levá-la tão cedo, não a teriam trazido para início de conversa — sugere Garrigan. Ele tem parte da desconfiança de Conall, mas o rosto se suaviza, me oferecendo um pequeno toque de gentileza.
— Como pode saber? — dispara Conall, observando a porta.
— Da mesma forma que eu sei — declara Nessa, orgulhosa, e pega minha mão. — Ela está aqui por um motivo.
Conall volta um olhar irritado para mim, como se tivesse sido eu quem disse isso.
Não tenho forças para me desvencilhar da mão de Nessa, no entanto, preciso do pouco de conforto dela e apenas o encaro até que Conall volte o olhar para a porta de novo.
— De onde você veio? — pergunta Nessa, a pergunta sai de sua boca como se a estivesse segurando desde que eu cheguei. — Inverno? Não, é claro que não... dizem que ninguém mais mora lá. Um dos outros reinos de Estação?
— Eu estava em Cordell antes de vir para cá — digo. O olhar irritado de Conall me faz sentir culpa por falar com Nessa, como se qualquer palavra que eu diga apenas fortaleça a esperança crescente dela. Nessa ainda me olha com uma pontada de precaução, mas o brilho nos olhos dela é... lindo. É difícil não querer fazê-la feliz, e somente essa palavra ilumina todo o rosto de Nessa.
— Cordell — repete ela, e solta minha mão para encarar Garrigan. — É um reino Ritmo, não?
A boca de Garrigan se contrai em um sorriso, enrugando o rosto dele, como se não fizesse muito isso.
— Nossa Nessa vai viajar o mundo um dia — diz ele, e não deixo de ver o orgulho que toma conta de Garrigan. Orgulho da irmãzinha, da habilidade dela de ainda sonhar além dessas barras.
— Ou ser uma costureira — corrige Nessa, com o rosto vermelho. Qualquer que fosse o pingo de felicidade ao qual ela se atinha desaparece, e Nessa me olha e faz um gesto de tristeza com os ombros. — Como nossa mãe.
— Quieta — murmura Conall, com um tom de aviso, quando chaves chacoalham em nossa porta.
Encosto o corpo contra a parede dos fundos. Não importa o quanto Nessa e Garrigan tenham tentado me reconfortar ou o quanto eu não tenha me importado na noite anterior, ao pensar em Angra vindo atrás de mim, o pesar ainda revira meu estômago, um lampejo de sobrevivência que é impossível abafar completamente. Eles não podem me levar. Não até eu entender... alguma coisa. Alguma forma de escapar de uma morte longa e lenta nas mãos de Angra, um modo de ajudar os outros ao meu redor a escaparem do mesmo destino.
A porta se abre. Conall e Garrigan marcham para o sol e Nessa segura meu braço.
— Não se preocupe — sussurra ela, e me guia adiante. — Vai ficar tudo bem. Vai ficar...
— Você. — Um soldado grita com Conall e Garrigan e então se vira para me ver sair da jaula, os olhos dele têm um tipo sombrio de ganância, e meu estômago se revira.
Mas o soldado assente na direção do fim do caminho, onde os invernianos fora das jaulas se reuniram.
— Com o restante por enquanto.
Alívio percorre meu corpo. Angra não me convocou hoje.
Nessa me puxa para a frente e o choque toma conta de mim como se estivesse esperando fora da jaula a noite toda.
Essa é a primeira vez que vejo os invernianos do campo de trabalhos forçados de Abril. De qualquer campo de trabalhos forçados.
Mais invernianos se juntam a nós, vindos da segunda fileira de jaulas, reunindo-se em um aglomerado desordenado para marchar pelo caminho, terra flutua ao redor de nossas passadas arrastadas. Dezenas de pessoas se reúnem, corpos frágeis usando retalhos esfarrapados, o tecido marrom devido a anos de suor e sujeira. Crianças também. Se Angra quisesse simplesmente matar todos os invernianos, ele teria feito isso há muito tempo — teria sido um destino muito mais misericordioso. Mas, em vez disso, os mantém trancafiados, permite que famílias cresçam e gerações se proliferem em cativeiro. É uma vitória cruel mostrar domínio sobre outro ao destruí-lo — mas é ainda mais cruel fazer isso ao destruir as famílias das pessoas.
Crianças invernianas me observam enquanto permanecem de pé, estoicamente, ao lado dos pais. Os rostos dizem que aprenderam a não mostrar fraqueza. Fraquezas podem ser usadas, até que tudo que se consiga fazer é gritar devido à injustiça de uma vida assim, uma vida em jaulas empilhadas uma sobre a outra, crescendo em um lugar onde sequer se é visto como uma pessoa. Uma vida esperando em tormento que os 25 sobreviventes míticos libertem todos.
Encontro os olhos de uma mulher. Ela tem a idade de Dendera, o lábio superior se contrai para mim, e encolho o corpo. Um homem ao lado dela imita a expressão do rosto da mulher, e outro ao lado deles, tantos olhares vazios que não me sinto mais segura ali do que no palácio de Angra.
A tristeza toma conta de mim, ondas quentes de nojo de mim mesma, da vida deles, de tudo que aconteceu com nosso reino. Quanto tempo levou para que parassem de esperar que os libertássemos? Quanto tempo levou até que a tortura de Angra tirasse das mentes deles a esperança de uma fuga?
Quanto tempo levarei para sentir o mesmo?
Ao olhar para os rostos ao meu redor, para o sofrimento de 16 anos deles... o que eu poderia fazer para impedir tudo isso? O que qualquer um de nós poderia ter feito — Sir, Alysson ou Mather ou qualquer um? É grandioso demais, as feridas são profundas demais.
Um soldado estala o chicote contra a multidão, colocando de joelhos alguns dos invernianos mais lentos. Uma mulher idosa, dois senhores. Hematomas vermelhos cobrem os braços deles, mas nos apressamos, puxados pela corrente de medo.
Deveríamos lutar contra os soldados que os açoitaram até o chão, defender nossos conterrâneos e a injustiça que Primavera fez contra eles.
Deveríamos ter feito muitas coisas.
Nessa aperta minha mão entre as dela. Não perdeu a esperança, e qualquer temor que sinta se enfraquece diante de sua fé. Quase prefiro os olhares irritados, os grunhidos constantes dos outros. O ódio deles é compreensível, algo que posso aceitar.
Mas Nessa...
Eu olhava para Sir dessa forma?
A pergunta percorre minha mente, uma cadeia de palavras que envolve minha garganta e suga o ar. Todos os refugiados olhavam para Sir dessa forma, não? Ele era nossa fonte de esperança. Era o farol que nos lideraria para a libertação de nosso povo, para a recuperação de nosso reino.
E ele morreu. Simples assim. Nossa esperança foi abafada em um momento ágil e descuidado.
Tremo ao pensar em Sir, as sombras dele em minha mente fazem com que cada parte de mim doa e se contorça. Não posso ser a esperança de Nessa. Não posso deixar que pense que sou mais capaz do que qualquer um, porque posso morrer tão facilmente quanto ele. Não posso fazer com Nessa o que Sir fez comigo.
Paramos quando chegamos a um portão lotado. Soldados nos separam à frente, marchamos em grupos para diversas áreas da cidade para trabalhar.
— Meus irmãos e eu voltaremos para o perímetro do palácio — sussurra Nessa, com a mão se fechando sobre a minha. — Não sei onde você ficará. Não sei se...
Forço um sorriso.
— Tudo bem.
Os lábios de Nessa se contorcem e ela assente.
Minutos depois, estamos na frente da fila. Conall e Garrigan resmungam números para um soldado à entrada. I-3219 e I-3218. Não há nomes aqui. Angra os desproveu de tudo — país, lar, vida. Por que não os nomes também?
O sodado ordena que eles vão para o grupo destinado ao palácio. Nessa, sem querer soltar minha mão, se aproxima do mesmo soldado.
— I-2072 — diz ela, e o soldado consulta a lista.
— Perímetro do palácio. — Ele me olha e semicerra os olhos, avaliando minha aparência em comparação com a de Nessa. Sou saudável demais, bem alimentada demais.
O soldado verifica a lista e ergue uma sobrancelha.
— Angra tem algo especial para você — diz ele. — Para a muralha, R-19.
R-19. R... Refugiada? Refugiada 19. Porque sou a décima nona refugiada inverniana que Angra matará. Herod provavelmente viu Sir morrer em Bithai, então ele foi o décimo oitavo. Gregg e Crystalla, os números 17 e 16.
Nessa me leva além do soldado para os grupos de invernianos triados. Quando algumas pessoas estão entre os soldados e nós, Nessa aproxima a boca de minha orelha.
— A muralha é para onde mandam aqueles que querem forçar além dos limites — sussurra ela, com os dedos se enterrando em minha mão. — Trabalhe, mas não se esgote, apenas faça parecer que está trabalhando duro. Talvez consiga passar o dia sem...
— Nessa. — Eu a silencio. A preocupação de Nessa me magoa, uma expectativa forte que não sei se consigo atender.
— Você não veio até aqui apenas para morrer — diz Nessa, expirando, metade uma pergunta, metade uma promessa.
Fecho os olhos. Por que eu vim?
Conall coloca a mão no ombro de Nessa.
— Vamos embora.
Nessa se afasta e sai andando para se juntar a Garrigan. Inspiro, quando a sombra de Conall se move, a silhueta alta dele paira sobre mim.
Conall semicerra os olhos quando Nessa não está mais ao alcance da voz.
— Tentamos escapar — resmunga ele. — Escalar as cercas, lutar contra os guardas, cavar sob a muralha. Tudo isso resulta em mais morte. Os últimos que vieram prometeram resgate, mas sumiram antes que pudessem fazer qualquer coisa; eles agiram como se não tivéssemos tentado tudo. Nessa chorou durante semanas quando nossa esperança se foi com eles. Não a verei passar por isso de novo.
Gregg e Crystalla. Meu maxilar se contrai.
— Não quero que ela passe por isso também.
— O que você quer não importa aqui. Quanto antes perceber isso, melhor.
— Eu sei.
A sobrancelha de Conall se ergue com ironia.
— Boa sorte, R-19.
Ele se vira e se junta ao irmão e à irmã no grupo com destino ao palácio. Conall não olha para trás, não se importa que eu fique sozinha no sol. Por que deveria? Sou apenas uma garota de 16 anos. Eu não acreditaria em mim também. Eu não acredito em mim.
Mas conforme Nessa segue pela trilha com o grupo, ela olha para trás, os olhos brilhando com esperança.
Talvez fosse isso que Angra quisesse. Que eu incutisse falsas esperanças neles, que os animasse e os destruísse ainda mais. Que os provocasse com a fuga, então ele me mataria na frente de todos.
Mas não importa o que Angra quer. Conall estava certo — não importa mais o que eu quero. A única coisa que importa agora é sobreviver.


Soldados nos levam para o limite sul de Abril e para fora da cidade por um pequeno portão. Quando o portão range sobre nós, somos atirados em um mundo tão profundamente diferente que paro para tomar fôlego.
A muralha é uma protuberância pontiaguda de rocha negra que dispara para longe de Abril, para campos de floresta destruída. Tocos de cerejeiras preenchem a paisagem, abrindo caminho para a mais nova adição à cidade de Angra. Esse campo de tocos, terra e pilhas de rocha negra é ainda mais estéril e desolador do que a própria Abril. Uma prova do que é preciso para expandir o reino de Angra — nada deve restar, nenhuma planta, nenhum sinal de vida. Tudo deve estar morto para abrir caminho para Primavera.
Eu me aproximo de uma das pilhas de rocha negra, tiras de couro estão amontoadas ao lado delas. São coldres que alguns invernianos prendem ao redor dos ombros, então outros carregam pedaços de rocha nos estojos contra as costas deles.
— Ao trabalho! — grita um soldado, e estala o chicote acima de nossa cabeça. Pego um coldre e o coloco. Assim que o faço, um pedaço pesado de rocha negra é aninhado contra minhas costas.
— Pelas rampas — sussurra aquele que me deu a rocha. Os olhos envelhecidos dele têm o mesmo brilho de esperança curiosa que os de Nessa, mas o homem se abaixa para pegar mais uma rocha da pilha e carregar a seguinte.
Mexo na rocha contra as costas e marcho até as rampas. Oito andares de plataformas se estendem para o alto, ligadas por rampas que formam um ziguezague e levam fileiras de invernianos para cima e para baixo da muralha em construção. As plataformas são todas feitas da mesma madeira questionável que o gueto, do tipo que poderia se partir com uma brisa forte. Mas se elas se partirem, alguns soldados primaverianos serão levados conosco. Alguma doce justiça.
Quase rio ao pensar nisso. Justiça seria que os invernianos atirassem esses pedaços de rochas negras contra os soldados de Primavera. Justiça seria que nós disparássemos para o campo adiante, para a seção de Primavera que ainda não está separada de Abril.
A rocha arranha meus ombros quando paro em uma rampa, detendo-me bem acima do chão. Aquele campo é próximo. Plantações verdes exuberantes oscilam ao vento, quase prontas para a colheita. Prova de que Angra usa o condutor para algo que não seja o mal, ainda que pouco. O propósito da muralha é se estender ao redor dessa seção estéril de terra e expandir Abril para o limite daquele campo. Soldados se colocam entre nós e a muralha, mas, por enquanto, nesse momento — há um caminho para fora de Abril.
As palavras de Conall ecoam em minha mente. Tentamos escapar. Escalar as cercas, lutar contra os guardas, cavar sob as muralhas. Tudo resulta em mais morte.
Hesito. Se eles tentaram... então, eu não deveria? Não. Preciso, se não por eles, então por mim. Estou tão presa aqui quanto eles.
Se conseguir ir além dos soldados, posso sair de fininho de Primavera e falar com Hannah de novo. Ou posso voltar para Cordell e encontrar Mather e Dendera e os demais.
O homem diante de mim mexe na rocha contra as costas quando dá mais um passo para cima. Mas algo no passo dele, ou o peso, ou o modo como mexe a pedra, o faz cambalear para a frente, a bota fina se prende em uma tábua de madeira irregular. A madeira rasga o tecido e a carne, cortando uma parte do pé do homem e derramando sangue em uma poça escura na plataforma.
O homem para. Meio segundo, meio fôlego. Mal dá tempo de sequer absorver o que aconteceu, mas nesse momento, o rosto dele se contorce de dor. Depois disso, o homem volta os olhos para o soldado mais próximo na plataforma e, no momento em que percebo que estou prendendo o fôlego...
O soldado vira a cabeça para o homem. Os olhos dele recaem sobre o rastro de sangue, sobre o rosto ainda com a expressão de dor do homem.
— O trabalho é demais para você? — pergunta o soldado, um desafio na voz.
Abro a boca para falar, para fazer com que o homem seja esquecido. Quando ele se vira e segue para a rampa seguinte, o soldado puxa o homem para longe, girando-o sobre a madeira seca. O homem oscila para fora, perde o equilíbrio devido à pedra preta, os braços se agitam para recuperar o equilíbrio. Mas é tarde demais, o movimento é insuficiente, a pedra é grande demais.
O homem cambaleia na beira da plataforma, cinco andares no alto. As mãos dele tentam se agarrar a algo, em um desespero vazio, procurando apoio conforme a pedra negra no coldre se agita, se move, o arrasta para trás. A coisa mais próxima do homem, a única coisa que ele consegue segurar, é o soldado.
Disparo para a frente, o ar está preso em minha garganta seca, uma das mãos deixa o coldre para que eu a estenda, como se pudesse ser capaz de impedir aquilo. Mas conforme a gravidade vence, o soldado sorri, ergue um pé e dá um chute firme no centro do peito do homem.
Um grito sem som se acumula em minha boca quando o homem cai da plataforma. O corpo dele mergulha pelo ar, a rocha negra o puxa mais e mais para baixo, disparando além das cinco plataformas em um movimento dolorosamente lento. O homem se choca contra a terra seca abaixo, uma nuvem de poeira e escombros obscurecem a vista do cadáver deformado dele.
Fico congelada no lugar, presa contra a plataforma. Mas ninguém mais se move. Ninguém grita que o marido ou o irmão ou o filho acaba de cair para a morte. Simplesmente continuam se movendo ao meu redor, arrastando os pés para cima das plataformas e das rampas, caminhando como se pudessem apagar a lembrança do homem a cada passada.
Alguém esbarra em mim conforme passa e sou arrastada de volta para a corrente de trabalho vazio, passo do soldado, os olhos dele brilham para o corpo bem abaixo.
O campo ao longe se agita com uma brisa que não consigo sentir daqui. Ninguém seguiria se eu tentasse escapar. Simplesmente cairiam pelos ares, resignados com o fato de que jamais tiveram a chance de vencer. Ou seriam massacrados depois de minha fuga fracassada.
Minha visão se embaça, mas continuo andando. Mantenho a imagem do rosto do homem na mente, me atenho a ela contra o impulso de correr o mais rápido que consigo, de matar o máximo de soldados possível.
Olho para o chão abaixo, para a poeira que se dissipa e revela o corpo do homem, transformado em um borrão perturbador e confuso na terra. Algo se acumula dentro de mim. Algo perigoso e debilitante e mortal, que surge da parte de mim que se encolhe sempre que o condutor de Inverno é mencionado e ninguém faz as perguntas em que estou sempre pensando.
E se não for o bastante? E se nada do que fazemos for o bastante?
Mas não há outra opção — ou continuamos tentando, ou nosso reino deixa de existir.
Conforme o dia prossegue, a temperatura aumenta tanto que meus olhos parecem nadar em meu rosto, o suor torna tudo escorregadio. Durante parte do tempo que se passa, juro que estou de volta às planícies Rania, seguindo Sir conforme seguimos para Cordell.
Maldita intolerância ao calor. Não darei a Angra a satisfação de desmaiar. Ele não vai me ver morrer tão cedo.
O trabalho é demais para você?
Afasto a memória. Todos ao meu redor parecem reagir ao calor da mesma forma que eu, tropeçando, arquejando no ar abafado. Não fazem mais do que isso, no entanto; não há reclamações, ninguém desaba. Não importa o quanto isso vá de encontro ao nosso sangue inverniano, quase se acostumaram ao calor de Primavera.
Ao meio-dia, fico aliviada por ver que temos um intervalo.
Quase aliviada.
O portão que dá para Abril se entreabre. Os invernianos de pé, na fileira de rochas ao meu redor, tiram os coldres; o restante deles sai em fila das rampas para ficar em nosso entorno. Eu sigo, os olhos buscando o que quer que esteja vindo até nós de Abril.
Crianças invernianas. Algumas mal têm idade o suficiente para falar, quem dirá trabalhar, todas cambaleando para o campo de trabalho com jarras de água que se agitam. Elas se espalham em volta dos trabalhadores e oferecem os fardos que carregam, olhos azuis arregalados brilham dos rostos vazios, braços finos tremem sob as jarras de barro espessas.
Um garoto, com não muito mais do que quatro ou cinco anos, se aproxima de minha fila de trabalhadores e apoia a jarra no chão. Ele mergulha uma concha na jarra e a ergue para a pessoa mais próxima, um homem da idade de Sir que bebe goladas da água. O garoto repete o processo para cada pessoa na fila, até que chegue até mim.
— Nada de água para ela, ordens de Angra! — grita um soldado atrás de nós, estalando o chicote ao lado dos pés do menino. O menino dá um salto, água se derrama nas mãos dele e na terra. Os olhos azuis disparam para os meus quando o menino se prepara para o impacto do próximo golpe do soldado.
Disparo para trás, mais por instinto do que por pensamento racional. O pensamento racional desapareceu assim que vi água e uma sede desesperada se instaurou em mim. Só consigo ver aquela jarra, mas dou mais um passo para trás. Não preciso de água. Não preciso chamar atenção para mais ninguém.
— Não — digo, com a voz rouca. — Ele está certo. Nada para mim.
O soldado, com o chicote pronto, franze a testa ao me ver recuar. Mas eu me viro, pego o coldre e fecho os olhos quando outro pedaço de rocha negra é carregado contra minhas costas. O menino volta a trabalhar, a água se derrama por cima da borda da jarra. Nada de dor, sem repercussões. Nada de água também. Contanto que eu abaixe a cabeça e aceite, não haverá problemas.
É tudo que posso fazer. Ficar fora do caminho, me certificar de que não cause problemas para pessoas que já sofreram tanto, até que eu possa... o quê?
Soldados levaram o corpo do morto há horas, deixando uma mancha ensanguentada de terra ao lado da entrada da plataforma. Passo por ela, encaro o sangue seco, sentindo os olhos do menino sobre mim, apenas mais um corpo no arsenal de trabalhadores de Primavera — como o homem que caiu para a morte, um vaso que os soldados destroem por diversão.
Sede desnorteadora me faz tropeçar, mas continuo andando. Apenas mais um passo, Meira. Apenas mais um.

3 comentários:

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Boa leitura, E SEM SPOILER!